O Ponto do Conto - João Olivir Camargo
Taraias da infância

Mandirituba, a terra natal onde deixei o umbigo, teve em tempos idos dezenas de açudes cujas águas moviam moinhos e várias pequenas indústrias familiares. Abundavam peixes desde os pequenos lambaris, acarás, até vistosas taraíras como dizíamos na época. Nós, os garotos da escola, sempre tínhamos o que comentar sobre pescarias, até que um dia, muito gentilmente a professora Ana Maria da Rocha nos corrigiu: “Meninos, não é taraíra como vocês falam; o correto é traíra.”

Nunca esqueci a gentil correção. O peixe de carne saborosa e dos mais espinhentos que existem, carnívoro e dotado de dentes afiados, diziam os mais velhos, é extremamente agressivo quando está desovando. Conferimos esta agressividade, quando olhávamos o Sr. Abílio Franco e seus filhos limpando uma longa valeta que levava água à roda que movia um moinho e uma pequena marcenaria.

O menino Manoel, conhecido como Neco do Jacinto, nome de seu pai, entrou na valeta alguns metros acima. Logo saiu aos berros com uma traíra que cravara os dentes em sua panturrilha. Com a ajuda dos Franco, a traíra soltou a perna do garoto que correu para casa lavar a panturrilha com salmoura e álcool levando o peixe com ele. Noutro local, havia um velho açude que no passado tocara um moinho que fora desativado.

O lago todo estava coberto de piri, vegetal que era recolhido em canoas e secado à sombra. Servia para empalhar aquelas cadeiras antigas. Havia ainda um vasto gramado e nele pastando diuturnamente um velho cavalo tordilho que fora aposentado pelo Sr. Ângelo Palu que possuiu pequena padaria e fazia entrega de pães numa carrocinha. Estávamos, dois ou três garotos pescando lambaris num pequeno riacho, quando vimos o tordilho entrar com as patas dianteiras no açude e curvar o pescoço para beber água. Súbito, o animal saltou para trás, soltando um bufo e todos os gases acumulados nos intestinos. O cavalo saiu em disparada e vimos se debatendo no gramado uma bela traíra de mais de um quilo. O peixe havia cravado os dentes no focinho do cavalo que, naquele grande salto o atirou no gramado. Quase disputamos no tapa quem levaria a traíra para casa. Parece que entramos num acordo que não lembro mais.

Renato Cunha, um piadista exagerado

Renato foi meu colega de trabalho na Rádio Educadora durante alguns anos. Contava piadas breves que exigiam do ouvinte rápido raciocínio. Numa segunda-feira perguntamos sobre o baile do sábado anterior no Clube Pinheiros, hoje o Iguaçu Tênis Clube. Não foi grande coisa, disse ele. Imaginem que a banda era tão ruim que um garçom derrubou uma bandeja e todo mundo saiu dançando!

Sabedoria dos mais velhos

Os fatos narrados semanalmente nesta coluna não são coisas inventadas, mas vividas ou testemunhadas pelo escriba ao longo de mais de meio século de existência. Nos anos sessenta tinha iniciado um namoro com a Joana que até hoje está ao meu lado. À época, junto com o mano José Itamir ocupamos uma casa que havia sido moradia de um casal de primos e dela fizemos nosso local de dormir, já que tinha dois quartos e banheiro e ficava próximo à empresa onde ambos trabalhávamos. Numa tarde de sábado, após um bom banho, roupa trocada e calçado com chinelas “dedeiras” como se dizia então, saía para ir à casa da namorada quando uma aranha armadeira, peçonhenta e extremamente dolorida picou-me o dedo do pé. Nos minutos seguintes a dor da picada é suportável, mas com o passar do tempo vai aumentando chegando ao ponto de se tornar insuportável mesmo para um adulto jovem e saudável. Algumas horas depois, na casa da então namorada a dor era tanta que pedi algo que pudesse aliviá-la. Seu João Procópio (in-memorian) que acabou meu sogro trouxe um vidrinho com gasolina que ele sempre tinha para molhar o isqueiro de acender o fogo e os palheiros que fumava e passou bastante no local da picada. Horas depois não sentia nenhuma dor. Tempos depois, já casado, desmanchava um velho galinheiro coberto com lâminas e ao carregar um feixe daquelas finas madeiras, senti algo a picar-me o braço. Lancei longe aquelas lâminas e vi com suas pinças presas no meu braço outra aranha armadeira. Felizmente, visualizei um caminhão da madeireira no pátio de toras, pois o motorista e o ajudante tinham ido almoçar. Fui até o veículo que era movido a gasolina, abri uma torneirinha que havia  junto ao tanque e lavei o braço à vontade. Trabalhei o resto do dia sem nenhuma dor. Não estou tentando ensinar nada a ninguém, até porque a gasolina de meio século atrás devia ser mais pura, sem os aditivos de hoje. E também porque, todas as cidades grandes ou pequenas, vilas e povoados têm seus Postos de Saúde e suas UPAs – Unidades de Pronto Atendimento, profissionais qualificados e boas farmácias. O objetivo da coluna é destacar fatos vividos e a sabedoria popular.   

