A vista do meu ponto - Osnélio Vailati
O morro dos ventos uivantes (com spoiler)

Emily Jane Brontë (1818-1848) foi uma escritora e poetisa britânica. Quinta filha de Patrick Brontë, pastor da Igreja Anglicana, tinha como irmãs Maria e Elizabeth (que faleceram devido à febre tifóide), Charlotte e Anne. Seu único irmão, Patrick Branwell, foi estimulado a desenvolver seus talentos artísticos na pintura. É dele a única pintura que retrata Emily Brontë e suas irmãs Anne e Charlotte. Nesta pintura sobre tela, Branwell também aparecia, porém, dela removeu sua imagem. O irmão de Emily sofria perturbações psicológicas e, acabou por se entregar ao alcoolismo, frustrando as expectativas do pai que desejava vê-lo na Academia de Belas Artes. Charlotte, Emily e Anne escreveram e publicaram romances numa sociedade vitoriana que considerava que a carreira literária era algo destinado aos homens. As irmãs Brontë, a contragosto, tiveram que utilizar pseudônimos masculinos, dessa forma, a publicação original de O Morro dos Ventos Uivantes teve em sua capa o nome de Ellis Bell na autoria. As três irmãs publicaram seus livros utilizando o mesmo sobrenome (Bell).

                Emily, devido à tuberculose, teve sua vida ceifada precocemente (30 anos de idade), porém, isso não a impediu de ter seu único romance publicado incluído na lista dos maiores clássicos da literatura mundial. O livro vendeu relativamente bem desde sua primeira edição, porém, com o passar do tempo suas vendas aumentaram progressivamente. A obra causou grande polêmica na sociedade inglesa, pois, mostrava personagens cujas personalidades eram dúbias, ora gentis, ora perversos. Não foram poucas as vozes a sugerir que todos os exemplares do livro deveriam ser incinerados. Talvez isso se deva ao fato de que a autora, por meio das personagens que criou em sua obra, desmistificou a hipocrisia da sociedade inglesa, ao mostrar que vistos de perto, ninguém ou quase ninguém, tem um espírito realmente bondoso e desinteressado. É ainda mais interessante observar que Emily era reclusa e muito tímida, pouco afeita a dialogar com as pessoas, porém, era autodidata e muito observadora, sendo capaz de traçar um perfil do caráter das pessoas que conhecia e de ler as entrelinhas das suas falas.

O romance “O Morro dos Ventos Uivantes” teve várias adaptações para o cinema e para a TV. O autor destas linhas assistiu a adaptação televisiva de 2009, que, embora razoável, com poucas alterações em relação a trama original, peca na escolha de um ator branco para a personagem principal (Heathcliff) que não condiz com a descrição feita pela autora (pele morena, aparência de cigano). A trama é contada por dois narradores, o inquilino Lockwood da Granja de Thrushcross e a governanta Nelly Dean. Lockwood resolve visitar Heathcliff, que lhe alugou o imóvel e que mora na propriedade vizinha conhecida como o Morro dos Ventos Uivantes. Pretende com tal ato estabelecer relações de amizade, porém, observa que as pessoas da casa são esquisitas e embrutecidas. Uma forte nevasca ocorre e o obriga a ficar na casa, para o desprazer dos seus anfitriões. No dia seguinte, após uma noite mal dormida, Lockwood retorna à casa da granja e começa a questionar a governanta Nelly sobre os estranhos sujeitos da casa do Morro dos Ventos Uivantes. Ela lhe conta que aquela propriedade originalmente era do Casal Earnshaw que tinha como filhos Hindley e Catherine. O Sr. Earnshaw ao voltar de uma viagem trouxe um garoto que vagava pelas ruas sem ter ninguém por ele e resolveu adotá-lo. Deu ao garoto o nome de Heathcliff. O irmão adotivo nunca o aceitou e passou a importuná-lo de todas as formas humilhando-o. Porém, sua irmã Catherine se identificou com ele e tornaram-se excelentes companheiros de travessuras. Quando os irmãos entram na juventude, o Sr. Earnshaw morre, e, Heathcliff perde o seu protetor.

A propriedade passa a ser administrada pelo filho Hindley que passa a tratar o irmão adotivo como um serviçal. Hindley casado com Frances tem um filho chamado Hareton. Catherine e Heathcliff se descobrem apaixonados e ele planeja inúmeras vezes a fuga do casal, porém, ela apesar de amá-lo, tem o sonho de um casamento que lhe faça rica e Heathcliff nada possui, além de que não vê nele o marido que idealiza. Na propriedade vizinha, a Granja Thrushcross mora a rica família Linton. Ao espionar a casa, Catherine é mordida pelo cão de guarda e é atendida por Edgar Linton. Algum tempo depois, Edgar lhe pede em casamento e Catherine pede tempo para pensar. Ao saber disso, Heathcliff fica indignado e vai embora do Morro dos Ventos Uivantes. Algum tempo depois, Heathcliff transformado, retorna com o firme propósito de se vingar de todos que o maltrataram e reaver seu amor, porém, encontra Catherine casada com Edgar Linton, algo com que ele não se conforma.

A volta de Heathcliff mexe com os sentimentos de Catherine que jamais deixou de amá-lo. Heathcliff adquire a propriedade do Morro dos Ventos Uivantes e, se vinga humilhando Hindley e seu filho Hareton de igual forma como fora no passado. Ao perceber que Isabella, irmã de Edgar Linton está por ele apaixonada, convence-a a fugir com ele. Não a ama, mas, deseja ferir Edgar e Catherine, e, se possível, esquecer Catherine. Não consegue e passa a maltratar Isabella que foge de casa, e, diante da recusa de seu irmão em aceitá-la de volta na Granja Thrushcross, muda-se da região. Catherine dá a luz a uma filha de Edgar e morre. A Filha chama-se Catherine (Cathy). Isabella descobre que está grávida de Heathcliff, tem o filho ao qual é dado o nome de Linton e, morre algum tempo depois. Edgar manda buscar o sobrinho, mas, Heathcliff exige que seu filho lhe seja entregue. Edgar Linton, doente, vê Heathcliff estimulando os jovens a se apaixonarem e tenta afastá-los. Edgar morre e Heathcliff planeja se apossar da Granja Thrushcross. Os jovens pressionados por Heathcliff se casam, mas, logo o jovem e doente noivo morre. O testamento estabelece que seu pai Heathcliff é o único herdeiro. Paro por aqui, já dei spoiler demais! Recomendo fortemente a obra!

