A vista do meu ponto - Osnélio Vailati
Lula é antes de tudo um forte! Parte 2

Na condição de parlamentar, Lula percebeu que as mudanças que a classe trabalhadora precisava somente viriam quando esta chegasse ao Planalto. Candidatou-se em 1989 e foi derrotado por Fernando Collor numa das eleições mais sujas da história. Collor foi apoiado pela grande mídia capitaneada pela Rede Globo. E o império midiático não hesitou em utilizar de todas as artimanhas possíveis, mesmo as mais grotescas com vistas a derrotá-lo e eleger o seu candidato. A chantagem da elite capitalista ameaçando fechar empresas e retirar o capital do país também teve grande importância. Mas a estratégia mais sórdida sempre foi causar medo na população menos culta da sociedade, lançando o que hoje chamamos de “fake news” de que as pessoas teriam que dividir seus bens com os que nada possuem. A Globo editou o último debate entre os contendores, levando ao ar os melhores momentos de Collor e os piores de Lula. Como se não bastasse, o programa eleitoral de Collor levou uma fake news ao ar na sua última edição e este contando com a participação de sua ex-namorada (com quem teve a filha Luriam) que afirmava que Lula queria que ela fizesse aborto. Lula somente conseguiu desmentir essa versão após a eleição, porém, o estrago já estava feito. Após a derrota, Lula foi chamado a dar palestra na França, sendo que recebeu passagem de primeira classe para a viagem. No avião, a aeromoça lhe ofereceu o cardápio e, dentre as opções, ele pediu caviar. A aeromoça, então disse: Seu Lula, se o povo brasileiro visse o senhor pedindo caviar, queria ver como o senhor iria explicar..., Lula irritado, interrompeu e disse: escuta aqui aeromoça, tem virado de feijão? E ela respondeu que não, e Lula disse: então traga o caviar e pára de encher o saco!

Nas eleições de 1994 e 1998 Lula perdeu a eleição para FHC que se auto-intitulou de forma farsesca como o pai do Plano Real e como a única garantia de sua manutenção. Como a Constituição Federal não permitia a reeleição, FHC conseguiu aprovar em benefício próprio uma emenda constitucional para permitir sua candidatura à reeleição em 1998. Houve denúncias, inclusive com fartas provas da compra de votos de parlamentares, mas, com a maioria no Congresso ficou por isso mesmo, o Judiciário também não se moveu em direção ao que dele sempre se espera e nem sempre se logra conseguir. O povo exausto da hiperinflação herdada do regime militar e dos fracassos anteriores em domá-la sentiu-se refém do medo e concedeu a FHC outra vitória. Após três derrotas consecutivas, não faltavam pessoas a aconselhar Lula a candidatar-se a outro cargo. E a estes respondia que somente se candidataria a presidente. E em 2002, após redigir a Carta ao Povo Brasileiro, Lula se elegeu no dia do seu aniversário de 57 anos (27/10/2002). Não sem muitas demonstrações de ódio e preconceito quanto a sua origem humilde por parte da grande mídia e de parcela da classe média, porém, sua posse foi em tom festivo e com grande participação popular como jamais visto no país. Sua eleição se deveu em grande parte à péssima gestão de FHC em seu segundo mandato que começou com a maxidesvalorização do real, o baixo crescimento econômico, a submissão ao FMI e culminou com o apagão energético de 2001, pois, no afã de tudo privatizar, seu governo não fez o dever de casa planejando o aumento da oferta de energia com novas unidades geradoras. O pífio segundo mandato de FHC levou o povo a desejar mudança e Lula representava essa mudança. Tendo sido muito criticado por sua aliança com partidos e políticos conservadores durante seu governo afirmou: “se Jesus viesse para cá, e Judas tivesse votação num partido qualquer, Jesus teria de chamar Judas para fazer coalizão”. No seu discurso de diplomação fortemente emocionado disse: “E eu, que durante tantas vezes fui acusado de não ter um diploma superior, ganho o meu primeiro diploma, o diploma de presidente da República de meu país”.

            Seu governo obteve sucesso na área econômica, porém, foi criticado pelo excessivo conservadorismo, houve quem o considerasse um traidor da classe trabalhadora ao não romper com o sistema neoliberal que, sabemos tem no sistema financeiro sua ponta de lança, embora em sua “Carta ao Povo Brasileiro” já deixasse evidente que não romperia. Sua política econômica ficou conhecida como “ganha-ganha”, pois acreditava que todos poderiam ganhar juntos. Sua ingenuidade se demonstrou ao acreditar nessa utópica conciliação de classes, pois, ignorou a mentalidade escravocrata de nossas elites, segundo a qual ganhar dinheiro é importante, porém, manter a separação entre a Casa Grande e a Senzala é ainda mais. Mesmo assim, na área social criou importantes programas como o Fome Zero e o Bolsa Família (que retiraram o Brasil do Mapa da Fome da ONU) sendo que este último nada tem a ver com os programas sociais de FHC no que concerne ao montante de recursos e de famílias beneficiada.

Lula é antes de tudo um forte! Parte 1

Costuma-se dizer que as adversidades forçam as pessoas a se superarem. Nada é mais verdadeiro quando se fala de Lula. Luís Inácio “Lula” da Silva nasceu a 27 de outubro de 1945 em Caetés (então distrito de Garanhuns em Pernambuco). A localidade conhecida nacionalmente como uma das mais pobres do Brasil. Sétimo filho de um total de oito do casal Aristides Inácio da Silva e Eurídice Ferreira de Melo. A poucos dias do nascimento de Lula, seu pai deixou dona Eurídice e migrou para a região sudeste para trabalhar como estivador no Porto de Santos. Porém, levou uma prima de Eurídice com quem constituiu nova família. Contando as duas famílias, Lula teve mais de vinte irmãos (alguns já morreram).

            Dona Lindu (apelido de dona Eurídice) sozinha segurou o rojão, cuidou dos filhos e estimulado por seu filho Jaime que tinha ido morar com o pai no litoral paulista resolveu embarcar num “pau de arara” com os filhos e deixar a seca e a miséria de Caetés para trás. No início as duas famílias conviveram juntas, mas, a agressividade com que o pai de Lula tratava seus filhos levou Dona Lindu a mudar-se para uma casa que de tão precária, o telhado desabou. Aos sete anos Lula vendia laranjas e retirava lenha, mariscos e caranguejos do mangue. Alfabetizado por insistência de sua mãe, pois, seu pai não queria que os filhos estudassem, na opinião dele os filhos deveriam trabalhar. Quando a família mudou-se para São Paulo perderam o contato com o pai. Em São Paulo foi engraxate e auxiliar de escritório. Na escola do SENAI fez o curso de tornearia mecânica e quando trabalhava numa siderúrgica que produzia parafusos esmagou seu dedo mínimo que precisou ser amputado. O seguro contra acidentes de trabalho da empresa lhe possibilitou comprar móveis e um terreno para sua mãe, mas não o livrou de desenvolver complexo psicológico que após alguns anos superou.

