A vista do meu ponto - Osnélio Vailati
O Canto da Sereia

 “Trago-lhes caros leitores uma republicação de um artigo que saiu neste espaço no distante dia 28 de agosto de 2014. Artigo que me rendeu algumas críticas que conquanto fossem desprovidas de fundamento não lhes faltava maldade. Talvez devido à proximidade das eleições majoritárias e a polarização que a marcava visando atingir-me por conta de meu posicionamento ideológico por todos conhecido. O tema agora exaustivamente debatido na Assembléia Legislativa do Paraná (ALEP), a qual por unanimidade, acima de quaisquer bandeiras partidárias e para o bem do meio ambiente e da sociedade paranaense aprovou em primeira discussão a proibição da exploração do gás de xisto pelo método de fracking. O projeto de lei é de autoria dos deputados Evandro Araújo (PSC), Goura (PDT), Cristina Silvestri (PPS) e Márcio Pacheco (PDT), aos quais parabenizo pela iniciativa. Ainda não é definitivo, mas, encaminha-se para bom termo dada a consciência daquela casa quanto aos riscos que tal exploração acarreta. Sei que algumas vezes minhas palavras são duras, porém, dura é a realidade. Pode-se amar o conhecimento, mas, para produzi-lo ou levá-lo adiante não se pode fazê-lo de forma amadora. Algumas pessoas podem me achar arrogante, mas, não se pode titubear quando convicto. Há um provérbio português que dita: o tempo é o senhor da razão! E ele acaba de provar isso”!

O canto da Sereia!

Penso que o leitor certamente já ouviu falar ou então leu a respeito do mito das sereias cujos corpos eram parte mulher e parte peixe. Elas habitavam rochedos e ao avistá-las, os marinheiros eram por elas atraídos devido à sua beleza estonteante e por seu belíssimo e doce canto, assim, guiavam suas embarcações até elas e acabavam colidindo com os rochedos e naufragando. Os gregos relatam que apenas duas pessoas conseguiram escapar ilesos ao encanto das sereias, Orfeu que era o deus mitológico da música e da poesia e que para salvar a si próprio e aos que lhe acompanhavam na viagem de barco cantou mais divinamente do que as sereias superando-as com seu talento e sua voz. O outro vitorioso foi Ulisses que por não possuir o talento musical de Orfeu colocou cera de abelha em seus ouvidos e pediu que lhe acorrentassem ao mastro do navio e deus ordens que se caso implorasse para libertá-lo apertassem ainda mais as cordas que o prendiam. Ulisses quase enlouqueceu gritando para ser liberto e assim poder ir ao encontro das sereias, mas, passou ileso pela grande provação a que fora submetido. No primeiro caso Orfeu foi vencedor porque teve espírito de superação, autoconfiança e coragem de fazer ainda melhor e no segundo caso, Ulisses sobreviveu porque teve a consciência de sua fragilidade e tomou atitudes sábias para evitar o feitiço visual e musical das sereias.

 Mitologia é sempre um assunto interessante, muitos livros e filmes se produziram com tal temática, no entanto, neste artigo serve apenas para introduzir neste espaço a discussão que precisa ser feita por todos  antes que seja tarde demais e não dê tempo para preparar a voz  daqueles que talento possuírem ou na inexistência de tal dom para tapar os ouvidos com cera. Este escriba que redige estas linhas adotará por não haver outra possibilidade a estratégia de Ulisses. Há um debate que precisa ser urgentemente realizado, trata-se da exploração através do sistema de “fracking” do gás de xisto, na verdade, o termo correto seria gás de folhelho betuminoso. O Folhelho betuminoso é uma rocha sedimentar que se aquecida num processo antieconômico vira óleo e é possível obter dela os combustíveis normalmente obtidos do petróleo. O Brasil possui uma das dez maiores reservas de folhelho do mundo e há a intenção da Copel de explorar inicialmente uma região localizada no terceiro planalto paranaense entre Pitanga, Cascavel, Toledo e Paranavaí.

O fracking, ou fraturamento hidráulico consiste numa nova técnica em que água com aditivos químicos cuja fórmula não é revelada por constituir segredo empresarial é injetada sob altíssima pressão por um furo vertical até atingir a camada de folhelho e após são feitas perfurações horizontais para liberar o gás presente na rocha que tem a mesma utilidade do gás natural obtido pelo método de perfuração tradicional com máquinas perfuratrizes de petróleo para libertar o gás do bolsão em que se encontra. Tanto o petróleo como o folhelho é encontrado em áreas sedimentares e  no Terceiro Planalto Paranaense se encontra em profundidades de mil a dois mil metros. Lembro-me de ter lido certa vez um livro sobre os Estados Unidos da América que relatava os graves danos ambientais nas regiões de exploração por tal método, onde as compensações financeiras que alguns fazendeiros receberam foram insuficientes para cobrir os prejuízos, pois, tiveram que abandonar a prática da agropecuária porque a carne e os alimentos naquela região produzidos estavam contaminados e impróprios para o consumo, aliás, a saúde dos moradores da região também se deteriorou gravemente e a água de lençóis freáticos e rios contaminados não puderam mais ser utilizados para consumo humano. Atualmente não há como evitar a contaminação porque é impossível saber onde os gases podem ser liberados uma vez que as rochas do subsolo apresentam fraturas pelas quais as águas infiltram até camadas mais profundas. Nos EUA ocorreram casos de rios pegando fogo, e mais bizarro ainda, fogo saindo pela torneira. Há também registros naquele país de terremotos em áreas inusitadas que estão sendo investigados por sua possível relação com o método do fracking. A Argentina também enfrenta os problemas ecológicos e econômicos de tal exploração resultantes.

Na atualidade, o canto da Sereia diz respeito a uma proposta extremamente vantajosa e que depois se mostra um engodo. As autoridades da Cantuquiriguaçu, os professores e estudantes do Ensino Básico e Superior, especialmente a UFFS, os agricultores, os pecuaristas, enfim, todo o povo paranaense precisa debater o tema e em meu ver combater essa monumental tragédia ecológica que se prenuncia, a possível morte por envenenamento do Aquífero Guarani e inviabilidade econômica da agropecuária nas regiões de exploração e circunvizinhas.

