A vista do meu ponto - Osnélio Vailati
Somos sobreviventes!

No último dia de Finados, ao percorrer o cemitério para encontrar os túmulos de meus entes queridos, observei que várias pessoas na minha faixa de idade (inclusive algumas conhecidas) já haviam falecido. Imediatamente lembrei-me de uma mensagem compartilhada em redes sociais que se tornou viral e que mostra produtos, filmes e séries da infância e adolescência de pessoas da minha geração e que afirmava que, aos poucos, estamos saindo de cena, pois, estamos indo embora. Por ocasião das festas de fim de ano, encontrei pessoas que há muito não via, e fiquei surpreso com a forma carinhosa e feliz ao nos revermos. Parecia que ao nos reencontrarmos, saudávamo-nos mutuamente, como que a afirmar: ainda estamos aqui! Somos sobreviventes!

De igual forma, algumas pessoas com as quais convivi, ao me reencontrar nas redes sociais, mostraram estar felizes com isso demonstrando que minha existência não passou despercebida em suas vidas. E isso me surpreendeu positivamente, pois, em alguns casos, considerei que não fiz no tempo de nossa convivência nada de especial para receber tal consideração. Há uma frase popularmente conhecida e que afirma: “a vida começa aos quarenta”. Esta frase, em meu ver, está acertadíssima. É na faixa dos quarenta anos que adquirimos a maturidade, a sabedoria e a consciência acerca de nós mesmos. Aprendemos muito sobre as nossas qualidades e as nossas limitações.

Mas há algo difícil de traduzir em palavras quando atingimos a faixa etária dos cinquenta anos. Ao atingir esta marca, nos tornamos condescendentes com nós mesmos, nos perdoamos pelos erros que cometemos, afinal, somos humanos. Não podemos esperar acertar sempre. Aceitamos as nossas limitações. E passamos a ter orgulho dos fios brancos que aparecem em nosso cabelo. Olhamos para trás, lembramos das expectativas (pessoais/profissionais/materiais) que tínhamos para o momento em que alcançássemos essa idade e, ao constatarmos que muito deixamos de realizar, não nos sentimos frustrados. “Somos o que conseguimos ser” como diz a canção. Não faltaram esforços, mas, como nos diz Marx, “fazemos nossa história não como a queremos, mas, conforme as condições dadas”. Somos eu e você (que compartilha da mesma geração) testemunhas vivas de grandes transformações históricas e tecnológicas que mudaram o Brasil e o mundo. Passamos por dificuldades que nos foram impostas pelo país em que crescemos (autoritarismo, imposição de censura, dificuldades econômicas, inflação galopante, etc.) que a geração do milênio não conhece, pois, apesar do retrocesso que vivemos nos dias atuais, não se compara ao que passamos.

É certo que ao atingir essa idade, sabemos que temos mais passado do que futuro. O corpo começa a dar sinais de que precisa de mais cuidados. Afinal, cuidar tão somente do intelecto e esquecê-lo não contribui para a longevidade, inversamente, abrevia. É difícil traduzir em palavras o sentimento de adentrar na chamada meia idade. É uma mistura de orgulho da pessoa que se conseguiu ser ante as condições dadas. É a sensação de impor à vida uma quinta marcha, rodar mais leve, economizar energia, desfrutar mais do que antes era imperceptível, dar importância ao que realmente importa, não comprando brigas desnecessárias. É ter a consciência de que não irá mudar o mundo conforme pensava em seus arroubos de juventude, mas, que a sociedade e o mundo precisam que tome partido ante os desafios do presente a indicar o caminho para os mais jovens e inexperientes. É saber que, à nossa maneira e ante as condições dadas, contribuímos para que essa sociedade seja um pouco mais humana, solidária e fraterna. Afinal, como disse Robertson Stanley: “É necessário que o mundo depois de ti seja algo melhor, pois, tu viveste nele”.

Convido a todos (as) da minha geração a seguir firmes até os 100!

Milton Santos, cidadão do mundo!

Milton Santos (1926-2001) foi um dos maiores intelectuais do Brasil. Em 1948, formou-se em Direito e, dez anos mais tarde, concluiu o doutorado em Geografia na Universidade de Estrasburgo na França. No governo Janio Quadros foi subchefe da Casa Civil e o propositor original no país do Imposto Sobre Grandes Fortunas - ISGF (jamais discutido e/ou aprovado pelo Congresso Nacional, encontra-se engavetado). Em 1964, presidiu a Comissão Estadual de Planejamento Econômico do Estado da Bahia. Trabalhou como redator do Jornal “A Tarde” de Salvador. Atuou como professor universitário na Universidade Federal da Bahia (UFBA). Ficou conhecido por seu posicionamento ideológico nacionalista. Sua defesa intransigente da democracia e dos interesses nacionais o colocou sob os holofotes do aparelho repressor da ditadura militar (1964-1985). Por suas posições ideológicas, foi preso e demitido da UFBA.

            Obrigado a exilar-se do país, trabalhou como professor na Universidade de Toulouse, Bordeaux e Paris (todas na França). Atuou também na Universidade de Toronto (Canadá), Lima (Peru), Dar Assalaam (Tanzânia), Colúmbia (EUA), Central de Venezuela e Zulia (Venezuela). Retornou ao Brasil em 1977 para lecionar na Universidade de São Paulo (USP). Sua obra é vasta. Milton Santos publicou mais de quarenta livros e trezentos artigos científicos. Recebeu vinte títulos Honoris Causa que lhes foram concedidos por universidades de várias partes do mundo. Foi o primeiro brasileiro a receber um prêmio equivalente ao Nobel, o Prêmio Vautrin Lud, prêmio máximo da Geografia. À época era o único intelectual nascido fora do mundo anglo-saxão a receber tal honraria. Seus livros são estudados especialmente nos departamentos de Geografia, História, Sociologia e Economia de universidades de várias partes do mundo.