            Em 1965 ficou muito tempo desempregado e para sobreviver teve que fazer “bicos” (trabalhos eventuais). Adorava jogar futebol, mas, era resistente a participar de sindicatos. Seu irmão Frei Chico queria que entrasse para a militância sindical e também para o “partidão” como era chamado o PCB (Partido Comunista Brasileiro). Lula resistia, pois, tinha uma visão negativa do sindicato e da política. No entanto, apesar de sua inexperiência sindical todos notavam o carisma e o espírito de liderança de Lula. Como diz o adágio: “água mole em pedra dura, tanto bate até que fura”, Frei Chico o convenceu a participar da chapa, eleito, foi picado pelo "bichinho da militância” e passou a disputar novas eleições, sendo que a cada eleição galgava novas posições dentro do sindicato até o dia em que chegou à presidência do Sindicato dos Metalúrgicos do ABC. Como presidente do sindicato foi orientado a esperar o fim da ditadura militar para promover greves, discordou, afirmando que a greve não podia esperar até que o país voltasse à democracia. Em certa feita, agentes da ditadura cortaram o som e Lula no alto de um palanque improvisado falava frases curtas que eram repetidas pelos grevistas para os que se encontravam mais distante dele. Por liderar greves no final dos anos 1970 e início dos anos 1980 foi processado e preso com base na Lei de Segurança Nacional. Ao receber o comunicado de prisão acendeu um cigarro e entrou resignadamente na viatura. Foi condenado a três anos e meio de prisão por incitação à desordem coletiva (como o governo da ditadura entendia as greves), recorreu e foi absolvido no ano seguinte. Nessa época tomou conhecimento da morte de seu pai que, no entanto, já havia sido enterrado como indigente há vários dias.

            Na condição de sindicalista percebeu que o poder do sindicato não era suficiente para melhorar as condições de vida da classe trabalhadora, era necessário disputar o poder político e, a pré-condição era criar um partido político comprometido com a classe trabalhadora. Líderes do MDB (Movimento Democrático Brasileiro) dentre eles, Ulysses Guimarães o convidaram para filiar-se, mas, ele resistiu afirmando que desejava criar um partido da classe trabalhadora. Ulysses lhe disse que fundar um partido era trabalhoso e fazê-lo ter alcance nacional era muito difícil, porém, Lula não desistiu da ideia e junto a sindicalistas, intelectuais, representantes dos movimentos sociais e católicos militantes da Teologia da Libertação fundou o Partido dos Trabalhadores, hoje o partido brasileiro com o maior número de filiados e o segundo maior do mundo.  Como dirigente sindical, Lula ganhou projeção nacional e foi um dos personagens centrais na campanha pelas Diretas Já, cuja Emenda Constitucional Dante de Oliveira acabou sendo derrotada pela máquina da ditadura militar. A eleição seria novamente indireta. Em 1986, Lula foi à época o deputado federal mais votado e trabalhou na construção da Carta Magna.

           

Ler é um ato político!

E Lula consegue a cada manhã ser maior e melhor do que no dia anterior. A carta que aqui posto mostra a dimensão e estatura do estadista nato e ser humano ímpar que ele é. Lula livre! Lula vale a luta! (Palavras de Sostines Sabino que assino embaixo)!

Impedido de ir ao Salão do Livro Político (que ocorreu em maio deste ano) em São Paulo, para o qual foi convidado desde o ano passado, Lula enviou a Ivana Jenkings, editora da Boitempo, uma carta, que foi lida na cerimônia de abertura da quinta edição do evento.

A carta é linda...

"Ler é um ato político. Não é por acaso que nossos adversários, ao mesmo tempo que tentam criminalizar a política e impedir toda e qualquer forma de ativismo, atacam com tanto ódio o saber e o conhecimento. Querem mais armas e menos livros. Mais jovens presos e abatidos por disparos de helicópteros, do que com acesso ao ensino público de qualidade. Disparam sua artilharia pesada contra a educação como um todo, e a universidade em especial. Agridem a ciência, estrangulam a pesquisa. Ler é resistir. E nós resistimos nas trincheiras cavadas com tanta garra e tanto carinho por gente que nem Paulo Freire, Darcy Ribeiro, Anísio Teixeira e cada professora e cada professor anônimo deste país, que nossos adversários tentam inutilmente destruir. E nós resistimos, porque a vida nos ensinou, e porque aprendemos com nossos mestres.

Nossos adversários odeiam o fato de termos criado mais universidades e institutos tecnológicos do que todos os que governaram antes de nós. Distribuímos bolsas de estudo, garantimos acesso ao crédito estudantil e colocamos jovens negros e pobres no ensino superior como nunca antes na história. Criamos políticas públicas de acesso ao livro e à leitura e espalhamos bibliotecas pelo país afora. A educação foi e será sempre a nossa maior riqueza e a nossa principal forma de resistência. É por isso que nossos adversários se surpreendem e se assustam quando uma juventude esclarecida enche as ruas em defesa da educação, lutando contra os retrocessos de um governo que tem o povo brasileiro como seu principal e mais temido inimigo.

Ler é ser livre. Estou há mais de um ano preso pelo “crime” de sonhar e trabalhar pela construção de um país onde um pai de família não fosse mais obrigado a escolher entre comprar um pão ou um caderno para seus filhos. Onde uma mãe de família não tivesse que partir um lápis no meio para que seus filhos pudessem estudar. Por esse “crime” estou preso, e, no entanto, mais livre do que nunca, graças aos livros e à leitura. Nestes 13 meses de quase solidão – não fossem as visitas de parentes e amigos e o carinho da incansável vigília na porta do cárcere em Curitiba – tenho lido muitos livros. Cavalguei com Riobaldo e Diadorim pelas veredas do grande sertão de Guimarães Rosa. Cruzei o Atlântico em navio negreiro ao lado de Luísa Mahin, no extraordinário romance Um defeito de cor, de Ana Maria Gonçalves.

