A vista do meu ponto - Osnélio Vailati
Quem manipula quem?

 A releitura de um livro permite um reexame com novas constatações e a elaboração de novas indagações ante o objeto de análise, pois, com o passar do tempo, nosso arcabouço teórico nos coloca em novo patamar de conhecimentos, e, leituras consideradas complexas se tornam mais acessíveis. Pensando assim, retomei o livro “Quem manipula quem?” de Ciro Marcondes Filho. O livro em questão foi publicado em primeira edição em 1986 e adquirido por mim em 1991, já na quarta edição. Na obra            Ciro argumenta que há no país uma grande oposição à invasão cultural estadunidense, a qual estaria prejudicando a cultura nacional e que seus críticos parecem ver na cultura dos EUA a figura de um estuprador que violenta a cultura popular brasileira tida como uma jovem e inocente donzela. Afirma que os críticos cometem um grave erro ao supor ser a cultura estadunidense algoz da cultura nacional, quando, na verdade é a cultura capitalista a causadora de grandes impactos no imaginário da sociedade. Também afirma que a cultura recebe contribuições de elementos culturais de outros países e que mesmo nossa cultura não é a perfeição para ser de todo preservada, pois, contém traços de machismo, preconceito étnico e socioeconômico, etc. O modo capitalista de pensar se impõe na sociedade e gera o individualismo, o narcisismo, e principalmente, o consumismo. No capitalismo, tudo se transforma em mercadoria pronta para ser consumida, não é diferente com as pessoas, que vendem sua mão-de-obra nas máquinas de moer seres humanos que conhecemos por empresas capitalistas, ou mesmo seu corpo, seja para o desfrute do olhar nas revistas masculinas ou para o prazer do cliente. Dessa forma, os meios de comunicação privados somente sobrevivem pela busca incessante do lucro e isso remete ao título da obra em que o autor argumenta que os críticos costumam atribuir grande poder de manipulação aos meios de comunicação (TV, rádio, jornais e revistas) e consideram os receptores de tais artigos e programas como ingênuos e indefesos, visão em seu ver, equivocada.

O autor argumenta que os meios de comunicação, especialmente a TV precisa de audiência sendo esta a moeda com que o telespectador paga pelos seus programas e que o índice de audiência possibilitará à emissora de TV estabelecer o preço pelos anúncios publicitários que renderão recursos financeiros que custearão as despesas e possibilitarão o lucro que toda empresa capitalista busca. Ciro afirma que o público somente pagará com a moeda audiência se a programação estiver de acordo com os anseios deste, do contrário, mudará de canal até encontrar a programação que lhe agrade. Sob este prisma, penso que a qualidade de parte da programação da TV aberta brasileira, a qual é bastante discutível e constitui verdadeiro lixo televisivo, e mesmo assim, ao obter grande audiência leva a crer que seus receptores estão sendo supridos do que desejam, talvez devido ao seu baixo nível cultural. Portanto, sexo, palavrões, violência, piadas preconceituosas, etc. geram audiência porque inúmeros telespectadores se veem ali, o efeito danoso fica por conta do fato de que ocorre a naturalização da estupidez, pois, ao ver cenas de pessoas rudes, egocêntricas e desonestas, os espectadores que correspondem a esse perfil, tomam como normal essa forma de ser e assim agem.    

            A relação entre o telespectador e o meio de comunicação é uma via de mão dupla, no entanto, penso que Ciro exagera ao supor que em geral as pessoas têm capacidade crítica para entender que nem tudo o que os programas de TV e rádio divulgam corresponde a uma visão de mundo e não a verdade em si. As pessoas de menor nível instrucional são as que mais utilizam unicamente a TV e o rádio para se informar e este segmento social costuma tomar como verdade notícias que foram tratadas nas redações e que alteram ou omitem a verdadeira informação. O autor também afirma que os meios de comunicação privados são uníssonos na defesa da liberdade de expressão e condenam veementemente a censura, mas, esquecem ou fazem questão de não reconhecer que guardam para si a prerrogativa de exercer a censura, ao não dar liberdade ideológica para seus jornalistas nas redações e ao não dar espaço para a defesa do contraditório por parte dos grupos políticos que defenestram. Uma análise aprofundada do livro resultaria muito longa, deixo então, a dica.

Sugestão de boa leitura:

Título: Quem manipula quem?

Autor: Ciro Marcondes Filho.

Editora Vozes, 1987, 162 p.

Preço: R$ 7,90 – R$ 22,80 (Estante Virtual).

 

As cabeças trocadas: uma lenda indiana

O escritor, romancista, ensaísta, contista e crítico social Paul Thomas Mann nasceu a seis de junho de 1875 na cidade de Lübeck, no então Império Alemão e, faleceu em Zurique, na Suíça, a doze de agosto de 1955, aos 80 anos. Mann era filho do político e comerciante Johann Heinrich Mann (1843-1892) e, de sua esposa a brasileira Julia da Silva Bruhns (1851-1923). Thomas é o irmão mais novo do também famoso romancista Heinrich Mann. O pai que se encontrava a frente de um negócio de várias gerações tentou influenciá-lo a seguir nele, porém, a mãe brasileira levou a melhor, fazendo-o se interessar pela literatura. Com a morte do pai quando Mann contava dezessete anos, a família abandonou as atividades empresariais. Em 1900, Thomas publicou “Os Buddenbrook” que o tornou famoso e, que mais tarde lhe rendeu o prêmio Nobel de Literatura. Em 1905, Mann casou-se com Katia Pringsheim, filha de uma proeminente e secular família judia de intelectuais. Dessa união nasceram seis filhos: o escritor Klaus, a atriz Erika, o historiador Golo Mann, a ensaísta Monika Mann, o violinista e literato Michael Mann e a cientista Elisabeth Mann. (Fonte: Wikipédia)

Thomas Mann é famoso por seus calhamaços (livros grossos), no entanto, entre a publicação de seus tradicionais calhamaços, o escritor publicava obras mais leves que podem ser classificadas como novelas (no que tange ao tamanho, entre os contos e os romances). Este é o caso da obra: “As cabeças trocadas: uma lenda indiana” que constitui um bom livro para se iniciar na leitura deste importante autor. Na obra, Mann aborda uma lenda indiana acerca de um triângulo amoroso envolvendo dois amigos de infância, Shridaman, descendente de uma estirpe de Brâmanes, e Nanda, um ferreiro e pastor de gado. Os amigos tinham características díspares. Shridaman era espiritualizado e erudito e, considerava a mente superior ao corpo, logo, possuía um corpo pouco desenvolvido. Nanda, por sua vez, trabalhava em serviços pesados, portanto, tinha uma musculatura bem desenvolvida. Em uma viagem de cunho comercial, os amigos param descansar e aproveitam para fazer o banho de purificação em um local tradicionalmente utilizado para este fim. Acabam por ver uma bela jovem nua realizando seu banho de purificação. Shridaman alerta a Nanda que não deveriam espiar, pois, não é correto. Nanda discorda e, ambos continuam a observá-la sem que esta perceba. Nanda identifica a moça, chama-se Sita, e conhece o lugar onde ela mora com sua família. No retorno da viagem, Shridaman falando até em suicídio, confessa ao amigo que não consegue ver sentido na vida se não tiver a jovem como sua esposa. Nanda após tirar sarro do amigo apaixonado, resolve ajudá-lo, conversa com o pai de Shridaman e juntos vão tratar com o pai de Sita. Tudo resolvido, Sita se casa com Shridaman e Nanda se mantém próximo do casal e, seu corpo perfeito torna-se alvo dos olhares de Sita.

