Espaço do leitor
Agenda da alimentação no planejamento urbano

Sérgio Benassi é permissionário na CEAGESP

Merece atenção das autoridades da área do abastecimento, a Agenda da Alimentação Urbana, que acaba de ser lançada pela Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO). O estudo enfatiza a premência de boas práticas na redução do desperdício de comida, na promoção de dietas saudáveis e no fortalecimento das cadeias locais de produção.

Para São Paulo, maior cidade brasileira e uma das maiores do mundo, a publicação tem especial significado, pois o antigo Entreposto Terminal da Ceagesp, em Vila Leopoldina, está em total desacordo com as recomendações técnicas do organismo da ONU. A estrutura precária do local – em termos de logística, mobilidade interna, acessos externos, higiene, condições de exposição e venda dos produtos e segurança – há muito tempo tem causado o desperdício de alimentos, provocado demora no fluxo desde o produtor até a mesa do consumidor e enfraquecido a cadeia de abastecimento. Esta é mal atendida, em todos os seus elos, desde o produtor até o supermercado, passando por feirantes, pequenos e médios varejistas, restaurantes, hotéis e sacolões.

A Ceagesp é uma companhia pertencente ao Governo Federal. Por interveniência do Governo de São Paulo, que lançou chamamento público para avaliar um projeto capaz de substituir o velho entreposto, e da prefeitura paulistana, também interessada na questão, o problema ganhou foco político local. No entanto, a demora nas decisões está prejudicando toda a cadeia produtiva do abastecimento e, principalmente, o consumidor final, ou seja, a sociedade. O chamamento público, lançado no segundo semestre de 2017, deveria ter seu resultado anunciado em maio de 2018, mas lá se vai quase um ano. A União também não se manifesta e a prefeitura aguarda... É preciso, portanto, um entendimento entre as três esferas do poder público, de modo que seja adotada solução definitiva para o abastecimento na maior cidade brasileira.

Afinal, como enfatiza o novo relatório da FAO, é preciso engajar a segurança alimentar às cidades porque é nelas onde cada vez mais pessoas vivem, comem e trabalham. Na avaliação da agência da ONU, a urbanização está criando desafios sem precedentes para garantir que todos tenham acesso à comida, mantendo uma alimentação balanceada e preservando os recursos naturais e a biodiversidade do Planeta.

São Paulo, infelizmente, está na contramão dessas recomendações, pois o velho entreposto da Vila Leopoldina dificulta o abastecimento dos 12 milhões de paulistanos e 22 milhões de habitantes da Região Metropolitana. Portanto, precisamos, com urgência, de um novo entreposto, moderno, seguro e eficaz, que garanta à maior metrópole brasileira uma estrutura de abastecimento condizente com suas dimensões e alinhada ao que existe de mais avançado nos países desenvolvidos.

Semana da Saúde e do Combate ao Câncer frisa importância da alimentação

Giuliano Noccioli Mendes é oncologista e cirurgião geral do HSANP

 

A primeira semana de abril reserva duas das mais importantes datas de toda a medicina: o Dia Mundial da Saúde, no dia 7, e o Dia Mundial de Combate ao Câncer, celebrado um dia depois. Os dois assuntos, claramente, caminham de mãos dadas. O Instituto Nacional do Câncer (INCA), por exemplo, espera mais de 600 mil novos casos do transtorno apenas em 2019. Vale lembrar também que, de acordo com a Organização Mundial de Saúde (OMS), o câncer é uma das dez principais causas de morte em todo o globo. Em 2018, cerca de 1.7 milhões de pessoas morreram em razão do câncer de pulmão.

