A vista do meu ponto - Osnélio Vailati
Um país inteiro para as excelências e as mordomias - parte 2

O salário mínimo conforme estabelecido na Constituição Federal (1988) deve atender as necessidades do trabalhador e de sua família (quatro pessoas) nos quesitos: vestuário, higiene, lazer, saúde, alimentação, moradia, transporte e previdência social. Segundo o Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (Dieese) para atender o artigo constitucional o salário mínimo deveria ser de R$ 3960,57. Sendo mais uma lei bem intencionada, mas, que igual a outras tantas não pegou, pois não é cumprida. A partir de 1º de janeiro de 2019, o salário mínimo fixado por decreto por Bolsonaro passou a ser de R$ 998,00, embora estivesse estabelecido no orçamento deixado por Temer de que ele poderia ser de R$ 1006,00. É verdade que nos dois anos anteriores, no governo Temer houve uma ruptura da política de reajuste com ganhos reais dos governos Lula e Dilma e por isso não houve reajustes reais (acima da inflação) e que o reajuste atual oferece um ganho real de 1,14%. No entanto, como estava previsto no orçamento o valor de R$ 1006,00 reduzi-lo para R$ 998,00 é uma crueldade com grande parcela da classe trabalhadora e aposentada que recebem isso ou pouco mais.

            A crueldade se torna ainda maior quando lembramos que o Brasil é um país cujas mordomias e altos salários pagos ao alto escalão dos Três Poderes não têm comparação com nenhum outro país do mundo. Somos o oposto da Suécia (ver matéria de 2016 com esse mesmo título no blog A Vista de Meu Ponto!) descrito pela jornalista Claudia Wallin em seu livro “Um país sem excelências e mordomias” em que discorre sobre o grau de civilidade da Suécia que não chegou aos altos escalões dos Três Poderes brasileiros. Nestas terras, os magistrados recebem os mais altos salários dentre seus colegas de profissão do mundo todo. Nosso judiciário é mais caro do que o estadunidense, mesmo sendo o Brasil uma economia muito menor e a qualidade do serviço prestado ser ainda pior. Como se não bastassem os salários nababescos de magistrados, parlamentares e membros do primeiro escalão do Poder Executivo. Aos salários se somam vários penduricalhos tidos como auxílios para turbinar ainda mais os rendimentos de vossas excelências, dentre eles o imoral auxílio-moradia (R$ 4300,00), vejam que não estou questionando a legalidade ou não deste, mas, sua imoralidade tendo em vista que 92% da população não recebe como salário, o que magistrados recebem como auxílio. Embora se fale muito dos magistrados é importante lembrar que parlamentares e membros dos altos escalões do Poder Executivo possuem regalias semelhantes.

            Não podemos esquecer-nos dos militares, há regalias concedidas a uma parcela privilegiada destes que beira o grotesco. Um caso é a pensão das filhas de militares que não se casaram legalmente para continuar a receber tais pensões e que segundo o Jornal O Globo custa ao país cinco bilhões de reais. Segundo a Pública -Agência de Jornalismo Investigativo, dentre os salários recebidos pelos militares, há centenas de casos de supersalários que ultrapassam o teto constitucional de R$39700,00. O país vive um momento em que muito se fala de fazer a reforma da Previdência, e neste caso, mais uma vez se observa que a tendência é a manutenção dos privilégios. Magistrados, parlamentares e militares lutam corporativamente para ficar fora da reforma previdenciária e assim manter seus privilégios. Somos sabedores que a CPI que apurou os dados da Previdência constatou que ela não é deficitária como se costuma afirmar devido a interesses financeiros envolvidos por parte de grupos econômicos. No entanto, entendo que jamais se conseguirá extirpar a corrupção deste país enquanto ela estiver legalizada e generalizada na forma de mordomias para os altos escalões dos Três Poderes e continuarmos a tratar os sabotadores do desenvolvimento nacional como excelências. Penso que o teto constitucional salarial deve ser respeitado e que manobras para turbiná-lo devem ser proibidas, e que se as pessoas desejam enriquecer que busquem a iniciativa privada!

As armas que faltam ao povo brasileiro

O jornal O Estado de São Paulo veiculou artigo de Jamil Chade em que a alta comissária para Direitos Humanos da ONU Michelle Bachelet cita o Brasil como exemplo de eleição afetada pela desinformação¹. A reportagem trata de temas já analisados e publicados nesta coluna em novembro de 2018 sob os títulos: “As Guerras híbridas: das revoluções coloridas aos golpes” e “Guerra híbrida no Brasil” e que podem ser acessados no site do jornal Correio do Povo do Paraná ou no blog A Vista de Meu Ponto! Trata-se da monitoração, coleta de dados, análise de perfil para intervenções pontuais e específicas por meio de robôs na disseminação de fake news. Na época da campanha eleitoral, o autor destas linhas chegou a ser incluído em um grupo de Whatsapp de apoio a candidatura Bolsonaro, no qual constava como integrante o nome de Flavio Bolsonaro. Pensei a princípio tratar-se de uma brincadeira de mau gosto de algum desafeto tendo em vista ter sido sempre ferrenho opositor a ponto de julgar que até mesmo um tucano no poder seria melhor para a nação do que o Capitão. Tão rapidamente quanto fui incluído (não sem antes olhar os integrantes) saí do grupo. O que talvez foi um erro, deveria ter ficado para observar o teor das postagens. Após reflexão por ocasião da leitura do livro de Andrew Korybko e as posteriores denúncias veiculadas pelo Jornal Folha de São Paulo, cheguei à conclusão que existe a possibilidade de ter sido incluído no grupo por um robô, devido a inúmeras postagens minhas no Facebook nas quais dirigi críticas a Bolsonaro. Essa linha de raciocínio pode ser corroborada pelo fato de que a inteligência artificial evoluiu muito, mas, não é infalível.