Quando o jovem casal resolve visitar os pais de Sita (que se encontra grávida e ainda mais bonita), Nanda se oferece para ir junto para conduzir a carroça puxada por um camelo e um boi da raça zebu. Ao encontrarem um templo dedicado a deusa Kali, Shridaman solicita-lhes que o esperem na carroça a fim de que faça uma oração. A demora de seu retorno causa estranheza e Nanda pergunta se Sita ficará bem sozinha para que ele vá ao encontro de Shridaman saber o motivo da demora. Ela concorda e, quando Nanda chega ao interior do templo vê uma imagem aterradora, a cabeça de Shridaman separada do corpo e, em sua mão uma espada, com o sangue escorrendo para o altar dos sacrifícios à deusa. Nanda constata que pensariam ter sido ele quem deu cabo de Shridaman e, lembra-se de uma promessa feita por ambos, em que um não sobreviveria ao outro. Pega a espada e, tal como Shridaman, separa a própria cabeça do corpo. Com a demora, Sita vai ao local e, entra em desespero ao ver a cena, imagina que os dois amigos se mataram por causa dela, no que é repreendida pela deusa Kali, que lhe explica que os rapazes se imolaram em sacrifício a esta, e que ela também não iria aceitar o sacrifício e, solicita que Sita recoloque com muito cuidado, a cabeça de cada um junto ao respectivo corpo observando sua exata posição, para que ela possa devolvê-los a vida. No entanto, Sita troca as cabeças, de forma que a cabeça de Shridaman seu esposo, fica com o corpo vigoroso de Nanda e, o corpo pouco desenvolvido de Shridaman fica unido à cabeça de Nanda, cuja mente sempre foi pouco exercitada. A partir deste momento, a discussão é sobre o que predomina: a mente sobre o corpo ou, o corpo sobre a mente. Quem é o marido de Sita? A cabeça de Shridaman, cujo corpo (de Nanda) ela ainda não conhece? Ou o corpo de Shridaman que está com a cabeça de Nanda? Quem é o pai do filho de Sita? A mente ou o corpo? Com quem Sita deve ficar? Com a cabeça de Shridaman (culto) que se encontra com o musculoso corpo de Nanda? Ou com o corpo mirrado de Shridaman que se encontra com a cabeça de Nanda (mentalidade simplória)? Como resolver a questão? Encerro aqui para não estragar-lhe o prazer da leitura e da descoberta.

Sugestão de Boa Leitura:

Título: As cabeças trocadas: uma lenda indiana.

Autor: Thomas Mann.

Editora: Companhia das Letras, 2017, 118 p.

Preço: R$ 35,70.

O quê? Você não leu Thomas Mann?

Lembro-me de uma ocasião nos idos da década de 1990, em que me encontrava em Faxinal do Céu, município de Pinhão, estado do Paraná, para participar de uma semana de formação, que tinha como público-alvo, um grupo de aproximadamente mil docentes da rede pública estadual. As formações duravam uma semana. A badalada Universidade do Professor era uma das estratégias de marketing do então governador Jaime Lerner. O ponto forte do governo Lerner era o marketing, eu costumava dizer, que, ao desligar a TV ou largar os jornais, seu governo acabava. Em Faxinal do Céu havia a antiga vila dos trabalhadores que construíram a Usina de Foz do Areia de propriedade da estatal paranaense Copel. Neste espaço, devidamente adaptado, os professores eram alojados. Em um dos auditórios, este escriba assistia a fala de Arthur Pereira e Oliveira Filho que havia criado a estrutura organizacional dos cursos ministrados naquele local.

A empresa que administrava a Universidade do Professor era o Centro de Educação Gerencial Avançada, empresa de Petrópolis, estado do Rio de Janeiro, e que habitualmente realizava cursos e palestras para grandes empresas privadas ou estatais. A contratação de tal empresa, dizia-se, custara uma fábula contada aos milhões de reais, enquanto isso, nas escolas a realidade era a de falta de recursos, sucateamento do espaço escolar e defasagem salarial dos trabalhadores em educação. Nesta época presenciei a parcialidade da Revista Veja, pois, estava ao lado de um colega professor que deu entrevista mostrando a cortina de fumaça que Faxinal do Céu representava e a verdadeira realidade da educação paranaense à assim considerada “bíblia” da informação dos conservadores. Quando a revista saiu com a matéria, constatei que ela fora totalmente parcial, somente os elogios ao governo foram publicados e nenhuma palavra sobre a fala de meu colega, hoje, professor universitário.

            Arthur, no início de sua fala, disse com grande orgulho morar na casa que pertenceu ao eterno golpista Carlos Lacerda. E, eu disse à minha esposa que se encontrava sentada ao meu lado: “e ele tem orgulho disso? Eu não moraria nessa casa sem que um padre nela jogasse água benta”! Ao questionar o público formado por professores (cuja triste realidade nada a tinha a ver com a maquiagem de Faxinal do Céu, cuja encenação fazia com que professores de outros estados invejassem os paranaenses) sobre o hábito de leitura destes, afirmou: “O quê professores? Vocês não leram Thomas Mann? Francamente! Estou decepcionado com vocês”! À saída do Auditório Rubens Correa havia uma exposição de livros à venda, ainda constrangido devido à fala de Arthur, por quem tinha um misto de admiração por sua intelectualidade, porém, com uma forte dose de crítica ao seu pensamento que considerava demasiado conservador e burguês, questionei o vendedor sobre um livro de Thomas Mann (não lembro o título) que constituía um verdadeiro calhamaço. O vendedor informou o preço, o qual constituía 1/6 de meu salário de professor recém concursado, pois, à época ao ser aprovado em concurso, o professor era premiado com uma forte redução de seu salário que ficava congelado durante todo o estágio probatório de dois anos, mas, que durava quase três até a primeira promoção na carreira. Ao constatar não ter condições de comprar o livro, pois, a prioridade de recém-casado (eu e minha esposa ao nos unirmos, somente tínhamos um ao outro) era colocar comida na mesa, pagar aluguel e demais despesas da casa e sonhar dias melhores que o salário inicial do magistério não comportava. Na ocasião, vários professores comentaram a falta de tempo para a leitura, pois, não havia a hora-atividade e estes corrigiam provas e trabalhos em seu tempo livre em casa, o qual deveria ser para descanso.

