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O GOLPE NAS ESTRADAS
27/03/2014
(Deflagrado num rompante de dois generais de segundo escalão, o golpe de 1964 se consolidou por inércia e sem enfrentar resistência).
O golpe de 31 de março de 1964 foi uma operação tramada por um grupo de fardados e civis, mas na hora do desenlace apenas dois generais que se detestavam estavam à frente do movimento. Todos os outros conspiradores, do alto de sua importância, receberam com assombro a notícia de que tropas se movimentavam e que alguns deles quiseram pará-las.
Um dos dois generais que acenderam a espoleta do golpe, Olympio Mourão Filho, comandava a Quarta Região Militar, com sede em Juiz de Fora. Tinha fama de ser um pouco doido e muito vaidoso. Morreu em 1972, convencido de que a qualquer momento seria chamado para “salvar o Brasil novamente”. O outro general era Carlos Luiz Guedes, comandante da IV Infantaria Divisionária, com sede em Belo Horizonte. Mourão Filho e Luiz Guedes terminaram a carreira em desgraça.
Na tarde de 30 de março de 1964, quando recebeu a noticia de que seria afastado de seu posto, o general Guedes reuniu os oficiais de sua guarnição e anunciou que a partir daquele momento deixaria de obedecer ao governo federal. Guedes poderia ter iniciado o levante um pouco antes, ou um pouco depois. Mas escolheu 30 de março porque era noite de lua cheia e, como conta com toda naturalidade em seu livro de memórias, temia fazer uma revolta em quarto minguante.
Na tarde de 30 de março, Guedes determinou que soldados fechassem o trânsito na vizinhança de seu quartel-general, prendeu adversários políticos e organizou uma tropa que, batizada de Força Revolucionaria, seria enviada a Brasília. Superior hierárquico de Guedes, o general Mourão soube da rebelião pelo telefone e não gostou.
“Vamos ser depostos”, disse a Guedes. Mourão mudou de idéia de um dia para o outro e, na manhã seguinte, 31 de março, entrou em ação. Fez publicar uma ordem do dia restabelecendo a pena de morte para crimes de guerra. Telefonou para Guedes e deu uma ordem: destituir e prender o governador de Minas Gerais, Magalhães Pinto, dono do Banco Nacional. Magalhães era um ilustre conspirador da UDN, mas acabara de divulgar um manifesto que Mourão considerou moderado demais e, por precaução, achava melhor colocá-lo atrás das grades. Guedes não deu atenção e o governador ficou solto. Menos de 48 horas depois do inicio da rebelião em Minas Gerais, onde se agrupou um contingente inicial de 4000 soldados, inferior mesmo ao total de homens que o Exército iria mobilizar nos anos 70 para combater os maltrapilhos guerrilheiros do PC do B no Araguaia, o presidente João Goulart estava deposto.
Nenhum militar foi morto em confronto, mesmo porque os fardados não se encararam em nenhuma batalha. Cenas de violência, pouquíssimas, aconteceram contra civis, em sua maioria no Nordeste. No Recife, o dirigente do Partido Comunista, Gregório Bezerra, foi arrastado nas ruas amarrado a um jipe e espancado. Dois estudantes morreram numa manifestação de protesto. Políticos, líderes sindicais e agricultores foram perseguidos. Foi fácil derrubar a democracia no Brasil de cinqüenta anos atrás. Aquele era um país exausto. Estava dividido. Havia a esquerda, direita e um presidente, João Goulart, que não era uma coisa nem outra. O mundo saíra de uma guerra com armas nos anos 40 para uma guerra fria, na qual Estados Unidos e União Soviética polarizavam e atraíam lealdades. O Brasil vinha sendo submetido a um discurso populista havia agitação no campo, barulho nos sindicatos, rumores nos quartéis. A classe média fazia passeatas, certa de que o comunismo estava para implantar-se no país. Parte da igreja temia o ateísmo da esquerda. Á sombra dos quepes, a direita conspirava...
Reinoldo Back

Reinoldo Back é assinante e colunista do Jornal Correio do Povo

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