            Milton Santos afirmava ser um intelectual outsider, nas palavras dele, não fazia parte de nenhum partido político ou agremiação de intelectuais ou algo parecido. Seu posicionamento expresso em suas falas e obras era fruto tão somente do trabalho incansável de pesquisa e de sua reflexão acerca da realidade vivida. O reconhecimento internacional veio logo, tendo sido consultor da Organização Internacional do Trabalho (OIT), da Organização dos Estados Americanos (OEA), e da Organização das Nações Unidas para a Educação, Ciência e Cultura (UNESCO). Participou também da Comissão Justiça e Paz da Arquidiocese de São Paulo e do Conselho Municipal de Desenvolvimento Urbano da cidade de São Paulo. Além disso, escrevia regularmente na seção 501 d.C. do Mais!

            Nascido a três de maio de 1926 em Brotas de Macaúba, na Chapada Diamantina (BA), era neto de escravos, seus pais foram professores do ensino primário (atual Ensino Fundamental I). Milton Santos foi conscientizado pelos pais acerca da discriminação pela qual certamente passaria na vida e orientado a não desistir. Não foi diferente do que pensavam seus progenitores. Passou por momentos de discriminação racial manifesta e foi obrigado a desistir de cargos de liderança em instituições cuja tradição reservava aos brancos tais postos. Sobre isso afirmou: “Ser negro no Brasil é, pois, com frequência, ser objeto de um olhar enviesado. A chamada boa sociedade parece considerar que há um lugar predeterminado, lá em baixo, para os negros e assim tranquilamente se comporta. Logo, tanto é incômodo haver permanecido na base da pirâmide social quanto haver ‘subido na vida’.”

            Pergunto-me se o caro leitor caso desconhecedor acerca do intelectual Milton Santos o teria imaginado, um velhinho branco de barba e cabelos brancos. Não se constranja, não é prova indesejada de racismo. É a constatação que em nosso país, a discriminação étnica e social impõe obstáculos gigantescos (quase insuperáveis) a quem foge do padrão, ou seja, o indivíduo branco, sexo masculino, heterossexual e rico. A intenção deste artigo além de enaltecer Milton Santos, é o de valorizar o conhecimento científico, os pesquisadores, a escola e a universidade como único caminho para o desenvolvimento nacional, aquém disso, há apenas a escuridão das mentes vazias que ao terem livros em mãos apenas enxergam um amontoado de palavras escritas, sem qualquer significado, por isso levantam a bandeira ideológica da suavização/desideologização e outras mentes igualmente vazias aderem a essa marcha que leva o país ao abismo!          

2019: sobrevivi. Sobrevivestes. Sobreviveremos...

Este é o primeiro artigo do corrente ano. Impossível começar o novo ano sem fazer breves reflexões sobre o ano que passou. Neste espaço muito já falamos que as pessoas desejam sempre um ano melhor, porém, raramente fazem as necessárias mudanças em suas práticas diárias para que ele ocorra. Também já comentamos sobre a visão do intelectual socialista italiano Antonio Gramsci (1891-1937) que considerava a passagem do ano um engodo, uma forma do capitalismo renovar a esperança dos trabalhadores que, a despeito da miséria, da exploração e da opressão sofrida durante todo o ano que finda, acreditam surrealmente na redenção sem que uma revolução aconteça. Gramsci, acertadamente afirmava que o sistema não se interrompe e recomeça a cada novo ano. Os acontecimentos do ano anterior prosseguem influenciando e determinando o que ocorrerá no ano que começa. Mas, seja ópio ou não, ver as luzes de natal, a queima de fogos, os cumprimentos de ano novo entre as pessoas que nos são mais queridas, impossível não se deixar contaminar pelo clima festivo, embora saibamos que muito provavelmente 2019 repetir-se-á nos anos seguintes, pois, há condições determinantes que fogem ao nosso alcance. Podemos mudar atitudes e a forma de encarar obstáculos, mas, haverá sempre as decisões tomadas nos grandes centros de poder que nos afetarão dada a nossa condição subalterna característica da classe trabalhadora.

            Qual é a melhor forma de iniciarmos o novo ano? Acredito que esta época deve ser (como é), para muitos, um momento de reflexão sobre a caminhada realizada no ano que passou, e, se os homens constroem a própria história não como a desejam, mas, com as condições dadas como nos ensinou Karl Marx (1818-1883), também é verdade que se por um lado o pessimismo teórico é inevitável, o otimismo prático deve ser a ferramenta utilizada nos embates diários ao longo do período que se inicia. Afinal, o que foi a vida das gerações de trabalhadores que viveram antes da nossa? Uma rotina de exploração, opressão e condições degradantes de trabalho em meio a relações sociais que sempre lhes impuseram a humilhação por sua condição social, como se subumanos fossem, algo que pouco ou nada mudou com o avançar dos séculos. Apesar disso, os integrantes da classe trabalhadora do passado como da atualidade, nunca deixaram de perseguir suas utopias. No dizer de Eduardo Galeano (1940-2015), “a utopia está lá no horizonte. Aproximo-me dois passos, ela se afasta dois passos. Caminho dez passos e o horizonte corre dez passos. Por mais que eu caminhe, jamais alcançarei. Para que serve a utopia? Serve para isso: para que eu não deixe de caminhar”.

            A conjuntura política e econômica que hoje se apresenta é extremamente lesiva aos interesses da classe trabalhadora. Trabalhador que sou, olho e escrevo tendo como suporte o chão em que piso. Penso ser muito natural que a leitura de meus artigos ou, a consciência acerca da ideologia que me é própria, incomode (a nível psicológico) pessoas reacionárias que buscam conservar seus privilégios quando compartilhamos dos mesmos espaços públicos. No entanto, surrealmente observo que pessoas mais pobres do que eu também defendem grupos políticos cujos projetos têm uma forte ênfase em garantir a eternização dos privilégios de uma minoria que se beneficia do Estado Brasileiro desde os tempos coloniais. É o famigerado pobre de direita. A desgraça nacional. Afinal, como nos disse Simone de Beauvoir (1908-1996): “o opressor não seria tão forte se não houvesse cúmplices entre os oprimidos”.  A esse mesmo respeito, o intelectual e escritor Luis Fernando Veríssimo questionado sobre se era cansativo ser de esquerda ou se seria mais cansativo ainda não ser de esquerda, disse: “talvez ingenuamente, eu não entendo como uma pessoa que enxerga o país à sua volta, vive suas desigualdades sociais e sabe a causa das suas misérias pode não ser de esquerda. Ser de esquerda não é uma opção, é uma decorrência. Mas que às vezes desanima, desanima”. Essa fala faz todo o sentido, afinal somos um país em que as pessoas não sabem o que as ideologias de esquerda e de direita representam. Assim, muita gente vota em candidatos e partidos de direita esperando ser atendidos em reivindicações que constituem a pauta central de preocupações da esquerda e não da direita.