            O fenômeno ocorrido nas eleições brasileiras não é inédito sendo por isso motivo de preocupação mundial. Ocorreu nas eleições presidenciais estadunidenses, no referendo sobre o Brexit (saída do Reino Unido da União Europeia) e no Quênia. A eleição brasileira foi acompanhada de perto por estudiosos, pois a própria democracia se encontra em risco com a disseminação de fake news visando desinformar a população, e por meio da coleta de informações e análise do perfil dos internautas, se faz a manipulação com o objetivo de estimular comportamentos desejados. Michelle Bachelet questionou: “nesse contexto, existe alguma dúvida de que nossa liberdade para pensar, acreditar, expressar ideias e fazer nossas escolhas e viver como queremos está sob ameaça?” e assegurou: “se nossos pensamentos, ideias e nossas relações podem ser previstas por instrumentos digitais, e mesmo alterado pela ação de programas digitais, então isso representa uma questão desafiadora e fundamental sobre nosso futuro”. Na reportagem, Bachelet afirma ainda: “um dos desafios será regular o mundo digital, além de trabalhar ao lado de engenheiros e ativistas de direitos humanos para que essa esfera possa ser um local de proteção dos direitos humanos”

Na qualidade de professor, palestrante, sindicalista, articulista, blogueiro e escritor (citei estas atividades apenas para explicar a origem da minha análise), digo que as armas que o povo brasileiro precisa não são aquelas defendidas pelo presidente eleito. As armas que o povo brasileiro precisa nestes tristes tempos de fake news são de três “calibres”, a saber: 1. Interpretação de texto; 2. Espírito crítico; 3. Consciência de classe. Uma pessoa que não tenha desenvolvido bem essas três armas pode ser considerada um analfabeto político como enunciado por Bertolt Brecht. Interpretação de texto para entender o que está escrito e o que está nas entrelinhas, pois a política é a arte do ilusionismo. Sua atenção é chamada para algo enquanto a “mágica” ocorre no local onde você não olha. Espírito crítico para procurar outras fontes de informação sabendo que a ideologia está em todos os discursos, principalmente dos que se dizem apolíticos ou imparciais (os mais perigosos). Também é importante dar espaço ao contraditório, ou seja, ouvir ou ler quem pensa diferente. Num grupo onde todos pensam iguais não é o melhor ambiente para o crescimento intelectual. Consciência de classe, pois, se é perfeitamente compreensível que a elite financeira do país tenha determinada ideologia a qual sustenta uma determinada visão de sociedade e de relações humanas intrínsecas, é fundamental entender como esta ideologia lhe afeta para saber se posicionar. E para isso é necessário compreender o papel que nela lhe é reservado. Quem você é dentro desta ordem estabelecida pela classe dominante? Patrão ou trabalhador? Rico ou pobre? Homem ou mulher? Heterossexual ou homossexual? Branco ou negro? Nativo ou imigrante? Etc. A perícia na utilização das três armas somente é adquirida com a leitura e a reflexão. “Aos livros, cidadãos”!

Fonte: 1. Disponível em: https://politica.estadao.com.br/noticias/geral,chefe-da-onu-cita-brasil-como-exemplo-de-eleicao-afetada-por-desinformacao,70002608330 – Acesso em 05 de Janeiro de 2019.

Retroexpectativa 2019

Nesse momento em que escrevo (o último dia do ano de 2018), é costume de muitos canais de TV exibir retrospectivas do ano que finda. Nesses programas, os principais fatos do ano são relembrados num formato resumido para dar conta de tal tarefa hercúlea em tempo exíguo. A palavra retroexpectativa que dá origem a este título não existe na língua portuguesa na forma como foi grafada e nem mesmo constitui erro ortográfico, pois, foi assim escrita de forma intencional.  Também considero importante o fato de que quando este artigo for publicado a passagem de ano e da faixa presidencial já terá ocorrido. Ninguém poderá dizer que joguei sombras sobre o momento festivo, até porque as sombras acompanham o presidente eleito desde seu passado nebuloso quando ainda era um militar, ocasião em que, segundo a Revista Veja, cogitou fazer atentados a bomba em quartéis do exército e em alguns pontos do Rio de Janeiro no intuito de pressionar o alto comando devido aos baixos soldos. Veja apresentou croquis do plano feitos por Bolsonaro de próprio punho, mas, o Ministro do Exército disse ser uma farsa de Veja e que confiava nos seus subordinados. Bolsonaro entrou para a reserva remunerada aos 33 anos de idade, mais um dos privilégios dados aos militares, e agora deseja que você trabalhador se aposente apenas aos 65 anos de idade (muita gente morre antes dessa idade).

            O ex-presidente Fernando Henrique Cardoso em resposta à imprensa estrangeira disse “não saber muito sobre Bolsonaro e nem sobre o que ele vai fazer, e que talvez nem ele mesmo saiba”. Também disse que “Bolsonaro vai prejudicar a imagem do Brasil no exterior”. O despreparo de Bolsonaro e de sua equipe é flagrante. O presidente eleito nunca foi considerado uma pessoa culta. Sua ignorância a respeito de temas mundiais, e, nacionais, é imensa. O mote do combate à corrupção foi importante na sua eleição, porém, eleito, pipocam escândalos de corrupção de integrantes de sua equipe e de familiares. Bolsonaro é considerado um Collor piorado. Collor foi eleito em 1989 com a alegação de que seria caçador de marajás, e a história, você leitor conhece bem. Nos tempos atuais, em que o ódio ao PT cegou até mesmo a mente de muitos, não faltaram opositores de Lula e do PT que grafaram Lula à moda de Collor (Lulla) em verde e amarelo para atribuir à Lula os adjetivos pejorativos correspondentes ao candidato em que um dia votaram e isso denota sua hipocrisia.