Navego nas águas da ficção, mas tenho, sobretudo, me dedicado aos livros dito políticos – com a ressalva de que se ler é um ato político, todo livro é político, seja ele de poesia, romance, contos, filosofia, sociologia, economia ou ciências políticas.

Mas é o livro propriamente político, razão de ser desse Salão, que quero saudar agora. É principalmente graças aos livros que, quando a justiça for restaurada neste país, sairei da prisão sabendo mais do que quando entrei.

Um abraço a todos e todas, e viva o livro!

Luiz Inácio Lula da Mayara Gomes Silva

Fonte: Página de Sostines Sabino no Facebook; também disponível no site da Boitempo: https://blogdaboitempo.com.br/2019/05/27/lula-ler-e-um-ato-politico/

 

Fogo Morto

José Lins do Rego (José Lins do Rego Cavalcanti) nasceu em Engenho Corredor, na Paraíba, em três de junho de 1901 e, faleceu no Rio de Janeiro, a doze de setembro de 1957. Dentro do que se esperava de um filho da elite rural nordestina estudou e formou-se em Direito. Colaborou no Jornal do Recife e, em 1922, fundou o semanário Dom Casmurro. O tempo que passou em Recife possibilitou-lhe laços de amizade com várias personalidades que influenciaram sua carreira na literatura, dentre elas, Gilberto Freire. José Lins do Rego ainda muito jovem revelou seu talento para a literatura. A obra de José Lins traz em seu bojo, as origens das diferentes gerações de sua família ligada ao mundo rural do nordeste açucareiro. No Brasil poucos escritores conseguiram/conseguem viver apenas dos rendimentos de sua literatura. José Lins não escapou a essa regra e, trabalhou por pouco tempo como promotor, fiscal de bancos e, fiscal do imposto de consumo. Colaborou em vários periódicos com crônicas diárias. Quando morou em Maceió, tornou-se colaborador do Jornal de Alagoas e passou a fazer parte do grupo de Graciliano Ramos, Raquel de Queirós, Aurélio Buarque de Holanda e outros. Ali publicou seu primeiro livro, Menino de engenho (1932), obra considerada de fundamental importância na história do moderno romance brasileiro e que lhe rendeu o Prêmio da Fundação Graça Aranha. Sua paixão pelo esporte (torcedor do Flamengo) o levou a ocupar o cargo de secretário-geral da Confederação Brasileira de Desportos (1942 a 1954). Em certa ocasião, ao falar de sua literatura, afirmou “[...] meu futebol é de primeira. Eu não uso a bola para fazer bailado. Eu a atiro ao primeiro golpe e, se não chego a realizar uma jogada com perfeição, não comprometo, por outro lado, a eficiência do meu time”.

José Lins do Rego se popularizou como um romancista da decadência dos senhores de engenhos e tinha como característica escrever com grande agilidade, apesar de dizer a todos que o ato de escrever era difícil. A matéria-prima de suas obras estava nas memórias e reminiscências (vividas e internalizadas pela transmissão oral por seus predecessores) de um sistema econômico de origem patriarcal, com o trabalho semi-escravo do eito, ao lado de outro aspecto importante da vida nordestina, o cangaço e o misticismo. O conjunto de sua obra pode ser classificado em três tópicos: 1. O ciclo da cana-de-açúcar, com Menino do Engenho, Doidinho, Banguê, Usina e Fogo Morto; 2. O ciclo do cangaço, misticismo e seca, com Pedra Bonita e Cangaceiros; 3. Obras independentes com ligações nos dois ciclos: O moleque Ricardo, Pureza e Riacho Doce; e desligadas dos ciclos: Água-mãe e Eurídice. Sua carreira como literato o lançou à “imortalidade” como membro eleito da Academia Brasileira de Letras – ABL. José Lins tentou produzir obras desligadas dos temas que o popularizaram, porém, como assinalou Manuel Bandeira: “era um motor que só funcionava bem queimando bagaço de cana”.

A obra Fogo Morto (1943) é dividida em três partes. A primeira parte tem como personagem principal, o mestre José Amaro. José Amaro é um seleiro que mora com sua esposa e filha nas terras do Coronel Lula, proprietário do Engenho Santa Fé. O mestre é muito habilidoso no seu ofício. José Amaro tem uma língua ferina e, aponta deficiências no caráter de quase todos, ao mesmo tempo em que afirma ser um homem correto e independente. Também se mostra decepcionado com a vida e com a família. Entre as suas decepções está fato de que não teve um filho homem para ensinar-lhe os rudimentos da profissão. Sua filha não conseguiu se casar e com o passar do tempo enlouquece. O Coronel Lula manda que se retire de suas terras, sua esposa o abandona e, sua vida passa a ser de lamentos e ideias de vingança contra o negro Floripes, o causador do desentendimento dele com o senhor de engenho. A segunda parte tem como título “o engenho de seu Lula”. O Engenho Santa Fé criado por seu Tomás Cabral de Melo e Dona Mariquinha, apesar de ser pequeno se comparado aos engenhos vizinhos, tem grande produtividade com o empenho pessoal de seus proprietários. O casal tem duas filhas, Amélia e Olívia. Amélia, refinada, estudou na capital, nas melhores escolas. Olívia seguia o mesmo roteiro, porém, enlouqueceu. Passa o tempo e, não aparece um pretendente à altura de Amélia. Surge então Luis Cesar de Holanda Chacon, órfão de pai, morador da cidade grande, possuidor de grande orgulho de suas raízes familiares, mas, sem nenhum dinheiro. Casa-se com Dona Amélia, mas, para a decepção de seu Tomás, não tem nenhum interesse em aprender a administrar o engenho e dedica-se apenas a ler jornais. Com a morte de seu Tomás, seu Lula tenta tomar para si o engenho, mas, Dona Mariquinha consegue na Justiça o direito de administrá-lo. Seu Lula e Dona Amélia, têm uma filha. Seu Lula, nega a Dona Mariquinha, o contato com a netinha. Dona Mariquinha morre, seu Lula passa a administrar o engenho, mas, sua inaptidão é tão grande que sua esposa sente vontade de tomar a tarefa para si, mas, não o faz afinal, Lula é o homem, poderia não gostar. O Engenho entra em decadência e eles vão ficando cada vez mais pobres. A terceira parte trata do Capitão Vitorino, homem que costuma fazer bravatas, mas, que não é levado muito a sério, sendo que até os moleques, ao passar por ele gritam “papa-rabo”, apelido que recebeu por ter o costume de cortar o rabo de alguns de seus animais. Capitão Vitorino tem interesse na política, é da oposição e se coloca em defesa dos mais fracos. Apesar de inofensivo, apanha da polícia e, é preso por suas atitudes insolentes perante o Tenente Maurício, que se encontra na região para eliminar a ação de cangaceiros do bando do Capitão Antonio Silvino. Mais, não posso falar, sob pena de estragar a sua leitura caso assim deseje.