Sugestão de boa leitura:

Título: O morro dos ventos uivantes.

Autora: Emily Brontë.

Editora: Principis, 2019, 444 p.

Preço: R$ 15,92.

Primeiro amor

Ivan Serguêievitch Turguêniev (1818-1883) foi um prosador, poeta, dramaturgo, tradutor e ensaísta russo. Juntamente com Tolstói, Gogol, Tchekhov e Dostoiévski formam o primeiro time da literatura clássica russa. Turguêniev nasceu rico, a grande propriedade rural de sua mãe contava com cinco mil servos, os quais ele desobrigou de suas funções antes que o próprio Czar Alexandre II o fizesse em toda a Rússia. Apesar de ter nascido em uma família abastada, Turguêniev ganhou projeção com livros de forte cunho social e político. Seu primeiro livro com grande projeção foi “Memórias de um caçador” (1852) e nele denunciava o regime da servidão na Rússia o que demonstrava o espírito do literato que travou contato com importantes intelectuais russos, dentre eles, o teórico e militante anarquista Bakúnin. Essa obra e a atenção que chamou para si ao denunciar injustiças sociais por meio de panfletos resultou em sua prisão, porém, conta-se que o referido livro influenciou o Czar a extinguir tal sistema no país.

            Turguêniev formou-se bacharel em filosofia pela Universidade de São Petersburgo. Sem problemas financeiros a lhe atormentar a existência passava parte do ano na França, e, parte na Rússia. Jamais se casou, porém, teve um relacionamento que durou toda a vida com a cantora hispano-americana Pauline Viardot-Garcia. O detalhe é que ela era casada. Relacionou-se com algumas de suas servas e teve de forma ilegítima sua única filha, a qual foi dado o nome de Paulinette. Na Europa, Turguêniev estimulou a tradução e a publicação de autores russos, mesmo aqueles que lhe criticavam por julgá-lo mais europeu do que russo ou por ser dúbio quanto ao seu posicionamento ideológico. Isto se devia ao fato de que o escritor russo era contrário aos extremismos ideológicos. Em 1883, um câncer agressivo o deixou acamado, e, em poucos meses o matou. Acredita-se que a obra “A morte de Ivan Ilich” de Liev Tolstói tenha sido fortemente influenciada pelo trágico destino de seu compatriota e amigo Turguêniev.

            A obra “Primeiro amor” é na verdade uma novela, pois, tem cerca de cem páginas. Nela o autor explora muito pouco as questões sociais pelas quais ficou conhecido em outras de suas publicações. Turguêniev não teve grandes pretensões que não explicitar a complexidade da descoberta do amor na juventude e os sentimentos dele resultantes, e, que se fazem inesquecíveis, pois, assim é o primeiro amor de qualquer pessoa, mesmo que ao invés de alegria e conquista, este resultou em frustração e vergonha. A história começa com um jantar, sendo que a maioria dos convidados já tinha ido embora, e, para entreter os restantes, o anfitrião os desafia a contar a história de seu primeiro amor. Todos o fazem, quando chega a vez de Vladimir Petróvitch, este afirma que sua história é incomum e solicita tempo para que a escreva num caderno e conte numa próxima reunião do grupo. A contragosto eles aceitam. Vladimir conta que quando tinha dezesseis anos seus pais foram passar uma temporada na datcha (casa de campo, fazenda, chácara) e a sua vizinha era uma princesa viúva e falida que sonhava ganhar um processo judicial para tirar os pés do barro. Essa senhora tinha uma filha de vinte e um anos de idade. O rapaz ao ver a moça encantou-se com sua beleza.

A moça sabia o poder que possuía sobre os homens, seduzia-os, fazia com que fizessem seus caprichos, mas, jamais escolhia um por namorado, enfim, agia como uma verdadeira coquete. Afirmava que não pretendia se apaixonar por ninguém. Ao perceber o efeito que causava sobre Vladimir, começou a se divertir com ele, às vezes o tratava como se fosse uma criança, noutras o seduzia. Sua mãe não gostava das princesas, considerava-as vulgares e queria que o rapaz se mantivesse longe delas. Seu pai agia com superioridade em relação às vizinhas. A mãe de Vladimir, muito rica, bem educada, porém, tinha um gênio difícil. O pai, de origem humilde, tinha uma boa formação intelectual e era dez anos mais jovem que sua mãe. O pai tinha um comportamento estranho, ora ausente, ora sufocava o filho com sua atenção. O rapaz era muito cobrado a se dedicar aos estudos visando seu ingresso na universidade. E estudar não era o foco de Vladimir, pois, sua atenção toda estava na moradora da casa vizinha. Sua preocupação estava em conquistá-la e em afastar seus rivais, os rapazes que também eram iludidos pela moça. Mostrar-se homem, apesar da pouca idade e tentar caminhar com segurança no terreno movediço da primeira paixão. Paro aqui para não dar spoiler, mas, digo que esta obra tanto é leve na forma como é escrita, como pesada na trama desenvolvida. Parece despretensiosa, porém, traz à luz experiências vividas felizes ou não de pessoas que do alto de sua maturidade lamentam, riem ou se regozijam da forma como agiram quando tiveram o coração repentinamente assaltado por um sentimento até então desconhecido.

Sugestão de boa leitura:

Título: Primeiro amor.

Autor: Ivan Turguêniev.

Editora: Penguin Companhia, 2015, 108 p.

Preço: R$ 32,90.             

A morte da verdade

 

                Já escrevemos algumas vezes neste espaço sobre o tema da pós-verdade. A ele retornamos, pois, essa é a preocupação central do livro da crítica literária estadunidense Michiko Kakutani (1955). Impossível ler a obra sem ver semelhanças entre o cenário de fundo estadunidense e o brasileiro, ou seja, a campanha e o governo de Donald Trump e de Bolsonaro, pois, se fossem criações literárias estariam classificadas como distopias. O livro cita um comercial da CNN que mostra a foto de uma maçã e a voz de um narrador que afirma: “Isto é uma maçã. Algumas pessoas vão tentar dizer que é uma banana. Talvez elas gritem repetidas vezes: ‘banana, banana, banana’. Talvez elas escrevam BANANA em letras maiúsculas. Talvez você até mesmo comece a acreditar que é uma banana. Mas não é. Isto é uma maçã.” Sobre isso, a autora cita a frase do ex-senador Daniel Patrick Moynihan: “Todo mundo tem direito de ter suas próprias opiniões, mas, não seus próprios fatos”.