            Segundo o intelectual Jessé Souza, somente duas coisas salvariam o Brasil: consciência de classe e interpretação de texto. É isso que desejo ao povo brasileiro, pois, a redenção do país não virá de cima, o povo precisa estar à altura do país que deseja ter. Não dá para esperar de braços cruzados. É uma construção. Cada um tem que colocar um tijolo. E nenhum prédio fica em pé sem uma base forte. Que em 2020 continuemos alimentando nossas utopias! Feliz Ano Novo!

Capitães de areia

Jorge Amado (1912-2001) nascido Jorge Leal Amado de Faria é o segundo escritor brasileiro de maior número de vendas de livros sendo superado apenas por Paulo Coelho. Jorge Amado é o autor mais adaptado do cinema, do teatro e da televisão brasileira. Sua obra é formada por 49 livros, os quais foram publicados em 80 países e traduzidos para 49 idiomas. Ganhou inúmeros prêmios nacionais e internacionais e foi eleito em 1961 para a Academia Brasileira de Letras. Jorge formou-se em Direito, porém, jamais exerceu a advocacia. Tendo estudado na década de 1930 na Universidade Federal do Rio de Janeiro, tomou conhecimento dos ideais do Partido Comunista Brasileiro (PCB), no qual se filiou, tendo sido eleito deputado federal em 1946. Sua atuação como parlamentar esteve entre outras ações pautadas na defesa da garantia da liberdade religiosa para os cidadãos. Ao se postar ideologicamente à esquerda tanto em suas obras como na política foi obrigado a viver exilado na Argentina, no Uruguai, em Paris e em Praga no período em que Vargas esteve no poder. Jorge Amado era vigiado tanto pela CIA quanto pelos serviços de inteligência da ex-União Soviética. Ao tomar conhecimento das atrocidades praticadas por Stalin na União Soviética, as quais foram reveladas pelo Secretário Geral do PCUS Nikita Krushev, desligou-se do Partido Comunista Brasileiro.

            A obra de Jorge Amado é essencialmente dedicada às raízes nacionais e suas máculas. Sendo assim, nela estão presentes os problemas nacionais e as injustiças sociais, mas, também o folclore, a política, as crenças, as tradições e a sensualidade do povo brasileiro. Dentre os grandes sucessos adaptados para a telinha e para a telona estão Dona Flor e seus dois maridos, Tenda dos milagres, Tieta do Agreste, Gabriela, cravo e canela e Tereza Batista cansada de guerra. Jorge Amado era muito estimado pelo povo baiano, especialmente as pessoas adeptas do sincretismo religioso que tão bem caracteriza a cidade de Salvador. Muito bem relacionado, teve a amizade de grandes nomes da literatura nacional como Érico Veríssimo, Rachel de Queiroz, José Lins do Rego, Graciliano Ramos, Mário de Andrade, Carlos Drummond de Andrade, Monteiro Lobato e Gilberto Freyre. Também trocou correspondências com Pablo Neruda, Gabriel Garcia Marquez e José Saramago.

            Na obra Capitães da Areia (1937) o autor mostra um grupo de meninos de rua que aterroriza Salvador por suas atitudes violentas, brigas de gangue, estupros e principalmente assaltos nas casas e também nas abordagens de cidadãos que tiveram a infelicidade de cruzar seus caminhos. Na trama, o autor repercute ficcionalmente as notícias de jornais acerca destes meninos, mostrando-nos que via de regra a imprensa além de parcial, é também superficial. Nunca discute com profundidade o que levou tais meninos a esta situação e, nem mesmo, qual seria a atitude a ser tomada pelas autoridades para que outras crianças não tenham o mesmo destino. Afinal, na origem, o menor de rua é um algoz ou uma vítima do modelo de sociedade construída? Nesse sentido, Jorge Amado mostra que eles também têm sonhos, muitos ingênuos e, que o grupo acaba por ser a única família verdadeira que tiveram na vida, sendo o líder do grupo uma espécie de pai de todos. A trama conta o destino de seus integrantes, alguns se destacam na sociedade ao serem resgatados e bem encaminhados e, outros têm destinos trágicos. Trata-se de uma excelente obra, por sua criticidade e pela leitura prazerosa que proporciona mesmo tratando de um tema tão complexo. Fica a dica!

Referência:

Wikipedia – disponível em: https://pt.wikipedia.org/wiki/Jorge_Amado - acesso em 27 de dezembro de 2019.

Sugestão de boa leitura:

Título: Capitães da Areia.

Autor: Jorge Amado.

Editora/Ano: Companhia de Bolso, 2008.

Preço: R$ 17,06.

 

Por uma outra globalização (Milton Santos)

Vivemos num mundo confuso e confusamente percebido. De um lado, é abusivamente mencionado o progresso das ciências e das técnicas. De outro lado, há a referência obrigatória à aceleração contemporânea e todas as vertigens que cria, a começar pela própria velocidade. Todos esses são dados de um mundo físico fabricado pelo homem, cuja utilização, aliás, permite que o mundo se torne esse mundo confuso e confusamente percebido. Quando tudo permite imaginar que se tornou possível a criação de um mundo real, o que é imposto aos espíritos é um mundo de fabulações, que se aproveita do alargamento de todos os contextos para consagrar um discurso único. Se desejarmos escapar à crença de que esse mundo é verdadeiro, devemos considerar a existência de pelo menos três mundos num só: o mundo tal como nos fazem vê-lo; o mundo tal como ele é; e o mundo como ele pode ser.