 

P.S. Parabéns aos cidadãos de Toledo e Cascavel que resistem brava e heroicamente ao canto da Sereia!

Memórias póstumas de Brás Cubas

Certa vez ao indagar um professor universitário sobre se havia lido um livro que considerei fantástico, ele me respondeu que devido à escassez de tempo que dispunha dedicava-o todo para leitura de autores mortos, pois, em seu entender, os livros clássicos são aqueles que sobrevivem aos seus autores. Não considerava, portanto, como clássica a obra de um autor vivo. Não posso deixar de constatar quão terrena é a afirmação do mestre em questão.

Todos os dias pessoas se despedem deste plano, e, após a passagem se tornam para os que ficam maiores do que foram considerados em vida. Dessa forma, uma pessoa comum se torna uma alma boa que irá fazer falta mesmo para quem não lhe poupava críticas. Se político, a mídia de massa que tanto o combateu louva-o após a morte como um patriota e democrata que fará falta ao país. Tenho um amigo que disse esperar que seus amigos o visitassem, pagassem cerveja e churrasco enquanto ele tem saúde, mas, que por ocasião de sua morte dispensa-os do comparecimento ao velório, afinal cada um tem seus afazeres e também porque não deseja ter velório, quer apenas que a tampa do caixão seja fechada e que este seja sepultado o mais rapidamente possível, afinal, vida que segue para quem fica!

O pintor surrealista espanhol Salvador Dalí (1904-1989) foi um gênio, e sabia disso. Humildade e desapego ao aspecto material não eram características de sua personalidade. Os críticos parecem crer que um artista deve ter a humildade e o desapego material de um Francisco de Assis (santo da Igreja Católica). Mas, Salvador Dalí não era franciscano, portanto, não havia feito voto de pobreza para viver na penúria.

Salvador Dalí teve sua obra reconhecida enquanto era vivo, dessa forma também ocorreu com o literato Machado de Assis (1839 -1908). Machado é considerado o maior nome da literatura brasileira. Coube a ele a fundação da Academia Brasileira de Letras (na qual ocupou a cadeira nº 23) e da qual foi seu primeiro presidente. Machado de Assis, neto de escravos, era gago e epilético. Pobre, pouco frequentou a escola regular.

Autodidata, fez sua própria instrução para a qual contribuiu seu grande apego à literatura. Trabalhou na tipografia de jornais, nos quais escreveu seus primeiros artigos. Casou-se com Carolina Augusta Xavier de Novais que o resgatou da má-fama quanto à vida que levava. Sua esposa o apresentou à literatura portuguesa e inglesa. Trabalhou no serviço público, aliás, esta é uma situação comum para parte dos escritores brasileiros, afinal, conseguir manter-se por meio de sua obra sempre foi coisa para poucos afortunados, dentre estes, o escritor gaúcho Érico Veríssimo (1905-1975).

Sua obra inicialmente romântica teve uma guinada e trouxe para o país o gênero do realismo exatamente com o livro “Memórias póstumas de Brás Cubas” publicado em 1881. Nele, Machado introduz o narrador, o defunto-autor Brás Cubas que conta a história de sua vida. Brás Cubas nasceu numa família que fez fortuna fabricando cubas (tachos), mas, que ansiava por ter reconhecimento social e frequentar a Corte. Brás Cubas, quando criança subia nas costas do escravo Prudêncio e batia nele sem dó. Mimado, sempre teve tudo o que quis.

Na juventude, namorou a bela Marcela (uma prostituta de luxo) por quinze meses os quais lhe custaram onze contos de réis, apesar disso, vaidoso, afirmava que Marcela o amava. Para conseguir o dinheiro para dar os presentes exigidos por Marcela subtraía do pai sem que este soubesse. Ao descobrir isso, o pai mandou-o estudar em Coimbra (Portugal). Seu grande amor foi Vergília, a mulher com quem pretendia se casar, mas, que perdeu para Lobo Neves que se fez deputado na vaga que planejava ser sua. Mais tarde tornou-se amante de Vergília, mas, sem desejar fazê-la sua esposa. Devido os privilégios que o nome e a herança lhe proporcionou tornou-se deputado, mas, sua passagem pela Câmara foi breve devido sua inaptidão para o cargo. Jamais se casou. Sua irmã Sabina tentou arranjar-lhe um casamento, pois, pensava ficar feio perante a sociedade, seu irmão já quarentão não haver ainda se casado, porém, a pretendente morreu de febre amarela quando a data do casamento se aproximava.

A morte da namorada trouxe-lhe certo alívio. Rico, viveu uma vida vazia, nunca trabalhou. Vaidoso, achava-se irresistivelmente lindo. Pensava ganhar notoriedade e muito dinheiro, não conseguiu. Somente onze pessoas compareceram ao seu velório. Dentre seus amigos houve quem afirmasse ter sido pela chuva, afinal tantos foram convidados. No velório foi saudado por um amigo como tendo sido um grande homem com uma vida exemplar. Ao final, faz o balanço de sua vida. Trata-se de uma crítica mordaz à sociedade do período composto entre o reino unido a Portugal e o período imperial seguinte.

Sugestão de boa leitura:

Memórias póstumas de Brás Cubas – Machado de Assis.

Preços: R$ 10,00 (edição de bolso) - R$ 37,90 (capa comum).