 

SABE QUEM PAGA PELO BELO SORRISO DE SUAS EXCELÊNCIAS?

"A Câmara dos Deputados reembolsou o deputado Marco Feliciano (Podemos-SP) em R$ 157 mil por um tratamento odontológico. De acordo com o Estado de S. Paulo, o parlamentar disse que sofria de dores crônicas, precisava corrigir um problema de articulação na mandíbula e melhorar o sorriso com implantes e coroas. O reembolso foi negado em abril, após ser rejeitado pela equipe técnica por inconsistência nos valores apresentados e os estabelecidos pela Casa. Mas Feliciano recorreu da decisão e a Mesa Diretora aprovou a devolução do valor.

O colunista sabe que o fato é uma gota d’água num oceano de ilícitos. pergunta: Será que os POBRES, eu quis dizer NOBRES parlamentares ganham tão pouco que é preciso o povo brasileiro, entre os quais muitos subnutridos e desdentados pagar pelas suas mordomias?

 

Benzedeiras dos velhos tempos

Tempos atrás vi na televisão um documentário realizado na cidade maranhense de São Domingos do Azeitão, com aproximadamente sete mil habitantes que é conhecida como “Cidade das Benzedeiras”. Vendo aquelas senhoras benzendo contra diversos males e principalmente a fé das pessoas, voltei a um passado remoto quando, morando em fazendas distantes das cidades recorríamos aos benzimentos e ficávamos curados. Ir ao um médico ou a um dentista era algo quase impensável e benzedeiras e benzedores eram figuras conhecidas nos longevos rincões onde nos locomovíamos a cavalo ou em carroças. O peão que ficava curado de algum problema de saúde espalhava a notícia que corria de boca em boca. O documentário do Maranhão mostrou uma velha senhora em ação curando enxaquecas e lembrei do Felisberto, marido da Dona Ubaldina, a mais conhecida parteira daquelas campanhas que fazia exatamente como a benzedeira de São Domingos do Azeitão. O paciente colocava uma toalha dobrada sobre a cabeça e Felisberto punha uma garrafa cheia de água com a boca pra baixo sobre a tolha. Enquanto fazia orações podia-se observar borbulhas subindo no interior da garrafa. Diziam que era o ar saindo da cabeça levando junto a enxaqueca do doente para dentro da garrafa. Vi outra benzedura a qual me submeti diversas vezes na juventude quando fazia trabalho pesado e seguidamente sofria distensão muscular, dizia-se na época “rendidura”. Dona Alzira Serpa era imbatível na missão de costurar rendidura. Sentávamos em um banco e às nossas costas Dona Alzira permanecia em pé tendo nas mãos um pedaço de pano, agulha e linha de costurar. Lembro que ela perguntava: “O que é que eu coso?” Respondíamos: “Carne rasgada, nervo rendido ou osso partido!” Ela completava: “Isto mesmo eu coso!” Depois, enquanto recitava orações costurava o pano que tinha nas mãos repetindo este ritual três vezes. Havia poder nos benzimentos e fé em quem a eles se submetia, pois ficávamos curados. Testemunhei a cura de bovinos infestados de bicheiras que derrubavam as pragas após um benzimento sem que lhe tocassem mãos humanas e até terrenos infestados de cobras venenosas que ficavam livres e podia-se roçar para o plantio sem encontrar nenhum daqueles animais peçonhentos. Já aqui em Laranjeiras, depois de utilizar vários produtos contra os piolhos que infestavam nosso galinheiro, recrutamos um senhor conhecido como Seu Saruva, ele morava próximo ao antigo cortume dos irmãos Ruths e logo veio à nossa casa. Com um benzimento dele, as penosas ficaram livres dos insetos que sugam sangue e as deixam frágeis prejudicando a postura e o crescimento dos menorzinhos. Nesta arte de benzer aprendida das vovós e executada como missão não havia charlatanismo, pois ninguém cobrava absolutamente nada.