Fazer atividades do trabalho em casa constitui trabalho escravo, pois, não é remunerado e o professor é obrigado a fazer, sem, no entanto, receber por isso. Houve outros colegas que também afirmaram serem os livros caros demais. Lembro de ter lido um artigo em que um professor questionou o substituto de Arthur em Faxinal do Céu (Rubens Portugal) se ele sabia o que eram os faxinais e este afirmou não saber. Não causa surpresa, portanto, que as mentes que conduziam os cursos cuja tônica era a motivação, desconheciam a realidade dos educadores do estado, pois, não haviam pisado o chão da escola paranaense. Afirmavam que dos professores e tão somente destes dependia a solução de problemas da educação que eram na realidade omissões e falhas do Estado e do modelo de sociedade construída. Visavam ainda levar os educadores a sonhar com o paraíso na Terra durante uma semana. O problema é que após aquela semana, a realidade se impunha como um pesadelo na forma de uma escola carente de tudo na mente de cada educador que retornava ao trabalho. Concluo dizendo: Sim, também tenho culpa! Votei em Lerner “o arquiteto” para evitar o mal maior, que para mim seria Álvaro Dias, mas, não em sua reeleição. E digo: se puderem, leiam Thomas Mann!

Governo deliroide

Há alguns dias, em uma rede social, vi um post com um mapa da América do Sul em que todos os países estavam nominados, exceto o Brasil, sobre cujo território aparecia a palavra hospício. Considerei que diante do atual estágio em que se encontra o país, a comparação com um hospício é justa. A psicóloga, mestra e doutora em educação Rita Almeida, diante da performance do ator José de Abreu que se autoproclamou presidente do Brasil em fina ironia ao político venezuelano Juan Guaidó, publicou há alguns meses um artigo imprescindível para entender o governo Bolsonaro e seus apoiadores.  Ciente da importância e da atualidade de seu artigo, somente agora o publico neste espaço pela dificuldade que encontrei em contatar a autora para obter sua autorização. Sem delongas eis o artigo:

Que estratégia político-terapêutica para um governo deliroide?

Por Rita Almeida – Psicóloga, mestra e doutora em educação pela Universidade Federal de Juiz de Fora (MG)

 

Não acho prudente, nem ético, usar a psicanálise para diagnosticar ou analisar pessoas fora do meu consultório, mas é totalmente possível ou aceitável utilizá-la para analisar conjunturas político-sociais. Mas, nem é preciso entender de psicologia para perceber que o Bolsonarismo tem um componente deliroide bastante forte. As tão faladas “Fake News” exemplificam muito bem o que eu chamo aqui de deliroide: verdades construídas a partir de fragmentos ou de indícios de realidade e tornadas verdades universais. Eu trabalho no campo da saúde mental há mais de 20 anos, e se tem uma coisa que aprendi com esse trabalho é que o delírio não pode ser desmontado por uma simples confrontação com a realidade ou com racionalidade. Se o sujeito, em franco delírio, chega até você afirmando que tem um chip instalado na cabeça e através do qual se comunica com extraterrestres, não há absolutamente nada que se diga que mudará sua perspectiva de realidade. Nem que eu lhe mostre uma ressonância magnética do próprio crânio, ou que seja possível abrir sua cabeça para mostrar que não há nada lá, ele não se demoverá de sua verdade. Isso pelo simples fato de que aceitar desmontar tal delírio seria desmontar a si próprio, já que, naquele momento, por uma fragilidade simbólica, o sujeito encontra-se totalmente assentado sobre aquela verdade. Se ela cair, ele cai junto. Freud dizia que os psicóticos amam o próprio delírio como a si mesmos. Resumindo, é isso.

Semana passada li um artigo do Javier Salas no El País, sobre o terraplanismo intitulado: “Você não pode convencer um terraplanista e isso deveria te preocupar”. Os terraplanistas, afirma Salas, simplesmente acreditam que a Terra é plana, e qualquer dado que possa prová-los do contrário é simplesmente ignorado ou considerado manipulação de conspiradores. Obviamente que não é possível dizer que todos os terraplanistas são psicóticos ou doentes mentais, mas certamente, podemos falar de um empobrecimento ou fragilidade simbólicas, o que favorece o discurso que chamei de deliroide, ainda que ele não seja rigorosamente delirante. Voltamos ao Bolsonarismo, fortemente fundamentado num discurso deliroide, reforçado pela sua reprodução maciça nas redes sociais, especialmente no Whatsapp. Se o clã Bolsonaro está se aproveitando do discurso deliroide ou se acredita mesmo nele, eu não saberia dizer. O fato é que ele tem sabido utilizá-lo muito bem, desde a campanha eleitoral, e também tem sido bastante competente em agregar a si personagens igualmente deliroides (nem é necessário citá-los um a um). Diante disso, não há debate político possível. Não há racionalidade que possa confrontar os argumentos do Bolsoplanismo. Então, o que fazer? Que estratégias utilizaremos?

O que posso dizer a partir do que estudei e pratiquei todos esses anos é que, se não é possível desmontar um delírio, é possível desconstruí-lo pouco a pouco, parte por parte. Fazer pequenos furos, abalar algumas verdades, duvidar, perguntar, são algumas das estratégias que utilizamos para ir minando a certeza do sujeito delirante, fazendo-o enxergar outras possibilidades. E é muito importante que ele encontre outras possibilidades, caso contrário, voltará para sua certeza delirante, que ao menos lhe assegura um lugar. Comecei a escrever este texto, com a intenção de defender a estratégia do ator José de Abreu, ao criar seu personagem presidente. Obviamente que ele não partiu de nada disso que eu falei para se autodeclarar presidente, mas acredito que tenha pensado algo do tipo: “diante de tanto absurdo, o remédio só pode ser mais absurdo”, e suponho que ele tenha razão. Não há argumento racional que possa arredar o Bolsoplanismo do seu lugar. O debate, o noticiário, a justiça ou a ciência (números, estudos e estatísticas), não fazem o menor efeito. Portanto, é necessário provocar outros afetos nessas pessoas, afetos que possam ir descontruindo suas certezas. Obviamente que não estou me referindo ao clã Bolsonaro e sua trupe maluca, e haverá também um núcleo duro que irá defender o Bolsoplanismo até a morte, mas é possível reduzir bastante o contingente de militantes deliroides, até que fiquem relativamente inofensivos.