Sugestão de boa leitura:

Título: Fogo Morto.

Autor: José Lins do Rego.

Editora: José Olympio, São Paulo, 2014, 77ª edição, 414 p.

Preço: R$ 38,80 (capa comum).

Nerje: Laranjeiras do Sul

Neste momento em que escrevo estas linhas, me assalta a mente o pensamento de que deveria ter escrito sobre esta obra há mais tempo. Quisera não estar escrevendo acerca da mesma pelas circunstâncias que o destino implacável sempre acaba por impor. Laranjeiras do Sul e região perderam uma pessoa que valorizava a cultura popular e a história regional como poucos, e que inconformado ao ver as sombras que pairavam sobre os momentos fundantes de nossa região, ou nas palavras do saudoso e inesquecível João Olivir Camargo, “as raízes da nossa terra” resolveu “desenterrar” a nossa história pesquisando os poucos documentos restantes e, ouvindo testemunhas oculares dos fatos aqui ocorridos. Sou um feliz proprietário de um exemplar de seu livro “Nerje: Laranjeiras do Sul” publicado em 1999. A obra não teve reimpressão, o que causa o lamento de pessoas que conheço que afirmaram querer um exemplar. Sob outras circunstâncias que não as ditadas pelo destino, antes de escrever sobre sua obra, faria a releitura, tendo em vista tê-la lido há muito tempo.

João Olivir Camargo foi radialista, colunista e historiador. Mantinha no Jornal Correio do Povo do Paraná a coluna intitulada “O Ponto do Conto” em que relembrava fatos pitorescos ocorridos na região envolvendo personagens que marcaram tempos passados de nossa terrinha. Tratava-se de uma leitura descontraída tão necessária em tempos angustiantes como os que vivemos, pois, resgatava e valorizava a cultura popular. Como radialista, João Olivir iniciou sua carreira na Rádio Educadora na década de 1960. Como historiador, sempre que convidado, se dispunha a dar palestras aos estudantes sobre a história de Laranjeiras do Sul e região. Mesmo que seu livro, cuja abordagem metodológica, seja alvo de críticas por alguns historiadores, ainda assim, trata-se de obra pioneira, e que cumpriu seu papel de lançar luzes ao passado histórico da região, cujo desconhecimento era marcante por parte da população residente.

Em seu livro, João Olivir, inicia discorrendo sobre o Tratado de Tordesilhas, o qual colocava estas terras como pertencentes à Coroa Espanhola e acerca da passagem de padres jesuítas que mantiveram os primeiros contatos com os indígenas locais. Trata das bandeiras preadoras que tinham como objetivo a captura de indígenas para a escravatura. Também relata que esta região era terra de degredo, pois, após o rio Boca da Mata, atual rio Cavernoso, iniciava a selva. Guarapuava constituía o último núcleo de civilização. José Nogueira do Amaral, o pioneiro de Laranjeiras do Sul, morador de São Paulo (o Paraná era parte da Província de São Paulo), atocaiado por dois vizinhos de propriedade por motivos de divisas de terras, deu cabo dos dois e foi condenado à morte pela forca, mas teve sua pena comutada para degredo perpétuo, vindo a ser abandonado nestas terras com a condição de não mais voltar à “civilização”. Como degredado, inicialmente procurou evitar contato com os indígenas bravios que havia na região, mas, o tempo provou isso não ser possível, porém, como alguns índios sabiam falar português devido ao contato com religiosos que percorreram a região, explicou-lhes ter sido expulso pelos brancos e, com o tempo ganhou a simpatia dos indígenas. Algum tempo depois, sua família veio residir na região, embora consentida, a vinda de sua família a região causou certa animosidade aos habitantes nativos. Com o tempo vieram outras famílias e os choques com os índios se tornaram comuns. O livro discorre sobre as famílias pioneiras, as atividades comerciais e militares na região. Também faz o registro do tempo em que sob o nome de “Iguassú”, Laranjeiras do Sul foi a capital do Território Federal de mesmo nome. A obra após relatar a gigantesca área inicialmente formada pelo município de Laranjeiras do Sul, explica a formação dos novos municípios dele desmembrados. O livro traz também imprescindíveis imagens de época.

Em nome de todos (as) que valorizam a cultura e a história de nossa região, ao João Olivir Camargo, prestamos a nossa homenagem e gratidão!


Sugestão de boa leitura:

Título: Nerje: Laranjeiras do Sul

Autor: João Olivir Camargo.

Editora: Gráfica e Editora Vicentina Ltda, Curitiba, 1999, 228 p.

Preço: R$59,90 – R$ 69,90 (capa comum)

*Somente dois exemplares (usados) estão disponíveis no site da Estante Virtual – garanta o seu!


 

Ensaio sobre a cegueira

O escritor português José de Souza Saramago (1922-2010) é, até o momento, o único literato em língua portuguesa que teve a honra de ser galardoado com o Prêmio Nobel (1998). José Saramago consagrou-se na literatura quando já vivia a fase madura de sua vida. Filho de camponeses do Ribatejo (Portugal) exerceu diversas profissões antes de se dedicar à literatura. Foi serralheiro, desenhista, funcionário público, editor e jornalista. Dentre outras honrarias, foi ganhador do Prêmio Camões (1995). Publicou várias obras-primas da literatura mundial, merecem destaque: Memorial do Convento (1982), O Ano da Morte de Ricardo Reis (1984), O Evangelho segundo Jesus Cristo (1991), Ensaio sobre a cegueira (1995), O Homem Duplicado (2002), Ensaio sobre a lucidez (2004) e As intermitências da Morte (2005). Saramago, de opiniões e falas tão fortes quanto a literatura que criou, despertou na comunidade internacional sentimentos que vão do amor ao ódio, mas, jamais a indiferença. As polêmicas em que se envolvia era o preço que pagava por ser um pensador original. Não temia nelas se envolver, considerava que a liberdade de expressão era um direito inalienável, tanto que chegou a propor que à Declaração Universal dos Direitos Humanos, deveriam ser acrescidos dois novos artigos que garantissem o direito à dissidência e à heresia.

