Letras em Construção - Claudio Rieke
Chamarizes

Chamariz é algo que usamos para atrair outras coisas ou pessoas com algum objetivo particular ou público. Ele pode ser um objeto ou uma pessoa, um chamariz também pode ser chamado de isca ou “boi de piranha”.

Vi, dia desses, numa propaganda de uma boate que as mulheres naquele dia não pagariam suas entradas. Alguns jovens disseram que “era uma boa”, pois assim o salão estaria cheio de mulheres “dando sopa”. Eis a questão! A gratuidade é o chamariz em que os rapazes é que pagam a festa para todos “se divertirem” e onde as mulheres são as iscas. Particularmente, penso nisso com certo mal estar, pois as mulheres acabam tornando-se objetos e, muitas vezes, nem se apercebem disto

Outro tipo de chamariz é quando uma matéria importante está sendo votada no Congresso e estoura algum escândalo de momento para desviar a atenção sobre o Congresso enquanto ocorre a votação, quase em surdina. Isso que eu chamo de coincidente surpreendente!

A mídia, em todas as suas vertentes, é responsável pela explosão do consumo através da propaganda. E o que é a propaganda senão uma forma de chamar a atenção sobre um produto ou serviço, ou seja, funciona como um chamariz. E como tal possui um grande poder de influenciar e criar necessidades, hábitos e cultura. E é aqui que quero dizer que a cultura é grandemente influenciada pela mídia tanto para as grandes questões nacionais como para as questões mais miúdas do cotidiano. A opinião de um âncora num jornal ou uma frase que um governante diga, mesmo de passagem, pode derrubar as bolsas de valores. Com a globalização, o mundo evoluiu chegando num ponto extremo de interdependência nacional e internacional.

Chamar a atenção sempre foi um bom negócio. No início destas linhas falei sobre as boates e sua propaganda para arregimentar dezenas de jovens para a “gandaia”. É interessante como tudo na vida é uma questão de escolha. O ser humano é o único ser que se conhece que verdadeiramente não só escolhe como constrói seus destinos na medida em que os escolhe. A propaganda é uma forma de dizer para as outras pessoas que certo comportamento é mais desejável que outro. A questão fundamental é quem tem o direito de escolher quais são os comportamentos desejáveis e quais não são e justificá-los. O resto é chamariz de tolos, tais como daqueles rapazes felizes pelo salão estar cheio de “gatinhas” e jamais se dignarem a comprar um livro para ler ou freqüentarem algum curso que lhes dê uma melhor perspectiva de vida. Como se diz em francês “c’est la vie”.

A questão a ser refletida é como lidamos com isso. Todas as escolhas que fazemos não se dão num “vácuo” ideológico, pois somos o resultado de nossas escolhas num contexto social. Escolhemos o que nos é possível escolher. Faço uma afirmação, sem me aprofundar, que não existe destino nem livre-arbítrio. As escolhas que fazemos dão-se dentro de condições materiais, políticas, econômicas, sociais etc. e, achar que nossas escolhas são fruto de destino ou que somos absolutamente livres para escolher é, em minha opinião, de uma ingenuidade e de um simplismo perturbador. Observemos melhor essa questão e procuremos identificar os chamarizes que pululam em nossa vida.

 

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Bacharelando em direito