Voltando ao teatro do absurdo estrelado por José de Abreu – e é perfeito que isso esteja sendo feito por um ator - acredito que ele esteja colocando em prática uma coisa que fazemos nos nossos serviços de saúde mental e que funciona muito. Como usamos muitas práticas coletivas (grupos, oficinas e outras) os pacientes começam a ter que lidar com os delírios uns dos outros e, desse modo, começam a enxergar o seu próprio delírio. Ao duvidarem do delírio do outro, passam a duvidar do seu também. Ao rirem do delírio do outro, começam a rir do seu também. Ao se envergonharem do delírio do outro, começam a se envergonhar do seu também. E todos esses afetos, se não derrubam completamente os delírios, os deixam menos rígidos, emburrecedores e limitadores. Tenho considerado que a performance de José de Abreu, já abraçada por vários outros políticos aliados, pode funcionar como uma grande oficina terapêutica a céu aberto. E ela tem ficado ainda melhor por contar com a participação do próprio Bolsonaro, que se dispõe a sair de sua posição de Presidente diplomado, para “bater boca” com um presidente fake. Apenas esse fato já nos dá a medida do tamanho do surreal que nos (des)governa, e do quanto a oficina do presidente fake está funcionando. Sugiro que ela não pare, e se amplie.

Por hora, o que podemos fazer para desbancar o Bolsonarismo e seu mito deliroide é isso mesmo: miná-lo. Para tal, precisaremos despertar o maior número de pessoas possível. Acho uma excelente estratégia fazer isso por meio do humor e do teatro do absurdo. O Brasil precisa enxergar sua própria loucura.

Contra um fake Presidente, nada melhor que um fake concorrente.

José de Abreu para presidente do Brasil!
E já me ofereço para o Ministério do Alienismo!

 

 

Quem pagou a conta? A CIA na Guerra Fria da cultura

Tão logo foi lançado, o livro “Quem pagou a conta? A CIA na Guerra Fria da cultura” de Frances Stonor Saunders, este se tornou uma sensação nos círculos acadêmicos e políticos dos Estados Unidos da América. No ano de seu lançamento nos EUA (1999), o Brasil se encontrava no início do segundo mandato de Fernando Henrique Cardoso (FHC), após a flexibilização do câmbio, medida adotada mediante a nova quebra financeira do país que uma vez mais recorria ao Fundo Monetário Internacional (FMI). Os adversários o criticavam por sua manobra eleitoreira de esconder a desvalorização do real frente ao dólar (não sem que alguns privilegiados soubessem) adotada logo após as eleições, sempre tendo o auxilio do onipresente FMI, visando sua permanência no Palácio do Planalto.

            O livro chegou às livrarias brasileiras já no segundo mandato de Luís Inácio Lula da Silva (2008) e mostrou a que veio ao causar o mesmo frisson, num período em que as comparações entre os governos de FHC (1995-2002) e o de Lula (2003-2010) se tornaram inevitáveis. Os críticos ao governo de FHC formados em sua maioria pela esquerda e centro-esquerda eram muitos, também muitos eram os seus defensores. FHC em seu governo levou a cabo um dos maiores programas de privatizações do mundo. E privatizar ou não já é algo que divide opiniões, pois, está no cerne das discussões ideológicas sobre o papel do Estado. Afinal, o Estado deve ser mínimo e estar a serviço da iniciativa privada ou prestar serviços básicos à população mantendo empresas estatais em setores estratégicos e fomentar o desenvolvimento socioeconômico nacional? Pior ainda quando além dos preços baixíssimos alcançados nos leilões das estatais, grande parte das privatizações se fez com empréstimos subsidiados (de “pai para filho”) do BNDES ou em troca de “moedas podres” (títulos públicos desvalorizados), ficando essas privatizações conhecidas como privataria (privatização+pirataria). O sucesso no campo socioeconômico do governo Lula em oposição aos resultados pífios do governo FHC não era suficiente para a centro-esquerda. Era necessário mostrar aos simpatizantes do “príncipe dos sociólogos” ou “príncipe da privataria” quem era FHC e a serviço de quem ele estava. Algo que já estava evidente desde 1997, por ocasião do lançamento do livro “Fernando Henrique Cardoso, o Brasil do possível” da jornalista francesa Brigitte Hersant Leoni. À página 154 da obra, traz à luz as relações de financiamento do CEBRAP de FHC em 1969 pela Fundação Ford (que Saunders revela ser testa-de-ferro da CIA) que pode ter chegado à ordem de um milhão de dólares.

            A autora do livro, Frances Stonor Saunders (1966), é uma jornalista e historiadora britânica, formada pela Universidade de Oxford (1987) que trabalhou como cineasta televisiva produzindo vários documentários. O livro de Saunders é um calhamaço de 556 páginas em que a autora discorre sobre os resultados de sua extensa e detalhada pesquisa. Na obra, a autora mostra que a CIA, por meio de fundações de fachada e outras aliadas não faziam apenas o papel de um suposto Ministério da Cultura do país ianque patrocinando artistas e intelectuais, pois, havia intencionalidades, e estas eram fazer a publicidade anticomunista e pró-estadunidense, sem, no entanto, parecer publicidade dirigida pela CIA a serviço dos Estados Unidos da América. Dessa forma, orquestras sinfônicas e exposições de artistas plásticos estadunidenses foram enviadas em excursões pela Europa principalmente nos anos 1950/60 para divulgar o país, o capitalismo e a democracia liberal buscando eliminar a ideia dos europeus de que os estadunidenses são culturalmente insignificantes.

A CIA patrocinou, e até mesmo criou revistas em vários países europeus, que, para manter as aparências, vez ou outra dirigiam algumas críticas “permitidas” aos Estados Unidos da América. Grande parte das pessoas que trabalhavam nestas revistas não sabiam dos recursos da CIA que mantinham tais publicações cujo foco era condenar o autoritarismo, principalmente o do modelo soviético. Porém, a autora mostra que tal como os intelectuais de esquerda (não comunistas) gostavam de receber os recursos que serviam para a publicação de livros (com diretrizes pré-estabelecidas) e a realização de palestras pelo mundo, ingênuos seriam aqueles que não desconfiassem da fonte dos recursos que recebiam. A CIA, embora priorizasse a Europa, não se esqueceu da América Latina (vide FHC). E se utilizou até das religiões para estabelecer o caráter do comunismo como contrário aos preceitos divinos. Hollywood foi procurada pela CIA e estabeleceu uma longeva parceria com importantes diretores de cinema, os quais adequaram seus filmes para levar ao público da telona uma mensagem anticomunista e pró-estadunidense.

Encerro, citando Henri Poincaré (1854-1912), quando disse: “duvidar de tudo ou acreditar em tudo. São atitudes igualmente cômodas, pois nos dispensam do ato de refletir”. Afinal, nem tudo é teoria da conspiração!

Sugestão de Boa Leitura:

Título: Quem pagou a conta? A CIA na Guerra Fria da Cultura.

Autora: Frances Stonor Saunders.

Editora: Record.