Este humilde escriba tornou-se uma nova vítima do escritor português, milhões o foram antes. Explico, concluí a leitura de “Ensaio sobre a cegueira”, obra que rendeu o prêmio Nobel de Literatura ao autor que, ao ser entrevistado, afirmou ter desenvolvido a obra, de tal forma, a fazer com que o leitor ao lê-la, sofresse tanto quanto ele, ao escrevê-la. Não sou uma pessoa muito sensível, mas, confesso que ao terminar a leitura da obra, pensei que minha próxima leitura precisa ser leve e que nem o passar do tempo tampouco me fará esquecer a trama dessa obra. Em “Ensaio sobre a cegueira”, Saramago propõe uma sociedade, em que aos poucos, todos vão ficando cegos. Uma cegueira que contraria os manuais da medicina e aparenta ser contagiosa, mas, cujas pessoas afetadas enxergam tudo branco e não escuro. A partir de um motorista que em seu carro espera o sinal abrir, ocasião em que se percebe cego, em meio a buzinas e gritos para que movimentasse seu automóvel. Um homem resolve lhe ajudar, leva-o para seu apartamento, mas, aproveita a ocasião para roubar-lhe o carro. O ladrão de automóveis acaba por ficar cego e é ajudado por um policial que ignorava a atividade criminosa deste. Mais tarde, o policial fica também cego. O primeiro cego (na obra, nenhuma personagem tem nome) auxiliado por sua esposa vai ao oftalmologista e, este nada encontra de anormal em seus olhos. Todas as pessoas presentes no consultório acabam por ficar cegas, inclusive o médico que perde sua visão quando, já em casa, busca nos livros de medicina alguma coisa sobre o estranho “mal branco”. A única pessoa a não perder a visão é a esposa do médico, que mente estar também cega para ir com este ao edifício abandonado do manicômio onde as autoridades da saúde colocam em quarentena as pessoas portadoras da estranha cegueira e aqueles que com eles conviveram e se supõe estarem contagiados e que brevemente irão desenvolver a doença. Para guardar o edifício, o Exército foi convocado, nem por isso os soldados têm menor receio de contrair a doença. Ao sanatório são trazidos diariamente novos doentes. Mas, a doença se alastra e toda a sociedade fica cega, inclusive o governo do país. O caos se instala.

A obra de Saramago tem uma redação que lhe é característica. Parágrafos muitos longos que para alguns autores poderiam ser capítulos. Os diálogos entre as personagens se alternam por meio de vírgulas e não de pontos. Ao compor a personagem da mulher do médico, a única que enxerga, nem por isso, uma privilegiada ante o que vê, o escritor nos lembra da “responsabilidade de ter olhos quando outros o perderam”. Entrevistado, o autor afirmou: “na verdade, somos todos cegos, pois a humanidade vive uma cegueira da razão”. A obra também nos lembra daquele famoso adágio popular: “O pior cego é aquele que não quer ver”. Parafraseando Saramago, no Brasil atual, talvez mais do que em qualquer outro lugar do planeta, os que têm olhos, têm diante de si, a responsabilidade de preservá-los, mas, tal como a esposa do médico, não estão livres de sentir angústias e náuseas, quando as pessoas mutiladas de sua suposta normalidade, mostram a coisa que de fato são e que não possui nome.

Sugestão de boa leitura:

Título: Ensaio sobre a cegueira.

Autor: José Saramago.

Editora: Companhia das Letras, São Paulo, 1995, 79ª reimpressão, 310 p.

Preço: R$ 46,32 (capa comum).

O homem que amava os cachorros

O escritor cubano Leonardo Padura (1955) lançou em 2009 o romance “O homem que amava os cachorros”. Ao propor a obra, teve diante de si o desafio de alcançar um público acerca de uma trama cujo desenlace é de todos conhecido, de forma que neste artigo, não preciso me preocupar demasiadamente em evitar spoilers, mesmo assim, terei o cuidado de não ser detalhista demais, visando com isso não estragar o prazer da leitura, caso o leitor resolva ler a obra em questão. É importante que se diga que embora o livro de Padura não tenha a intenção de ser rigorosamente um documento histórico, conquanto esteja baseado em fatos reais, trata-se de um romance sobre um dentre outros fatos que certamente mudaram a história do século XX. A obra de Padura trata do assassinato do intelectual marxista e revolucionário bolchevique Leon Trotski em Coyoacán (México) na data de 21 de agosto de 1940.

Leon Trotski, nascido Liev Davidovich Bronstein a sete de novembro de 1879 foi o organizador do Exército Vermelho e um dos líderes da Revolução de Outubro de 1917. Coube a Trotski a organização do Exército Vermelho no qual foi figura central na vitória bolchevique na Guerra Civil Russa (1918-1922) em que as tropas daquele país derrotaram a oposição czarista que inclusive foi auxiliada por potências estrangeiras interventoras. Trotski era muito próximo ao líder da Revolução Bolchevique Vladimir Ilich Ulianov (Lênin), porém, havia entre eles várias discordâncias teóricas e, mesmo práticas quanto aos rumos a serem dados ao país, a União das Repúblicas Socialistas Soviéticas (URSS) que então surgia em 1922. Mesmo assim, sabendo da iminência de sua morte, em 1924, Lênin deixou uma carta em mãos de sua viúva Nadezda Krupskaja (1869-1939), na qual alertava os companheiros do PCUS acerca dos riscos que Joseph Stálin poderia representar aos rumos da revolução socialista e, indicava o nome de Leon Trotski como sugestão para a sua sucessão como Secretário Geral do PCUS, o qual, dizia ele: “apesar de seus defeitos, não comprometeria a revolução”. Porém, Stalin conseguiu o apoio da maioria do PCUS e, não demorou muito a afastar Trotski do partido e, dessa forma, dos cargos de direção, acabando por confiná-lo na distante e fria Alma-Ata (atual Altana, no Cazaquistão) de onde foi expulso da URSS vindo a se exilar na Turquia, depois na França e na Noruega e, por fim, no México. Mesmo no exílio jamais deixou de fazer oposição à Stálin a quem chamava de “o coveiro da revolução”, e, também jamais teve paz. Nos países onde se instalava, até por uma campanha difamatória promovida e que tinha como origem Moscou que levava militantes socialistas da corrente stalinista a considerarem-no um traidor da revolução socialista e da URSS. Também militantes anticomunistas pressionavam as autoridades para que Trotski fosse expulso dos poucos países que aceitavam lhe receber em exílio.