            Há bolsonaristas que afirmam agora haver uma luz no fim do túnel. Temo que a luz no fim do túnel seja a do trem da história que avança contra nós, pois estamos retrocedendo. A velha mídia tentou passar a imagem de que Bolsonaro é um político de direita. Não colou! Os grandes jornais europeus estupefatos mostram em suas manchetes a triste guinada do Brasil à extrema-direita. O mesmo espectro da política que um dia foi de Hitler (Alemanha Nazista), de Mussolini (Itália) e de Franco na Espanha. Sua equipe de governo está recheada de militares, algo típico de uma república bananeira. Penso que os militares deveriam cumprir seu papel constitucional (longe da política). Condeno a ditadura civil-militar (1964-1985) pelos crimes cometidos, mas, penso que à exceção disso os atuais militares são ainda piores, pois sequer condenaram a entrega da Embraer à Boeing, apesar do imenso prejuízo estratégico para a ciência, a tecnologia e a defesa nacional. Os atuais militares são entreguistas e lhes falta inteligência geopolítica, pois, não possuem um General Golbery do Couto e Silva. Bolsonaro sinaliza submissão total aos EUA, os militares da geração passada eram aliados do país ianque, mas, sabiam que tal país tinha grande interesse em sobrepujar a soberania nacional e a defendiam, pois não eram cegos aos interesses estadunidenses.

            A sinalização que a equipe de Bolsonaro faz sobre política externa denota grande amadorismo e ignorância. A se manter nesse rumo, o país perderá aliados que contribuem positivamente para a balança comercial brasileira ao se aliar ideologicamente aos Estados Unidos de Trump cujo lema é “América primeiro” e a Israel de Netanyahu, países com os quais o Brasil tem balança comercial deficitária. Não digo que o governo Bolsonaro será de todo ruim, pois sabemos que a história é feita de vencedores e perdedores na eterna luta de classes entre burgueses e proletários. A eleição de Bolsonaro é uma vitória da grande burguesia nacional e internacional, mas, é transitória, embora nem por isso seja fugaz.  Em momentos de grave crise, a população sempre busca saídas autoritárias e só há um momento em que se torna possível vencer o discurso fascista enquanto desejo represado de grande parcela da população que é após sua instalação. Será doloroso para a classe trabalhadora, para os pobres, para o meio ambiente, para a soberania nacional, mas, será pedagógico para muitos!

Defender o SUS é defender a democracia!

A Constituição Federal do Brasil (1988) estabelece em seu artigo 196 que: “A saúde é direito de todos e dever do Estado, garantido mediante políticas sociais e econômicas que visem à redução do risco de doença e de outros agravos e ao acesso universal e igualitário às ações e serviços para sua promoção, proteção e recuperação”. Além disso, a Declaração Universal dos Direitos Humanos também assegura que: “todas as pessoas têm direito à vida [...]”. É importante que se diga que ao ofertar o SUS o Estado não promove caridade, afinal, a população paga impostos justamente para custear serviços públicos de caráter imprescindível. Vejo muita gente que critica o SUS e que defende o seu fim. Ninguém se atreveria a dizer que o SUS não tem problemas. E a crítica ao SUS é salutar. A crítica a que me refiro deve ser no sentido da superação de tais problemas. Em todos os setores da economia há bons e maus profissionais, e também bons e maus serviços prestados, e isso independe de ser o órgão público ou privado. Há algum tempo conversei com uma pessoa do setor da saúde, a qual afirmava que apesar de seus esforços tratando com a mesma dedicação pacientes do SUS e particulares, no SUS apenas recebia críticas. A generalização quanto à qualidade do atendimento e da seriedade dos profissionais não constitui crítica honesta.

Há também os que afirmam que a manutenção do SUS é cara e que com o fim do SUS, o governo poderia cobrar menos impostos. Ledo engano, a maior parte do orçamento brasileiro (50,66%) é utilizada para pagar os serviços da dívida pública e apenas 3,66% é investido em saúde. É necessário ter consciência de que o SUS não é grande demais, como afirmam os defensores do Estado Mínimo. É o SUS quem executa o programa de transplantes de órgãos e procedimentos caros muitas vezes negados por planos de saúde. Além disso, o SUS oferta um dos mais completos programas de vacinação do mundo. Tudo isso sem cobrar da população. Os impostos pagos pela população sustentam tais programas. Mas, há quem defenda que banqueiros e especuladores recebam mais dinheiro. A emenda constitucional nº 95/2016 proposta por Temer (e em vigor) é extremamente prejudicial ao SUS, pois, congela os recursos ao patamar de 2016 acrescido no máximo do índice de inflação, quando o setor precisa de mais investimentos. O que se pode esperar é uma situação futura ainda mais caótica na saúde pública. E sabemos: sempre que o Estado deseja deixar de ofertar um serviço público, reduzi-lo ou entregá-lo à iniciativa privada, o caminho malandramente utilizado é o da precarização dos serviços e a publicização midiática sobre a ineficiência e os altos custos destes.