Preço: R$ 144,00

A estranha forma de dialogar do governador Ratinho Júnior

Há alguns dias o governador Ratinho Jr. disse em voz firme à imprensa que não negociava com funcionários públicos em greve. E isto deve fazer sentido para Ratinho Jr. que certamente espera conquistar simpatia da população com sua atitude firme para com os grevistas. Esquece-se o governador que mesmo nestes tempos obscuros pelos quais passa o país, nem toda a sociedade é formada por pessoas nostálgicas de governos autoritários, pois, também há no seio da sociedade uma parcela de pessoas esclarecidas e que sempre formam fila entre os defensores da democracia. Ratinho Jr. que fez parte do famigerado governo Beto Richa (PSDB) apontado como sendo a pior administração que o Paraná já teve, ao se candidatar (inclusive, afirmou ser uma pessoa do diálogo), obviamente, conhecia de antemão os problemas que herdaria ao assumi-lo. Tanto é assim que quando candidato, Ratinho Jr. cobrou da governadora Cida Borghetti (que sucedeu Beto Richa) que fizesse uma proposta de reposição salarial aos funcionários que segundo ele já haviam dado grande contribuição ao ajuste fiscal do Estado. Os funcionários públicos do Poder Executivo estão a quase quatro anos sem os reajustes da data-base. Nesse período, a defasagem salarial atingiu mais de 17% o que segundo o economista Cid Cordeiro Do Departamento Intersindical de Estatísticas e Estudos Socioeconômicos (DIEESE) equivale a 2,27 meses de trabalho sem contrapartida salarial, ou seja, como se o funcionário público trabalhasse doze meses, porém, recebesse por dez meses. Os reajustes da gasolina no período somam 15,04%, do gás de cozinha 22,42%, da energia elétrica 21,84%, do pedágio 21,95%, da água e esgoto 30,71%. É importante lembrar que nesse período (os últimos quatro anos) os servidores dos Poderes Legislativo e Judiciário tiveram regularmente a reposição salarial, algo que somente não ocorreu com os servidores do Poder Executivo. Nesse mesmo período, os salários de magistrados e deputados paranaenses tiveram reposições inclusive acima da inflação do período. No caso do salário dos deputados estaduais, este subiu 47%.

            É importante lembrar que ao falar de funcionários públicos, muita gente tenha a ideia de que se trata de pessoas com salários nababescos e regalias infindáveis. Isto pode valer para o alto escalão, mas, não para a maior parte do funcionalismo público. Nele há trabalhadoras como as funcionárias de escola (agente 1) que se dedicam a fazer a limpeza ou a merenda dos alunos que sequer estão recebendo o salário mínimo regional que o Estado estabelece como o mínimo que a iniciativa privada pode pagar aos seus funcionários, mas, que, no entanto ele mesmo não cumpre. Na semana passada, Ratinho Jr. sem receber a liderança do Fórum das Entidades Sindicais (FES), algo que jamais ocorreu na história do Paraná, divulgou uma proposta que logo saiu nas manchetes de jornais como uma demonstração de boa vontade do governo aos 4% que dizia ele estarem em greve. Num país em que as pessoas apenas lêem as manchetes, faz todo o sentido, pois, ao ler as matérias veiculadas, o leitor veria que o governo está concedendo reajuste de míseros 0,5% para o ano de 2019 (a partir de outubro), o que para a merendeira da escola resultaria na reposição de apenas R$5,00 nos seus vencimentos e R$14,00 aos vencimentos do soldado (PM).  A proposta estabelecia ainda 1,5% de reajuste em 2020 e o mesmo percentual para 2021 e 2022, isso, caso o aumento da Receita Corrente Líquida superasse 6,5%, algo que alguns deputados consideraram não ser possível. O governador ainda exige uma contrapartida por parte dos funcionários públicos que deveriam aceitar a perda de direitos estabelecidos nos planos de carreira tais como as licenças-prêmio.

                É importante lembrar que as perdas do funcionalismo público chegam ao montante de 17%, porém, o FES está solicitando a reposição apenas da inflação do último ano (4,94%), pois, sabe que o Estado não reúne condições para pagar toda a dívida que acumula com o funcionalismo. Apesar disso, um vereador de Laranjeiras do Sul lembrou que desde 2015 o Estado do Paraná tem realizado um extenso programa de dotação de infraestrutura no Estado todo (399 municípios) demonstrando não haver falta de recursos. No entanto, segundo ele o Estado prioriza setores e descumpre com outras de suas obrigações como a reposição da data-base. Isso é verdadeiro, pois, a Constituição Federal (1988) e a legislação trabalhista estabelecem como direito de todo o trabalhador a reposição da inflação. Mas, há outra questão que tira o sono do funcionalismo público. Trata-se do PLC 04/2019 que se encontra na Assembléia Legislativa do Paraná (ALEP). O referido projeto de lei de autoria do Poder Executivo estabelece o congelamento do plano de carreira do funcionalismo estadual. Dessa forma, ficam congeladas por vinte anos as progressões, promoções e quinquênios e também a data-base. Dessa forma, os avanços na carreira deixam de ocorrer conforme os critérios do Plano de Carreira e passam a ocorrer apenas quando autorizados por decreto do governador mediante critérios de evolução das finanças do estado praticamente inalcançáveis, pois, o Estado deseja priorizar recursos para obras esquecendo que o funcionalismo público presta serviços em áreas consideradas essenciais para a população como saúde, segurança pública, educação, etc. A quem interessa a precarização de tais setores? Certamente à classe empresarial que luta pela criação do “Estado Mínimo” e que possui representantes no governo Ratinho Jr que vê a oferta de tais serviços não como direitos básicos, mas, como mercadorias, ou seja, como fonte geradora de riqueza a ser embolsada. A Constituição Federal (1988) estabelece tais serviços como direitos básicos da população e cidadania não se negocia.

Falácias de Moro

Publicar um livro demonstrando as fragilidades e interpretações equivocadas da tese processual em que o então juiz “pop star” Sergio Moro condenou o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva é hoje algo que não causa surpresa alguma tendo em vista as revelações trazidas à luz pelo brilhante jornalista Glenn Greenwald do site The Intercept e conhecidas como “Vaza-Jato” as quais colocam em cheque a credibilidade do juiz. No entanto, fazer isso quando o juiz citado vivia o auge da fama nacional e internacional, no momento em que recebia prêmios e honrarias pelo Brasil adentro e afora é sinal de grande autoconfiança em seu trabalho e de nenhum receio de contestar os populares que muitas vezes sequer pensam, pois, são pensados por uma grande mídia venal que dita o que é ou não verdadeiro, mesmo sem ter grande apego à verdade. Euclides André Mance (1963) natural de Mogi das Cruzes (SP) graduou-se em filosofia pela Universidade Federal do Paraná (1987), é pós-graduado em Antropologia Filosófica (UFPR) e Mestre em Educação. Lecionou as disciplinas de Introdução à Filosofia; Filosofia na América Latina; Filosofia do Método Científico; Lógica e Filosofia da Libertação para turmas de diversos cursos da UFPR na década de 1990. Mance atuou como consultor da UNESCO e da FAO relacionado ao Desenvolvimento Sustentável. É autor de vários livros (traduzidos em vários idiomas) e tem se destacado na organização de redes colaborativas, particularmente no campo da economia solidária. Seu livro mais recente, originalmente em italiano, intitula-se “Circuiti Economici Solidali – Economia Solidale de Liberazione (Pioda, Roma, 2017, pp.217).