Licença para morrer – parte 4 ou Vida de gado

A última pesquisa CNI/Ibope mostrou que 59% dos entrevistados (foram dois mil) são favoráveis à reforma da Previdência e consideram a reforma tal como proposta pelo governo de Jair Bolsonaro como imprescindível para melhorar as condições do país. A minha dúvida é sobre o seu grau de esclarecimento no que concerne ao teor da reforma da previdência, a real necessidade desta, o mecanismo de seu funcionamento e as alternativas possíveis. E isso faz todo sentido num país em que as pessoas discutem sobre as manchetes de notícias (principalmente na Internet) sem se dar ao trabalho de ler seu conteúdo, ou, aceitam tacitamente as notícias de telejornais sem qualquer reflexão. O grau de alienação é facilmente constatado quando observamos que dentre os eleitores de Jair Bolsonaro grande percentual defende bandeiras progressistas como a educação e a saúde pública, algo que vai à contramão dos ideais deste e de seu partido, pois, a direita e mais especificamente a extrema-direita aqui e no mundo todo trabalha na construção do “Estado mínimo”, ou seja, um Estado mínimo para a sociedade e máximo para o grande capital. Não é à toa que Bolsonaro afirmou alguns meses atrás que trabalharia na destruição de tudo o que o PT fez. É correto afirmar que uma análise crítica deva ser feita sobre os governos petistas, porém, estes levaram a efeito grandes avanços na área social justamente a mais atacada pelo governo Bolsonaro.

            Uma tese de doutorado da pesquisadora Denise Gentil já havia demonstrado que a Previdência não é deficitária. Nesse mesmo sentido, uma Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) investigou e também constatou que a Previdência não é deficitária, mas, que possui um rol muito grande de empresários que devem a esta, valores que chegam quase a meio trilhão de reais. Grande parte desses sonegadores apóia a reforma da Previdência (por que será?). Alguns até afirmam que com a reforma da Previdência poderão empregar mais. A mesma retórica da reforma trabalhista que tirou direitos do trabalhador, mas não diminuiu o desemprego que inclusive aumentou. Qualquer pessoa esclarecida sabe que o que gera emprego é a economia aquecida. E o que aquece a economia é o dinheiro na mão do povo, pois este o faz circular inversamente a elite do capital financeiro que se acostumou a colocar seu dinheiro para vadiar (juros) e não na geração de empregos por meio da produção. E o Governo Lula (2003-2010) é um exemplo de que é possível ter economia aquecida sem tirar direitos do povo.

            O mecanismo para financiamento da Previdência ocorre por meio do desconto mensal do trabalhador e da contrapartida patronal. Além disso, há impostos com destinação específica para esse fim (PIS, COFINS, CSLL, etc.). O governo apresenta apenas os dados referentes às contribuições de empregados e patrões e afirma haver déficit. Durante o governo de Fernando Henrique Cardoso (PSDB) foi criada a Lei de Responsabilidade Fiscal e naquela época soube que um de seus princípios é de que os governos ficam proibidos de fazer renúncia fiscal. Assim, importa cumpri-la, pois, uma das soluções é justamente cobrar esse passivo que os grandes empresários têm com a Previdência e seguir o exemplo dos países desenvolvidos quanto à sonegação, colocar os responsáveis na cadeia. Também de grande valia seria uma auditoria cidadã da dívida pública, pois se acredita que parte dela é formada por papeis podres. Outra ação valiosíssima seria aprovar o Imposto Sobre Grandes Fortunas que está engavetado no Congresso Nacional desde 1986. Uma anomalia do sistema tributário nacional (criada por FHC) é a não tributação de dividendos dos capitalistas, o que coloca o Brasil junto a Estônia como únicas nações a garantir por suas legislações tal privilégio despudorado. Uma reforma tributária progressiva em contraposição ao modelo atual (regressivo) também é necessária, dessa forma os mais ricos pagariam mais e os mais pobres seriam isentos. Esta reforma deveria basear-se principalmente na renda e reduzindo a patamares mínimos a tributação sobre o consumo.

            O leitor pode pensar que comecei falando da crise da Previdência e terminei falando da crise do Estado (Governo). A verdade é que na Previdência não há crise, pois, não há déficit. O déficit é do Estado que por meio das Desvinculações das Receitas da União (DRU) costuma se apossar de recursos de várias pastas com recursos constitucionalmente carimbados como a Educação, a Saúde, a Previdência, etc. para cobrir os rombos orçamentários. A reforma da Previdência tem como objetivo tapar o rombo orçamentário do governo e aumentar a margem para o endividamento do Estado, algo que muito interessa ao capital especulativo ou “vadio”, que nada produz, pois, vive de sugar as riquezas do Estado coletadas junto à classe trabalhadora, real mantenedora do Estado. A reforma da Previdência não aumentará empregos, mas, empobrecerá enormemente a população, ainda mais, quando sabemos que em muitas famílias os integrantes vivem do aposento dos pais e avós. Se informar satisfatoriamente sobre como a Previdência é mantida e gerida e conhecer os problemas do Estado brasileiro e as reais intenções do projeto governamental em curso faz toda a diferença entre ser cidadão e ser gado (que não sabe a força que tem) conduzido pacificamente para o abatedouro.

O medo muda de lado após multidão estudantil peitar Bolsonaro

Por Guilherme Boulos*

 

A mobilização dos estudantes e professores tomou o Brasil. De Norte a Sul, o dia 15 de maio reacendeu esperanças e mostrou que, mais cedo do que se imaginava, o medo começou a mudar de lado. O governo autoritário, conhecido pela retórica truculenta, ficou acuado no Palácio do Planalto, vendo seu ministro da Educação ser apertado no Congresso. Enquanto isso, mais de um milhão de jovens, professores e cidadãos tomavam as ruas sem medo e em defesa do futuro. Foi gigante. O clima anunciava-se com a multidão de estudantes no Colégio Pedro II, no Rio de Janeiro, juntamente com os Institutos Federais, em protesto contra os cortes na Educação. Em tempos de graves retrocessos e ataques em série a direitos sociais, é revigorante ver gente que nasceu depois dos anos 2000 tomando as ruas com ousadia e fazendo história.