Visto como fábula, este mundo globalizado erige como verdade certo número de fantasias, cuja repetição acaba por se tornar uma base aparentemente sólida de sua interpretação. Fala-se, por exemplo, em aldeia global para fazer crer que a difusão instantânea de notícias realmente informa as pessoas. Fala-se com insistência na morte do Estado, mas o que estamos vendo é seu fortalecimento para atender aos reclamos da finança e de outros grandes interesses internacionais. Esses exemplos, recolhidos numa lista interminável, permitem indagar-se, no lugar do fim da ideologia proclamado pelos que sustentam a bondade dos presentes processos de globalização, não estaríamos, de fato, diante da presença de uma ideologização maciça.

Para a maior parte da humanidade a globalização está se impondo como uma fábrica de perversidades. A pobreza aumenta e as classes médias perdem em qualidade de vida. Novas enfermidades como a SIDA se instalam e velhas doenças fazem seu retorno triunfal. A educação de qualidade é cada vez mais inacessível. A perversidade sistêmica tem relação com a adesão desenfreada aos comportamentos competitivos que atualmente caracterizam as ações hegemônicas. Todas essas mazelas são direta ou indiretamente imputáveis ao presente processo de globalização.

Todavia, podemos pensar na construção de outro mundo, mediante uma globalização mais humana. As bases materiais do período atual (a unicidade da técnica, a convergência dos momentos e o conhecimento do planeta), que o grande capital se apóia para construir a globalização perversa, poderão servir a outros objetivos, se forem postas ao serviço de outros fundamentos sociais e políticos. Parece que as condições históricas do fim do século XX apontavam para esta última possibilidade. Tais novas condições tanto se dão no plano empírico quanto no plano teórico.

No plano empírico há indícios da emergência de uma nova história. O primeiro é a enorme mistura de povos, raças, culturas, gostos, em todos os continentes. A isso se acrescente, graças aos progressos da informação, a “mistura” de filosofias, em detrimento do racionalismo europeu. A produção de uma população aglomerada em áreas cada vez menores permite ainda maior dinamismo àquela mistura entre pessoas e filosofias. No plano teórico, há a possibilidade de produção de um novo discurso. Esse novo discurso ganha relevância pelo fato de que, pela primeira vez na história do homem, se pode constatar a existência de uma universalidade, que deixa de ser apenas uma elaboração abstrata na mente dos filósofos para resultar da experiência ordinária de cada homem. De tal modo, a explicação do acontecer pode ser feita a partir de categorias de uma história concreta. É isso, também, que permite conhecer as possibilidades existentes e escrever uma nova história.

Fonte: Disponível em: http://resumodaobra.com/milton-santos-por-uma-outra-globalizacao-do-pensamento-unico-a-consciencia-universal-introducao-geral/?fb_comment_id=1482850381772338_1809602882430418 – acesso em 20 de dezembro de 2019.

 

                Esta é uma obra imprescindível para entender os grandes dilemas da humanidade. Li, trabalho com ela em classe e recomendo a todas as pessoas!

 

Sugestão de boa leitura:

Título da obra: Por uma outra globalização: do pensamento único à consciência universal.

Autor: Milton Santos.

Editora/ano: Record, 2010.

Preço: R$ 41,20

Ao mestre, com carinho!

Em uma rede social, um post se tornou viral. O post relatava que uma empresa privada que operava vários ramais ferroviários no Japão, decidiu manter funcionando uma estação inviável do ponto de vista do lucro, pois, ali somente uma passageira embarcava e desembarcava diariamente. Uma adolescente que se dirigia a escola e retornava no fim do dia. A decisão altruísta, sensata e admirável da empresa privada japonesa emocionou milhares, talvez milhões de pessoas. A empresa cumpriu um preceito que grande parcela dos empresários finge desconhecer, a responsabilidade social. Esse não é um caso isolado, os japoneses já demonstraram várias vezes atitudes que, ora nos causam inveja, ora nos faz corar de vergonha como povo, dada a nossa falta de educação, respeito e baixo nível cultural. O estudante no Japão é muito valorizado, não à toa, as estudantes costumam utilizar uniformes escolares nos feriados em momentos de lazer. Sabe-se que o imperador japonês não se curva perante nenhuma autoridade nacional ou estrangeira, mas, em várias solenidades diferentes imperadores se curvaram ante professores, como forma de reconhecimento.

            Se no Japão e em outros países, ainda há certo glamour no exercício do magistério. O mesmo não ocorre nestas paragens. No passado, professores tinham o reconhecimento dos pais, dos estudantes e, dia dos professores era uma data em que voltavam carregados de flores, cartões, poesias e presentes de pequeno valor, mas, de grande significância. Todo professor sabe que sem seu trabalho o país para, afinal, todas as profissões dependem dos ensinamentos do velho mestre, do auxiliar de escritório ao empresário, do contínuo ao gerente de banco, do enfermeiro ao médico, do advogado ao juiz, do estudante ao professor. Professor é tão necessário que sem ele, sendo professor de si mesmo, nessa luta abnegada de ensinar a si próprio, de jamais desistir de buscar o conhecimento, de se manter atualizado em um mundo que não conhece o ponto morto e nem possui pedal de freio, o curso da história não seria tal como o conhecemos, mesmo que ele não seja como gostaríamos, pois, sem o professor e a escola, tudo o que resta, é a barbárie.

            Se como disse o poeta: “o que mata um jardim é o olhar indiferente de quem por ele passa”, o que mata o professor é muito mais o desrespeito, a vilanização que se faz dos mestres, acusados dos insucessos dos estudantes sem que a sociedade se dê ao trabalho de refletir sobre as condições de trabalho a eles ofertadas e todas as condicionantes que agem direta ou indiretamente sobre a aprendizagem destes. O reconhecimento público da importância dos mestres sempre foi um bálsamo a aliviar o pesado fardo de quem se dispõe a construir o futuro do país formando seus futuros obreiros. Vivemos um momento em que a escola e a universidade pública são atacadas, pois, não são vistas como direito básico da população, mas, como mercadorias e como tal devem estar nas mãos da iniciativa privada. O surreal é ver quem não dispõe de condições financeiras para custear tais serviços defender sua privatização. As autoridades, salvo raras exceções, não vem a educação pública como investimento, mas, como gasto. Gestões na pasta da educação que visam economizar a qualquer custo e, assim, precarizando as condições de trabalho dos mestres, superlotando salas de aula, fechando turmas e escolas (que não tenham o número ideal de estudantes que é o máximo possível que o espaço comporta), pois, via de regra o número máximo se tornou o mínimo. É de tanto economizar em educação que se constitui a receita do fracasso de um país, e a evidência disso é o retorno das salas multisseriadas no Paraná.