O livro de Padura conta em capítulos alternados a história (romanceada), porém, com grande coerência de Iván Cárdenas Maturell, um escritor frustrado que trabalhava como auxiliar de veterinário, nos difíceis anos de crise econômica em Cuba, que se sucederam a desintegração da URSS, cujo peso se somava ao embargo econômico estadunidense até hoje vigente. A obra narra os encontros de Iván com Jaime Lopez que levava seus cães borzois numa praia cubana para se exercitarem. Nestes diálogos em que tal homem que se apresentou como amigo do assassino de Trotski, o espanhol Ramon Mercader Del Rio Hernández (1913-1978) que lutou na Guerra Civil Espanhola (1936-1939) e a forma como se deu o planejamento por outros, do assassinato levado a cabo por este. Vários capítulos tratam da vida de Trotski, especialmente nos países que lhe concederam exílio e outros narram os tortos caminhos que levaram Ramon Mercader a eliminar a existência física de um intelectual que se tivesse sucedido Stálin, certamente não teria cometido muitos de seus erros grotescos, mas, aí tudo fica no campo da especulação e, ao ler o livro, apesar da torcida, não há como haver final diferente daquele que é de todos conhecido: a morte de Trotski com um golpe de picareta de alpinista no crânio. Após perder de forma suspeita (para dizer o mínimo) quase todos os seus amigos e parentes próximos, Liev Davidovich Bronstein, sobrevivente de outros atentados, perdia a vida, mas, sua retirada do plano físico jamais foi acompanhada da sua retirada da história e, da mente de seus seguidores. Sua obra é o legado para os que ousam sonhar uma sociedade com justiça social. Também é impossível não notar o importante papel desempenhado por Natalia Sedova (1882-1962), verdadeiro sustentáculo de Trotski. Aliás, grandes vultos históricos masculinos costumam via de regra ter a companhia e o apoio de grandes mulheres.

Sugestão de boa leitura:

Título: O homem que amava os cachorros.

 Autor: Leonardo Padura.

Editora: Boitempo, 2ª ed., São Paulo, 2019, 590 p.

Preço: R$ 48,24 (capa comum) – R$ 59,96 (capa dura).

Frei Betto: A naturalização do horror

Frei Betto é bem conhecido no nosso blog. Preso pela ditadura militar, o frade dominicano tem formação jornalística além da filosófica e teológica, própria da Ordem que tem Santo Tomás de Aquino como o mestre inspirador para toda a Igreja. É um atento observador e analista da situação brasileira, especialmente a partir da ótica das vítimas das políticas sociais que prejudicam os mais vulneráveis. Aqui descreve um percurso que nos coloca em alerta. É semelhante àquele seguido pelo nazismo de Hitler que provocou o maior genocídio da história e uma guerra mundial com milhões de mortos. A lógica seguida pelo atual governo é a mesma, embora, como pensamos, não consiga impor as perversidades que o nazismo impôs na Alemanha e lá onde chegou com suas tropas. Sua irradiação perversa persiste até os dias de hoje nos seguidores que possui pelo mundo afora, inclusive no Brasil. Seria uma tragédia sem tamanho se algo parecido ocorresse em nosso país. Daí a vigilância, a resistência e mais ainda a proposta de um caminho alternativo, humanitário, com maior justiça e solidariedade que tanto faz falta em nossa história. Valem estes 10 pontos de reflexão de Frei Betto. Profeticamente denuncia o que eventualmente pode ocorrer entre nós se não nos mantivermos alertas: Leonardo Boff.

A naturalização do horror

Em 1934, o embaixador José Jobim (assassinado pela ditadura, no Rio, em 1979) publicou o livro “Hitler e os comediantes” (Editora Cruzeiro do Sul). Descreve a ascensão do líder nazista recém-eleito, e a reação do povo alemão diante de seus abusos. Não se acreditava que ele haveria de implantar um regime de terror. “Ele não gosta de judeus”, diziam, “mas isso não deve ser motivo de preocupações. Os judeus são poderosos no mundo das finanças, e Hitler não é louco de fustigá-los”. E sabemos todos que deu no que deu. Estou convencido de que Bolsonaro sabe o que quer, e tem projeto de longo prazo para o Brasil. Adota uma estratégia bem arquitetada. Enumero 10 táticas mais óbvias:

1. Despolitizar o discurso político e impregná-lo de moralismo. Jamais ele demonstra preocupação com saúde, desemprego, desigualdade social. Seu foco não é o atacado, é o varejo: vídeo com “golden shower”; filme da “Bruna surfistinha”; kit gay (que nunca existiu); proteção da moral familiar etc. Isso toca o povão, mais sensível à moralidade que à racionalidade, aos costumes que às propostas políticas. Como disse um evangélico, “votei em Bolsonaro porque o PT iria fazer nossos filhos virarem gays”.

2. Apropriar-se do Cristianismo e convencer a opinião pública de que ele foi ungido por Deus para consertar o Brasil. Seu nome completo é Jair Messias Bolsonaro. Messias em hebraico significa ‘ungido’. E ele se acredita predestinado. Hoje, 1/3 da programação televisiva brasileira é ocupado por Igrejas Evangélicas pentecostais ou neopentecostais. Todas pró-Bolsonaro. Em troca, ele reforça os privilégios delas, como isenção de impostos e multiplicação das concessões de rádio e TV.

3. Sobrepor o seu discurso, desprovido de fundamentos científicos, aos dados consolidados das ciências, como na proibição de figurar o termo ‘gênero’ nos documentos oficiais e dar ouvidos a quem defende que a Terra é plana.

4. Afrouxar leis que possam imprimir no cidadão comum a sensação de que “agora, sou mais livre”, como dirigir sem habilitação; reduzir os radares; desobrigar o uso de cadeirinha para bebês etc.

5. Privatizar o sistema de segurança pública. Melhor do que gastar com forças policiais e ampliação de cadeias é possibilitar, a cada cidadão “de bem”, a posse e o porte de armas, e o direito de atirar em qualquer suspeito. E, sem escrúpulos, ao ser perguntado o que tinha a declarar diante do massacre de 57 presos (sob a guarda do Estado) no presídio de Altamira, respondeu: “Pergunta às vítimas”.