Por causa até dos diferentes tipos de câncer, que podem se espalhar por virtualmente quase todas as regiões do corpo, é difícil sinalizar quais são as melhores maneiras para se prevenir do mal. Existem ainda pessoas com predisposições genéticas à doença, o que apenas piora a situação. O que oncologistas ao redor do mundo concordam, porém, é que uma boa alimentação pode, sim, ajudar a tardar e até prevenir o câncer. Há, por exemplo, um estudo do American Institute for Cancer Research (AICR), um dos mais importantes institutos de pesquisa sobre o câncer dos Estados Unidos, que recomenda que 2/3 de nossos pratos sejam preenchidos com alimentos considerados ricos em fibras, vitaminas, minerais e antioxidantes. Confira abaixo alguns destes alimentos, considerados como “anticâncer”:

1 - Frutas e vegetais como maçã, uva, brócolis, couve, e outros vegetais folhosos verde-escuros ajudam na proteção para os cânceres de pulmão, cólon, mama, próstata, boca e estômago;

2 - Fibras como arroz integral, abóbora, chia, aveia crua são protetores para o câncer do intestino grosso;

3 - Legumes e grãos como tomate, feijões, ervilhas, lentilhas ajudam na prevenção do câncer de estômago e pâncreas, e;

  1. – Frutas como laranja, goiaba, kiwi, cranberry e caju, ricas em vitamina C, têm efeito antioxidante que bloqueiam a ação dos radicais livres, além de inibir a formação de nitrosaminas, que são substâncias cancerígenas.

Uma alimentação saudável é metade do caminho para a prevenção não apenas do câncer, mas também de diversos outros transtornos. Além disso, a prática de exercícios físicos é sempre muito importante, assim como visitas regulares ao médico. Seguindo estes passos, é possível levar uma vida mais duradoura e com mais qualidade.

Ensino religioso em 2019? Para quê?

Raphaela Ribas Lupion Gubert, Coordenadora Pedagógica das Escolas Confessionais do Sistema Positivo

 

Tragédias em escolas, queda do Brasil em índices internacionais de educação, baixa confiança na figura do professor. A atual situação da educação, no Brasil e no mundo, não é das melhores. E, se para profissionais da educação já não é fácil estar no meio de toda essa confusão, quais repercussões esse cenário causa nos alunos? Atualmente, os pais são obrigados a pensar não só no ensino de qualidade, mas naquele que repercutirá seus valores, que oferecerá segurança durante as dezenas de horas semanais em que o filho estará estudando e que o preparará para os desafios que encontrará no futuro, quando sair da escola.

Pode parecer diferente pensar no ensino religioso nesse momento. Muitos podem até se perguntar o porquê, em pleno ano de 2019, ainda temos escolas católicas. Pois bem, as instituições de ensino, em especial as voltadas para a educação cristã, têm como premissa um trabalho dedicado a ajudar a resolver os desafios do mundo atual, incluindo-se os problemas sociais, éticos e morais pelos quais passa a educação de nossos filhos.

E o medo do tradicional não deve ser motivo para desconfianças. As escolas católicas são símbolo, sim, de tradição. As primeiras escolas que surgiram em nosso país, ainda no período colonial, foram de cunho católico. Mas ser tradicional não significa ter ficado no passado ou ser inflexível diante de mudanças. Ter tradição demonstra a existência de uma longa jornada, com histórias e muita experiência - o que não as impede de congregar inovação, aprendizado eficiente e, principalmente, formação humana. Aliar hoje, no cenário da educação, tradição e inovação é encontrar o melhor dos dois lados.

Engana-se ainda quem pressupõe que o ensino cristão tenha a intenção de catequizar os estudantes. Todas as escolas Católicas têm um compromisso junto ao Vaticano de trabalhar com ensino religioso e pastoral em suas escolas e o trabalho atual tem foco no diálogo inter-religioso, justamente para colocar essas crianças e jovens para conhecer o diferente e respeitá-lo. O grande nó dos enormes desentendimentos que se têm no mundo hoje tem influência da diferença de crenças - e o que podemos fazer para melhorar essa situação é ensinar o respeito à opinião alheia.