Na obra Falácias de Moro, o autor registra na epígrafe a seguinte citação: “Todas as pessoas têm direito a um julgamento justo” e em seguida citando a Declaração Universal dos Direitos Humanos (ONU): “Ninguém pode ser arbitrariamente preso, detido ou exilado (art.9)”; “Toda a pessoa tem direito, em plena igualdade, a que a sua causa seja equitativa e publicamente julgada por um tribunal independente e imparcial que decida dos seus direitos e obrigações ou das razões de qualquer acusação em matéria penal que contra ela seja deduzida. (art.10)”; “Toda a pessoa acusada de um ato delituoso presume-se inocente até que a sua culpabilidade fique legalmente provada no decurso de um processo público em que todas as garantias necessárias de defesa lhe sejam asseguradas. (art.11)”; “Ninguém sofrerá intromissões arbitrárias na sua vida privada, na sua família, no seu domicílio ou na sua correspondência, nem ataques à sua honra e reputação. Contra tais intromissões ou ataques toda a pessoa tem direito a proteção da lei. (art.12)”.

Na primeira parte do livro o autor discorre sobre as falácias de Moro, sendo elas: Falácia do apelo à crença comum; da circularidade; non sequitur; do apelo à presciência; dos argumentos ad hominem; do apelo à crença; do apelo à possibilidade; da equivocação; da inversão do ônus da prova. Segundo o autor: “falácia pode ser definida como erro de raciocínio, como argumento sem consistência lógica, que não tem, pois, validade para sustentar a conclusão afirmada. Uma falácia leva a tomar o falso por verdadeiro. Quando cometida de forma involuntária, chama-se paralogismo e quando realizada de forma proposital, visando confundir o interlocutor, chama-se sofisma”. Na segunda parte o autor analisa a articulação geral das falácias analisadas no conjunto da sentença. As considerações finais surpreendem, pois ocupam apenas uma página. Certamente o autor demonstrou por meio dela aquilo que é sabido nos meios jurídicos: as grandes sentenças condenatórias são aquelas enxutas e breves, pois demonstram a culpa do réu sem precisar fazer divagações e malabarismo jurídicos para comprová-la. Como sabemos a sentença condenatória do processo do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva é gigantesca comprovando a máxima de que quantidade de folhas na sentença é inversamente proporcional à qualidade. Quanto à sentença condenatória de Lula, um grande número de juristas nacionais e estrangeiros a contestam apresentando suas inconsistências e equívocos afirmando que ela deveria ser anulada. No que concerne à leitura do livro em questão, é agradável e acessível, tanto do ponto de vista do entendimento quanto da obtenção, pois, o arquivo PDF pode até ser baixado gratuitamente do site do autor na Internet.

Sugestão de boa leitura:

Falácias de Moro: Análise Lógica da Sentença Condenatória de Luiz Inácio Lula da Silva Processo n.º 5046512-94.2016.4.04.7000

Autor: Euclides André Mance.

Editora: IFIBE, Passo Fundo (RS), 2017, 276 p.

*Arquivo PDF disponível em: www.solidarius.com.br/mance.

Democracia em vertigem

Há alguns dias a Netflix disponibilizou o documentário “Democracia em vertigem”¹ dirigido por Petra Costa. Tendo em conta a ampla repercussão acerca da obra, considerada por muitos como merecedora de uma futura indicação ao Oscar, não tardei em assisti-la. Fiquei tão perturbado pela obra audiovisual que hoje resolvi assisti-la novamente. Não há nada no documentário que eu não tenha lido em dezenas de livros e centenas de artigos. Mas, é chocante assistir as imagens e ouvir os áudios de fatos que tal como peças de um quebra-cabeça montam o mosaico do Brasil surreal que se delineou a partir de então e que mais se parece a obra de Franz Kafka tornada realidade. Não obstante assistir por duas vezes o documentário li artigos publicados em grandes jornais e revistas de circulação nacional para entender como estes o percebiam.  No documentário, Petra Costa situa o seu nascimento pouco anterior ao inicio do período democrático pós-ditadura militar (1964-1985). Também torna conhecida sua condição de observadora integrante da elite rica do país, neta de um dos sócio-fundadores (avô materno) da mega-construtora Andrade Gutierrez e filha de pais militantes de esquerda durante os anos de chumbo, os quais viveram na clandestinidade em Londrina e cujo paradeiro os pais ignoravam. Na Folha de São Paulo, Breno Altman afirma que “o documentário “Democracia em vertigem” não é para corações e mentes desavisados. Cada pedaço de narrativa é um golpe no estômago, flertando com a tessitura de uma tragédia shakespeariana”. Registra ainda que “‘Democracia em vertigem’ é um libelo contra o desmoronamento de um sonho de liberdade e justiça, mas nenhum dos personagens, incluindo as vítimas centrais desse terremoto político, foi poupado pela documentarista”. Eu seu artigo, Altman afirma que no documentário Lula e Dilma não são idealizados.²

                A obra mostra Luís Inácio Lula da Silva se lamentando por não ter feito a regulação econômica dos meios de comunicação no tempo em que estava à frente do Poder Executivo nacional. Sua inação neste quesito é alvo de muitas críticas dos setores progressistas da sociedade (inclusive do autor destas linhas e já publicadas neste espaço). É importante lembrar que regulação econômica da mídia nada tem a ver com censura, mas, em cumprir a Constituição Federal de 1988 que proíbe a propriedade cruzada dos meios de comunicação (Emissoras de TV’s, rádios, jornais e revistas). O documentário mostra Dilma lamentando o alto custo imposto ao Governo e ao PT com as alianças que se fizeram necessárias para obter a governabilidade e assessores lamentando que nos governos petistas não fora proposto a reforma política que impedisse o financiamento de campanhas pelas empresas, fonte maior da corrupção do sistema democrático, no qual o PT acabou por aderir por considerar normal, pois, todos assim faziam. Um momento interessante é quando um assessor do ex-presidente Lula afirma que um lema do PT era “um pé dentro e um pé fora”, ou seja, atuar dentro das instituições, mas, sem jamais perder o contato com as bases e segundo este assessor, o Partido dos Trabalhadores pensou que poderia governar por dentro mantendo relações cordiais com a elite financeira do país e acabou por perder a conexão com a sociedade.