6. Desobstruir todas as vias que possam dificultar o aumento do lucro dos grandes grupos econômicos que o apóiam, como o agronegócio: isenção de impostos; subsídios a rodo; suspensão de multas; desativação do IBAMA; diferençar “trabalho análogo à escravidão” de trabalho escravo e permitir a sua prática; sinal verde para o desmatamento e invasão de terras indígenas. Estes são considerados párias improdutivos, que ocupam despropositadamente 13% do território nacional, e impedem que sejam exploradas as riquezas ali contidas, como água, minerais preciosos e vegetais de interesse das indústrias de produtos farmacêuticos e cosméticos.

7. Aprofundar a linha divisória entre os que o apóiam e os que o criticam. Demonizar a esquerda e os ambientalistas, ameaçar com novas leis e decretos a liberdade de expressão que desgasta o governo (The Intercept Brasil), incutir a xenofobia no sentimento nacional.

8. Alinhamento acrítico e de vassalagem à direita internacional, em especial a Donald Trump, e modificar completamente os princípios de isonomia, independência e soberania que, há décadas, regem a diplomacia brasileira.

9. Naturalizar os efeitos catastróficos da desigualdade social e do desequilíbrio ambiental, de modo a se isentar de atacar as causas, chegando a afirmar que no Brasil não há fome.

10. Enfim, deslegitimar todos os discursos que não se coadunam ao dele. Michel Foucault, em “A ordem do discurso” (2007), alerta para os sistemas de exclusão dos discursos: censura; segregação da loucura; e vontade de verdade. O discurso do poder se julga dono da verdade. Não por acaso, na campanha eleitoral, Bolsonaro adotou, como aforismo, o versículo bíblico “Conhecereis a verdade, e a verdade vos libertará” (João 8, 32). A verdade é ele, e seus filhos. Seu discurso é sempre impositivo, de quem não admite ser criticado.

Na campanha eleitoral, a empresa BS Studios, de Brasília, criou o jogo eletrônico Bolsomito 2K18. No game, o jogador, no papel de Bolsonaro, acumulava pontos à medida que assassinava militantes LGBTs, feministas e do MST. Na página no Steam, a descrição do jogo: “Derrote os males do comunismo nesse game politicamente incorreto, e seja o herói que vai livrar uma nação da miséria. Esteja preparado para enfrentar os mais diferentes tipos de inimigos que pretendem instaurar uma ditadura ideológica criminosa no país. Muita porrada e boas risadas.” Diante da reação contrária, a Justiça obrigou a empresa a retirar o jogo do ar.

Mas o governo é real. Dissemina o horror e enxerga em quem se opõe a ele o fantasma do comunismo.

FONTE: https://leonardoboff.wordpress.com/2019/08/10/frei-betto-a-naturalizacao-do-horror/ - acesso em 20 de agosto de 2019.

Quem manipula quem?

 A releitura de um livro permite um reexame com novas constatações e a elaboração de novas indagações ante o objeto de análise, pois, com o passar do tempo, nosso arcabouço teórico nos coloca em novo patamar de conhecimentos, e, leituras consideradas complexas se tornam mais acessíveis. Pensando assim, retomei o livro “Quem manipula quem?” de Ciro Marcondes Filho. O livro em questão foi publicado em primeira edição em 1986 e adquirido por mim em 1991, já na quarta edição. Na obra            Ciro argumenta que há no país uma grande oposição à invasão cultural estadunidense, a qual estaria prejudicando a cultura nacional e que seus críticos parecem ver na cultura dos EUA a figura de um estuprador que violenta a cultura popular brasileira tida como uma jovem e inocente donzela. Afirma que os críticos cometem um grave erro ao supor ser a cultura estadunidense algoz da cultura nacional, quando, na verdade é a cultura capitalista a causadora de grandes impactos no imaginário da sociedade. Também afirma que a cultura recebe contribuições de elementos culturais de outros países e que mesmo nossa cultura não é a perfeição para ser de todo preservada, pois, contém traços de machismo, preconceito étnico e socioeconômico, etc. O modo capitalista de pensar se impõe na sociedade e gera o individualismo, o narcisismo, e principalmente, o consumismo. No capitalismo, tudo se transforma em mercadoria pronta para ser consumida, não é diferente com as pessoas, que vendem sua mão-de-obra nas máquinas de moer seres humanos que conhecemos por empresas capitalistas, ou mesmo seu corpo, seja para o desfrute do olhar nas revistas masculinas ou para o prazer do cliente. Dessa forma, os meios de comunicação privados somente sobrevivem pela busca incessante do lucro e isso remete ao título da obra em que o autor argumenta que os críticos costumam atribuir grande poder de manipulação aos meios de comunicação (TV, rádio, jornais e revistas) e consideram os receptores de tais artigos e programas como ingênuos e indefesos, visão em seu ver, equivocada.

O autor argumenta que os meios de comunicação, especialmente a TV precisa de audiência sendo esta a moeda com que o telespectador paga pelos seus programas e que o índice de audiência possibilitará à emissora de TV estabelecer o preço pelos anúncios publicitários que renderão recursos financeiros que custearão as despesas e possibilitarão o lucro que toda empresa capitalista busca. Ciro afirma que o público somente pagará com a moeda audiência se a programação estiver de acordo com os anseios deste, do contrário, mudará de canal até encontrar a programação que lhe agrade. Sob este prisma, penso que a qualidade de parte da programação da TV aberta brasileira, a qual é bastante discutível e constitui verdadeiro lixo televisivo, e mesmo assim, ao obter grande audiência leva a crer que seus receptores estão sendo supridos do que desejam, talvez devido ao seu baixo nível cultural. Portanto, sexo, palavrões, violência, piadas preconceituosas, etc. geram audiência porque inúmeros telespectadores se veem ali, o efeito danoso fica por conta do fato de que ocorre a naturalização da estupidez, pois, ao ver cenas de pessoas rudes, egocêntricas e desonestas, os espectadores que correspondem a esse perfil, tomam como normal essa forma de ser e assim agem.    

            A relação entre o telespectador e o meio de comunicação é uma via de mão dupla, no entanto, penso que Ciro exagera ao supor que em geral as pessoas têm capacidade crítica para entender que nem tudo o que os programas de TV e rádio divulgam corresponde a uma visão de mundo e não a verdade em si. As pessoas de menor nível instrucional são as que mais utilizam unicamente a TV e o rádio para se informar e este segmento social costuma tomar como verdade notícias que foram tratadas nas redações e que alteram ou omitem a verdadeira informação. O autor também afirma que os meios de comunicação privados são uníssonos na defesa da liberdade de expressão e condenam veementemente a censura, mas, esquecem ou fazem questão de não reconhecer que guardam para si a prerrogativa de exercer a censura, ao não dar liberdade ideológica para seus jornalistas nas redações e ao não dar espaço para a defesa do contraditório por parte dos grupos políticos que defenestram. Uma análise aprofundada do livro resultaria muito longa, deixo então, a dica.