     

Agosto é mesmo o mês do cachorro louco?

Acredito já ter abordado este tema há mais de um ano, quando escrevi que a superstição é a crença em relações de causa e efeito à face de determinados fenômenos, crença que, entretanto, não tem respaldo na racionalidade. Assim haveria uma oposição entre o olhar científico e o olhar supersticioso. Colocamos ponto de interrogação no título da coluna para que a conclusão fique por conta do leitor. Daqui a dois dias inicia-se o mês de agosto quando na alma popular, o oitavo mês do ano está associado a pesar, tristeza, dissabor, sofrimento. Já diziam nossos avós: “agosto é mês de desgosto”. Também diziam “o mês do cachorro louco”. Falam os entendidos que em agosto aumenta o número de fêmeas no cio e consequentemente a aglomeração de cães e na eventualidade de um ou mais estarem com hidrofobia contamina os demais. Cachorro louco não assusta mais, graças a vacina, barata e acessível. Talvez a crendice tenha origem em Portugal, onde as mulheres nunca se casavam em agosto porque nesse mês os navios das expedições zarpavam à procura de novas terras. Casar em agosto significava ficar só, sem lua-de-mel e ainda correr o risco de sofrer uma viuvez precoce. Nem Vinicius de Moraes fugiu ao presságio negativo do mês de agosto que, no Zodíaco, é comandado por Leão. Nos versos do poeta, “A mulher de Leão brilha na escuridão. A mulher de Leão, mesmo sem fome, pega, mata e come. A mulher de Leão não tem perdão. As mulheres de Leão, leoas são. Poeta, operário, capitão. Cuidado com a mulher de Leão!” Também outra justificativa para essa crença de agosto azarado é o fato de muitos episódios tristes, no mundo e no Brasil, terem acontecido no mês de agosto. Senão vejamos: Em 24 de agosto de 1572, por ordem de Catarina de Médici, ocorreu o massacre dos huguenotes, que eram protestantes ou calvinistas. Na cidade de Nova York, no dia 6 de agosto de 1890, o primeiro homem foi executado numa cadeira elétrica. Esta primeira execução traduz uma mensagem de iniquidade. Ou seja, o Estado arvora-se defensor da sociedade e supõe ser legítimo tirar a vida de alguém. Entre os dias 6 e 9 de agosto de 1945, as cidades japonesas de Hiroshima e Nagazaki foram destruídas pela bomba atômica, nisto que foi certamente o maior genocídio da História. No Brasil, dois presidentes da República, muito amados pelo povo, morreram tragicamente no mês de agosto. Em 24 de agosto de 1954 Getúlio Vargas praticou suicídio, “saindo da vida para entrar na História”. O presidente Jânio Quadros renunciou em agosto de 1961. Em 22 de agosto de 1976, Juscelino Kubitscheck faleceu, vítima de desastre automobilístico.