            Neste ano minha escola teve nove professores afastados por estarem doentes (os mestres são acometidos de doenças específicas da profissão), outros trabalham mesmo doentes, para não serem prejudicados em futuras distribuições de aulas. Há alguns dias, um clima de velório tomou conta de minha escola. Questionei colegas professores sobre o estado emocional dos mestres noutras escolas, a resposta foi que a tristeza, a revolta e a sensação de demérito predominou. Nas redes sociais, relatos de mestres revoltados e professoras chorando não foram raros. Alguns estavam à beira da aposentadoria e, terão que trabalhar muito tempo mais. Todos tiveram o seu tempo de contribuição aumentado (cinco anos, 10 anos, ou mais). O que grande parcela da sociedade ignora, é que o fundo de previdência dos professores era auto-sustentável e, os seus recursos eram do funcionalismo público e, não do Governo do Estado. Imagine que você tem uma poupança para a sua velhice, seu patrão lhe desconta parte do salário alegando que irá depositar na sua conta, mas, não o faz e sequer paga a parte que lhe cabe. Depois toma o seu dinheiro da conta para cobrir rombos financeiros da empresa, e, consegue, por meios políticos e judiciais, o perdão desta dívida, fazendo-lhe trabalhar mais e ter uma velhice insegura. Foi isso o que aconteceu em 29 de abril de 2015 e, que foi ratificado agora com a reforma da previdência do Paraná. Quem teve o fundo de aposentadoria saqueado, foi o único a pagar a conta. Hoje, os mestres lamentam trabalhar mais tempo, quando o corpo e a mente não mais aguentam (exaustão emocional, síndrome de bournout, depressão, etc.), e, talvez, você seja indiferente. Amanhã lhe retiram a escola, a universidade e a saúde pública, pois, o projeto que embasa a política levada a cabo na esfera federal e estadual é a mesma, e, você não terá como reagir, pois estava distraído! Aos mestres que tive, aos que terei e, aos que compartilham dessa profissão, o meu reconhecimento!

O morro dos ventos uivantes (com spoiler)

Emily Jane Brontë (1818-1848) foi uma escritora e poetisa britânica. Quinta filha de Patrick Brontë, pastor da Igreja Anglicana, tinha como irmãs Maria e Elizabeth (que faleceram devido à febre tifóide), Charlotte e Anne. Seu único irmão, Patrick Branwell, foi estimulado a desenvolver seus talentos artísticos na pintura. É dele a única pintura que retrata Emily Brontë e suas irmãs Anne e Charlotte. Nesta pintura sobre tela, Branwell também aparecia, porém, dela removeu sua imagem. O irmão de Emily sofria perturbações psicológicas e, acabou por se entregar ao alcoolismo, frustrando as expectativas do pai que desejava vê-lo na Academia de Belas Artes. Charlotte, Emily e Anne escreveram e publicaram romances numa sociedade vitoriana que considerava que a carreira literária era algo destinado aos homens. As irmãs Brontë, a contragosto, tiveram que utilizar pseudônimos masculinos, dessa forma, a publicação original de O Morro dos Ventos Uivantes teve em sua capa o nome de Ellis Bell na autoria. As três irmãs publicaram seus livros utilizando o mesmo sobrenome (Bell).

                Emily, devido à tuberculose, teve sua vida ceifada precocemente (30 anos de idade), porém, isso não a impediu de ter seu único romance publicado incluído na lista dos maiores clássicos da literatura mundial. O livro vendeu relativamente bem desde sua primeira edição, porém, com o passar do tempo suas vendas aumentaram progressivamente. A obra causou grande polêmica na sociedade inglesa, pois, mostrava personagens cujas personalidades eram dúbias, ora gentis, ora perversos. Não foram poucas as vozes a sugerir que todos os exemplares do livro deveriam ser incinerados. Talvez isso se deva ao fato de que a autora, por meio das personagens que criou em sua obra, desmistificou a hipocrisia da sociedade inglesa, ao mostrar que vistos de perto, ninguém ou quase ninguém, tem um espírito realmente bondoso e desinteressado. É ainda mais interessante observar que Emily era reclusa e muito tímida, pouco afeita a dialogar com as pessoas, porém, era autodidata e muito observadora, sendo capaz de traçar um perfil do caráter das pessoas que conhecia e de ler as entrelinhas das suas falas.

O romance “O Morro dos Ventos Uivantes” teve várias adaptações para o cinema e para a TV. O autor destas linhas assistiu a adaptação televisiva de 2009, que, embora razoável, com poucas alterações em relação a trama original, peca na escolha de um ator branco para a personagem principal (Heathcliff) que não condiz com a descrição feita pela autora (pele morena, aparência de cigano). A trama é contada por dois narradores, o inquilino Lockwood da Granja de Thrushcross e a governanta Nelly Dean. Lockwood resolve visitar Heathcliff, que lhe alugou o imóvel e que mora na propriedade vizinha conhecida como o Morro dos Ventos Uivantes. Pretende com tal ato estabelecer relações de amizade, porém, observa que as pessoas da casa são esquisitas e embrutecidas. Uma forte nevasca ocorre e o obriga a ficar na casa, para o desprazer dos seus anfitriões. No dia seguinte, após uma noite mal dormida, Lockwood retorna à casa da granja e começa a questionar a governanta Nelly sobre os estranhos sujeitos da casa do Morro dos Ventos Uivantes. Ela lhe conta que aquela propriedade originalmente era do Casal Earnshaw que tinha como filhos Hindley e Catherine. O Sr. Earnshaw ao voltar de uma viagem trouxe um garoto que vagava pelas ruas sem ter ninguém por ele e resolveu adotá-lo. Deu ao garoto o nome de Heathcliff. O irmão adotivo nunca o aceitou e passou a importuná-lo de todas as formas humilhando-o. Porém, sua irmã Catherine se identificou com ele e tornaram-se excelentes companheiros de travessuras. Quando os irmãos entram na juventude, o Sr. Earnshaw morre, e, Heathcliff perde o seu protetor.