Escolas Católicas têm em sua essência um trabalho que privilegia a formação humana. São instituições que, por meio de seu carisma e missão, têm como objetivo o desenvolvimento de uma educação de qualidade, mas, acima de tudo, que privilegia o senso crítico e ético, a resiliência e o exercício de se colocar no lugar do outro para que tenhamos crianças e jovens mais humanos, solidários e preocupados em construir um mundo mais justo e igualitário. Ou seja, pessoas mais humanas.

Saber fazer X Querer fazer

Marcelo Boeger, administrador de empresas e Mestre em Gestão da Hospitalidade

 

Há alguns meses atrás fomos surpreendidos com imagens de uma funcionária do setor de higiene e limpeza de um Pronto-Socorro Municipal utilizando a água de um vaso sanitário para lavar um banheiro da unidade de saúde. A ação foi flagrada por um familiar de paciente internado no local que a filmou pelo seu celular e o vídeo foi amplamente divulgado nas redes sociais. No vídeo, a funcionária, que usa luvas e botas de borracha, coleta a água do vaso com uma vasilha de plástico e joga nas paredes durante a limpeza do banheiro de uma das enfermarias do Pronto Socorro.

O desfecho vem com a nota emitido pela Secretaria Municipal de Saúde daquele município, em que diz que a responsável pela higiene é uma empresa terceirizada e que a funcionária já foi desligada da empresa.

Seguramente alguma providência tinha que ser tomada pelos respectivos órgãos e empresas envolvidas, mas sabemos o quanto tais ações estão longe em ter solucionado o problema – que é muito mais complexo.

Já não é novidade que a prevenção e o controle das infecções representam uma das iniciativas mais importantes para a segurança do paciente. Neste contexto, a higiene do ambiente toma uma importância enorme e seus processos, protocolos, técnicas e procedimentos devem ser compreendidos pela equipe que as executa e monitorados pelos que contratam os serviços e pelos que administram e operam sua execução.

Atuo capacitando equipes operacionais e suas lideranças imediatas há 20 anos na área de Saúde e faço uma pergunta retórica: Colaboradores que atuam de forma tão irresponsável como essa flagrada no vídeo, limpando as paredes do banheiro de uma unidade de Saúde com a água do próprio vaso sanitário – desconhecem os procedimentos ou será que não estão suficientemente motivados para a realização destas atividades? Seria pela falta de equipamentos e utensílios para a realização da tarefa ou a falta de gestão – onde se inclui uma supervisão imediata que controle, oriente, motive e as capacite?

Ou seja, a colaboradora “não sabe” que não se limpa o ambiente com a água do vaso sanitário ou será que sabe e mesmo assim, não deseja seguir as regras, técnicas e procedimentos por algum motivo?

Será que é ela quem higieniza o banheiro de sua própria residência? Será que na casa dela, ela obtém a água da privada para realizar a higiene do seu lar? Muito provavelmente não.

Conquistar o engajamento nas equipes e atender procedimentos e metas operacionais das áreas de Hotelaria e de Facilities Hospitalar (que é o setor responsável por este serviço em Instituições de Saúde) também respondem por uma meta importante no controle das infecções. Fazer essa equipe se sentir parte de algo maior naquilo que realizam aumenta o senso de responsabilidade, pertencimento e contribuição.

Não podemos permitir, em pleno século XXI, insistirmos em cometer erros que venham a prejudicar pacientes, com conhecimento que nossa civilização já domina e conhece desde pelo menos nos anos de 1847 (ano em que Semmelweiss realizou diversas constatações quanto a efeito do ambiente e da lavagem das mãos no controle de infecções interferindo nos resultados em suas pesquisas) e veio evoluindo ano a ano desde então – desde a evolução dos produtos químicos que utilizamos para limpar e seus efeitos até a própria técnica de trabalho em si.

A mão de obra que realiza as tarefas responderá a uma gestão competente que meça seus resultados e alinhe seus processos com os serviços de assistência direta – seja ela própria ou terceirizada.