Vivemos um momento em que uma parcela da sociedade acredita que não há história, nem ciência ou verdade, tudo é mera opinião. Verdades científicas passaram a ser contestadas tendo como argumentação o senso comum. Se a soma de dois mais dois é igual a quatro e do ponto de vista restrito da matemática isto é uma verdade universal inquestionável. Apontar resultado diferente soaria ridículo, porém, não faltam pessoas a falsear a história, a verdade e a apontar a extensa pesquisa de intelectuais como mera opinião. O intelectual lê centenas de artigos e livros, não raro dedica toda sua vida para entender um objeto de estudo, e, um sujeito que não leu mais que gibis em sua adolescência e revistas/sites de fofoca na idade adulta, sentindo-se empoderado pelo computador/celular ligado à Internet o contrapõe sentindo-se o dono da única verdade. A dele!  Não é à toa que temos os terraplanistas, os negadores do holocausto, do aquecimento global, da evolução das espécies, ou ainda, os que afirmam que o nazismo era de esquerda, que os governos petistas (neoliberais) instalaram o socialismo no país e quebraram o Brasil, quando à luz da razão não é possível afirmar nada disso. Nas palavras de Umberto Eco (1932-2016): “a Internet deu voz a uma legião de imbecis com o mesmo direito à fala que um ganhador do prêmio Nobel e promoveu o idiota da aldeia a portador da verdade.”

             As pessoas se isolam dentro de suas comunidades virtuais das redes sociais, conversam geralmente com as pessoas que pensam de igual forma e, escolhem no supermercado midiático a “versão” da verdade que lhe é mais palatável. Quando há o encontro com aquele que tem uma opinião divergente, os insultos ocupam o lugar da argumentação e, quando esta se realiza, demonstra a pobreza intelectual característica de quem despreza a razão. Há na atualidade um desprezo à ciência, à universidade, aos professores, ao poder Judiciário, à imprensa livre. Trump nos Estados Unidos profere a média de 7,6 mentiras diárias e ataca as instituições (a imprensa, o poder legislativo, o poder judiciário, etc.) e nega a veracidade de dados oficiais. Segundo Kakutani isto tem erodido fortemente a democracia estadunidense. Da mesma forma, o clã Bolsonaro age no Brasil. O filho do presidente (Eduardo Bolsonaro) afirmou que bastava um jipe e um soldado cabo para fechar o Supremo Tribunal Federal, recentemente afirmou que um novo AI-5 seria a resposta caso as ruas fossem tomadas pela oposição. Não há uma pesquisa sobre quantas mentiras o presidente brasileiro conta diariamente, mas, é por todos sabido a sua prática de culpar a imprensa alegando ter sido mal interpretado, ou ainda, por se desculpar à tarde ou à noite pelo que disse de manhã.

Tanto Trump como Bolsonaro utilizaram em suas campanhas frases curtas exortando valores tradicionais, além do medo e do ódio, e, fizeram uso de fake news direcionadas por bots a um público específico previamente selecionado pela inteligência artificial. Steve Bannon, a mente por trás da Cambridge Analytica ajudou a eleger Trump e tem ligações com o clã Bolsonaro. A Cambridge Analytica trabalha com mineração de dados e a divulgação de mensagens específicas por meios de bots que interagem como se humanos fossem com as pessoas escolhidas reforçando nelas ideias e convicções pré-constatadas dentre elas o medo e o ódio ao imigrante nos Estados Unidos, e o medo e o ódio aos comunistas, aos petistas, aos esquerdistas no Brasil. Kakutani fala em seu livro que as eleições que elegeram Trump foram influenciadas pela Rússia por meios cibernéticos ao disseminar fake news contra Hillary Clinton e promover Trump por meio da disseminação de mensagens sobre questões como imigração, religião e raça visando ampliar a divisão entre os eleitores que não têm o hábito de averiguar a autenticidade da informação. Segundo Kakutani, o alvo ideal das fake news não é o fascista convicto ou o comunista, mas, o cidadão comum, que não tem o hábito de checar a veracidade da informação que recebe e que, assim pode ter sua visão de mundo moldada conforme desejam os manipuladores. Triste época! Concluo indicando fortemente a leitura desta obra!

Sugestão de boa leitura:

 

Título: A morte da verdade: notas sobre a mentira na era Trump.

Autor: Michiko Kakutani.

Editora: Intrínseca, 2018, 270 p.

Preço: R$ 19,90 – R$ 23,90.

O corcunda de Notre Dame

No dia 15 de abril deste ano, os jornais divulgaram o enorme incêndio que atingiu a catedral de Notre Dame em Paris, cujas consequências não foram ainda maiores devido à eficiência do corpo de bombeiros que evitou que o edifício colapsasse. Essa mesma catedral conquistou fama internacional devido à obra do escritor francês Victor-Marie Hugo (1802-1885). É também graças ao célebre escritor que a catedral não veio abaixo quando várias outras construções históricas foram desmanchadas para dar lugar à modernidade, seja na forma de prédios ou de avenidas mais largas. Aliás, Victor Hugo, não se conformava com a modernização de Paris estar sendo feita colocando abaixo edifícios que em seu ver constituíam monumentos históricos e arquitetônicos insubstituíveis. Vitor Hugo foi um romancista, poeta, dramaturgo, ensaísta, artista, estadista e ativista pelos direitos humanos. Em sua grandiosa obra, destacam-se os livros: Os miseráveis (1862) e O corcunda de Notre Dame (1831) publicado originalmente com o título Notre Dame – Paris, 1482. Em muitos países, a obra é publicada com este título, porém, com a supressão da data. Por questões comerciais, em vários países o corcunda foi alçado ao papel principal, porém, há várias personagens principais na obra, o arquidiácono Claude Frollo, o corcunda Quasímodo, a cigana Esmeralda, o ator e escritor de peças teatrais Gringoire, o comandante militar Phoebus, a reclusa Gudule, porém, a personagem principal é a Catedral de Notre Dame, pois, é sobre ela e o seu entorno no qual se desenvolve a trama que Hugo após fazer uma grande pesquisa histórica buscou retratar.