A propriedade passa a ser administrada pelo filho Hindley que passa a tratar o irmão adotivo como um serviçal. Hindley casado com Frances tem um filho chamado Hareton. Catherine e Heathcliff se descobrem apaixonados e ele planeja inúmeras vezes a fuga do casal, porém, ela apesar de amá-lo, tem o sonho de um casamento que lhe faça rica e Heathcliff nada possui, além de que não vê nele o marido que idealiza. Na propriedade vizinha, a Granja Thrushcross mora a rica família Linton. Ao espionar a casa, Catherine é mordida pelo cão de guarda e é atendida por Edgar Linton. Algum tempo depois, Edgar lhe pede em casamento e Catherine pede tempo para pensar. Ao saber disso, Heathcliff fica indignado e vai embora do Morro dos Ventos Uivantes. Algum tempo depois, Heathcliff transformado, retorna com o firme propósito de se vingar de todos que o maltrataram e reaver seu amor, porém, encontra Catherine casada com Edgar Linton, algo com que ele não se conforma.

A volta de Heathcliff mexe com os sentimentos de Catherine que jamais deixou de amá-lo. Heathcliff adquire a propriedade do Morro dos Ventos Uivantes e, se vinga humilhando Hindley e seu filho Hareton de igual forma como fora no passado. Ao perceber que Isabella, irmã de Edgar Linton está por ele apaixonada, convence-a a fugir com ele. Não a ama, mas, deseja ferir Edgar e Catherine, e, se possível, esquecer Catherine. Não consegue e passa a maltratar Isabella que foge de casa, e, diante da recusa de seu irmão em aceitá-la de volta na Granja Thrushcross, muda-se da região. Catherine dá a luz a uma filha de Edgar e morre. A Filha chama-se Catherine (Cathy). Isabella descobre que está grávida de Heathcliff, tem o filho ao qual é dado o nome de Linton e, morre algum tempo depois. Edgar manda buscar o sobrinho, mas, Heathcliff exige que seu filho lhe seja entregue. Edgar Linton, doente, vê Heathcliff estimulando os jovens a se apaixonarem e tenta afastá-los. Edgar morre e Heathcliff planeja se apossar da Granja Thrushcross. Os jovens pressionados por Heathcliff se casam, mas, logo o jovem e doente noivo morre. O testamento estabelece que seu pai Heathcliff é o único herdeiro. Paro por aqui, já dei spoiler demais! Recomendo fortemente a obra!

Sugestão de boa leitura:

Título: O morro dos ventos uivantes.

Autora: Emily Brontë.

Editora: Principis, 2019, 444 p.

Preço: R$ 15,92.

Primeiro amor

Ivan Serguêievitch Turguêniev (1818-1883) foi um prosador, poeta, dramaturgo, tradutor e ensaísta russo. Juntamente com Tolstói, Gogol, Tchekhov e Dostoiévski formam o primeiro time da literatura clássica russa. Turguêniev nasceu rico, a grande propriedade rural de sua mãe contava com cinco mil servos, os quais ele desobrigou de suas funções antes que o próprio Czar Alexandre II o fizesse em toda a Rússia. Apesar de ter nascido em uma família abastada, Turguêniev ganhou projeção com livros de forte cunho social e político. Seu primeiro livro com grande projeção foi “Memórias de um caçador” (1852) e nele denunciava o regime da servidão na Rússia o que demonstrava o espírito do literato que travou contato com importantes intelectuais russos, dentre eles, o teórico e militante anarquista Bakúnin. Essa obra e a atenção que chamou para si ao denunciar injustiças sociais por meio de panfletos resultou em sua prisão, porém, conta-se que o referido livro influenciou o Czar a extinguir tal sistema no país.

            Turguêniev formou-se bacharel em filosofia pela Universidade de São Petersburgo. Sem problemas financeiros a lhe atormentar a existência passava parte do ano na França, e, parte na Rússia. Jamais se casou, porém, teve um relacionamento que durou toda a vida com a cantora hispano-americana Pauline Viardot-Garcia. O detalhe é que ela era casada. Relacionou-se com algumas de suas servas e teve de forma ilegítima sua única filha, a qual foi dado o nome de Paulinette. Na Europa, Turguêniev estimulou a tradução e a publicação de autores russos, mesmo aqueles que lhe criticavam por julgá-lo mais europeu do que russo ou por ser dúbio quanto ao seu posicionamento ideológico. Isto se devia ao fato de que o escritor russo era contrário aos extremismos ideológicos. Em 1883, um câncer agressivo o deixou acamado, e, em poucos meses o matou. Acredita-se que a obra “A morte de Ivan Ilich” de Liev Tolstói tenha sido fortemente influenciada pelo trágico destino de seu compatriota e amigo Turguêniev.

            A obra “Primeiro amor” é na verdade uma novela, pois, tem cerca de cem páginas. Nela o autor explora muito pouco as questões sociais pelas quais ficou conhecido em outras de suas publicações. Turguêniev não teve grandes pretensões que não explicitar a complexidade da descoberta do amor na juventude e os sentimentos dele resultantes, e, que se fazem inesquecíveis, pois, assim é o primeiro amor de qualquer pessoa, mesmo que ao invés de alegria e conquista, este resultou em frustração e vergonha. A história começa com um jantar, sendo que a maioria dos convidados já tinha ido embora, e, para entreter os restantes, o anfitrião os desafia a contar a história de seu primeiro amor. Todos o fazem, quando chega a vez de Vladimir Petróvitch, este afirma que sua história é incomum e solicita tempo para que a escreva num caderno e conte numa próxima reunião do grupo. A contragosto eles aceitam. Vladimir conta que quando tinha dezesseis anos seus pais foram passar uma temporada na datcha (casa de campo, fazenda, chácara) e a sua vizinha era uma princesa viúva e falida que sonhava ganhar um processo judicial para tirar os pés do barro. Essa senhora tinha uma filha de vinte e um anos de idade. O rapaz ao ver a moça encantou-se com sua beleza.