Barranquear é um verbo chucro

Quem já participou de almoços ou jantares só para homens com a presença daqueles que depois de uns tragos gostam de declamar poesias gaúchas já deve ter ouvido uma que começa assim: “Barranquear é um verbo chucro, mais velho que a monarquia”. (daqui em diante é impublicável). O poema obseno refere-se aos garotos e não tão garotos das fazendas que relacionavam-se com animais, costume descrito como zoofilia. Dito isto conto um fato real do qual o autor destas mal traçadas foi testemunha ocular. Mal saindo da adolescência morava na Fazenda São Pedro, Município de Mangueirinha, um verdadeiro latifúndio da família Cartaxo, como outras tantas grandes extensões rurais utilizadas basicamente para a criação de bovinos, suínos e ovinos. Na citada fazenda funcionavam duas madeireiras de propriedade do Senhor Heitor Moro e nelas trabalhavam várias famílias de operários. Uma destas famílias tinha como matriarca Dona Maria dos Santos que por ter a pele negra era conhecida como Nhá Pelé. Seus filhos eram o Argemiro, o Airton e o Argilio e as filhas Querobina, Cacilda, Ondina e Erundina. Eram pessoas muito queridas, servidoras e colecionavam amizades sinceras. A propósito, Nhá Pelé fazia companhia a mim e aos manos quando Dona Nahir, minha mãe precisava ficar fora alguns dias para resolver algum assunto nas cidades mais próximas, Mangueirinha, Palmas ou Clevelândia. Outra família tinha como matriarca Dona Edavina Fidélis, os filhos Pedro, Dirceu, Alceu e João e as filhas Júlia e Zeni. Estes possuíam uma meia dúzia de cavalos para montaria ou para puxar cestos de milho da roça que plantavam. Entre os animais, uma égua tordilha conhecida nas redondezas como “Branca Véia”. O animal, dócil ao extremo dera de escoicear, morder e distribuir pataços em qualquer um que se aproximava e logo descobriram aquela mudança repentina de humor. A piazada dera de pegar a égua, encostá-la num barranco (barranquear como dizem nas fazendas) para satisfazer os instintos que não comento por respeito aos leitores mais púdicos. Argilio era contumaz neste tipo de safadeza. O meninão tinha uma cinta com fivela de metal dourado com uma cabeça de cavalo, que era seu orgulho. Não vendia e nem queria ouvir qualquer proposta de troca. Uma tarde aquele bando de rapazolas estava a jogar conversa fora, este escriba no meio, quando todos repararam que o Argílio tinha no lugar da preciosa cinta um tento de couro de boi a segurar-lhe as calças. Pior foi quando se aproximou o Dirceu Fidélis, meteu a mão no bolso da bombacha e dele retirou bem enroladinha uma cinta com fivela de cabeça de cavalo e falou para o Argílio: Me parece que este objeto é seu, quer saber onde o encontrei? O meninão gaguejou, gaguejou, se mandou sem responder e não apanhou a preciosa cinta. Todos entenderam que a Branca Véia havia escapado com a cinta no pescoço.     

 

Documento assinado há 86 anos

Aproximam-se as comemorações alusivas a Nossa Senhora Sant’Ana, padroeira de Laranjeiras do Sul, uma história de fé que começou no ano de 1906 quando foi construída a primeira capelinha no vilarejo, passando nos anos seguintes por diversas ampliações para comportar o número de famílias que aqui residiam. Alguns anos depois a devota Ana Coutinho encomendou aos tropeiros que trouxessem uma imagem da Santa que veio de Ponta Grossa. O Decreto de criação da Paróquia Sant’Ana foi datilografado e assinado no dia 24 de novembro de 1933, há 86 anos, por decisão do bispo diocesano de Ponta Grossa, Dom Antonio Mazzarotto, documento que a coluna conseguiu junto à Cúria-PG e aqui transcreve respeitando a ortografia da época, o que não deixa de ser curioso em tempos atuais:

“Aos que este nosso Decreto virem saudação, paz e bençam em Jesus Christo, Rei e Salvador Nosso. Fazemos saber que, attendendo á enorme extensão da parochia de Guarapuava que acabamos de percorrer, á sua não pequena população que tende a sempre mais augmentar, á difficuldade e mesmo impossibilidade dos fieis procurarem o Sacerdote por causa das distancias, e sendo empenho nosso multiplicar, quanto possível, as parochias para melhor atender ás necessidades espirituais do povo, depois de termos consultado o Revmo. Padre Provincial da Sociedade dos Padres do Verbo Divino que regem a dita parochia e depois de termos ouvido o Rvdo. Padre Vigário da mesma paróquia, usando da nossa jurisdição ordinária de acordo com os canones 454$ 3 e 1427$1: Havemos por bem separar e desmembrar da dita parochia de Nossa Senhora do Belém de Guarapuava o território que em seguida vae indicado e nelle, pelo presente Decreto, erigimos e canonicamente instituimos uma nova parochia amovível que, tendo por sede o logar denominado Laranjeiras, está comprehendida dentro dos seguintes limites: “O rio Iguassú até a foz do rio Cavernoso; por este acima até a foz do Juquiá; subindo por elle até receber as águas do Cachoeirinha; por este acima até a sua nascente na serra de São João; segue pelo alto desta serra até encontrar a primeira nascente do rio Gambeguassú; por este abaixo até a sua foz no rio Piquiry e descendo por elle até os limites da Prelazia da Foz do Iguassú.” Concedemos á Igreja em que vae funcionar a nova parochia os direitos de Matriz cm plena faculdade para conservar o SSmo. Sacramento, possuir pia batismal, para ter os livros do Tombo, de Baptismos, Matrimônios, Obitos e Chrismas e gozar de todos os outros direitos e privilegios de uma Igreja Parochial. Damos, portanto, por erigida e constituida em nossa Diocese a nova parochia acima descrita, a qual terá por padroeira Nossa Senhora Sant’Ana, cuja festa será annualmente celebrada com muita piedade e verdadeira devoção. Mandamos que este nosso Decreto seja lido em um Domingo á estação da Missa parochial na Igreja destinada a ser Matriz da nova parochia e na Igreja Matriz de Guarapuava e, depois de integralmente transcripto no livro do Tombo de ambas as parochias e no livro competente de nossa Camara Ecclesiastica, será cuidadosamente arquivado.” O Decreto foi datilografado e assinado pelo padre Roberto Gonh, secretário do bispado.   

O Salário do Gerente

Há uns dois anos buscávamos mudas da planta ora-pronóbis (rogai por nós em latim), que é uma espécie de trepadeira cujos galhos alongados como finos cipós têm espinhos agudos e curvos como anzóis. Diz a história que foi usada como cerca viva em conventos e igrejas e por conter proteínas, suas folhas integram molhos e refogados de vários pratos da culinária mineira onde é tida como a carne dos pobres. Num grande viveiro de mudas à margem da BR 277, em Cascavel, o rapaz que atendeu a mim e a Joana, arregalou os olhos e disse que não conhecia e nunca tinha ouvido falar da tal planta, nem mesmo tinha lido algo a respeito em publicações do gênero. Ao senti-lo despreparado para a função de atender viveiro tão grande especializado em mudas diversas, veio à lembrança a história do empresário que instalou cerealista na sede de um distrito de alta produção agrícola. Contratou quatro ou cinco jovens do lugar, conhecidos entre si e de idades semelhantes. Meses depois um deles foi promovido a gerente da cerealista com aumento correspondente do salário. Um dos rapazes que tinha certa intimidade com o empresário vivia soltando indiretas reclamando sobre o salário do gerente e dos demais funcionários. O empresário esperou chegar a ocasião para acalmar o reclamante, até que um dia, estavam ele e o gerente na sala do chefe quando chegou um caminhão de tamanho médio no local da balança e descarga. O moço foi encarregado de verificar a situação. Foi, trocou algumas palavras com o do caminhão e voltou anunciando: “O homem quer vender uma carga de feijão”. Convidado a se assentar e aguardar na sala, enquanto o chefe mandou o outro funcionário até o caminhão. Este conversou uns dez ou quinze minutos com o do caminhão, subiu até a carga, verificou o produto e voltou até a sala do chefe contando: “Ele tem 5 mil quilos de feijão preto e 3 mil quilos do tipo carioca, ambos plantados no início de setembro e colhidos no final de novembro. Não foi necessário nenhum tipo de defensivo, como choveu moderadamente, apanhou longos dias de sol e foi colhido na época certa. O homem disse que como tem um grande terreiro, secou o feijão ao sol e garante um mínimo de umidade e impurezas. Aceita o preço de mercado pelos 8 mil quilos”. O chefe olhou fixamente para o que reclamava constantemente e disse apenas: “Entendeu agora porque ele é o gerente?     

Coluna Observatório de Victor Rivas. Irretocável sob todos os aspectos a coluna Observatório do Professor e Colunista Victor Rivas publicada na edição de 03 de julho passado, ela reflete a realidade na forma em que vivíamos e como vivemos hoje. Parabéns.