            Um documentário muito interessante sobre saúde foi produzido pelo premiado diretor estadunidense Michael Moore. O documentário Sicko¹ que remete à palavra inglesa sick (doente) mostra a situação da saúde nos Estados Unidos totalmente entregue às companhias privadas de planos de saúde, as quais visam alta lucratividade. A ganância dos planos de saúde é tanta que milhares de pessoas são condenadas à morte pela recusa no atendimento dos planos de saúde que possuem profissionais encarregados de investigar a vida das pessoas visando encontrar meios para não cobrir as despesas de doenças graves e custosas alegando serem pré-existentes. O documentário mostra políticos estadunidenses confirmando que o sistema é ruim, mas, que seria ainda pior no modelo socializado. Moore vai então ao Canadá, Inglaterra e França e observa o quanto o sistema público socializado desses países é mais eficiente e humano do que o estadunidense, sem falar que é gratuito (“ah... esses países socialistas!”). Por último, acompanhado de bombeiros que trabalharam no atentado de 11 de setembro e ficaram com sequelas dele resultantes (doenças respiratórias), e que não conseguem atendimento nos EUA (apesar de serem considerados heróis). Moore vai à prisão estadunidense de Guantánamo (Cuba) e exige para eles o mesmo tratamento médico gratuito e de boa qualidade ofertado aos terroristas do referido atentado, obviamente, não consegue. Disposto a conseguir atendimento médico para os doentes, leva-os a Cuba onde fazem exames avançados, são diagnosticados e tratados. O documentário mostra que a medicina cubana tem caráter preventivo (evitar doenças) e não o habitual caráter mercadológico que visa prioritariamente lucros para planos de saúde e indústrias farmacêuticas. Em Cuba, uma ilha carente de recursos e que constitui um país de terceiro mundo, e que, além disso, sofre um embargo econômico há 59 anos, toda a população é assistida e os remédios têm preços apenas simbólicos, pois, são subsidiados pelo governo. Nos EUA, pacientes de hospitais são desovados na rua por falta de pagamento ou recusa de planos de saúde. Nós temos o SUS, e lutar pela manutenção dele e de sua melhoria deve ser o nosso SUL! Defender o SUS é defender a democracia. É defender a vida!

Referência:

  1. SICKO: SOS Saúde e a mercantilização da vida (EUA-2009) – Michael Moore – disponível no You Tube.
O eterno marido

Fiódor Dostoiévsk (1821-1880) é um dos grandes nomes da prestigiada literatura russa. Seu nome está ao lado de Liev Tolstoi, Ivan Turguêniev e outros que facilmente formam um dream team da literatura a ponto de deixar com inveja grande parte dos países do mundo. Dostoiévski viveu na época do Império Russo e foi escritor, filósofo e jornalista. Seu pai (Mikhail Dostoiévski) era médico militar e sua mãe era dona de casa. A profissão do pai não era valorizada financeiramente e a família que tinha origens nobres encontrava-se em plena decadência, mesmo com dificuldades, seu pai mantinha seis serviçais para manter as aparências de um passado que se mostrava cada vez mais distante. A mãe morreu de tuberculose, uma doença que ceifava muitas vidas à época, na ocasião Dostoiévski contava quinze anos de idade. Seu pai que era alcoólatra e depressivo morreu três anos mais tarde, e, existem duas versões para a sua morte, sendo a primeira de que teria sido vítima de acidente vascular cerebral e a segunda de que teria sido assassinado por seus servos revoltados por conta dos maus tratos que lhes impunha. O jovem Fiódor também desejou a morte de seu pai por conta dos maus tratos que sofria, porém, conta-se que a morte do pai lhe trouxe remorsos por ter alimentado tais pensamentos.

            Dostoiévski serviu o exército russo no qual obteve a patente de tenente e se formou em engenharia em 1843. Fiódor estava sempre às voltas com dívidas resultantes de seu envolvimento com jogos e mulheres. Trabalhou como tradutor de obras do escritor francês Honoré de Balzac e isso o estimulou a experimentar-se no campo da literatura. Fez isso após deixar o exército em 1844, ano em que lança seus primeiros livros. Dostoiévski fazia parte de um grupo clandestino intitulado Círculo de Petrachévksi, no qual liam e discutiam textos proibidos. O mentor do grupo (Petrachévksi) era adepto do socialista utópico Charles Fourier. Descoberto, foi condenado à morte por fuzilamento. No último instante (mesmo), por ordem do Czar Nicolau I a pena foi convertida em quatro anos de prisão na Sibéria com a imposição de trabalhos forçados e outros cinco anos de pena nos quais deveria servir como soldado raso no exército. No exílio conheceu e se apaixonou por sua primeira esposa (Maria Dmítrievna), o detalhe é que ela era casada, porém, como enviuvou, casou-se com ela três meses depois. Em 1864, morreram sua primeira esposa (tuberculose) e também seu irmão. Além de seus filhos, precisava sustentar a viúva e os filhos de seu falecido irmão além de outro irmão alcoólatra. Várias vezes escreveu obras “a toque de caixa” para pagar dívidas contraídas junto a agiotas que o importunavam cobrando-lhe, dos quais algumas vezes fugiu temporariamente mudando de endereço. Aos quarenta e seis anos conheceu e contratou a estenógrafa (taquigrafa) Anna Grigórievna Snítkina de vinte e quatro anos de idade com quem se casou. Dostoiévski publicou várias obras de sucesso, dentre elas: Crime e castigo e Os Irmãos Karamazov, sendo esta sua última obra. Faleceu em decorrência de enfisema pulmonar.

            O escritor não gostou de sua obra “O eterno marido”, no que foi contrariado pelo público e pela crítica que a aclamaram. A obra trata dos “eternos maridos”, homens que suportam as traições de suas esposas e cujos chifres parecem lhes cair bem, e também de um tipo muito específico de esposas, as quais se casam virgens, mas, que utilizam desculpas referentes aos defeitos do marido para dar vazão a toda sua volúpia, sem ter com isso nenhum sentimento de culpa ao traí-los. No afã de situar o leitor na trama, o primeiro capítulo traz uma leitura um pouco burocrática, mas, depois se torna envolvente. A trama conta com dois personagens principais Aleksei Ivánovitch Veltchanínovch, um playboy, arrogante e hipocondríaco que em sua juventude considerava ainda mais interessante ser amante de mulheres casadas. A outra personagem (Pável Pavlóvitch Trussotski) é o marido traído, que em plena madrugada, espantosamente bate à porta de Veltchanínov. Na trama, Veltchanínov conhece a filha de dez anos de Pavlóvitch (doente e maltratada pelo pai), o qual após a morte da esposa adúltera se tornou alcoólatra, violento e passou a assustá-la ameaçando suicidar-se. Veltchanínov desconfia que a filha (adoentada) pode ser sua tendo em vista a época dos relacionamentos que teve com a sua mãe, mas, somente tem a confirmação por Pavlóvitch após a morte da menina. Em certa noite, Pavlóvitch cuida de Veltchanínov (hipocondríaco) fazendo-o melhorar, porém, quando este adormece tenta matá-lo. Mais forte, Veltchanínov frustra o plano. Anos mais tarde, em uma viagem de trem, Veltchanínov reencontra Pavlóvitch casado com uma bela e rica jovem, e constata que nada mudou: Pavlóvitch continua a ser o eterno marido e forma com sua esposa e um cadete um triângulo amoroso.