A moça sabia o poder que possuía sobre os homens, seduzia-os, fazia com que fizessem seus caprichos, mas, jamais escolhia um por namorado, enfim, agia como uma verdadeira coquete. Afirmava que não pretendia se apaixonar por ninguém. Ao perceber o efeito que causava sobre Vladimir, começou a se divertir com ele, às vezes o tratava como se fosse uma criança, noutras o seduzia. Sua mãe não gostava das princesas, considerava-as vulgares e queria que o rapaz se mantivesse longe delas. Seu pai agia com superioridade em relação às vizinhas. A mãe de Vladimir, muito rica, bem educada, porém, tinha um gênio difícil. O pai, de origem humilde, tinha uma boa formação intelectual e era dez anos mais jovem que sua mãe. O pai tinha um comportamento estranho, ora ausente, ora sufocava o filho com sua atenção. O rapaz era muito cobrado a se dedicar aos estudos visando seu ingresso na universidade. E estudar não era o foco de Vladimir, pois, sua atenção toda estava na moradora da casa vizinha. Sua preocupação estava em conquistá-la e em afastar seus rivais, os rapazes que também eram iludidos pela moça. Mostrar-se homem, apesar da pouca idade e tentar caminhar com segurança no terreno movediço da primeira paixão. Paro aqui para não dar spoiler, mas, digo que esta obra tanto é leve na forma como é escrita, como pesada na trama desenvolvida. Parece despretensiosa, porém, traz à luz experiências vividas felizes ou não de pessoas que do alto de sua maturidade lamentam, riem ou se regozijam da forma como agiram quando tiveram o coração repentinamente assaltado por um sentimento até então desconhecido.

Sugestão de boa leitura:

Título: Primeiro amor.

Autor: Ivan Turguêniev.

Editora: Penguin Companhia, 2015, 108 p.

Preço: R$ 32,90.             

A morte da verdade

 

                Já escrevemos algumas vezes neste espaço sobre o tema da pós-verdade. A ele retornamos, pois, essa é a preocupação central do livro da crítica literária estadunidense Michiko Kakutani (1955). Impossível ler a obra sem ver semelhanças entre o cenário de fundo estadunidense e o brasileiro, ou seja, a campanha e o governo de Donald Trump e de Bolsonaro, pois, se fossem criações literárias estariam classificadas como distopias. O livro cita um comercial da CNN que mostra a foto de uma maçã e a voz de um narrador que afirma: “Isto é uma maçã. Algumas pessoas vão tentar dizer que é uma banana. Talvez elas gritem repetidas vezes: ‘banana, banana, banana’. Talvez elas escrevam BANANA em letras maiúsculas. Talvez você até mesmo comece a acreditar que é uma banana. Mas não é. Isto é uma maçã.” Sobre isso, a autora cita a frase do ex-senador Daniel Patrick Moynihan: “Todo mundo tem direito de ter suas próprias opiniões, mas, não seus próprios fatos”.

Vivemos um momento em que uma parcela da sociedade acredita que não há história, nem ciência ou verdade, tudo é mera opinião. Verdades científicas passaram a ser contestadas tendo como argumentação o senso comum. Se a soma de dois mais dois é igual a quatro e do ponto de vista restrito da matemática isto é uma verdade universal inquestionável. Apontar resultado diferente soaria ridículo, porém, não faltam pessoas a falsear a história, a verdade e a apontar a extensa pesquisa de intelectuais como mera opinião. O intelectual lê centenas de artigos e livros, não raro dedica toda sua vida para entender um objeto de estudo, e, um sujeito que não leu mais que gibis em sua adolescência e revistas/sites de fofoca na idade adulta, sentindo-se empoderado pelo computador/celular ligado à Internet o contrapõe sentindo-se o dono da única verdade. A dele!  Não é à toa que temos os terraplanistas, os negadores do holocausto, do aquecimento global, da evolução das espécies, ou ainda, os que afirmam que o nazismo era de esquerda, que os governos petistas (neoliberais) instalaram o socialismo no país e quebraram o Brasil, quando à luz da razão não é possível afirmar nada disso. Nas palavras de Umberto Eco (1932-2016): “a Internet deu voz a uma legião de imbecis com o mesmo direito à fala que um ganhador do prêmio Nobel e promoveu o idiota da aldeia a portador da verdade.”

             As pessoas se isolam dentro de suas comunidades virtuais das redes sociais, conversam geralmente com as pessoas que pensam de igual forma e, escolhem no supermercado midiático a “versão” da verdade que lhe é mais palatável. Quando há o encontro com aquele que tem uma opinião divergente, os insultos ocupam o lugar da argumentação e, quando esta se realiza, demonstra a pobreza intelectual característica de quem despreza a razão. Há na atualidade um desprezo à ciência, à universidade, aos professores, ao poder Judiciário, à imprensa livre. Trump nos Estados Unidos profere a média de 7,6 mentiras diárias e ataca as instituições (a imprensa, o poder legislativo, o poder judiciário, etc.) e nega a veracidade de dados oficiais. Segundo Kakutani isto tem erodido fortemente a democracia estadunidense. Da mesma forma, o clã Bolsonaro age no Brasil. O filho do presidente (Eduardo Bolsonaro) afirmou que bastava um jipe e um soldado cabo para fechar o Supremo Tribunal Federal, recentemente afirmou que um novo AI-5 seria a resposta caso as ruas fossem tomadas pela oposição. Não há uma pesquisa sobre quantas mentiras o presidente brasileiro conta diariamente, mas, é por todos sabido a sua prática de culpar a imprensa alegando ter sido mal interpretado, ou ainda, por se desculpar à tarde ou à noite pelo que disse de manhã.

Tanto Trump como Bolsonaro utilizaram em suas campanhas frases curtas exortando valores tradicionais, além do medo e do ódio, e, fizeram uso de fake news direcionadas por bots a um público específico previamente selecionado pela inteligência artificial. Steve Bannon, a mente por trás da Cambridge Analytica ajudou a eleger Trump e tem ligações com o clã Bolsonaro. A Cambridge Analytica trabalha com mineração de dados e a divulgação de mensagens específicas por meios de bots que interagem como se humanos fossem com as pessoas escolhidas reforçando nelas ideias e convicções pré-constatadas dentre elas o medo e o ódio ao imigrante nos Estados Unidos, e o medo e o ódio aos comunistas, aos petistas, aos esquerdistas no Brasil. Kakutani fala em seu livro que as eleições que elegeram Trump foram influenciadas pela Rússia por meios cibernéticos ao disseminar fake news contra Hillary Clinton e promover Trump por meio da disseminação de mensagens sobre questões como imigração, religião e raça visando ampliar a divisão entre os eleitores que não têm o hábito de averiguar a autenticidade da informação. Segundo Kakutani, o alvo ideal das fake news não é o fascista convicto ou o comunista, mas, o cidadão comum, que não tem o hábito de checar a veracidade da informação que recebe e que, assim pode ter sua visão de mundo moldada conforme desejam os manipuladores. Triste época! Concluo indicando fortemente a leitura desta obra!