Esses jovens têm sentido na pele os efeitos da tesoura generalizada do ministro Abraham Weintraub. O bloqueio, que chega em alguns casos a mais de 50% das verbas discricionárias, afeta o funcionamento básico das atividades pedagógicas. Impede do pagamento de água, luz e papel higiênico à compra de materiais para aulas práticas em laboratório e gastos com diárias e transporte. Sem falar nas bolsas de estudo e pesquisa, cujo corte compromete a produção científica nacional. O argumento orçamentário é fraco e contraditório. Vale uma comparação básica. O conjunto dos cortes na Educação – que também atingem o Ensino Básico – chegou a 7,4 bilhões de reais. A promessa do governo Bolsonaro em emendas para os deputados que votarem pela reforma da Previdência é de 12,3 bilhões. São 40 milhões de reais por deputado e o mínimo de 308 votos. Basta fazer as contas, não precisa sequer de bombons. Mas, sabemos, o problema não é simplesmente matemático. Como dizia há 40 anos Darcy Ribeiro, a crise da Educação no Brasil é um projeto político.

Mas o fato é que um corte dessa magnitude pode implicar segundo seguidas declarações de reitores e diretores de Institutos Federais, o fechamento dessas instituições, paralisando todas as atividades de ensino e pesquisa e prejudicando a vida de milhões de alunos. Além, é claro, de impactar negativamente na economia local: em torno dessas instituições forma-se uma rede imensa de trabalhadores informais, terceirizados, comerciantes e prestadores de serviço. Não estamos falando de um grupo pequeno, tampouco elitizado. Especificamente em relação aos Institutos Federais, há hoje cerca de 500 mil alunos de Ensino Médio em 644 campus, distribuídos por 78% das microrregiões do País. De Agropecuária a Mecânica Industrial, de Panificação a Petróleo e Gás, de Enfermagem a Finanças, a rede federal oferta centenas de tipos de cursos técnicos de nível médio por todo o Brasil. Ao contrário da ideia que o governo e as redes de fake news tentam disseminar, esses estudantes têm origem nas camadas populares. Metade das vagas desses institutos é reservada para oriundos de escolas públicas e o perfil de acesso é bastante diverso. Um estudo do Ipea mostrou que, cinco anos atrás, 52% de seus graduandos faziam parte das classes C, D e E, e 47% eram negros. Vêm, portanto, de famílias que não têm condições de pagar mensalidades exorbitantes em colégios particulares e sonham em ver suas gerações futuras com diploma nas mãos e empregos qualificados. Sonhos cada vez mais difíceis, dada a nossa situação econômica e as políticas adotadas pelo atual governo. Um terço dos mais de 13 milhões de desempregados tem entre 18 e 24 anos. Com os cortes na educação pública, o governo impede também sua qualificação profissional.

Para completar o cenário, Paulo Guedes tem como meta uma nova carteira de trabalho, verde-e-amarela, feita especialmente para recém-ingressados no mercado de trabalho. Contumaz bravateiro promete que a criação de milhões de novos empregos depende da retirada de direitos como férias e 13º salário, além da isenção de contribuição das empresas com o INSS. Tal qual a reforma trabalhista de 2016, uma suposta escolha entre direito ou emprego, mas que acaba por retirar o primeiro sem garantir o último. Sem vagas no mercado de trabalho e em universidades, vendendo a ideia de que a sobrevivência só é possível na lógica do cada um por si, tentam impor à nova geração uma perspectiva sombria de futuro individual e coletivo. Quem viveu as ocupações das escolas em 2016 e assistiu a assembleias estudantis nas últimas semanas viu a potência de quando esses jovens se mobilizam e decidem que não aceitarão calados o sacrifício de seus horizontes.

 

* Coordenador do Movimento dos Trabalhadores Sem Teto (MTST). Foi candidato à Presidência da República em 2018, pelo PSOL.

 

FONTE:

https://www.cartacapital.com.br/opiniao/o-medo-muda-de-lado-apos-multidao-estudantil-peitar-bolsonaro/ - acesso em 21 de maio de 2019.

Papillon, o homem que fugiu do inferno!

Desde minha adolescência ouço comentários elogiosos acerca de um livro, o qual, à época não pude comprar devido minha humilde condição financeira. Naqueles tempos, tive até um pedido de empréstimo do referido livro negado. Hoje compreendo essa pessoa, pois, aprendi que nem todo mundo tem zelo e devolve o que lhe é emprestado. Dessa forma, tenho ciúmes de meus livros que ao longo da vida vou conquistando e trato-os como tesouros que devem ficar protegidos no local mais seguro para eles, as minhas mãos. O livro em questão é Papillon, o homem que fugiu do inferno de Henri Charrière. O ano de seu lançamento foi 1969. Somente na França o livro alcançou uma tiragem de 1,5 milhões de exemplares. Traduzido para vinte e um idiomas a sua tiragem chegou à marca de 14 milhões de exemplares. A obra foi adaptada para o cinema e rendeu mais algum dinheiro para seu autor. Na telona, os papéis principais couberam a Steve Mcqueen (Charrière) e Dustin Hoffman no papel de seu grande amigo (Louis Degas). Em 2018, um remake do filme foi levado novamente às telonas. Segundo a crítica, o novo filme não tem o brilhantismo do elenco original, nem por isso decepciona. No ano passado, lembrei-me do livro que tanto desejei ler e comprei-o. Apesar disso, devido estar focado em uma nova especialização que ditava as leituras que deveria fazer, adiei sua leitura, algo que só agora concluo, com grande satisfação. A espera foi recompensada! Agora pretendo assistir o filme.

            O título Papillon, deve-se ao apelido de Henri Charrière que dentre outras tatuagens possuía uma borboleta (papillon em francês) no peito. Charrière após retirar-se do serviço militar entrou para o mundo do crime e especializou-se em arrombamento de cofres. Conheceu várias pessoas do submundo do crime. Foi preso pelo assassinado de uma pessoa. Autoria essa que negava e afirmava ter sido uma armação para incriminá-lo. Levado a julgamento teve contra si um promotor que se vangloriava de jamais perder causas e de ser muito duro para com os criminosos. Condenado à prisão perpétua em regime de trabalhos forçados em um presídio na colônia francesa localizada na América do Sul (Guiana Francesa). A pena foi considerada por muitos, como exagerada. O envio de condenados à Guiana Francesa era naqueles tempos praticamente uma condenação à morte, pois, grassavam inúmeras moléstias, dentre elas, a febre amarela, a malária, etc. O autor nascido em 1906, condenado aos 25 anos de idade, passou 11 anos preso sempre focado em fugir e se vingar daqueles que o condenaram ao caminho da podridão (seu encarceramento).