Sugestão de boa leitura:

Obra: O eterno marido (1870) – 211 páginas.

Autor: Fiódor Dostoiévski.

Editora: Penguin Companhia, 2018.

Preço: R$ 26,90.

Carroça vazia

O leitor certamente deve ter conhecimento do conto que narra a conversa entre pai e filho no qual o primeiro ao ouvir o barulho de uma carroça antecipa ao filho de que ela está vazia, pois, afirma: “carroça vazia faz mais barulho do que quando carregada”. Nada mais adequado para caracterizar Bolsonaro e o desenho que faz de seu futuro governo cujas primeiras indicações para o Ministério constituem traições à parcela ingênua do seu eleitorado, pois, nada mais sinaliza que o velho jeito de fazer política. Nisso, não há nenhuma surpresa, afinal, Bolsonaro está na política há trinta anos e nesse período foi um dos parlamentares mais ineficientes de todo o Congresso Nacional, pois, consta que apenas três projetos de sua autoria foram aprovados. Bolsonaro parece ainda estar em campanha, pois, continua a jogar para a sua torcida fazendo falas ao gosto dela: declarações pouco inteligentes, insensatas e que dão a impressão que ele vive na época da Guerra Fria (1945-1989) e em plena ditadura militar.

A impressão que dá é que os conhecimentos de Bolsonaro na área da política externa são os rudimentos recebidos enquanto militar, porém, hoje o mundo é outro! É necessário conhecimento e sensibilidade, e na falta destes, um de seus estragos ocorreu quando numa atitude lambe-botas dos Estados Unidos declarou que vai mudar a embaixada brasileira de Tel Aviv para Jerusalém contrariando a própria ONU, pois, Jerusalém no plano de partilha da Palestina de 1947 constava como uma cidade internacional de livre visitação para judeus, árabes e cristãos, por constituir um nó górdio. Ao tomar partido em favor de Israel, os países árabes ameaçam retalhar boicotando produtos exportados pelo Brasil, o que afetaria não somente, mas, duramente, o setor do agronegócio (frigoríficos) com prováveis repercussões em nossa região. O Egito chegou a cancelar uma agenda com o Ministro das Relações Exteriores Aloysio Nunes (PSDB) por causa da fala desastrada de Bolsonaro.

Bolsonaro na condição de parlamentar foi um ferrenho opositor à criação do Programa Mais Médicos durante o governo da presidenta Dilma. Programa este, que tinha a intenção e levou a termo a antiga e frequente reclamação da população da falta de atendimento médico em municípios interioranos, apesar dos enormes esforços de inúmeros prefeitos em atraí-los. Embasado numa mentalidade doentia, obcecada pelo confronto Leste x Oeste, Bolsonaro conseguiu a proeza de implodir o acordo que o país tinha com Cuba. Bolsonaro que sempre afirmou que não se tratavam de médicos, mas, de agentes da ditadura cubana, tendo inclusive comparado os médicos cubanos a açougueiros (pedindo perdão aos açougueiros), pois, em seu ver não teriam conhecimento da medicina para atender a população brasileira (algo que vai à contramão de inúmeros relatos de pacientes atendidos pelos médicos cubanos no Brasil e em sessenta e cinco países do mundo). Bolsonaro que em campanha promoveu inúmeras falas depreciativas aos médicos cubanos e a Cuba, conseguiu o que pretendia, a OPAS (Organização Pan Americana da Saúde) numa atitude de preservação da dignidade ante as falas estereotipadas de Bolsonaro rompeu o acordo com o Brasil e os médicos cubanos estão se retirando do país. Para substituir os médicos cubanos, o Governo Temer (pressionado pelos prefeitos, e estes pela população) abriu inscrições para candidatos brasileiros, mas, as primeiras inscrições indicam que eles querem trabalhar nas capitais, e não em locais com pouca infraestrutura. Tal como Bolsonaro assegurou, o Brasil vai voltar a ser como era a quarenta ou cinquenta anos atrás: Isso para quem é rico não constitui problema algum. A questão é: você que é trabalhador assalariado, portanto, pobre, está preparado?

A morte de Ivan Ilitch

O autor russo Lev Tolstói (1828-1910) é um dos grandes nomes da literatura mundial. Não por acaso, suas obras são presenças constantes nas estantes de bibliófilos (amantes e/ou colecionadores de livros). É de Tolstói a célebre obra Guerra e Paz, a qual foi retratada em filmes e séries sempre com grande sucesso de público. Outra obra de Tolstói adaptada com sucesso para o cinema foi Anna Karenina. O autor de grandes obras que testam a disposição de seus leitores ante ao grande número de páginas, também fez sucesso com um pequeno livro de apenas oitenta páginas. Trata-se de A morte de Ivan Ilitch.