Sugestão de boa leitura:

Título: Quem manipula quem?

Autor: Ciro Marcondes Filho.

Editora Vozes, 1987, 162 p.

Preço: R$ 7,90 – R$ 22,80 (Estante Virtual).

 

As cabeças trocadas: uma lenda indiana

O escritor, romancista, ensaísta, contista e crítico social Paul Thomas Mann nasceu a seis de junho de 1875 na cidade de Lübeck, no então Império Alemão e, faleceu em Zurique, na Suíça, a doze de agosto de 1955, aos 80 anos. Mann era filho do político e comerciante Johann Heinrich Mann (1843-1892) e, de sua esposa a brasileira Julia da Silva Bruhns (1851-1923). Thomas é o irmão mais novo do também famoso romancista Heinrich Mann. O pai que se encontrava a frente de um negócio de várias gerações tentou influenciá-lo a seguir nele, porém, a mãe brasileira levou a melhor, fazendo-o se interessar pela literatura. Com a morte do pai quando Mann contava dezessete anos, a família abandonou as atividades empresariais. Em 1900, Thomas publicou “Os Buddenbrook” que o tornou famoso e, que mais tarde lhe rendeu o prêmio Nobel de Literatura. Em 1905, Mann casou-se com Katia Pringsheim, filha de uma proeminente e secular família judia de intelectuais. Dessa união nasceram seis filhos: o escritor Klaus, a atriz Erika, o historiador Golo Mann, a ensaísta Monika Mann, o violinista e literato Michael Mann e a cientista Elisabeth Mann. (Fonte: Wikipédia)

Thomas Mann é famoso por seus calhamaços (livros grossos), no entanto, entre a publicação de seus tradicionais calhamaços, o escritor publicava obras mais leves que podem ser classificadas como novelas (no que tange ao tamanho, entre os contos e os romances). Este é o caso da obra: “As cabeças trocadas: uma lenda indiana” que constitui um bom livro para se iniciar na leitura deste importante autor. Na obra, Mann aborda uma lenda indiana acerca de um triângulo amoroso envolvendo dois amigos de infância, Shridaman, descendente de uma estirpe de Brâmanes, e Nanda, um ferreiro e pastor de gado. Os amigos tinham características díspares. Shridaman era espiritualizado e erudito e, considerava a mente superior ao corpo, logo, possuía um corpo pouco desenvolvido. Nanda, por sua vez, trabalhava em serviços pesados, portanto, tinha uma musculatura bem desenvolvida. Em uma viagem de cunho comercial, os amigos param descansar e aproveitam para fazer o banho de purificação em um local tradicionalmente utilizado para este fim. Acabam por ver uma bela jovem nua realizando seu banho de purificação. Shridaman alerta a Nanda que não deveriam espiar, pois, não é correto. Nanda discorda e, ambos continuam a observá-la sem que esta perceba. Nanda identifica a moça, chama-se Sita, e conhece o lugar onde ela mora com sua família. No retorno da viagem, Shridaman falando até em suicídio, confessa ao amigo que não consegue ver sentido na vida se não tiver a jovem como sua esposa. Nanda após tirar sarro do amigo apaixonado, resolve ajudá-lo, conversa com o pai de Shridaman e juntos vão tratar com o pai de Sita. Tudo resolvido, Sita se casa com Shridaman e Nanda se mantém próximo do casal e, seu corpo perfeito torna-se alvo dos olhares de Sita.

Quando o jovem casal resolve visitar os pais de Sita (que se encontra grávida e ainda mais bonita), Nanda se oferece para ir junto para conduzir a carroça puxada por um camelo e um boi da raça zebu. Ao encontrarem um templo dedicado a deusa Kali, Shridaman solicita-lhes que o esperem na carroça a fim de que faça uma oração. A demora de seu retorno causa estranheza e Nanda pergunta se Sita ficará bem sozinha para que ele vá ao encontro de Shridaman saber o motivo da demora. Ela concorda e, quando Nanda chega ao interior do templo vê uma imagem aterradora, a cabeça de Shridaman separada do corpo e, em sua mão uma espada, com o sangue escorrendo para o altar dos sacrifícios à deusa. Nanda constata que pensariam ter sido ele quem deu cabo de Shridaman e, lembra-se de uma promessa feita por ambos, em que um não sobreviveria ao outro. Pega a espada e, tal como Shridaman, separa a própria cabeça do corpo. Com a demora, Sita vai ao local e, entra em desespero ao ver a cena, imagina que os dois amigos se mataram por causa dela, no que é repreendida pela deusa Kali, que lhe explica que os rapazes se imolaram em sacrifício a esta, e que ela também não iria aceitar o sacrifício e, solicita que Sita recoloque com muito cuidado, a cabeça de cada um junto ao respectivo corpo observando sua exata posição, para que ela possa devolvê-los a vida. No entanto, Sita troca as cabeças, de forma que a cabeça de Shridaman seu esposo, fica com o corpo vigoroso de Nanda e, o corpo pouco desenvolvido de Shridaman fica unido à cabeça de Nanda, cuja mente sempre foi pouco exercitada. A partir deste momento, a discussão é sobre o que predomina: a mente sobre o corpo ou, o corpo sobre a mente. Quem é o marido de Sita? A cabeça de Shridaman, cujo corpo (de Nanda) ela ainda não conhece? Ou o corpo de Shridaman que está com a cabeça de Nanda? Quem é o pai do filho de Sita? A mente ou o corpo? Com quem Sita deve ficar? Com a cabeça de Shridaman (culto) que se encontra com o musculoso corpo de Nanda? Ou com o corpo mirrado de Shridaman que se encontra com a cabeça de Nanda (mentalidade simplória)? Como resolver a questão? Encerro aqui para não estragar-lhe o prazer da leitura e da descoberta.

Sugestão de Boa Leitura:

Título: As cabeças trocadas: uma lenda indiana.

Autor: Thomas Mann.

Editora: Companhia das Letras, 2017, 118 p.

Preço: R$ 35,70.