Na obra, o autor discorre sobre a forma como os prisioneiros se relacionam dentro das celas, a promiscuidade e a violência que muitas vezes termina em assassinatos quase sempre insolúveis, pois, nas celas vigora o código do silêncio.  A narrativa tem seu ponto principal nas estratégias desenvolvidas por Papillon em seu desejo de fugir dos presídios das ilhas localizadas no mar territorial da Guiana Francesa, para onde eram levados os criminosos mais perigosos e que resultaram nas jornadas épicas em fugas espetaculares por terra e, principalmente por mar, com grande sacrifício físico e mental dos envolvidos levando-os à Colômbia, à Guiana Inglesa e à Venezuela (uma passagem curiosa se dá quando em fuga é aceito por uma tribo indígena, na qual passa a viver, e para tal, precisa se adaptar aos costumes desta). Quando enfim conquista definitivamente a liberdade, desiste de seu propósito de vingança cultivado durante todos os anos de encarceramento. Famoso por causa de seu livro que virou Best-Seller mundial voltou à Paris como convidado para dar uma conferência na qual participaram juristas, intelectuais, artistas e políticos e em sua homenagem foi realizada a noite da borboleta em Paris. Charrière faleceu em 1973 aos 67 anos de idade.

P.S. É importante que se diga que a obra não é um registro fiel dos acontecimentos, pois, Charrière, sempre possuiu grande talento para contar contos. O próprio autor disse que em alguns momentos deixou-se levar pela imaginação. Recomendo fortemente a leitura!

Sugestão de boa leitura:

Papillon: o homem que fugiu do inferno. Henri Charrière.

Editora Bertrand Brasil, 2014. 3ª edição, 728 p.

Preço: R$32,90

31 de março: a comemoração da estupidez humana!

Na obra 1984 de George Orwell, há funcionários cujo trabalho é reescrever a história conforme os interesses do Governo. Dessa forma, funcionários, alteram registros históricos e destroem documentos que contrariem a versão oficial proposta pelo ditador de plantão (o Grande Irmão). Regimes totalitários empregam essa tática para dar cores diversas àquilo que se realizou em tons de cinza, ou de vermelho, muito vermelho. Esse tipo de literatura é denominado distopia (o inverso de utopia), ou seja, a realização do pior mundo possível. Com Bolsonaro, o Brasil vive um momento distópico. O governo capitaneado por Bolsonaro se converteu num baluarte em defesa do que há de mais medíocre e repugnante neste país. Não se pode mais pensar que suas falas sejam impensadas devido ao seu despreparo intelectual e do fato de ainda não haver se conscientizado sobre a importância do cargo que ocupa perante os brasileiros e o mundo. É na verdade uma mostra do seu caráter, e sobre o caráter de Bolsonaro basta lembrar que em plena sessão da Câmara dos Deputados transmitida ao vivo por redes de TV para todo o país, ele homenageou o torturador Carlos Alberto Brilhante Ustra, um coronel do Exército Brasileiro que costumava enfiar ratos vivos na vagina das mulheres por ele torturadas.

            Juristas¹ afirmam que ao determinar a comemoração do aniversário de 55 anos do golpe militar ocorrido em 31 de março de 1964, Bolsonaro cometeu crime de responsabilidade, pois, tal ato contraria o artigo 85 da Constituição Federal (1988) em seus incisos II e III. Bolsonaro afirma que o Brasil não teve ditadura militar e que sobre os presos políticos, os torturados, os mortos e desaparecidos, apenas houve alguns probleminhas. Segundo o portal G1² a Comissão Nacional da Verdade chegou até o momento aos seguintes números: 191 mortos; 210 desaparecidos; 33 corpos localizados; 6591 militares foram perseguidos pela própria ditadura por não comungar das decisões tomadas em arrepio aos Direitos Humanos. Houve a identificação de 377 agentes responsáveis pela repressão. Falar sobre as torturas praticadas requer um artigo à parte devido à monstruosidade praticada. No período, 536 sindicatos sofreram intervenção e houve censura aos meios de comunicação, enfim, para falar sobre o caráter do regime levado a efeito, recupero uma fala do saudoso político Leonel Brizola, que tanto quanto pode lutou contra o Estado de Exceção brasileiro quando afirmou: se algo tem rabo de jacaré, couro de jacaré, boca de jacaré, pé de jacaré, olho de jacaré, corpo de jacaré e cabeça de jacaré, como que não é jacaré?.

P.S. Na foto abaixo, um simpático ursinho Panda, pelo menos no entender de Bolsonaro!

 

Ser bem informado ou ser feliz?

Há alguns dias afirmei para algumas pessoas que devido ao momento pelo qual passa o país, todos somos subconscientemente chamados a fazer uma opção: sermos bem informados ou sermos felizes. No caso deste escriba, viciado na busca da informação e do conhecimento, a felicidade trata-se de hiatos que se pronunciam entre os momentos de lucidez. Lembro-me de uma frase cuja autoria é por mim desconhecida e que afirma: se você é capaz de manter a tranquilidade, quando todos ao seu redor a perderam, talvez você ainda não tenha entendido a gravidade da situação. O país encontra-se à deriva, os tripulantes escolhidos pelo comandante são incompetentes e este não sabe como conduzir a embarcação. Não há uma carta de navegação (plano de governo) indicando a direção a ser tomada. O presidente parece ainda estar em campanha e pensando ser possível governar por meio de redes sociais. Com pouca cultura e um total despreparo demonstra não ter a envergadura moral e intelectual para o cargo que ocupa. Não para de se envolver em polêmicas. Sua aproximação com Israel e sua fala impensada e desastrada de mudar a embaixada brasileira para Jerusalém tendo a intenção de agradar Israel, desagradou fortemente os países árabes que deixaram de comprar carne de frango do Brasil, o que resultou em grandes prejuízos para o setor que demitiu um grande número de trabalhadores.