            Tolstói nasceu numa família aristocrática, portanto, herdou uma propriedade rural de seus pais. A mãe e o pai morreram poucos anos após seu nascimento. Não chegou a se formar no ensino superior, cursou por algum tempo Línguas Orientais, e mais tarde, Direito. Era um bon-vivant, atirou-se aos jogos e às mulheres, vícios que o endividaram fortemente. Serviu o Exército e após dele se retirar publicou seus primeiros livros. Casou-se com Sófia Andréievna Behrs com quem teve treze filhos e nos primeiros anos de casamento publicou suas mais famosas obras. No auge do sucesso, envolto a crises existenciais passou a se dedicar à espiritualidade e renegou sua literatura. Pouco antes de morrer, o escritor russo Ivan Turguêniev escreveu a Tolstói: “Faz muito tempo que não lhe escrevo porque tenho estado e estou, literalmente, em meu leito de morte. Na realidade, escrevo apenas para lhe dizer que me sinto muito feliz por ter sido seu contemporâneo, e também para expressar-lhe minha última e mais sincera súplica. Meu amigo volte para a literatura!”. Não se sabe o quanto o pedido de Turguêniev influenciou Tolstói, no entanto, A morte de Ivan Ilitch foi a obra que marcou seu retorno à literatura.

Trata-se de um pequeno livro, porém, de uma sensibilidade gigantesca ao retratar de forma tão humana, a impotência de um ser que se vê morrendo, enquanto observa o quão fúteis são os valores pelos quais se dedica uma vida, e quão falsas são as relações humanas. O livro conta a história de um jovem ambicioso (Ivan Ilitch) que galga posições dentro do Poder Judiciário, contrai matrimônio por conveniência, ganha o cargo de promotor em São Petersburgo por indicação de um amigo no Poder, e que após alcançar a estabilidade financeira, se vê acamado por uma doença grave que o dinheiro e os melhores médicos não conseguem curar. Cada vez mais debilitado, perturbado com o mal que o acomete, irrita-lhe a saúde de seus familiares e amigos, pois esta lhe falta. Sabe que na sua repartição há quem espera sua morte para ocupar seu cargo. A filha no auge da mocidade, feliz, segue sua vida noivando com um jovem e ambicioso juiz de instrução, tal como um dia ele fora. Os membros da família vivem suas vidas enquanto a sua vai se esvaindo até que Ivan dá o suspiro final. Em pleno velório, sua esposa procura se informar com um grande amigo do morto sobre como conseguir mais dinheiro junto ao Governo. Este percebe que ela já estava suficientemente informada sobre o que fazer e dela se esquiva, deixa a casa do morto onde se realiza o velório, e vai ao encontro dos outros amigos do falecido que preferiram não ir ao velório e resolveram se reunir para jogar cartas. O grande amigo descontraidamente toma seu lugar à mesa e no jogo que o falecido costumava ser um dos parceiros. É uma obra para refletir sobre a insignificância de nossa existência e a superficialidade de nossas relações, e para alguns leitores, certamente pode ser uma obra perturbadora.

Guerra híbrida no Brasil

O autor de Guerras Híbridas: das Revoluções Coloridas aos Golpes (Andrew Korybko) afirma que o Brasil se tornou alvo dos Estados Unidos desde a eleição de Lula em 2002 por seu movimento em direção à multipolaridade e também pela descoberta de substanciais reservas de petróleo no Pré-Sal. A participação do Brasil no bloco BRICS (Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul) em contraponto à hegemonia estadunidense no sistema financeiro internacional também causou irritação em Washington que temia ver acelerada sua perda hegemônica que se faz gradual. Segundo Korybko, uma intensa guerra híbrida foi travada em território brasileiro desde 2013 com o objetivo (à época) de desestabilizar o governo Dilma e de inviabilizar o Partido dos Trabalhadores com vistas à eleição de 2018. E Bolsonaro, há muito foi visto como um candidato mais palatável aos EUA1. O leitor atento e bem informado certamente lembra-se das denúncias veiculadas pela Folha de São Paulo envolvendo o então candidato Bolsonaro sobre um suposto esquema de caixa 2 financiado por empresários, o qual teria pago os disparos de Whatsapp que chegaram a milhões de eleitores com postagens contra o Partido dos Trabalhadores, em grande parte, fake news2.

            Agências especializadas como a NSA, ou ainda, prestadoras de serviços como a Cambridge Analytica, de posse dos dados de milhões de usuários das redes sociais e de estudos de seus perfis ideológicos, nadaram de braçadas na Internet trabalhando o lado psicológico de uma população desinformada e/ou cega de ódio ao PT e que ansiosamente buscava um salvador da pátria. Segundo o jornalista argentino Marcelo Falak3 de No Ámbito (de Buenos Aires), uma importante autoridade das Forças Armadas teria lhe dado uma entrevista em 2014 e afirmado que as Forças Armadas previam que haveria polarização em 2018, e que Bolsonaro era o candidato ideal para enfrentar o PT. Na ocasião, os militares sugeriram a Bolsonaro abandonar o nacionalismo econômico e adotar o liberalismo. O oficial das Forças Armadas disse que os militares tinham profundo ressentimento quanto ao fato de serem considerados cidadãos de segunda classe, pois, mesmo graduados, não podiam assumir ministérios e que ansiavam por uma nova democracia. Os militares brasileiros há algum tempo conhecem a estratégia das guerras híbridas. Esse conhecimento, se utilizado, pode ter sido útil na campanha de Bolsonaro. Durante a campanha, o General Villas Boas (Exército) se manifestou publicamente contra a possibilidade da concessão do habeas corpus à Lula4. Recentemente Villas Boas afirmou que os militares “estavam no limite”. Afirmava “não aceitar a impunidade, e exigia o respeito à Constituição Federal”, porém, se isso fosse feito, obviamente Lula teria que ser solto, pois, isto é o que determina a Constituição Federal (Art. 5º Inciso LVII). Ora, sabendo que Bolsonaro era candidato das Forças Armadas desde 2014, como afirma o jornalista argentino que entrevistou o oficial das Forças Armadas, a interpretação que se faz em respeito à racionalidade, é que o movimento no tabuleiro de xadrez executado pelos militares nunca foi contra a impunidade, mas, sim para manter preso quem traria dificuldades à eleição do seu candidato (Bolsonaro), tendo em vista que os militares mantiveram-se em silêncio quanto à impunidade de Aécio Neves (PSDB), e outros.