            Na obra em questão, Hugo busca mostrar uma faceta da sociedade parisiense no período medieval. Visa também mostrar que, inversamente ao que se pensa, o medievo foi um período de produções filosóficas e artísticas importantes. Na obra, o autor parece nos conduzir pela mão em meio às ruas de Paris daquele longínquo ano de 1482, algo que o era até para ele, pois, viveu no século XIX. A riqueza de detalhes com que descreve as ruas de Paris e os prédios que havia, os quais sequer chegou a conhecer, torna evidente a esmerada pesquisa que realizou. O detalhismo com que descreve a Paris de 1482 pode se tornar cansativa para alguns leitores, para outros, como é o meu caso, trata-se de puro deleite, pois, ao ler, as imagens se formam na mente como se lá estivesse caminhando e sendo apresentado à cidade por Victor Hugo. É certo que Hugo procurou descrever minuciosamente a arquitetura da Paris de 1482, pois, sabia que diante da destruição de muitas maravilhas arquitetônicas, resgatá-las em sua obra constituía a única forma de fazer com que elas não caíssem no esquecimento total. Dessa forma, descreveu em detalhes as mudanças pela qual a catedral de Notre Dame passou por causa de saques e reformas mal feitas devido o descaso e despreparo dos profissionais nela envolvidos visando registrar para a posteridade o significado arquitetônico e cultural para a humanidade da catedral construída entre 1163 a 1345 que mescla o estilo gótico e românico.

Na obra, Hugo mostra a divisão da Paris de 1482 (que ainda pode ser facilmente localizada na planta da Paris atual) em três partes que simbolizavam também a divisão de poderes da época: a Île de La Cité (ilha onde fica a catedral e que simbolizava a Igreja Católica), a Université (onde até hoje ficam antigas e famosas universidades como a Sorbonne) e, a Ville (que representava a Coroa) e também onde ficavam os senhores feudais (o rei não tinha o poder absoluto sobre a cidade). No meio, espremidas e oprimidas ficavam as pessoas comuns. Como o livro tinha objetivo comercial, afinal, se tratava da encomenda de uma obra sobre o medievo feita pelo seu editor, Hugo, bem ao seu estilo, não deixou de fazer uma crítica social à Igreja e à Coroa, enfim, ao sistema social vigente e as injustiças dele resultantes, porém, incluiu na trama um sacerdote angustiado pelos votos de castidade feitos a Deus e o desejo ardente que sente pela bela cigana Esmeralda, por quem também, o corcunda se apaixona, esta por sua vez se apaixona por Phoebus, um militar. As personagens construídas por Hugo na obras são complexas. Dom Claude Frollo é gentil, caridoso, porém, também egoísta e violento. Quasímodo, o corcunda, não é a mera personificação da beleza interior num corpo feio, pois, apresenta uma personalidade que é também sombria. Phoebus é mulherengo e superficial. Gringoire é talentoso, mas, também tolo. Enfim, se você for ler a obra esqueça o desenho animado dos estúdios Disney, Victor Hugo era adepto do realismo e, portanto, em sua obra não há final feliz, muito pelo contrário. Também, no filme que assisti por meio do You Tube constatei que a adaptação apresenta muitos reducionismos, simplificações e omissões de personagens que considero importantes, além de reinterpretações de algumas passagens da obra de Hugo, mesmo assim, vale assistir para ter uma ideia geral, porém, tendo em mente que o livro é muitíssimo melhor.

Sugestão de boa leitura:

Título: O corcunda de Notre Dame.

Autor: Victor Hugo.

Editora: Zahar, 2015, 621 p.

Preço: R$ 30,99 – R$ 54,90.

Lula é antes de tudo um forte! Parte 2

Na condição de parlamentar, Lula percebeu que as mudanças que a classe trabalhadora precisava somente viriam quando esta chegasse ao Planalto. Candidatou-se em 1989 e foi derrotado por Fernando Collor numa das eleições mais sujas da história. Collor foi apoiado pela grande mídia capitaneada pela Rede Globo. E o império midiático não hesitou em utilizar de todas as artimanhas possíveis, mesmo as mais grotescas com vistas a derrotá-lo e eleger o seu candidato. A chantagem da elite capitalista ameaçando fechar empresas e retirar o capital do país também teve grande importância. Mas a estratégia mais sórdida sempre foi causar medo na população menos culta da sociedade, lançando o que hoje chamamos de “fake news” de que as pessoas teriam que dividir seus bens com os que nada possuem. A Globo editou o último debate entre os contendores, levando ao ar os melhores momentos de Collor e os piores de Lula. Como se não bastasse, o programa eleitoral de Collor levou uma fake news ao ar na sua última edição e este contando com a participação de sua ex-namorada (com quem teve a filha Luriam) que afirmava que Lula queria que ela fizesse aborto. Lula somente conseguiu desmentir essa versão após a eleição, porém, o estrago já estava feito. Após a derrota, Lula foi chamado a dar palestra na França, sendo que recebeu passagem de primeira classe para a viagem. No avião, a aeromoça lhe ofereceu o cardápio e, dentre as opções, ele pediu caviar. A aeromoça, então disse: Seu Lula, se o povo brasileiro visse o senhor pedindo caviar, queria ver como o senhor iria explicar..., Lula irritado, interrompeu e disse: escuta aqui aeromoça, tem virado de feijão? E ela respondeu que não, e Lula disse: então traga o caviar e pára de encher o saco!

Nas eleições de 1994 e 1998 Lula perdeu a eleição para FHC que se auto-intitulou de forma farsesca como o pai do Plano Real e como a única garantia de sua manutenção. Como a Constituição Federal não permitia a reeleição, FHC conseguiu aprovar em benefício próprio uma emenda constitucional para permitir sua candidatura à reeleição em 1998. Houve denúncias, inclusive com fartas provas da compra de votos de parlamentares, mas, com a maioria no Congresso ficou por isso mesmo, o Judiciário também não se moveu em direção ao que dele sempre se espera e nem sempre se logra conseguir. O povo exausto da hiperinflação herdada do regime militar e dos fracassos anteriores em domá-la sentiu-se refém do medo e concedeu a FHC outra vitória. Após três derrotas consecutivas, não faltavam pessoas a aconselhar Lula a candidatar-se a outro cargo. E a estes respondia que somente se candidataria a presidente. E em 2002, após redigir a Carta ao Povo Brasileiro, Lula se elegeu no dia do seu aniversário de 57 anos (27/10/2002). Não sem muitas demonstrações de ódio e preconceito quanto a sua origem humilde por parte da grande mídia e de parcela da classe média, porém, sua posse foi em tom festivo e com grande participação popular como jamais visto no país. Sua eleição se deveu em grande parte à péssima gestão de FHC em seu segundo mandato que começou com a maxidesvalorização do real, o baixo crescimento econômico, a submissão ao FMI e culminou com o apagão energético de 2001, pois, no afã de tudo privatizar, seu governo não fez o dever de casa planejando o aumento da oferta de energia com novas unidades geradoras. O pífio segundo mandato de FHC levou o povo a desejar mudança e Lula representava essa mudança. Tendo sido muito criticado por sua aliança com partidos e políticos conservadores durante seu governo afirmou: “se Jesus viesse para cá, e Judas tivesse votação num partido qualquer, Jesus teria de chamar Judas para fazer coalizão”. No seu discurso de diplomação fortemente emocionado disse: “E eu, que durante tantas vezes fui acusado de não ter um diploma superior, ganho o meu primeiro diploma, o diploma de presidente da República de meu país”.