                Fernando Carneiro em seu artigo “‘Democracia em vertigem’ é honesto, mas ignora questões essenciais” (publicado na revista Época do Grupo Globo) critica a ausência do registro da atuação dos militares como partícipes dos fatos que resultaram na atual realidade nacional com Jair Bolsonaro na presidência. Discorda que a elite “forçosamente” de direita tenha o papel a ela imposto como criadora de uma situação artificial para forçar a saída de Dilma. Coloca a culpa de sua deposição na má administração política e econômica (ignorando que impeachment somente pode ocorrer por crimes de responsabilidade e não por má administração) e afirma que a pressão das ruas veio de “uma ralé moralista que ascendeu graças ao PT. Os agora malditos pobres de direita”. Coloca ainda os representantes do petismo no poder no mesmo balaio, pois, segundo ele Bolsonaro e Maluf também votaram com o PT e que os dois declararam que já apoiaram Lula no passado e que “a cama foi feita e nela todos se deitaram” (ignorando que o sistema de presidencialismo de coalizão obriga todo governante que não possui maioria parlamentar a fazer alianças mesmo bizarras para obter a governabilidade). No artigo critica Bolsonaro pela ausência de consciência liberal e pelo excesso de corporativismo (a defesa do soldo e dos privilégios dos militares), afirma ainda que “o governo (Bolsonaro) está nos levando para uma recessão que não estava no radar”. Reitera que o impeachment de Dilma e a perseguição de Lula, com Moro e Dallagnol em seu encalço, mostrou a vitória incontestável, para o bem e para o mal, da supracitada ralé reacionária que subiu com os grandes avanços sociais do Brasil, promovidos pelo PT. Conclui dizendo que “o filme entristece muito as pessoas. Gera muita vergonha alheia”. “E que [...] o “campo democrático” voltará com força. [...] e que espera que a história não se repita nem como farsa, nem como tragicomédia – ficcional ou não”. ³

                De minha parte, considero que caso lesse uma obra de ficção retratando processos como o de impeachment sofrido por Dilma e aquele levado a efeito contra o ex-presidente Lula não teria dúvida alguma de se tratar de uma obra kafkiana ou nela inspirada. É famosa a frase “a vida imita a arte”, no caso brasileiro, superou-a!

Fontes:

  1. Democracia em vertigem (2019), duração: 2h01’ – Diretora: Petra Costa. Disponível na Netflix.
  2. Disponível em https://www1.folha.uol.com.br/ilustrada/2019/06/cada-pedaco-de-democracia-em-vertigem-e-um-golpe-no-estomago-que-estremece-o-espectador.shtml - acesso em 25 de junho de 2019.
  3. Disponível em: https://epoca.globo.com/artigo-democracia-em-vertigem-honesto-mas-ignora-questoes-essenciais-23759475 - acesso em 25 de junho de 2019.
Vidas Secas

 Graciliano Ramos de Oliveira é um dos maiores nomes da literatura nacional. Destacou-se como romancista, cronista, jornalista, político, memorialista e militante comunista. Graciliano, nascido em 27 de outubro de 1892 na cidade alagoana de Quebrangulo era o primeiro de uma família de dezesseis irmãos numa típica família de classe média nordestina. Casou-se em 1915 com Maria Augusta de Barros que morreu cinco anos depois lhe deixando quatro filhos. Em 1927 elegeu-se prefeito de Palmeira dos Índios, porém, renunciou ao cargo dois anos depois. Em 1933, já morando em Maceió publicou Caetés, seu primeiro livro. No ano seguinte, publicou São Bernardo. Quando se preparava para publicar seu terceiro livro, foi preso após a Intentona Comunista de 1935 na ditadura Vargas. Em 1936 lança angústia, considerada por muitos críticos sua melhor obra. Porém, é por meio do livro “Vidas Secas” publicado em 1938 com o qual se consagrou que é muitas vezes lembrado. Penso que é uma extrema injustiça, pois sua obra é vasta e recebeu inúmeros prêmios. Graciliano que foi militante do Partido Comunista Brasileiro (PCB) comandado por Luis Carlos Prestes, e que durante a prisão (sem processo e sem provas) por tal fato escreveu suas memórias, publicadas post mortem na forma do livro “Memórias do Cárcere” (1953) morreu vítima de câncer de pulmão em 20 de março de 1953 na cidade do Rio de Janeiro. (Fonte: Wikipédia)

            A obra Vidas Secas conta com treze capítulos que embora possam ser lidos de forma aleatória, não é o melhor a se fazer, pois, há certa linearidade entre eles.  A obra retrata a história de retirantes da seca no sertão nordestino migrando na esperança de dias melhores. Os seis integrantes da família são Fabiano (o pai), Sinhá Vitória (a mãe), o filho mais velho e o filho mais novo (os filhos não possuem nomes na obra), o papagaio e a cachorra baleia. A narrativa coloca os animais como integrantes da família e descreve algumas vezes os pensamentos da cachorra baleia. A família percorre dias sempre fugindo da seca e carregando os poucos pertences que na vida conseguiu juntar. As dificuldades da travessia pelo semi-árido impõem a necessidade de sacrificar o papagaio para ter algum alimento para a família. O que causa profunda tristeza nos meninos. O pai tenta consolá-los afirmando que “o papagaio nem sequer sabia falar”. Uma ironia refinada de Graciliano, pois, na família todos são analfabetos e que possuem extrema dificuldade de utilizar as palavras para se expressar mesmo oralmente. Certo dia, a seca termina e a família encontra uma casa abandonada numa fazenda e se estabelece com grande esperança de que enfim, os dias de sofrimento acabaram. Alguns dias se passam e aparece o dono, mas, Fabiano faz um acordo e passa a trabalhar para o fazendeiro. Sinhá Vitória tem como maior sonho ter uma cama de verdade. Fabiano trabalha muito, mas, o produto do suor do seu trabalho sempre fica quase integralmente para o fazendeiro.

Quando Fabiano vai à cidade, sua dificuldade de se expressar oralmente somada à rudeza que lhe é característica lhe impõe problemas com a polícia, ocasião pela qual é preso. Quando mais tarde teve oportunidade de se vingar do policial, desiste da ideia, pois, pensa: “governo é governo”. Os pais sonham poder colocar os meninos na escola para não terem a triste sina destes, mas, o menino mais novo sonha ser vaqueiro igual ao pai. Um episódio triste para as pessoas mais sensíveis é o capítulo do adoecimento e morte da cachorra baleia que apesar do nome era muito magra e que é sacrificada por Fabiano para o desespero dos meninos. Baleia em seus momentos finais delira sobre dias melhores e com grande quantidade de preás gordos. A história começa e termina com a família fugindo da seca. Trata-se de uma obra cujo título revela sua intencionalidade, a crítica social. O título Vidas Secas pode ser remetido à tragédia natural da seca, ao descaso do governo quanto àquela região, à opressão das autoridades (militares - ditadura) sobre as pessoas comuns, à concentração fundiária que faz com que poucos tenham muita terra e outros não tenham nenhuma, à exploração dos latifundiários (coronéis) sobre os trabalhadores rurais e também ao analfabetismo que coloca pessoas como as que constituem a família de Fabiano num patamar inferior da sociedade sem ter condições de galgar um lugar onde a vida é perene, pois, para a família de Fabiano, a vida é tal como a seca (vem em ciclos), a miséria novamente os alcança sempre quando dela pensavam ter se afastado.