Que Deus o tenha, tio Pedrinho

Anos atrás, mês de julho, fui até o portão conferir quem passava gritando e falando alto na rua e vi um homem de baixa estatura que me pediu se não tinha um casaco para aliviar-lhe o frio. Dei-lhe um de meu uso, ele agradeceu e seguiu seu caminho. Alguns dias depois, saímos eu e a Joana da Missa naquela manhã de inverno e o mesmo homem sentado junto à parede duma loja, tremendo de frio novamente pediu-me uma blusa. Disse-lhe para esperar, vim até a casa e mais uma vez levei-lhe uma blusa que já estava separada para estas campanhas do agasalho que se repetem todos os anos. Enfim, o homem passou a ser mais um dos moradores de rua desta cidade. Pouco sabíamos dele, apenas que seu nome era Pedro, daí que ficou conhecido como Tio Pedrinho. O povo caridoso custeava sua alimentação e as tantas blusas, pois bastava esquentar um pouco e ele tirava e deixava a peça onde estivesse. Andava de um lado a outro, gritando como se estivesse furioso, mas era afável e inofensivo. Vários cachorros o acompanhavam em suas andanças, pois sempre repartia com eles o que recebia para comer, menos a cachaça, cuja garrafinha não tirava duma sacola. Um dia, ao chegar num supermercado, vi na frente do estabelecimento o Tio Pedrinho, com uma enorme volta de linguiça num dos braços. Queria um trocado, mas como eu só tinha uma nota, pedi-lhe para esperar. Saí do local e quando alcancei Tio Pedrinho, vi que ele tinha repartido a linguiça com as mãos em vários pedaços e dado aos cães que o acompanhavam, como era de seu costume. Claro, ele não estava com fome, mas precisando comprar cachaça, a companheira que o ajudava a esquecer o passado e enfrentar o presente. Um dia, ficamos tristes com a notícia. Foi encontrado morto num barracão onde costumava passar as noites. Morreu, tendo como testemunhas os cães que o acompanhavam onde quer que estivesse. Que Deus o tenha, Tio Pedrinho!   

 Sempre gostei de causos inteligentes como este que não lembro onde li e narro a seguir: João, que morava só convidou sua mãe para jantar. A mãe não pôde deixar de notar o quanto a empregada era atraente e sensual. Após o jantar, ela começou a imaginar se havia mais alguma coisa entre seu filho e a moça. Lendo os pensamentos da mãe, João disse: - Eu sei o que você deve estar pensando, mas te asseguro que o meu relacionamento com a empregada é puramente profissional. Uma semana depois a empregada disse ao João: - Desde que sua mãe veio para jantar, a concha de prata sumiu. Você não acha que ela levou, acha? João disse: - Bem, eu duvido, mas mesmo assim vou escrever um e-mail, para ela, só para ter certeza. Então ele sentou-se e escreveu: - Querida mamãe, eu não estou querendo dizer que você pegou a concha da minha casa, e não estou querendo dizer que você não pegou a concha de sopa. Mas o fato é que ela sumiu desde o dia que você esteve aqui. No dia seguinte, João recebeu a resposta do e-mail onde sua mãe dizia: - Querido filho, eu não estou querendo dizer que você dorme com a empregada, e não estou querendo dizer que você não dorme com a empregada. Mas o fato é que se ela estivesse dormindo na cama dela, já teria achado a concha que eu coloquei lá na noite em que aí estive. Com amor, sua mãe.  



 

 