            Não pretendo aqui discutir um terceiro turno das eleições de 2018, afinal, sórdidas ou não, as estratégias do staff de campanha de Bolsonaro funcionaram, e nada indica que o TSE tenha coragem de caçar a chapa. Ele é o presidente! Manipulada ou cega de ódio ao PT, foi a vontade da maioria do povo brasileiro. E nisso, a esquerda é melhor do que a direita, pois, não deseja a destruição do país em troca do Poder como fez Aécio Neves (PSDB) e apaniguados. O governo Bolsonaro vai tensionar fortemente as instituições, ou elas resistem, e lhe impõem o freio do Estado Democrático de Direito ou o Brasil viverá anos obscuros! À esquerda cabe vigiar as ações de um governo ultraliberal, e que contraria a soberania nacional e o projeto de uma sociedade menos desigual e lhe fazer a oposição. À Bolsonaro cabe entender o significado da democracia, aprender economia e política externa, algo que em seus quase trinta anos de vida parlamentar não foi capaz ou teve preguiça. Ele também precisa entender que não somos os Estados Unidos da América e que nem sempre o que é bom para o país ianque é bom para o Brasil! E que no posto de presidente do país deve deixar de falar asneiras, mesmo, que para isso precise evitar os microfones, tal como fez ao fugir dos debates para não perder votos!

FONTES:                                                                                           

1. Disponível em: https://tutameia.jor.br/brasil-e-alvo-de-guerra-hibrida/ - Acesso em 12 de Novembro de 2018.

2. Disponível em: https://www1.folha.uol.com.br/poder/2018/10/empresarios-bancam-campanha-contra-o-pt-pelo-whatsapp.shtml. – acesso em 12 de Novembro de 2018.

3. Disponível em: https://jornalggn.com.br/noticia/jornalista-argentino-revela-como-as-forcas-armadas-construiram-a-candidatura-de-bolsonaro-para-chegar-ao-poder - Acesso em 12 de Novembro de 2018.

4. Disponível em: https://congressoemfoco.uol.com.br/judiciario/lula-solto-poderia-tirar-militares-do-controle-diz-comandante-do-exercito-estavamos-no-limite/ - Acesso em 12 de Novembro de 2018.

As Guerras Híbridas: das Revoluções Coloridas aos Golpes

A Internet surgiu no contexto da Guerra Fria (Arpanet) e tinha como objetivo conectar computadores militares dos Estados Unidos da América. Porém, é após o fim da Guerra Fria que ocorre seu boom. Na atualidade, em que a Guerra Fria oficialmente não mais existe, mas, as tensões entre os velhos protagonistas persistem, a Internet é onipresente e tornou-se uma arma de guerra e o ciberespaço, juntamente com o espaço, a terra, o ar e o mar contam com doutrinas militares específicas da superpotência estadunidense para propagar o seu poderio. As pessoas se expõem na Internet e apesar de ser possível apagar o histórico de navegação nos celulares ou nos computadores, isto não ocorre de forma plena, pois, toda a navegação (páginas visitadas e postagens) permanece registrada nos Data Center de empresas como o Google, Facebook, etc. que sabem mais sobre as pessoas do que elas próprias.

            De posse dos dados de navegação na Internet e postagens nas redes sociais, agências especializadas estadunidenses como a Agência de Segurança Nacional (NSA) contam com um conhecimento profundo das sociedades de quase todo o planeta. Entendem a fundo a psique das sociedades alvo e conseguem explorar os seus problemas identitários. Andrew Korybko é o autor do livro “Guerras Híbridas: das Revoluções Coloridas aos Golpes” lançado no Brasil no mês de Outubro de 2018. A obra originalmente publicada em 2015 tem atualizações que visam deixar ainda mais explícito o mecanismo de funcionamento das Guerras Híbridas. O conceito de Revolução Colorida consiste em utilizar as redes sociais (Facebook, Whatsapp, etc.) para estimular e organizar campanhas de desestabilização de governos que contrariam os interesses estadunidenses. No livro, o autor discorre sobre a Primavera Árabe de 2011, que consistiu numa onda de protestos e revoluções populares no Oriente Médio, o barril de pólvora era a crise econômica e a falta de democracia, mas, cujo gatilho foi acionado por agentes ligados ao governo estadunidense e robots (programas de inteligência artificial) que interagem e estimulam os protestos fazendo inclusive postagens (muitas vezes “fake news”) nas redes sociais, multiplicando as mensagens e empoderando os revolucionários virtuais.  O autor faz uma dissecação dos casos que envolveram a Síria e a Ucrânia e que ocorreram no contexto da desestabilização do eixo Rússia, China e Irã, alvo estratégico da geopolítica dos EUA, ou seja, impedir a concretização da nova Rota da Seda que é estratégica para a China; desestabilizar a periferia da Rússia para tornar mais próximo o dia da derrocada desta; isolar e enfraquecer o Irã com vista à deposição do regime e a substituição por um governo fiel aos interesses estadunidenses.

Quando a Revolução Colorida fracassa, os EUA lançam mão da Guerra Não Convencional, ou seja, estimulam e financiam grupos locais a pegar em armas com vistas a derrubar o governo alvo. Os EUA não toleram que países estratégicos aos seus interesses mantenham relações próximas com a China, a Rússia e o Irã. A superpotência ianque também se utiliza da Guerra Híbrida que pode ser a Revolução Colorida e/ou a Guerra Não convencional para derrubar governos que impeçam seu acesso a recursos estratégicos importantes como o petróleo. O autor afirma que a defesa contra as Guerras Híbridas é difícil. O país pode restringir ou monitorar as mídias sociais, mas, isso pode soar como censura e irritar a população. O cidadão, por sua vez, precisa desenvolver sua criticidade e criar o hábito de checar a veracidade das informações. Os partidos políticos e lideranças atingidas precisam entender o mecanismo das Guerras Híbridas para saber delas se defender, de preferência utilizando-se da verdade, pois, embora os ataques sofridos visem à destruição de suas reputações com o uso de fake news, caso as vítimas também recorram ao mesmo expediente, podem ser desmentidas, e com isso terão sua credibilidade destruída. As Guerras Híbridas e as fake news vieram para ficar. É uma forma de guerra mais barata e causa menos desgaste junto à opinião pública mundial do que as guerras convencionais, além disso, o país promotor, no caso, os EUA, pode fazer à surdina. A opinião pública mundial pode desconfiar dos EUA, mas, não terá sua confissão. O Ciberespaço é palco de guerra. Matrix é aqui!