Os efeitos e impactos do alto absenteísmo existente nesta área, do alto turnover pode ser percebido na qualidade da execução dos serviços e do ambiente que a equipe atua. A alta rotatividade atrelada à baixa retenção de conhecimento apresentado pelas equipes por modelos arcaicos de capacitação pode gerar efeitos caros e perigosos. Uma equipe que realmente necessita de gestores muito bem preparados, driblando salários baixos, pouca perspectiva de crescimento e carreira, lideranças que devem estar envolvidas na operação, uma seleção e recrutamento criterioso irão aumentar ou reduzir a criticidade deste quadro. O próprio ambiente de trabalho afetará os resultados.

É sabido que o processo de aprendizagem está intimamente ligado ao estado emocional do aprendiz e o ambiente em que esta equipe atua afeta diretamente o clima e seu desempenho.

Entendo que devemos sensibilizar as equipes operacionais para a importância daquilo que realizam, dos efeitos e das consequências do resultado de seu trabalho. O colaborador deve ir muito além do “saber” e receber estímulos não só conhecimento de produtos e técnicas daquele trabalho, mas também em “querer” atuar conforme os padrões definidos a ponto de tornar o ambiente mais seguro para pacientes, acompanhantes e para si mesmo.

Fim da tarifa mínima pode trazer aumento nas contas de água do paranaense

Requião Filho é deputado estadual (MDB Paraná)


O Paraná tem passado por mudanças transformadoras na última década, com a precarização dos serviços públicos em decorrência da má gestão de nossos governantes. No final, a conta sobra sempre para quem precisa de Governo.

Agora estão vendendo o fim da tarifa mínima da água, como se esta fosse uma conquista da população. Mas não é bem assim! Por trás deste plano infalível, querem aumentar a arrecadação dos acionistas de uma empresa criada para servir a população e não dar lucro. As contas de água devem aumentar e depois não haverá mais do que se reclamar.

As pessoas ainda não entenderam, mas este fim da tarifa mínima será como acabar com a consumação mínima de um bar, que passará a cobrar a entrada do estabelecimento e mais o que for consumido. No final, a diferença aparecerá no bolso dos consumidores, que terão um gasto maior pelo mesmo que foi adquirido.

Somente com a tarifa mínima já era possível cobrir os custos fixos da empresa para manter o sistema fornecimento de água em funcionamento e, ao mesmo tempo, garantir o direito a água de todos. Porém, agora terá um preço fixo pelo uso da rede e o cidadão pagará MAIS pelo que for consumido.
Nesta forma de administrar focada apenas no lucro, dificilmente teremos uma estatal trabalhando integralmente para os cidadãos.

Novo consumidor tem outras expectativas

A internet tem revolucionado o atendimento ao cliente ao disponibilizar uma avalanche de informações sobre qualquer produto ou serviço desejado, em portais de busca, sites ou redes sociais, a partir de um toque na tela do celular. Diante deste contexto, concessionárias, lojas de autopeças e oficinas precisam inovar nas práticas de relacionamento.

Cada vez mais os consumidores estão distantes do atendimento presencial. Se antigamente chegavam a visitar 10 concessionárias antes de comprar um veículo, agora se deslocam para uma ou duas lojas, teoricamente já cientes do que procuram. O principal objetivo já não é discutir tecnicamente o produto, mas olhar alguns detalhes que faltaram na avaliação online.

 É assim porque os clientes costumam fazer uma série de buscas online antes de saírem de casa, como consultar revistas especializadas e checar avaliações de pessoas que compraram aquele produto. Muitas vezes chegam à loja com grande bagagem de informações sobre o veículo, inclusive superior em relação ao repertório de quem os atende.

 É assim que o novo consumidor também se prepara para ir a oficinas mecânicas ou lojas de autopeças. Antes de levar o veículo para fazer um reparo, por exemplo, o cliente se informa na internet sobre as possíveis causas do problema. Se antigamente não tinha noção de preço e gastava até com o que não precisava, hoje compra só o estritamente necessário. 