Viola de cocho e tripa de mico

 Algumas curiosidades que conto neste espaço parecem meras invenções, mas lhes asseguro que têm um fundo de verdade, basta conhecer um pouco mais da história antiga quando nossos antepassados usavam ferramentas e utensílios que eles mesmos criavam com o que tinham à mão. No meu tempo de guri era comum irmos aos armazéns comprar alguns metros de “tripa de mico”, como era conhecida a linha de pescar. Em priscas eras o intestino do animal foi utilizado pelos índios como corda do arco que lançava flechas. Há muitos anos, repórter de TV foi a certa região de Mato Grosso buscar a origem da viola de cocho. Caboclos bastante vividos mostraram-lhe a árvore de madeira leve e macia que era derrubada e escavada para o corpo principal da viola cujas cordas eram feitas das tripas do macaco conhecido como bugio. O repórter viu e mostrou no programa algumas violas de cocho originais, inclusive com as cordas que levavam o nome de tripa de mico por serem feitas dos intestinos do animal. O indigenista Telêmaco Borba (1840/1918) deixou escrito sobre o ritual dos índios para fazer referida corda de seus arcos. Os intestinos do animal eram retirados e limpados cuidadosamente; depois, à sombra, esticados e torcidos durante vários dias até se chegar à espessura desejada. Pela resistência, da mesma forma eram feitas as cordas para as violas de cocho, onde podiam ser esticadas até produzir o som desejado. O tempo passou e surgiu a linha de náilon muito resistente, utilizada como linha de pesca e para a confecção de redes e tarrafas, mas ficou o nome de tripa de mico como dizíamos em nossos tempos de guri quando íamos aos armazéns comprar o produto. Voltando ao repórter e aos caboclos de Mato Grosso, é bom lembrar que a linha de náilon hoje substitui as tripas do bugio até mesmo nas violas de cocho. Também os índios, não matavam o bicho apenas para aproveitar as tripas, mas sim para comê-lo, pois carne de macaco fazia parte do seu cardápio, principalmente nas tribos dos guaranis, escreveu Telêmaco Borba. A propósito do indigenista Telêmaco Borba, diz a história que já velho, possuidor de rara autocrítica, dono de vasto conhecimento adquirido através de estudos e pesquisas, prefeito vitalício do município paranaense de Tibagi, determinou por testamento a doação das coleções de seu museu particular ao acervo do Museu Paranaense.

Definitivamente, não entendo nada!

Por não termos algo melhor para fazer naquele momento, víamos desinteressadamente com a Joana um programa de curiosidades na televisão, no qual a repórter que buscava assuntos sobre moda entrou numa loja especializada em calças jeans de marcas famosas e constatou que as mais procuradas eram aquelas bastante gastas nas pernas, realmente puídas e com grandes buracos no tecido na altura dos joelhos.

A proprietária levou a moça da imprensa até uma repartição nos fundos da loja e mostrou ao vivo o que fazia para “valorizar” as calças que vendia. E eram de marcas muito procuradas e caras que levavam nomes de estilistas internacionais. Colocou uma delas sobre uma tábua de passar, apanhou algo que parecia um pedaço de pedra bruta e passou a esfregá-la vigorosamente sobre o tecido, até puí-lo e rasgá-lo em locais escolhidos, como nos joelhos. Terminada a operação disse à repórter da televisão: “Pronto, esta teve o preço final aumentado em X reais”.

Vendo a reportagem nosso pensamento voltou a um passado distante, quando os homens trabalhavam em serviços pesados e brutos, como madeireiras, fazendas e roças de mato ou capoeirão. Daí que, puir um rasgar a roupa era algo até natural, embora tomássemos o máximo de cuidado. Então entravam em cenas as mães, esposas, irmãs ou outras mulheres da casa, especializadas em fazer remendos, quase sempre cosidos à mão. Procuravam pedaços de tecidos, se não da mesma cor, pelo menos o mais parecido com o pano original das calças, raramente das camisas. De forma que vestir roupas remendadas não era demérito algum e até havia o dito de que se tratava de pessoa trabalhadora, havendo um pouco de verdade nisso. Comentarmos que hoje, se a garota vai a balada e encontra outra com roupa idêntica, uma delas volta a casa para trocar os panos.

O advogado Xenofonte Lopes (im-memoriam) que aqui chegou à época da Capital do Território Federal do Iguaçu deixou escrito que quando os armazéns recebiam peças com muitos metros de tecido com belas estampas, dias depois, era comum observar numa festa ou na igreja, senhoras, moças e meninas com vestidos de cores e estampas iguais. Havia também o brim conhecido como arranca-toco para as calças dos homens.

Famílias mais abastadas compravam peças inteiras e dali saíam as calças que vestiam desde o vovô, o papai, os demais homens da casa e até os guris, estes com as calças no meio das canelas e suspensórios do mesmo pano. Calças que mesmo feitas em tecido resistente, em curto espaço necessitariam de remendos, coisa que só vemos hoje em festas juninas, neste caso espalhafatosos, quase sempre de cores berrantes e chamativas, ao contrário de tempos idos, quando o remendo de pano quase idêntico e bem feito tentava disfarçar o indisfarçável.