A China é o nosso principal parceiro comercial. Temos um superávit formidável com este país. Um presidente inteligente preservaria e estimularia mais negócios e evitaria tecer críticas e falas de menosprezo a tal país visando salvaguardar os interesses comerciais que fortalecem nossa economia. Bolsonaro disse para os chineses que ao contrário dos presidentes anteriores, seu governo não daria prioridade à China e sim aos Estados Unidos. Notem que com os Estados Unidos há muito tempo temos uma balança comercial deficitária (importamos mais e exportamos pouco). A China decidiu então passar a comprar soja dos Estados Unidos, pois, assim agrada um pouco o Tio Sam cujo mimimi é enorme por conta da balança comercial amplamente desfavorável com o país asiático. O agronegócio brasileiro fica com o prejuízo. Soube que os contratos para a compra de soja brasileira estão abaixo do esperado. Não se sabe se pela exportação recorde do ano anterior ou se há em curso uma queda da procura. O tempo irá dizer.

Bolsonaro fez uma visita aos Estados Unidos de Donald Trump cujo lema a América primeiro evidencia a tônica de seu governo. Apesar do lema de campanha de Bolsonaro ditar [...] Brasil acima de todos, a viagem foi patética. Bolsonaro parecia deslumbrado tal como uma criança que vai à Disneylândia. Lá prometeu abrir o mercado brasileiro para a compra de carne suína, prejudicando o produtor brasileiro e também que o Brasil não taxará mais o trigo estadunidense prejudicando a Argentina, nosso principal parceiro do MERCOSUL, que certamente tomará atitudes para compensar as perdas com as vendas ao Brasil, talvez limitando importações junto ao país. E ainda, num ato entreguista, antipatriótico e contrário a soberania nacional firmou acordo em que cede aos Estados Unidos a melhor base de lançamento de foguetes espaciais do mundo (devido sua localização privilegiada). Em Alcântara, os Estados Unidos terão em troca de aluguel um enclave dentro do território brasileiro. Lembrando que muitas vezes li acerca de problemas gerados pelos Estados Unidos e seus militares nos países que permitiram a instalação de bases americanas em seus territórios. Os Estados Unidos é um país que na qualidade de inquilino é extremamente incômodo. Como se não bastasse tanto vira-latismo, Bolsonaro cobrou dos EUA uma solução militar para a Venezuela, numa atitude que contraria o caráter da diplomacia brasileira que sempre adotou o diálogo e se opôs a interferências externas em países terceiros. Dessa forma, o Brasil perde um de seus capitais mais valiosos: o reconhecimento internacional como uma nação defensora do multilateralismo. O capitão liberou de visto os cidadãos estadunidenses sem uma contrapartida por parte do país ianque. Para ir aos EUA, os brasileiros, mesmo autoridades passam por inúmeros constrangimentos. Nunca um presidente brasileiro se humilhou tanto perante um presidente estadunidense, isso no dizer até mesmo da imprensa daquele país.

Se você achou pouco, há muito mais. Este espaço não é suficiente para relatar as desventuras de um presidente tolo que se cercou de incompetentes. Hoje, o brasileiro tem apenas duas opções: ser bem informado ou ser feliz na alienação!

Os monopólios midiáticos como glifosato na lavoura da democracia!

Durante o processo de impeachment contra a então presidenta Dilma, a mídia estrangeira chegou à constatação de que para ter um entendimento real da situação que transcorria no Brasil era necessário enviar correspondentes ao país. Não dava para confiar nas notícias veiculadas pela Grande Mídia brasileira, pois, estas eram carregadas de manipulações, distorções e omissões. Não é a toa que a Grande Mídia é considerada o quarto poder. E este quarto poder sempre esteve a serviço da Casa Grande, ou seja, dos interesses da elite do capital financeiro do país. Mesmo os jornais e canais de TV, tradicionalmente tucanos, e que muito se empenharam para infrutiferamente eleger Alckmin, no segundo turno abraçaram a candidatura Bolsonaro. Eleito, Bolsonaro elegeu a TV Record do Bispo Edir Macedo como a sua favorita e teceu sérias críticas à Folha de São Paulo e à TV Globo. Tais meios de comunicação passaram a fazer denúncias acerca das irregularidades da campanha movida a fake news e ao desgoverno de sua gestão que já decepciona parte de seus eleitores como atestam pesquisas de opinião com a queda de aprovação do governo. No entanto, não se enganem caros leitores, se o governo Bolsonaro distribuir agrados (publicidade oficial) tais grupos amenizarão suas críticas em detrimento do bom jornalismo.

Esta é uma coluna de opinião, e ainda mais, ela é intitulada A Vista de Meu Ponto!, o leitor é sabedor de que a notícia passa pela minha interpretação que é baseada na minha vivência de eterno estudante e leitor contumaz, ou seja, a minha forma de ver o mundo, a partir de onde piso. Porém, a notícia na mídia televisiva e escrita deveria se referir aos fatos, pois, aos leitores e aos articulistas caberia opinar sobre elas. Não é o que acontece na Grande Mídia brasileira, onde a notícia já vem interpretada com o objetivo de moldar a opinião pública como professorou Noam Chomsky. A Grande Mídia teve um papel decisivo no processo de impeachment de Dilma. A TV Globo se esforçou em mostrar que o processo de impeachment seguiu o rito legal, e disso não discordo. O que a TV Globo esqueceu ou omitiu é que contra Dilma não havia provas de crimes de responsabilidade por ela cometidos. Sem a comprovação por meio de provas irrefutáveis o único caminho honesto seria o arquivamento do processo ou a absolvição da ré, mas, isto num país cujo Judiciário não se deixou corromper pelos interesses políticos e ainda aplica os princípios elementares do Direito, não aderindo desmesuradamente ao decisionismo. Afinal, o Judiciário participou do processo de Impeachment ao presidir o processo no Senado e ao estabelecer o rito por meio do Ministro Ricardo Lewandoski (STF). Além disso, caberia ao STF julgar a legalidade do próprio processo, o que denota ser co-participe do golpe. No mundo todo existe a clareza de ter sido o Brasil vítima de um golpe de Estado. Bolsonaro é sua cria, pois, dele se beneficiou alavancando sua candidatura. Se não houvesse ocorrido, hoje talvez tivéssemos PSDB ou PT no Poder.