 É aí que entra a qualidade no atendimento. No caso de concessionárias, embora haja rotatividade de mão de obra no segmento, é urgente investir em treinamentos intensivos, que abordem a marca e a concorrência. Assim, o atendente pode expandir o repertório de venda por conseguir destacar melhor o produto em relação aos similares do mercado. Neste aspecto, vale lembrar que hoje a qualidade é um compromisso e não mais apenas um diferencial competitivo.

 Tão importante quanto esse tipo de treinamento sobre o produto é a capacitação focada no relacionamento com o cliente, que possibilite ao vendedor desenvolver competências para refinar a percepção sobre o desejo do cliente. Dessa maneira, o atendente consegue ser mais assertivo e evitar derrapadas, como querer agradar demais ou tratar com desdém.

 Quando escuta que um cliente só quer conhecer o produto, o vendedor muitas vezes mal o atende porque está preocupado com quem será o próximo. Isso é um erro porque essa visita também pode ser convertida em venda a depender da abordagem feita, como dizer: você só veio olhar, mas preste atenção nisso. São várias práticas que precisam ser revistas.

 

* Ingo Pelikan é presidente do Instituto da Qualidade Automotiva (IQA)

A ruína do sistema partidário brasileiro pós-94: Michel Temer, Jair Bolsonaro e um certo filósofo alemão

André Barsch Ziegmann *

Michel Temer lembra a figura de Giulio Andreotti, conhecido como IL DIVO, lendário e polêmico primeiro-ministro da Itália, figura proeminente da política no pós-Segunda Guerra Mundial. Temer foi presidente da Câmara dos Deputados mais de uma vez, presidiu o PMDB (atual MDB), exerceu a vice-presidência e a presidência da República. Foi também um aliado constante dos governos da hora. Esteve ao lado de Fernando Henrique Cardoso (FHC), Lula e Dilma Rousseff, até liderar a articulação parlamentar que levou à derrubada da ex-presidente. Assim como Lula, Temer é uma figura simbólica do regime político instaurado pela Constituição de 1988.

A sustentação partidária da assim chamada Nova República foi baseada no tripé PSDB-PMDB-PT. Os tucanos se inclinaram continuamente, a partir do início dos anos 1990, da centro-esquerda para a centro-direita, e tornaram-se o eixo que estruturava as forças conservadoras. O PT ocupou o espaço da centro-esquerda graças ao processo de moderação da legenda e à consequente ampliação de suas alianças. O PMDB, de Michel Temer, veio pelo centro. Esse partido assumiu a posição de fiador da governabilidade e tornou-se uma espécie de “nave-mãe” ou guia dos partidos do centrão (aquele conjunto de partidos que adora apoiar um governo).

Por tudo isso, a prisão de Temer e de Lula reforça a sensação que o sistema partidário que se organizou especialmente após a vitória de FHC em 1994 e comandou a vida nacional até 2018 desmoronou com a onda bolsonarista. Outros fatos evidenciam essa percepção: a diminuição significativa das bancadas do PSDB e do MDB no Congresso Nacional e a disposição declarada de Ciro Gomes de confrontar a hegemonia do PT no campo da centro-esquerda. Como vemos, gostando dele ou não, foi grande o feito do novo presidente, pois há uma clara reorganização partidária no Brasil. Entretanto, o início desse realimento dos partidos não seria possível sem a introdução de mudanças institucionais e organizacionais.

Nas últimas décadas tivemos o fortalecimento das organizações de combate à corrupção, como a Polícia Federal e o Ministério Público Federal. Tivemos ainda a criação da CGU (Controladoria-Geral da União), que tem exercido um papel chave na melhoria da transparência governamental. Somam-se a essas realizações outras melhorias institucionais. Foram implementadas a Lei de Acesso à Informação, da Improbidade Administrativa, das Delações Premiadas (que precisa ser refinada) e tivemos o fortalecimento da segunda instância do Poder Judiciário (que foi introduzida via “canetaço” do STF, e não como deveria, pela aprovação no parlamento). Não seria possível prender alguns políticos e empresários famosos sem essas mudanças.