Sugestão de boa leitura:

Vidas Secas – Graciliano Ramos.

Preços: R$ 30,00 (capa comum) – R$ 40,99 (capa dura).

 

O Canto da Sereia

 “Trago-lhes caros leitores uma republicação de um artigo que saiu neste espaço no distante dia 28 de agosto de 2014. Artigo que me rendeu algumas críticas que conquanto fossem desprovidas de fundamento não lhes faltava maldade. Talvez devido à proximidade das eleições majoritárias e a polarização que a marcava visando atingir-me por conta de meu posicionamento ideológico por todos conhecido. O tema agora exaustivamente debatido na Assembléia Legislativa do Paraná (ALEP), a qual por unanimidade, acima de quaisquer bandeiras partidárias e para o bem do meio ambiente e da sociedade paranaense aprovou em primeira discussão a proibição da exploração do gás de xisto pelo método de fracking. O projeto de lei é de autoria dos deputados Evandro Araújo (PSC), Goura (PDT), Cristina Silvestri (PPS) e Márcio Pacheco (PDT), aos quais parabenizo pela iniciativa. Ainda não é definitivo, mas, encaminha-se para bom termo dada a consciência daquela casa quanto aos riscos que tal exploração acarreta. Sei que algumas vezes minhas palavras são duras, porém, dura é a realidade. Pode-se amar o conhecimento, mas, para produzi-lo ou levá-lo adiante não se pode fazê-lo de forma amadora. Algumas pessoas podem me achar arrogante, mas, não se pode titubear quando convicto. Há um provérbio português que dita: o tempo é o senhor da razão! E ele acaba de provar isso”!

O canto da Sereia!

Penso que o leitor certamente já ouviu falar ou então leu a respeito do mito das sereias cujos corpos eram parte mulher e parte peixe. Elas habitavam rochedos e ao avistá-las, os marinheiros eram por elas atraídos devido à sua beleza estonteante e por seu belíssimo e doce canto, assim, guiavam suas embarcações até elas e acabavam colidindo com os rochedos e naufragando. Os gregos relatam que apenas duas pessoas conseguiram escapar ilesos ao encanto das sereias, Orfeu que era o deus mitológico da música e da poesia e que para salvar a si próprio e aos que lhe acompanhavam na viagem de barco cantou mais divinamente do que as sereias superando-as com seu talento e sua voz. O outro vitorioso foi Ulisses que por não possuir o talento musical de Orfeu colocou cera de abelha em seus ouvidos e pediu que lhe acorrentassem ao mastro do navio e deus ordens que se caso implorasse para libertá-lo apertassem ainda mais as cordas que o prendiam. Ulisses quase enlouqueceu gritando para ser liberto e assim poder ir ao encontro das sereias, mas, passou ileso pela grande provação a que fora submetido. No primeiro caso Orfeu foi vencedor porque teve espírito de superação, autoconfiança e coragem de fazer ainda melhor e no segundo caso, Ulisses sobreviveu porque teve a consciência de sua fragilidade e tomou atitudes sábias para evitar o feitiço visual e musical das sereias.

 Mitologia é sempre um assunto interessante, muitos livros e filmes se produziram com tal temática, no entanto, neste artigo serve apenas para introduzir neste espaço a discussão que precisa ser feita por todos  antes que seja tarde demais e não dê tempo para preparar a voz  daqueles que talento possuírem ou na inexistência de tal dom para tapar os ouvidos com cera. Este escriba que redige estas linhas adotará por não haver outra possibilidade a estratégia de Ulisses. Há um debate que precisa ser urgentemente realizado, trata-se da exploração através do sistema de “fracking” do gás de xisto, na verdade, o termo correto seria gás de folhelho betuminoso. O Folhelho betuminoso é uma rocha sedimentar que se aquecida num processo antieconômico vira óleo e é possível obter dela os combustíveis normalmente obtidos do petróleo. O Brasil possui uma das dez maiores reservas de folhelho do mundo e há a intenção da Copel de explorar inicialmente uma região localizada no terceiro planalto paranaense entre Pitanga, Cascavel, Toledo e Paranavaí.

O fracking, ou fraturamento hidráulico consiste numa nova técnica em que água com aditivos químicos cuja fórmula não é revelada por constituir segredo empresarial é injetada sob altíssima pressão por um furo vertical até atingir a camada de folhelho e após são feitas perfurações horizontais para liberar o gás presente na rocha que tem a mesma utilidade do gás natural obtido pelo método de perfuração tradicional com máquinas perfuratrizes de petróleo para libertar o gás do bolsão em que se encontra. Tanto o petróleo como o folhelho é encontrado em áreas sedimentares e  no Terceiro Planalto Paranaense se encontra em profundidades de mil a dois mil metros. Lembro-me de ter lido certa vez um livro sobre os Estados Unidos da América que relatava os graves danos ambientais nas regiões de exploração por tal método, onde as compensações financeiras que alguns fazendeiros receberam foram insuficientes para cobrir os prejuízos, pois, tiveram que abandonar a prática da agropecuária porque a carne e os alimentos naquela região produzidos estavam contaminados e impróprios para o consumo, aliás, a saúde dos moradores da região também se deteriorou gravemente e a água de lençóis freáticos e rios contaminados não puderam mais ser utilizados para consumo humano. Atualmente não há como evitar a contaminação porque é impossível saber onde os gases podem ser liberados uma vez que as rochas do subsolo apresentam fraturas pelas quais as águas infiltram até camadas mais profundas. Nos EUA ocorreram casos de rios pegando fogo, e mais bizarro ainda, fogo saindo pela torneira. Há também registros naquele país de terremotos em áreas inusitadas que estão sendo investigados por sua possível relação com o método do fracking. A Argentina também enfrenta os problemas ecológicos e econômicos de tal exploração resultantes.

Na atualidade, o canto da Sereia diz respeito a uma proposta extremamente vantajosa e que depois se mostra um engodo. As autoridades da Cantuquiriguaçu, os professores e estudantes do Ensino Básico e Superior, especialmente a UFFS, os agricultores, os pecuaristas, enfim, todo o povo paranaense precisa debater o tema e em meu ver combater essa monumental tragédia ecológica que se prenuncia, a possível morte por envenenamento do Aquífero Guarani e inviabilidade econômica da agropecuária nas regiões de exploração e circunvizinhas.

 

P.S. Parabéns aos cidadãos de Toledo e Cascavel que resistem brava e heroicamente ao canto da Sereia!