Sugestão de boa leitura:

 

Título: A morte da verdade: notas sobre a mentira na era Trump.

Autor: Michiko Kakutani.

Editora: Intrínseca, 2018, 270 p.

Preço: R$ 19,90 – R$ 23,90.

O corcunda de Notre Dame

No dia 15 de abril deste ano, os jornais divulgaram o enorme incêndio que atingiu a catedral de Notre Dame em Paris, cujas consequências não foram ainda maiores devido à eficiência do corpo de bombeiros que evitou que o edifício colapsasse. Essa mesma catedral conquistou fama internacional devido à obra do escritor francês Victor-Marie Hugo (1802-1885). É também graças ao célebre escritor que a catedral não veio abaixo quando várias outras construções históricas foram desmanchadas para dar lugar à modernidade, seja na forma de prédios ou de avenidas mais largas. Aliás, Victor Hugo, não se conformava com a modernização de Paris estar sendo feita colocando abaixo edifícios que em seu ver constituíam monumentos históricos e arquitetônicos insubstituíveis. Vitor Hugo foi um romancista, poeta, dramaturgo, ensaísta, artista, estadista e ativista pelos direitos humanos. Em sua grandiosa obra, destacam-se os livros: Os miseráveis (1862) e O corcunda de Notre Dame (1831) publicado originalmente com o título Notre Dame – Paris, 1482. Em muitos países, a obra é publicada com este título, porém, com a supressão da data. Por questões comerciais, em vários países o corcunda foi alçado ao papel principal, porém, há várias personagens principais na obra, o arquidiácono Claude Frollo, o corcunda Quasímodo, a cigana Esmeralda, o ator e escritor de peças teatrais Gringoire, o comandante militar Phoebus, a reclusa Gudule, porém, a personagem principal é a Catedral de Notre Dame, pois, é sobre ela e o seu entorno no qual se desenvolve a trama que Hugo após fazer uma grande pesquisa histórica buscou retratar.

            Na obra em questão, Hugo busca mostrar uma faceta da sociedade parisiense no período medieval. Visa também mostrar que, inversamente ao que se pensa, o medievo foi um período de produções filosóficas e artísticas importantes. Na obra, o autor parece nos conduzir pela mão em meio às ruas de Paris daquele longínquo ano de 1482, algo que o era até para ele, pois, viveu no século XIX. A riqueza de detalhes com que descreve as ruas de Paris e os prédios que havia, os quais sequer chegou a conhecer, torna evidente a esmerada pesquisa que realizou. O detalhismo com que descreve a Paris de 1482 pode se tornar cansativa para alguns leitores, para outros, como é o meu caso, trata-se de puro deleite, pois, ao ler, as imagens se formam na mente como se lá estivesse caminhando e sendo apresentado à cidade por Victor Hugo. É certo que Hugo procurou descrever minuciosamente a arquitetura da Paris de 1482, pois, sabia que diante da destruição de muitas maravilhas arquitetônicas, resgatá-las em sua obra constituía a única forma de fazer com que elas não caíssem no esquecimento total. Dessa forma, descreveu em detalhes as mudanças pela qual a catedral de Notre Dame passou por causa de saques e reformas mal feitas devido o descaso e despreparo dos profissionais nela envolvidos visando registrar para a posteridade o significado arquitetônico e cultural para a humanidade da catedral construída entre 1163 a 1345 que mescla o estilo gótico e românico.

Na obra, Hugo mostra a divisão da Paris de 1482 (que ainda pode ser facilmente localizada na planta da Paris atual) em três partes que simbolizavam também a divisão de poderes da época: a Île de La Cité (ilha onde fica a catedral e que simbolizava a Igreja Católica), a Université (onde até hoje ficam antigas e famosas universidades como a Sorbonne) e, a Ville (que representava a Coroa) e também onde ficavam os senhores feudais (o rei não tinha o poder absoluto sobre a cidade). No meio, espremidas e oprimidas ficavam as pessoas comuns. Como o livro tinha objetivo comercial, afinal, se tratava da encomenda de uma obra sobre o medievo feita pelo seu editor, Hugo, bem ao seu estilo, não deixou de fazer uma crítica social à Igreja e à Coroa, enfim, ao sistema social vigente e as injustiças dele resultantes, porém, incluiu na trama um sacerdote angustiado pelos votos de castidade feitos a Deus e o desejo ardente que sente pela bela cigana Esmeralda, por quem também, o corcunda se apaixona, esta por sua vez se apaixona por Phoebus, um militar. As personagens construídas por Hugo na obras são complexas. Dom Claude Frollo é gentil, caridoso, porém, também egoísta e violento. Quasímodo, o corcunda, não é a mera personificação da beleza interior num corpo feio, pois, apresenta uma personalidade que é também sombria. Phoebus é mulherengo e superficial. Gringoire é talentoso, mas, também tolo. Enfim, se você for ler a obra esqueça o desenho animado dos estúdios Disney, Victor Hugo era adepto do realismo e, portanto, em sua obra não há final feliz, muito pelo contrário. Também, no filme que assisti por meio do You Tube constatei que a adaptação apresenta muitos reducionismos, simplificações e omissões de personagens que considero importantes, além de reinterpretações de algumas passagens da obra de Hugo, mesmo assim, vale assistir para ter uma ideia geral, porém, tendo em mente que o livro é muitíssimo melhor.

Sugestão de boa leitura:

Título: O corcunda de Notre Dame.

Autor: Victor Hugo.

Editora: Zahar, 2015, 621 p.

Preço: R$ 30,99 – R$ 54,90.