O interessante é que as referidas transformações foram implementadas pelos líderes daquele sistema partidário que Bolsonaro praticamente destruiu no ano passado. De resto, isso mostra que eles tinham uma confiança quase absoluta na impunidade. Essa contradição lembra o pensamento de um certo filósofo alemão do século 19, não muito bem quisto pelos bolsonaristas, que dizia que um modo de produção cria os gérmens de sua própria destruição.

Além daquelas mudanças, foram iniciadas reformas políticas graduais. As coligações nas eleições proporcionais (vereadores, deputados estaduais e federais) são uma das principais responsáveis pela fragmentação partidária brasileira, que não tem paralelo em outros regimes democráticos.  Aos poucos será implementada uma cláusula de desempenho (de barreira) que irá impor restrições aos partidos com poucos votos. Também foram definidos limites mais claros para os gastos de campanha. As duas últimas poderiam ser mais rígidas, mas já representam certo avanço. Contudo, essas reformas precisam continuar.

Para isso, o atual presidente deveria construir uma relação mais harmoniosa com o Legislativo (como bem disse Rodrigo Maia, em seu recente entrevero com o ministro Sérgio Moro) e assim, assumir um papel mais ativo na reestruturação do novo sistema partidário, que foi justamente deflagrada pela sua vitória. O slogan, “meu partido é meu país” pode ser ótimo para uma campanha, mas é terrível na hora de construir sólidas maiorias parlamentares. Além disso, a história brasileira nos mostra que, no conflito entre Executivo e Legislativo, geralmente quem se dá mal é o presidente (vide Vargas em 1954, Quadros, Goulart, Collor e Dilma). A nossa memória nacional evidencia que uma relação mais afinada com os partidos no Congresso é também uma questão de sobrevivência política para o chefe do Executivo. O destino de alguns presidentes e das lideranças que tiveram sua carreira política praticamente destruída nos últimos tempos nos faz lembrar novamente daquele filósofo alemão do século 19. Ele dizia: “tudo que é sólido se desmancha no ar”.

* André Barsch Ziegmann é professor de Ciência Política no Centro Universitário Internacional Uninter, em Curitiba (PR).

O que esperar do novo cadastro positivo de crédito

No último dia 13 de março, o Senado aprovou o Projeto de Lei Complementar nº 54/2019, que altera as regras para a inclusão de consumidores no cadastro positivo de crédito. O texto foi encaminhado para sanção presidencial.

O cadastro positivo de crédito, que existe desde 2011 (Lei nº 12.414), é o banco de dados que contém informações sobre o histórico de crédito de consumidores (pessoas físicas e jurídicas) e estabelece um sistema de pontuação para aqueles que mantêm suas contas pagas em dia.

Seu objetivo é auxiliar o consumidor na obtenção de crédito junto às instituições financeiras e nas vendas parceladas, uma vez que o “bom pagador” terá melhores ofertas e taxas de juros menores.

Atualmente, esse cadastro é composto apenas por consumidores que solicitam a inclusão de suas informações no banco de dados. Porém, com a aprovação do referido projeto de lei, tais informações serão incluídas de forma compulsória, embora o consumidor deva ser comunicado e possa solicitar sua exclusão.

Modelo similar é adotado nos Estados Unidos, sendo que sua criação e prática fez dobrar o número de consumidores que passaram a ter acesso a financiamentos.

O exemplo norte-americano mostra que, pelo menos a princípio, tal projeto de lei deve ser visto com bons olhos, na medida em que deve servir como incentivos à oferta de crédito e ao pagamento de contas em dia (a Febraban, por exemplo, acredita que a medida poderá reduzir a inadimplência em até 45%), além de provavelmente trazer maior segurança às empresas e instituições financeiras em suas análises de crédito.

No entanto, apesar da expectativa ser de bons resultados e de o cadastro ter sido bem recepcionado pelo mercado, a experiência aconselha cautela. Será necessário aguardar os efeitos práticos das novas medidas e confirmar que a mudança seja realmente benéfica para os consumidores e para a economia brasileira.

