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OS TRUQUES DA INDÚSTRIA ALIMENTÍCIA
27/08/2015
Você faria um suco natural em casa, de pouco mais de 300 mililitros, e adoçaria com nove colheres de açúcar? Provavelmente, não. É essa quantidade que uma lata de refrigerante mais popular do mundo, a Coca-Cola, tem de açúcar. E não se anime se você pensar nos sucos “naturais” de caixinha: eles são tão doces quanto...
O refrigerante e outros produtos ultraprocessados, como biscoitos recheados, salgadinhos e refeições congeladas são estrategicamente formuladas para causar compulsão em seus consumidores. E continuar movimentando uma indústria trilionária, que se aproveita sobretudo de pessoas com baixa renda e instrução, quase sem informações sobre o que comem, para seguir lucrando. Enquanto isso, uma epidemia de obesidade afeta 2,1 bilhões de pessoas no mundo. Sim, o sedentarismo exerce uma boa influência sobre esse dado. Entretanto, os grandes conglomerados que se dedicam a pensar novas e viciantes fórmulas têm muita culpa. Eles aproveitaram esse frenesi da “vida moderna”, onde se pensa que não existe tempo para mais nada, e criaram produtos convenientes, que fazem com que as pessoas fiquem longe da cozinha, e muito perto das prateleiras periféricas do supermercado, que vendem os piores alimentos. A estratégia se baseia no comportamento do consumidor, que tem por hábito começar as compras “de trás para frente”. Todos esses truques da indústria estão detalhados no livro-reportagem “Sal, Açúcar, Gordura”, do jornalista investigativo Michael Moss. O americano Moss passou anos acompanhando fábricas e conversando com seus maiores executivos e gênios do marketing, especialistas em criar novas necessidades. O maior contrassenso que descobriu, e que talvez sirva de alerta principal para evitar ao máximo esses produtos, é que nenhum desses chefões consomem o que produzem. Howard Moskowitz, considerado “o” engenheiro de refrigerantes, por exemplo, se recusa a bebê-los. A mágica por trás de todo o sucesso nos conta Moss, é a combinação perfeita dos três itens que intitulam o seu livro. É ela quem nos dá a chamada “sensação bucal”: ela impede a satisfação, e ainda nos encoraja a buscar mais desses alimentos. Tanto a Coca-Cola quanto os populares salgadinhos, foram formuladas para ter sabor “equilibrado”. Isso é proposital, porque nosso corpo detecta saciedade mais facilmente com comidas condimentadas, por exemplo. Não é isso que a indústria deseja. Quando pensamos que o governo e suas agências regulamentadoras possam ser uma salvação do consumidor, descobrimos frequentes lobbys do governo em prol principalmente de pecuaristas, seus lucros acabam respingando e influenciando as políticas públicas. O resultado é que, enquanto estudos considerados conclusivos da Universidade de Harvard mostram que as pessoas deveriam evitar ao máximo carne vermelha, queijo e laticínios, o governo incentivou o consumo até nos guias alimentares. A indústria aproveitou para usar e abusar desses ingredientes repletos de gordura saturada. Assim como é “impossível comer um só”, é também impossível parar de ler o livro de Moss. Depois de todos os dados e maracutaias mostradas pelo autor, não olhamos mais para um supermercado da mesma forma. A obra é um sinal de alerta. Moss ensina: pense no supermercado como um campo de batalha cheio de minas terrestres. E lembre-se de que o consumidor tem o maior poder: o de escolha.
Reinoldo Back

Reinoldo Back é assinante e colunista do Jornal Correio do Povo

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