Sugestão de boa leitura:

Guerras Híbridas: das Revoluções Coloridas aos Golpes – Andrew Korybko – Editora Expressão Popular, 2018 – R$25,00

O Brasil saiu do armário ou o Editorial de O Globo 1964 – Bis

Este escriba quando nos bancos universitários se encontrava, recebeu lições de seus mestres de que o Brasil era uma democracia racial. Este país acolhia e respeitava todas as etnias que para cá vinham. Tal teoria se embasava na obra de pensadores dos anos 1930. Na verdade, se buscava criar uma fábula para adultos de que o gigante da América do Sul era diferente do gigante da América do Norte (os Estados Unidos da América), uma nação preconceituosa e xenófoba, não por acaso, berço da famigerada Ku Klux Klan, organização segregacionista que prega a superioridade da raça branca anglo-saxã, e que desejava, quando de sua criação, a deportação dos negros de volta à África ou para outros países.

Eis que em pleno século XXI, o Brasil sai do armário, elege Bolsonaro, um político que em várias oportunidades fez falas fascistas, xenófobas, machistas, racistas, homofóbicas, misóginas e carregadas de preconceito de classe. Não se pode pensar, sob pena de contrariar um mínimo de racionalidade, que as pessoas que elegeram Bolsonaro, o fizeram sem ter consciência disso. Há inúmeras gravações. Se ele foi o político mais votado é porque seus eleitores são também fascistas, xenófobos, machistas, racistas, homofóbicos, misóginos e portadores de preconceito de classe, ou pensam que isso é algo sem importância, o que evidenciaria uma suprema falta de inteligência. Afinal trata-se da pessoa que irá representar o país perante o mundo. O (a) Globo, após ter pedido desculpas pelo apoio ao Golpe Militar de 1964, fez uma reedição do mesmo, aparentemente para comemorar a vitória de Bolsonaro sobre o partido que lhe é indigesto, o PT. Nele tenta pintar em Bolsonaro as cores da direita, quando isso não corresponde à verdade. O (a) Globo deveria saber que não adianta maquiar um monstro. Até um dirigente da Ku Klux Klan manifestou apoio a Bolsonaro. A imprensa internacional vê (corretamente) em Bolsonaro a extrema-direita. Aquela que já foi a de Hitler (Alemanha), Mussolini (Itália), Franco (Espanha), e dos militares na ditadura militar brasileira (1964-1985). Reportagens e charges em jornais e revistas estrangeiras mostram a bandeira nacional sendo substituída pela bandeira nazista, o Cristo Redentor fazendo a saudação nazista, etc.. O mundo vê estarrecido e com tristeza a escolha do Brasil. Um político estadunidense afirmou que toda nação tem o direito de se destruir e que o Brasil escolheu se suicidar.

No editorial, O (a) Globo fala na oxigenação que esta eleição proporcionou, embora Bolsonaro nada tenha de novo, pois, há três décadas exerce cargos legislativos. Bolsonaro representa a velha política. A política da Casa Grande que reconduz à Senzala a classe trabalhadora, sempre que ela se assanha a dela querer sair. De acordo com uma pesquisa somos a terceira nação mais ignorante do mundo. E, sabemos que um povo pouco afeito à leitura da história está condenado a repeti-la. No editorial, O (a) Globo não poupa críticas ao PT, e tal como no editorial de 1964, faz um contorcionismo textual dando as cores que deseja (e não as reais) aos fatos que resultaram na queda do PT e de Lula. O (a) Globo tem grande expertise em manipulação ideológica. Não fala, por exemplo, que a ampla maioria de candidatos em igual situação de Lula (condenados em segunda instância) puderam se candidatar e à Lula isso foi negado. Lula era o único candidato que poderia livrar o Brasil do vexame internacional e do risco que Bolsonaro representa. Foi impedido justamente por ser potencialmente o vencedor. A Constituição é clara, “ninguém pode ser preso antes do trânsito em julgado” (Art. 5, Inciso LVII). Somente após a condenação em definitivo é que Lula poderia ser preso e perder os direitos políticos. Não há no processo, provas concretas contra Lula, apenas ilações (delações premiadas, pois, os réus sabem o que a Lava-Jato deseja ouvir e disso querem se beneficiar).

Após a recondução dos escravos (a classe trabalhadora) para a Senzala (de onde pensa que não deveria ter saído), O (a) Globo em seu editorial (1964 Bis) alerta para a necessidade de pacificação do país, o que soa zombeteiro, pois, a extrema-direita da qual Bolsonaro é signatário, costuma fazê-lo com a repressão policial-militar. A paz social que a Casa Grande (da qual O (a) Globo faz parte) deseja é o silêncio da Senzala (as vítimas de uma das maiores desigualdades sociais do planeta). Talvez daqui a cinquenta anos, O (a) Globo peça desculpas por este editorial e por ter apoiado Bolsonaro. Eu de minha parte espero que a Globo acabe antes disso. A Globo ao empreender a campanha anti-petista chocou o ovo da serpente da extrema-direita. Bolsonaro (no governo) é sua cria!

Fonte: Disponível em: http://www.pps.org.br/2018/10/29/veja-as-manchetes-e-editoriais-dos-principais-jornais-hoje-29-10-2018/ - Acesso em 30 de Outubro de 2018.