*Gustavo Milaré é advogado, mestre e doutor em Direito pela Universidade de São Paulo (USP), sócio de Meirelles Milaré Advogados

**João Pedro Alves Pinto é advogado associado de Meirelles Milaré Advogados

Como prestar um atendimento eficiente e sem erros?

* Por Mário Rodrigues

Que errar é humano, nós já sabemos. O problema maior é persistir no erro e não fazer absolutamente nada para mudar. No mundo das vendas, esse é um grande desafio, já que cada pessoa atendida é um universo diferente a ser explorado e cometer um erro pode ser crucial para que o cliente nunca mais queria voltar na sua loja.

Mas como podemos realizar um atendimento eficaz e minimizar os erros, chegando praticamente a zero? A resposta envolve muito treinamento e “CHA” (C é de conhecimento, H de habilidade e A de atitude). É preciso treinar o vendedor para que ele tenha conhecimento do que é correto e da ciência do relacionamento e da venda; treinar repetidas vezes os exercícios para desenvolver habilidades; e oferecer fatores motivacionais para que o vendedor possa tomar uma atitude correta no momento da negociação, para evitar assim, um possível erro.

O primeiro passo na evolução e no desenvolvimento de um bom atendimento, é sem dúvida, a consciência. Antes de conhecer o cliente, é importante ter autoconhecimento e trabalhar a inteligência emocional. É preciso ficar atento a possíveis falhas e segurar o impulso, colocando sempre na frente à ciência e a habilidade para melhor atender.

Outro ponto fundamental para um atendimento eficaz é estudar sobre o assunto o qual se está trabalhando. Em um mundo onde todos querem resolver os problemas sozinhos, sem intervenções de terceiros, a entrada do vendedor só se dará se ele mostrar ao cliente uma certa autoridade sobre o assunto em questão. Quanto mais o vendedor tiver o domínio e segurança do que está falando, mais credibilidade ele passará, e acabará por fidelizar o cliente.

* Mário Rodrigues é diretor do Instituto Brasileiro de Vendas (IBVendas)

O futuro da taxa de conveniência na venda de ingressos online

No último dia 12 de março, o Superior Tribunal de Justiça (STJ) considerou ilegal a cobrança de taxa de conveniência para a venda de ingressos online de eventos e, por consequência, condenou uma empresa do ramo a ressarcir os valores cobrados a esse título dos seus consumidores nos últimos 5 anos.

Para o STJ, a disponibilização de ingressos em meio virtual e a cobrança de taxa de conveniência configuraria a chamada “venda casada”, prática que é expressamente proibida pela lei brasileira.

Embora restrita a uma única empresa do ramo e ainda passível de recurso, referida decisão do STJ representa um precedente perigoso para todo o setor, sobretudo se mantido esse entendimento pela Justiça.

Dentre suas consequências, de um lado, pode-se destacar a iminente probabilidade de multiplicação de pedidos similares, como, por exemplo, a notificação enviada já nesta quinta-feira (14) pelo PROCON de São Paulo para 21 empresas suspenderem imediatamente a cobrança das respectivas taxas de conveniência, sob pena de responderem a processo administrativo.

E, de outro lado, os consequentes e significativos impactos financeiros que trarão a tal comércio online, uma vez que os valores cobrados a título de taxa de conveniência costumam representar cerca de 15% do valor do ingresso do evento.

Embora o futuro da taxa de conveniência na venda de ingressos online no Brasil ainda seja incerto, a recente decisão do STJ desafia as empresas do ramo, no mínimo, a já cogitarem alternativas que sejam interessantes ao seu negócio e, ao mesmo tempo, também aos seus consumidores.

 

*Gustavo Milaré é advogado, mestre e doutor em Direito pela Universidade de São Paulo (USP), sócio de Meirelles Milaré Advogados

**João Pedro Alves Pinto é advogado associado de Meirelles Milaré Advogados