            Seu governo obteve sucesso na área econômica, porém, foi criticado pelo excessivo conservadorismo, houve quem o considerasse um traidor da classe trabalhadora ao não romper com o sistema neoliberal que, sabemos tem no sistema financeiro sua ponta de lança, embora em sua “Carta ao Povo Brasileiro” já deixasse evidente que não romperia. Sua política econômica ficou conhecida como “ganha-ganha”, pois acreditava que todos poderiam ganhar juntos. Sua ingenuidade se demonstrou ao acreditar nessa utópica conciliação de classes, pois, ignorou a mentalidade escravocrata de nossas elites, segundo a qual ganhar dinheiro é importante, porém, manter a separação entre a Casa Grande e a Senzala é ainda mais. Mesmo assim, na área social criou importantes programas como o Fome Zero e o Bolsa Família (que retiraram o Brasil do Mapa da Fome da ONU) sendo que este último nada tem a ver com os programas sociais de FHC no que concerne ao montante de recursos e de famílias beneficiada.

Lula é antes de tudo um forte! Parte 1

Costuma-se dizer que as adversidades forçam as pessoas a se superarem. Nada é mais verdadeiro quando se fala de Lula. Luís Inácio “Lula” da Silva nasceu a 27 de outubro de 1945 em Caetés (então distrito de Garanhuns em Pernambuco). A localidade conhecida nacionalmente como uma das mais pobres do Brasil. Sétimo filho de um total de oito do casal Aristides Inácio da Silva e Eurídice Ferreira de Melo. A poucos dias do nascimento de Lula, seu pai deixou dona Eurídice e migrou para a região sudeste para trabalhar como estivador no Porto de Santos. Porém, levou uma prima de Eurídice com quem constituiu nova família. Contando as duas famílias, Lula teve mais de vinte irmãos (alguns já morreram).

            Dona Lindu (apelido de dona Eurídice) sozinha segurou o rojão, cuidou dos filhos e estimulado por seu filho Jaime que tinha ido morar com o pai no litoral paulista resolveu embarcar num “pau de arara” com os filhos e deixar a seca e a miséria de Caetés para trás. No início as duas famílias conviveram juntas, mas, a agressividade com que o pai de Lula tratava seus filhos levou Dona Lindu a mudar-se para uma casa que de tão precária, o telhado desabou. Aos sete anos Lula vendia laranjas e retirava lenha, mariscos e caranguejos do mangue. Alfabetizado por insistência de sua mãe, pois, seu pai não queria que os filhos estudassem, na opinião dele os filhos deveriam trabalhar. Quando a família mudou-se para São Paulo perderam o contato com o pai. Em São Paulo foi engraxate e auxiliar de escritório. Na escola do SENAI fez o curso de tornearia mecânica e quando trabalhava numa siderúrgica que produzia parafusos esmagou seu dedo mínimo que precisou ser amputado. O seguro contra acidentes de trabalho da empresa lhe possibilitou comprar móveis e um terreno para sua mãe, mas não o livrou de desenvolver complexo psicológico que após alguns anos superou.

            Em 1965 ficou muito tempo desempregado e para sobreviver teve que fazer “bicos” (trabalhos eventuais). Adorava jogar futebol, mas, era resistente a participar de sindicatos. Seu irmão Frei Chico queria que entrasse para a militância sindical e também para o “partidão” como era chamado o PCB (Partido Comunista Brasileiro). Lula resistia, pois, tinha uma visão negativa do sindicato e da política. No entanto, apesar de sua inexperiência sindical todos notavam o carisma e o espírito de liderança de Lula. Como diz o adágio: “água mole em pedra dura, tanto bate até que fura”, Frei Chico o convenceu a participar da chapa, eleito, foi picado pelo "bichinho da militância” e passou a disputar novas eleições, sendo que a cada eleição galgava novas posições dentro do sindicato até o dia em que chegou à presidência do Sindicato dos Metalúrgicos do ABC. Como presidente do sindicato foi orientado a esperar o fim da ditadura militar para promover greves, discordou, afirmando que a greve não podia esperar até que o país voltasse à democracia. Em certa feita, agentes da ditadura cortaram o som e Lula no alto de um palanque improvisado falava frases curtas que eram repetidas pelos grevistas para os que se encontravam mais distante dele. Por liderar greves no final dos anos 1970 e início dos anos 1980 foi processado e preso com base na Lei de Segurança Nacional. Ao receber o comunicado de prisão acendeu um cigarro e entrou resignadamente na viatura. Foi condenado a três anos e meio de prisão por incitação à desordem coletiva (como o governo da ditadura entendia as greves), recorreu e foi absolvido no ano seguinte. Nessa época tomou conhecimento da morte de seu pai que, no entanto, já havia sido enterrado como indigente há vários dias.

            Na condição de sindicalista percebeu que o poder do sindicato não era suficiente para melhorar as condições de vida da classe trabalhadora, era necessário disputar o poder político e, a pré-condição era criar um partido político comprometido com a classe trabalhadora. Líderes do MDB (Movimento Democrático Brasileiro) dentre eles, Ulysses Guimarães o convidaram para filiar-se, mas, ele resistiu afirmando que desejava criar um partido da classe trabalhadora. Ulysses lhe disse que fundar um partido era trabalhoso e fazê-lo ter alcance nacional era muito difícil, porém, Lula não desistiu da ideia e junto a sindicalistas, intelectuais, representantes dos movimentos sociais e católicos militantes da Teologia da Libertação fundou o Partido dos Trabalhadores, hoje o partido brasileiro com o maior número de filiados e o segundo maior do mundo.  Como dirigente sindical, Lula ganhou projeção nacional e foi um dos personagens centrais na campanha pelas Diretas Já, cuja Emenda Constitucional Dante de Oliveira acabou sendo derrotada pela máquina da ditadura militar. A eleição seria novamente indireta. Em 1986, Lula foi à época o deputado federal mais votado e trabalhou na construção da Carta Magna.

