de 2014
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URNA ELETRONÇA
30/10/2014
Domingos Pellegrini


Cheguei às oito em ponto, já tinha fila de dúzia. Toco a esperar, até que abriram a votação, demorada, deve ter gente que deixa para decidir os votos na horinha de votar. E tem gente como o casal na minha frente. Ele demorou, demorou saiu da cabina indo direto para ela:
- Cadê o paperzinho?
- Botei aí no bolso da tua camisa, ué!
Ela enfiou a mão no tal bolso dele, enquanto ele falava que já tinha cansado de procurar ali, com o que soubemos como tinha usado o tempo até então na cabina. Fuçou em todos os bolsos das calças, até que ela lembrou:
- Não será que botei na minha bolsa?
- Mas – ele replicou – você não disse que botou aqui no meu bolso?
Ô homem tonto, ela resmungou procurou procurando na bolsa, enquanto ele novamente procurou pelos bolsos, começando novamente pelo bolso da camisa. E ela mexeu e remexeu na bolsa até quase gritar:
- Mas você procurou direito no bolso da camisa? Eu botei aí!
Ele mais irritado ainda:
- Pois eu já não te falei que já cansei de procurar aqui?!
- E não tá furado esse bolso? – ela enfiou fundo a mão no dito bolso, e depois voltaram a procurar na bolsa e nos outros bolsos.
Alguém da fila falou vai lá, tio, e vota de qualquer jeito! Anula, tio, falou outro, é só digitar zero! Mas o mesário disse opa, é proibido açodar o eleitor!
Eu, que até então só tinha lido o verbo açodar em livros antigos, resolvi intervir:
- O senhor procurou na carteira?
Foi como se palavras de luz saíssem da minha boca, ele arregalou os olhos dizendo é, deve estar na carteira! Foi tirando tudo que tinha na carteira (a de couro, que se leva no bolso) e botando sobre o tampo de carteira (a de madeira, onde sentava o mesário, a seção eleitoral é numa sala de aula).
Ele tirou e ela foi remexendo nos documentos, papéis, fotos, fitinhas do Bonfim, bilhetes de loteria, aí dizendo ói só onde tava aquela megasena! Mas nada de aparecer o paperzinho com os números dos candidatos, até que o mesário, com o título de eleitor dele nas mãos, enfiou o dedo no envelopinho plástico e tirou um papelzinho dobrado: - È isto aqui?
Aleluia, suspirou fundo toda a fila, era o paperzinho! E ele foi votar, demorando que só, aí voltou todo feliz, e ela: - Cadê o paperzinho pra mim agora?
Ele começou a procurar em todos os bolsos, mas o mesário foi até a cabina e lá estava o papelzinho. Ela pegou e foi votar. Quando saiu, ele logo perguntou: cadê o paperzinho? E ela: pra que, seu tonto, se a gente já votou? Ué, falou ele, pode ter segundo turno! – e, por via das dúvidas, guardou o paperzinho – no mesmo bolso da camisa – e se foi resmungando:
- Essa tal urna eletronca é uma geringonça...
Reinoldo Back

Reinoldo Back é assinante e colunista do Jornal Correio do Povo

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