Democracia é uma palavra linda, porém, são poucos que sabem o alcance de seu significado. Muitos são os que a invocam alegando defendê-la quando com suas ações demonstram justamente o contrário. Não podem se arvorar defensores dela aqueles que apóiam os tortos caminhos tomados por autoridades políticas e do próprio Judiciário nos últimos tempos. Quem defende autocracias e todos os males delas resultantes não possui moral suficiente para falar em democracia e justiça. A justiça a qualquer custo é coisa de justiceiros e não é sinônimo da aplicação do Direito consagrado no mundo civilizado. A democratização da mídia é condição indispensável para que a democracia floresça no Brasil. Um povo mal informado, manipulado por uma mídia escrota é um povo facilmente dominado. O Brasil precisa urgentemente da regulação econômica dos meios de comunicação. A regulação não constitui censura. Todos sabem que sou contra a censura. A regulação visa democratizar a mídia tal como expresso na Constituição Federal (1988). Monopólios midiáticos são danosos à população e constituem o glifosato aplicado à lavoura da sociedade impedindo o florescimento da democracia, esta que é tida como verdadeira erva daninha pela elite antipatriótica deste país. Lula do alto de sua imensa aprovação errou ao não fazer a regulação. Não será no governo Bolsonaro que tal passo será dado. Deste governo só se espera passos para trás, como aqueles até aqui dados!

Licença para morrer – parte 3

No artigo Licença para morrer – parte 1 (dezembro de 2016) afirmei: Dentre as inúmeras farsas transformadas em verdades absolutas pela Grande Mídia de Massa [...] está a de que a Previdência Social apresenta um rombo que inviabiliza a própria gestão do governo federal. A professora Denise Gentil do Instituto de Economia da UFRJ comprovou com dados oficiais que a Previdência Social é superavitária e não possui rombo algum. A metodologia desenvolvida para o suprimento da receita necessária ao pagamento dos benefícios foi criada com a parcela de desconto que cabe aos trabalhadores, a contrapartida patronal/governamental e a receita de impostos como COFINS, CSLL, PIS/PASEP, etc. O governo de forma desonesta considera apenas os valores oriundos da arrecadação via trabalhador e empresarial, objetivando se apossar (como é de hábito) de receitas que tem uma finalidade específica e utilizá-la a seu bel prazer. A sonegação fiscal, se combatida, poderia livrar o país do aperto pelo qual passa, mas, Temer (agora, Bolsonaro) não tem estatura para governar em prol do interesse nacional, governa, então em favor de uma elite arcaica, egoísta e cruel, assim, mancomunados ferem de morte a democracia, para preservar privilégios imorais e ilegais em detrimento do desenvolvimento nacional e do bem-estar da população trabalhadora.

Bolsonaro se elegeu com a promessa de campanha de acabar com os privilégios. Obviamente somente os ingênuos acreditaram que um parlamentar defensor das elites acostumado com os privilégios que sua função lhe garante há quase 30 anos iria fazer algo em tal sentido. Dessa forma, parlamentares, magistrados e militares não entraram nessa fase da reforma da previdência com a promessa de que em um segundo momento haverá uma reforma específica para estes. Isso lembra aquela criança que deseja algo e sua mãe fala: na volta nós compramos! Como todos sabem isso não ocorre. Lembrando ainda mais uma vez: a reforma da previdência tem como objetivo liberar recursos de impostos especialmente criados para a Previdência Social e destiná-los para outras pastas. Os impostos não serão extintos. Serão utilizados para aumentar a capacidade de endividamento do país garantindo aos bancos a nababesca remuneração dos juros aviltantes que o próprio governo concede ante o risco de a banca mobilizar suas forças e destituir do poder quem avança sobre o seu banquete, tal como fez com Dilma que ousou reduzir a taxa de juros, o que ocasionou a ruptura do pacto com as elites feito por Lula.

É importante observar que o que ocorre no Brasil é uma nova fase do capitalismo global que para aumentar a acumulação capitalista precisa avançar sobre os direitos dos trabalhadores, afinal, o capitalismo nunca foi sinônimo de justiça social. O capitalismo mostra sua verdadeira face desumana ao tolher dos trabalhadores os parcos direitos conquistados em décadas de muita luta sindical. Nossos filhos e netos terão uma existência mais pobre e com menos direitos assegurados que a nossa geração. O Chile é o país com o maior número de idosos que se suicidam em todo o mundo. A explicação para tal fenômeno é o sistema previdenciário adotado nos anos 1980 por imposição do ditador general Augusto Pinochet que transformou o país em laboratório neoliberal dos Chicago Boys sob a liderança de Milton Friedman e sob as bênçãos de Frederick Von Hayek da Escola Austríaca de Economia. No modelo chileno, patrões e governos não contribuem, apenas o trabalhador. Lá os bancos prometeram uma rentabilidade para o sistema que não se realizou e a maioria dos aposentados recebe menos que um salário mínimo chileno, o que torna impossível a vida em um momento em que há muitos gastos com saúde. No Chile, há uma iniciativa em rever o sistema de previdência, pois, este fracassou. No Brasil de Bolsonaro, o fracassado sistema previdenciário chileno é o modelo a ser seguido, pois, se este fracassar (e irá) será para os aposentados, não para os banqueiros que contarão com montanhas de dinheiro para sua jogatina (aplicação) como bem entenderem, além do recolhimento de generosas taxas de administração pagas pelo trabalhador. Paulo Guedes estudou na Universidade de Chicago onde obteve o grau de Doutor em economia exatamente no auge da divulgação do pensamento neoliberal o qual foi inicialmente implantado nos Estados Unidos e na Inglaterra. Em todos os países onde foi adotado, o neoliberalismo fez a desigualdade social aumentar. Mas, como afirmam os neoliberais: se você é trabalhador, portanto, pobre, é por incompetência sua! Afinal, você não teve o justo mérito de nascer numa família bem aquinhoada ou não se esforçou o suficiente para ser patrão e rico!