           

Ler é um ato político!

E Lula consegue a cada manhã ser maior e melhor do que no dia anterior. A carta que aqui posto mostra a dimensão e estatura do estadista nato e ser humano ímpar que ele é. Lula livre! Lula vale a luta! (Palavras de Sostines Sabino que assino embaixo)!

Impedido de ir ao Salão do Livro Político (que ocorreu em maio deste ano) em São Paulo, para o qual foi convidado desde o ano passado, Lula enviou a Ivana Jenkings, editora da Boitempo, uma carta, que foi lida na cerimônia de abertura da quinta edição do evento.

A carta é linda...

"Ler é um ato político. Não é por acaso que nossos adversários, ao mesmo tempo que tentam criminalizar a política e impedir toda e qualquer forma de ativismo, atacam com tanto ódio o saber e o conhecimento. Querem mais armas e menos livros. Mais jovens presos e abatidos por disparos de helicópteros, do que com acesso ao ensino público de qualidade. Disparam sua artilharia pesada contra a educação como um todo, e a universidade em especial. Agridem a ciência, estrangulam a pesquisa. Ler é resistir. E nós resistimos nas trincheiras cavadas com tanta garra e tanto carinho por gente que nem Paulo Freire, Darcy Ribeiro, Anísio Teixeira e cada professora e cada professor anônimo deste país, que nossos adversários tentam inutilmente destruir. E nós resistimos, porque a vida nos ensinou, e porque aprendemos com nossos mestres.

Nossos adversários odeiam o fato de termos criado mais universidades e institutos tecnológicos do que todos os que governaram antes de nós. Distribuímos bolsas de estudo, garantimos acesso ao crédito estudantil e colocamos jovens negros e pobres no ensino superior como nunca antes na história. Criamos políticas públicas de acesso ao livro e à leitura e espalhamos bibliotecas pelo país afora. A educação foi e será sempre a nossa maior riqueza e a nossa principal forma de resistência. É por isso que nossos adversários se surpreendem e se assustam quando uma juventude esclarecida enche as ruas em defesa da educação, lutando contra os retrocessos de um governo que tem o povo brasileiro como seu principal e mais temido inimigo.

Ler é ser livre. Estou há mais de um ano preso pelo “crime” de sonhar e trabalhar pela construção de um país onde um pai de família não fosse mais obrigado a escolher entre comprar um pão ou um caderno para seus filhos. Onde uma mãe de família não tivesse que partir um lápis no meio para que seus filhos pudessem estudar. Por esse “crime” estou preso, e, no entanto, mais livre do que nunca, graças aos livros e à leitura. Nestes 13 meses de quase solidão – não fossem as visitas de parentes e amigos e o carinho da incansável vigília na porta do cárcere em Curitiba – tenho lido muitos livros. Cavalguei com Riobaldo e Diadorim pelas veredas do grande sertão de Guimarães Rosa. Cruzei o Atlântico em navio negreiro ao lado de Luísa Mahin, no extraordinário romance Um defeito de cor, de Ana Maria Gonçalves.

Navego nas águas da ficção, mas tenho, sobretudo, me dedicado aos livros dito políticos – com a ressalva de que se ler é um ato político, todo livro é político, seja ele de poesia, romance, contos, filosofia, sociologia, economia ou ciências políticas.

Mas é o livro propriamente político, razão de ser desse Salão, que quero saudar agora. É principalmente graças aos livros que, quando a justiça for restaurada neste país, sairei da prisão sabendo mais do que quando entrei.

Um abraço a todos e todas, e viva o livro!

Luiz Inácio Lula da Mayara Gomes Silva

Fonte: Página de Sostines Sabino no Facebook; também disponível no site da Boitempo: https://blogdaboitempo.com.br/2019/05/27/lula-ler-e-um-ato-politico/

 

Fogo Morto

José Lins do Rego (José Lins do Rego Cavalcanti) nasceu em Engenho Corredor, na Paraíba, em três de junho de 1901 e, faleceu no Rio de Janeiro, a doze de setembro de 1957. Dentro do que se esperava de um filho da elite rural nordestina estudou e formou-se em Direito. Colaborou no Jornal do Recife e, em 1922, fundou o semanário Dom Casmurro. O tempo que passou em Recife possibilitou-lhe laços de amizade com várias personalidades que influenciaram sua carreira na literatura, dentre elas, Gilberto Freire. José Lins do Rego ainda muito jovem revelou seu talento para a literatura. A obra de José Lins traz em seu bojo, as origens das diferentes gerações de sua família ligada ao mundo rural do nordeste açucareiro. No Brasil poucos escritores conseguiram/conseguem viver apenas dos rendimentos de sua literatura. José Lins não escapou a essa regra e, trabalhou por pouco tempo como promotor, fiscal de bancos e, fiscal do imposto de consumo. Colaborou em vários periódicos com crônicas diárias. Quando morou em Maceió, tornou-se colaborador do Jornal de Alagoas e passou a fazer parte do grupo de Graciliano Ramos, Raquel de Queirós, Aurélio Buarque de Holanda e outros. Ali publicou seu primeiro livro, Menino de engenho (1932), obra considerada de fundamental importância na história do moderno romance brasileiro e que lhe rendeu o Prêmio da Fundação Graça Aranha. Sua paixão pelo esporte (torcedor do Flamengo) o levou a ocupar o cargo de secretário-geral da Confederação Brasileira de Desportos (1942 a 1954). Em certa ocasião, ao falar de sua literatura, afirmou “[...] meu futebol é de primeira. Eu não uso a bola para fazer bailado. Eu a atiro ao primeiro golpe e, se não chego a realizar uma jogada com perfeição, não comprometo, por outro lado, a eficiência do meu time”.

José Lins do Rego se popularizou como um romancista da decadência dos senhores de engenhos e tinha como característica escrever com grande agilidade, apesar de dizer a todos que o ato de escrever era difícil. A matéria-prima de suas obras estava nas memórias e reminiscências (vividas e internalizadas pela transmissão oral por seus predecessores) de um sistema econômico de origem patriarcal, com o trabalho semi-escravo do eito, ao lado de outro aspecto importante da vida nordestina, o cangaço e o misticismo. O conjunto de sua obra pode ser classificado em três tópicos: 1. O ciclo da cana-de-açúcar, com Menino do Engenho, Doidinho, Banguê, Usina e Fogo Morto; 2. O ciclo do cangaço, misticismo e seca, com Pedra Bonita e Cangaceiros; 3. Obras independentes com ligações nos dois ciclos: O moleque Ricardo, Pureza e Riacho Doce; e desligadas dos ciclos: Água-mãe e Eurídice. Sua carreira como literato o lançou à “imortalidade” como membro eleito da Academia Brasileira de Letras – ABL. José Lins tentou produzir obras desligadas dos temas que o popularizaram, porém, como assinalou Manuel Bandeira: “era um motor que só funcionava bem queimando bagaço de cana”.

