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O MENINO DA CAIXA DE LIXO
18/12/2014
Era 24 de dezembro, clima de Natal. Uma noite angelical, diferente, uma atmosfera celestial. Havia paz na natureza. Tudo silencioso, noite estrelada. Algo de grandioso iria acontecer. Somente o vento brando acariciava o rosto tostado de Zezé, um menino de caixa-de-lixo.
Nesta noite ele resolveu sair da favela. Foi em busca de algo que enchesse o vazio de sua vida. Caminhando ao longo de uma avenida, ouve por todos os lados cânticos que falavam de um Menino, pobre como ele. Quem seria? E as vezes, sem cessar diziam: “Noite Feliz” ’Vamos à Belém !’...’Nasceu um Menino’...Ele não entendia bem. Sem dúvida era o nascimento de alguém importante... Mas...se era pobre poderia ser importante? Passa defronte à igreja. O sino convida-o para entrar. Havia tanta gente. Todos bem vestidos. Qual publicano, fica no fundo da igreja e fica encantado com o clima natalino... Pinheirinhos enfeitados, manjedoura, pastores, um homem, uma mulher e no centro um Menino. Não entendia o seu significado, mas sentia-se bem ali. Era momentaneamente feliz. Também o padre, no seu sermão, defendia os pobres de espírito dizendo que deles é o reino dos céus. Agora na rua, sua caminhada prossegue. Queria sentir mais emoções positivas naquela noite. Ao longo da avenida, vê meninos brincando e exibindo seus brinquedos novos. Ali não é o seu lugar. Não pode se misturar á aquele grupo, pois ali todos usavam tênis e roupa nova. Seu calção estava mal, na sua camisa faltavam botões e andavam descalço. Mais adiante, observa um casal abraçando seus filhos, todos sorridentes se desejando um “Feliz Natal”. Aquilo o machucava, seu pequenino coração não suportava e dos olhos uma lágrima começou a rolar. ’Papai, onde você está’? “Mamãe, vem me dar um beijo”. Tudo em vão. Não havia ninguém para ele. Zezé não conhecia seus pais. Faltava-lhe o essencial na vida...Como poderia ser feliz? A noite avançava. Os fiéis, que antes vira na igreja, passavam por ele apressadamente. Olhava para todos para ver se alguém lhe dizia “Noite Feliz”. Quase teve a coragem de tomar a iniciativa. Um senhor tropeça nele. – “Sai daí seu moleque sem vergonha; só serve para atrapalhar”. Zezé sentiu que também não era seu lugar.
Numa loja ele viu brinquedos variados. Parou. Estava fascinado. Imaginava um brinquedo assim em suas mãos. Um pelo menos, enquanto ainda era criança... Doce ilusão... Se tivesse um pai... “Papai, onde você está? Vem comigo neste Natal! Vem dar um abraço no Zezé, não precisa comprar presente. Com os olhos úmidos, olha ao redor, não havia ninguém”.
Estava cansado agora, já eram altas horas da noite. Resolve dormir. Como sempre, encosta-se numa caixa de lixo, reclina a cabeça e não tem dificuldades para pegar no sono. Sonhava num mundo de fantasias, doces ilusões brotavam de sua imaginação...
Nesta hora, lá no cinema, a sessão terminou. As pessoas comentam o filme... Eles tem pressa para ir para casa. Um senhor de sapato e gravata vê o menino e lhe dá um pontapé – “Moleque sem vergonha, não tem outro lugar para dormir?”
Este golpe lhe tirou o sono. O jeito era andar e achar um lugar mais seguro. Passa defronte a uma churrascaria... Quanto desperdício e ele em jejum desde as 9 horas da manhã, quando comeu uma rapadura. Ao lado, num bar, observava as rodadas de cerveja... “Se eu tivesse ao menos um copo de leite...”
Mas a grande surpresa foi numa loja de brinquedos. Ali ficou imóvel. Seus olhos fixaram algo especial. No pensamento, um mundo de sonhos... O dono do estabelecimento vê o menino.
- O que você quer aqui?
Nem ouvira a pergunta, estava fora de si...
- Você quer alguma coisa?
O senhor lhe parecia bondoso e arriscou.
- Ali, ali – seu dedo indicava uma bicicleta. Era, sem dúvida uma ousadia. Nunca ganhava presentes de ninguém. Mas era uma noite especial. Não custava – tentar.
- Eu gostaria de ter uma bicicleta. Era costume deste estabelecimento premiar alguém no Natal em agradecimento pelos bons negócios durante o ano.
- Toma é sua. E tenha um Feliz Natal. Noite de paz, noite de luz. O mundo se tornara um paraíso para o menino. Sentiu necessidade de contar a todo o mundo o presente que ganhara. Um grito de alegria se perdeu na escuridão. Pegou a bicicleta começou a andar sem parar... Circulou ao redor da praça e gritava: Foi um presente do Menino de Belém.
Numa curva desgovernou-se e bateu violentamente a cabeça contra um poste. Ali não havia socorro para ele. Não resistiu a hemorragia. Sua viagem agora era mais rápida e mais leve.
Flutuava além das nuvens até chegar à Casa Paterna. Ali encontrou o que mais queria neste mundo: um pai bondoso e uma mãe que lhe dava carinho que nunca tivera na vida...
Reinoldo Back

Reinoldo Back é assinante e colunista do Jornal Correio do Povo

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