Brasil: o país que fez a opção pelo suicídio!

Há alguns dias vi uma charge veiculada em um jornal europeu na qual havia uma urna brasileira tombada e no alto um corpo vestido com a camisa da seleção, suspenso e inerte. O jornal afirmava que o povo brasileiro ao votar em Bolsonaro cometeu suicídio. Automaticamente lembrei-me do político estadunidense que ao se referir ao Brasil disse: todo país tem o direito de se suicidar. Se o Brasil escolheu se suicidar, ele tem esse direito!

Ainda não completamos sessenta dias do novo governo. O festival de escândalos demonstra que a porta do inferno foi aberta e alguém se esqueceu de fechar. O novo governo (que nada tem de novo, pois pratica fidedignamente a velha política) muito se assemelha a empresa privada multinacional Vale, pois, de suas instalações flui um mar de lama. Aliás, lembro-me de ter lido o caso de um jovem pai de família, que munido de espingarda de pressão foi preso inafiançável por ter matado alguns passarinhos, e ao dizer isso, não estou questionando ou discordando da lei, ocorre que a Vale após sua privatização já teve vários acidentes, sendo os mais graves o rompimento da barragem em Mariana em 2015 que matou dezenove pessoas e causou prejuízos econômicos e ambientais irreparáveis dentre os quais os causados ao Rio Doce. Parece até um caso de premonição, a ex-estatal Vale do Rio Doce, após a privatização ter retirado do seu nome o Rio Doce, hoje seria piada de mau gosto ainda levar em seu nome o rio que matou. Agora foi a vez de Brumadinho com prejuízos econômicos e ambientais irreparáveis, tendo sido encontrados até o momento em que escrevo estas linhas, 177 corpos, sendo que 157 continuam desaparecidos. A questão é porque os grandes danos ambientais causados por empresas, madeireiros, fazendeiros, industriais, etc. não resultam em punição severa como no caso do caçador de passarinhos?

A resposta: desde que o Brasil é Brasil, o país é governado pela elite e para a elite, sendo a Justiça uma ferramenta a serviço da classe dominante. Pouquíssimos governos tentaram inverter a lógica que marca a história nacional. A marca da exclusão, do preconceito e da apropriação indevida dos bens alheios. Tivemos a colonização que dizimou a população indígena apropriando-se de suas terras. Depois veio a escravidão e africanos foram sequestrados ou comprados como se mercadorias fossem e com o aval da Igreja. Para não se sentirem mal, dos africanos tiraram sua humanidade. Consideravam que não tinham alma, podiam ser escravizados. Veio a libertação dos escravos, mas nunca a necessária indenização. Fizeram a Independência sem o povo e também a República, mas, preservaram as elites no comando. A ditadura civil-militar de 1964-1985 aprofundou a concentração de renda e aumentou exponencialmente a dívida pública e do governo saiu por não ter mais controle sobre a economia esfacelada. Quando perdeu o poder nas urnas, a direita especialista em dar golpes de Estado, uniu forças e superou seus antagonismos de classe congregando em suas fileiras, o empresariado, a Grande Mídia, os parlamentares conservadores e as forças militares que em nosso país se especializaram na contenção do inimigo interno: o povo que ousa sonhar por dias melhores. Em conversa com alguns integrantes da esquerda radical, soube que a possibilidade de união das esquerdas não existe. A divisão da esquerda é a força da extrema-direita. A direita que se intitula centrão se suicidou com o golpe de Estado de 2016, teria grande chance nas eleições de 2018, preferiu embarcar na aventura fascista, e fascista por fascista, Bolsonaro tem carreira longeva. Assim pensou e preferiu o eleitor.

A eleição de Bolsonaro foi um ato de insanidade do povo brasileiro. Penso que 1/3 dos eleitores de Bolsonaro seja formado por fanáticos, os quais jamais deixarão de apoiá-lo, mesmo ante as inúmeras provas de corrupção que envolve o clã Bolsonaro. O vice-presidente parece ser uma pessoa mais sensata que Bolsonaro, e dado o desequilíbrio psicológico e a pouca inteligência do presidente não chega a constituir elogio. Damares Alves, Ricardo Vélez e Ernesto Araújo jamais seriam ministros de Estado num país sério, mas, o Brasil também não é um país sério, ou dá para considerar sério um país que elege Bolsonaro como Presidente da República? Os escândalos envolvendo os laranjas, o caso Bebianno, o boicote aos frigoríficos brasileiros por parte dos países árabes, o fechamento da fábrica da Ford caminhões, a ameaça da Chevrolet de se retirar do Brasil, a reforma previdenciária que condenará milhões de brasileiros a morrer antes de conseguir se aposentar é apenas um prenúncio do que virá. Quanto aos 2/3 restantes que se deixaram levar pelo ódio ao PT e votaram contra os interesses de sua própria classe, e, também aos que se omitiram, eu rememoro Simone de Beauvoir quando disse: O opressor não seria tão forte se não tivesse cúmplices entre os oprimidos. Cabe-lhes agora fazer um mea culpa e participar da luta para minimizar os inevitáveis estragos ou se calar e esperar que o espetáculo acabe e ver que país seu voto impensado lhe reservará após o fechar das cortinas.