A obra Fogo Morto (1943) é dividida em três partes. A primeira parte tem como personagem principal, o mestre José Amaro. José Amaro é um seleiro que mora com sua esposa e filha nas terras do Coronel Lula, proprietário do Engenho Santa Fé. O mestre é muito habilidoso no seu ofício. José Amaro tem uma língua ferina e, aponta deficiências no caráter de quase todos, ao mesmo tempo em que afirma ser um homem correto e independente. Também se mostra decepcionado com a vida e com a família. Entre as suas decepções está fato de que não teve um filho homem para ensinar-lhe os rudimentos da profissão. Sua filha não conseguiu se casar e com o passar do tempo enlouquece. O Coronel Lula manda que se retire de suas terras, sua esposa o abandona e, sua vida passa a ser de lamentos e ideias de vingança contra o negro Floripes, o causador do desentendimento dele com o senhor de engenho. A segunda parte tem como título “o engenho de seu Lula”. O Engenho Santa Fé criado por seu Tomás Cabral de Melo e Dona Mariquinha, apesar de ser pequeno se comparado aos engenhos vizinhos, tem grande produtividade com o empenho pessoal de seus proprietários. O casal tem duas filhas, Amélia e Olívia. Amélia, refinada, estudou na capital, nas melhores escolas. Olívia seguia o mesmo roteiro, porém, enlouqueceu. Passa o tempo e, não aparece um pretendente à altura de Amélia. Surge então Luis Cesar de Holanda Chacon, órfão de pai, morador da cidade grande, possuidor de grande orgulho de suas raízes familiares, mas, sem nenhum dinheiro. Casa-se com Dona Amélia, mas, para a decepção de seu Tomás, não tem nenhum interesse em aprender a administrar o engenho e dedica-se apenas a ler jornais. Com a morte de seu Tomás, seu Lula tenta tomar para si o engenho, mas, Dona Mariquinha consegue na Justiça o direito de administrá-lo. Seu Lula e Dona Amélia, têm uma filha. Seu Lula, nega a Dona Mariquinha, o contato com a netinha. Dona Mariquinha morre, seu Lula passa a administrar o engenho, mas, sua inaptidão é tão grande que sua esposa sente vontade de tomar a tarefa para si, mas, não o faz afinal, Lula é o homem, poderia não gostar. O Engenho entra em decadência e eles vão ficando cada vez mais pobres. A terceira parte trata do Capitão Vitorino, homem que costuma fazer bravatas, mas, que não é levado muito a sério, sendo que até os moleques, ao passar por ele gritam “papa-rabo”, apelido que recebeu por ter o costume de cortar o rabo de alguns de seus animais. Capitão Vitorino tem interesse na política, é da oposição e se coloca em defesa dos mais fracos. Apesar de inofensivo, apanha da polícia e, é preso por suas atitudes insolentes perante o Tenente Maurício, que se encontra na região para eliminar a ação de cangaceiros do bando do Capitão Antonio Silvino. Mais, não posso falar, sob pena de estragar a sua leitura caso assim deseje.

Sugestão de boa leitura:

Título: Fogo Morto.

Autor: José Lins do Rego.

Editora: José Olympio, São Paulo, 2014, 77ª edição, 414 p.

Preço: R$ 38,80 (capa comum).

Nerje: Laranjeiras do Sul

Neste momento em que escrevo estas linhas, me assalta a mente o pensamento de que deveria ter escrito sobre esta obra há mais tempo. Quisera não estar escrevendo acerca da mesma pelas circunstâncias que o destino implacável sempre acaba por impor. Laranjeiras do Sul e região perderam uma pessoa que valorizava a cultura popular e a história regional como poucos, e que inconformado ao ver as sombras que pairavam sobre os momentos fundantes de nossa região, ou nas palavras do saudoso e inesquecível João Olivir Camargo, “as raízes da nossa terra” resolveu “desenterrar” a nossa história pesquisando os poucos documentos restantes e, ouvindo testemunhas oculares dos fatos aqui ocorridos. Sou um feliz proprietário de um exemplar de seu livro “Nerje: Laranjeiras do Sul” publicado em 1999. A obra não teve reimpressão, o que causa o lamento de pessoas que conheço que afirmaram querer um exemplar. Sob outras circunstâncias que não as ditadas pelo destino, antes de escrever sobre sua obra, faria a releitura, tendo em vista tê-la lido há muito tempo.

João Olivir Camargo foi radialista, colunista e historiador. Mantinha no Jornal Correio do Povo do Paraná a coluna intitulada “O Ponto do Conto” em que relembrava fatos pitorescos ocorridos na região envolvendo personagens que marcaram tempos passados de nossa terrinha. Tratava-se de uma leitura descontraída tão necessária em tempos angustiantes como os que vivemos, pois, resgatava e valorizava a cultura popular. Como radialista, João Olivir iniciou sua carreira na Rádio Educadora na década de 1960. Como historiador, sempre que convidado, se dispunha a dar palestras aos estudantes sobre a história de Laranjeiras do Sul e região. Mesmo que seu livro, cuja abordagem metodológica, seja alvo de críticas por alguns historiadores, ainda assim, trata-se de obra pioneira, e que cumpriu seu papel de lançar luzes ao passado histórico da região, cujo desconhecimento era marcante por parte da população residente.

Em seu livro, João Olivir, inicia discorrendo sobre o Tratado de Tordesilhas, o qual colocava estas terras como pertencentes à Coroa Espanhola e acerca da passagem de padres jesuítas que mantiveram os primeiros contatos com os indígenas locais. Trata das bandeiras preadoras que tinham como objetivo a captura de indígenas para a escravatura. Também relata que esta região era terra de degredo, pois, após o rio Boca da Mata, atual rio Cavernoso, iniciava a selva. Guarapuava constituía o último núcleo de civilização. José Nogueira do Amaral, o pioneiro de Laranjeiras do Sul, morador de São Paulo (o Paraná era parte da Província de São Paulo), atocaiado por dois vizinhos de propriedade por motivos de divisas de terras, deu cabo dos dois e foi condenado à morte pela forca, mas teve sua pena comutada para degredo perpétuo, vindo a ser abandonado nestas terras com a condição de não mais voltar à “civilização”. Como degredado, inicialmente procurou evitar contato com os indígenas bravios que havia na região, mas, o tempo provou isso não ser possível, porém, como alguns índios sabiam falar português devido ao contato com religiosos que percorreram a região, explicou-lhes ter sido expulso pelos brancos e, com o tempo ganhou a simpatia dos indígenas. Algum tempo depois, sua família veio residir na região, embora consentida, a vinda de sua família a região causou certa animosidade aos habitantes nativos. Com o tempo vieram outras famílias e os choques com os índios se tornaram comuns. O livro discorre sobre as famílias pioneiras, as atividades comerciais e militares na região. Também faz o registro do tempo em que sob o nome de “Iguassú”, Laranjeiras do Sul foi a capital do Território Federal de mesmo nome. A obra após relatar a gigantesca área inicialmente formada pelo município de Laranjeiras do Sul, explica a formação dos novos municípios dele desmembrados. O livro traz também imprescindíveis imagens de época.

Em nome de todos (as) que valorizam a cultura e a história de nossa região, ao João Olivir Camargo, prestamos a nossa homenagem e gratidão!


Sugestão de boa leitura:

Título: Nerje: Laranjeiras do Sul

Autor: João Olivir Camargo.

Editora: Gráfica e Editora Vicentina Ltda, Curitiba, 1999, 228 p.

Preço: R$59,90 – R$ 69,90 (capa comum)

*Somente dois exemplares (usados) estão disponíveis no site da Estante Virtual – garanta o seu!


 

Ensaio sobre a cegueira

O escritor português José de Souza Saramago (1922-2010) é, até o momento, o único literato em língua portuguesa que teve a honra de ser galardoado com o Prêmio Nobel (1998). José Saramago consagrou-se na literatura quando já vivia a fase madura de sua vida. Filho de camponeses do Ribatejo (Portugal) exerceu diversas profissões antes de se dedicar à literatura. Foi serralheiro, desenhista, funcionário público, editor e jornalista. Dentre outras honrarias, foi ganhador do Prêmio Camões (1995). Publicou várias obras-primas da literatura mundial, merecem destaque: Memorial do Convento (1982), O Ano da Morte de Ricardo Reis (1984), O Evangelho segundo Jesus Cristo (1991), Ensaio sobre a cegueira (1995), O Homem Duplicado (2002), Ensaio sobre a lucidez (2004) e As intermitências da Morte (2005). Saramago, de opiniões e falas tão fortes quanto a literatura que criou, despertou na comunidade internacional sentimentos que vão do amor ao ódio, mas, jamais a indiferença. As polêmicas em que se envolvia era o preço que pagava por ser um pensador original. Não temia nelas se envolver, considerava que a liberdade de expressão era um direito inalienável, tanto que chegou a propor que à Declaração Universal dos Direitos Humanos, deveriam ser acrescidos dois novos artigos que garantissem o direito à dissidência e à heresia.

Este humilde escriba tornou-se uma nova vítima do escritor português, milhões o foram antes. Explico, concluí a leitura de “Ensaio sobre a cegueira”, obra que rendeu o prêmio Nobel de Literatura ao autor que, ao ser entrevistado, afirmou ter desenvolvido a obra, de tal forma, a fazer com que o leitor ao lê-la, sofresse tanto quanto ele, ao escrevê-la. Não sou uma pessoa muito sensível, mas, confesso que ao terminar a leitura da obra, pensei que minha próxima leitura precisa ser leve e que nem o passar do tempo tampouco me fará esquecer a trama dessa obra. Em “Ensaio sobre a cegueira”, Saramago propõe uma sociedade, em que aos poucos, todos vão ficando cegos. Uma cegueira que contraria os manuais da medicina e aparenta ser contagiosa, mas, cujas pessoas afetadas enxergam tudo branco e não escuro. A partir de um motorista que em seu carro espera o sinal abrir, ocasião em que se percebe cego, em meio a buzinas e gritos para que movimentasse seu automóvel. Um homem resolve lhe ajudar, leva-o para seu apartamento, mas, aproveita a ocasião para roubar-lhe o carro. O ladrão de automóveis acaba por ficar cego e é ajudado por um policial que ignorava a atividade criminosa deste. Mais tarde, o policial fica também cego. O primeiro cego (na obra, nenhuma personagem tem nome) auxiliado por sua esposa vai ao oftalmologista e, este nada encontra de anormal em seus olhos. Todas as pessoas presentes no consultório acabam por ficar cegas, inclusive o médico que perde sua visão quando, já em casa, busca nos livros de medicina alguma coisa sobre o estranho “mal branco”. A única pessoa a não perder a visão é a esposa do médico, que mente estar também cega para ir com este ao edifício abandonado do manicômio onde as autoridades da saúde colocam em quarentena as pessoas portadoras da estranha cegueira e aqueles que com eles conviveram e se supõe estarem contagiados e que brevemente irão desenvolver a doença. Para guardar o edifício, o Exército foi convocado, nem por isso os soldados têm menor receio de contrair a doença. Ao sanatório são trazidos diariamente novos doentes. Mas, a doença se alastra e toda a sociedade fica cega, inclusive o governo do país. O caos se instala.

A obra de Saramago tem uma redação que lhe é característica. Parágrafos muitos longos que para alguns autores poderiam ser capítulos. Os diálogos entre as personagens se alternam por meio de vírgulas e não de pontos. Ao compor a personagem da mulher do médico, a única que enxerga, nem por isso, uma privilegiada ante o que vê, o escritor nos lembra da “responsabilidade de ter olhos quando outros o perderam”. Entrevistado, o autor afirmou: “na verdade, somos todos cegos, pois a humanidade vive uma cegueira da razão”. A obra também nos lembra daquele famoso adágio popular: “O pior cego é aquele que não quer ver”. Parafraseando Saramago, no Brasil atual, talvez mais do que em qualquer outro lugar do planeta, os que têm olhos, têm diante de si, a responsabilidade de preservá-los, mas, tal como a esposa do médico, não estão livres de sentir angústias e náuseas, quando as pessoas mutiladas de sua suposta normalidade, mostram a coisa que de fato são e que não possui nome.

Sugestão de boa leitura:

Título: Ensaio sobre a cegueira.

Autor: José Saramago.

Editora: Companhia das Letras, São Paulo, 1995, 79ª reimpressão, 310 p.

Preço: R$ 46,32 (capa comum).