O Ponto do Conto - João Olivir Camargo
O RÁDIO ONTEM E HOJE

Aquelas emissoras de rádio que ouvíamos em AM (Amplitude Modulada) foram modernizadas e a maioria agora opera em FM (Frequência Modulada), com sensível melhora do som e em alguns casos com mais potência e alcance. Falando em rádio, lembro de um passado distante e até histórico voltando no tempo mais de meio século. Nascido em Areia Branca dos Assis, hoje um dos distritos de Mandirituba, onde meu pai João Afonso que faleceu com pouco mais de 40 anos, era uma liderança do lugar e bem situado comerciante, com armazém e posto de combustíveis. Um dos poucos que possuía automóvel, seguidamente levava moradores doentes que precisavam receber tratamento em Curitiba distante 48 quilômetros. Dona Nahir, minha mãe, contava que o primeiro aparelho receptor de rádio do lugar foi comprado por meu pai. Era do tipo “caixão de abelha”, grande, com válvulas e funcionava a bateria, que após alguns dias precisava ser recarregada. Foi instalado numa prateleira do armazém e quase sempre sintonizado em emissoras de São Paulo, que transmitiam notícias e tocavam música sertaneja. Dona Nahir lembrava que vinha gente comprar um litro de querosene para o lampião ou um naco de fumo em corda e ficava horas no armazém para ouvir rádio. Lembrou do velhote João Rita, nosso vizinho, freguês assíduo de nossa casa que um dia pediu ao meu pai: “Joãozinho, ponha na música Saudade de Matão”. Como fosse possível escolher o que queria ouvir no rádio. Algum tempo depois, já morando no interior de Palmas, era surpreendente a quantidade de homens que se reuniam principalmente aos sábados e domingos na cancha de bochas do armazém da família Correia. Eles haviam comprado um rádio e um “Professor Pardal” do lugar conseguiu estender uma antena e o rádio e a bateria eram colocados próximo à cancha. Os Correia compraram duas baterias e sempre tinham uma carregada de reserva. Em compensação, foi o tempo em que mais venderam cerveja que era gelada em refrigerador a querosene (havia isso também), muita cachaça, linguiça e sardinha em lata. Cresci ouvindo rádio e com o mano José Itamir tocávamos com duas sanfonas quase todo o repertório dos Irmãos Bertussi, Teixeirinha e a maioria das sertanejas da época. Quis o destino que virasse comunicador de rádio desde o final da década de 60 e permaneci nessa profissão por quase duas décadas.

P.S. Para desopilar o fígado: Depois das prisões de Eike Batista, Joesley Batista, Wesley Batista e do terrorista italiano Cesare Batisti, periga o professor Nilton Batista da UNINTER aqui de Laranjeiras do Sul fugir do país. Parece que o cantor Amado Batista já deu no pé!    

RACISTAS, MAS NEM TANTO...

Na rua XV de Novembro, aqui em Laranjeiras do Sul se situa a Banca São José de propriedade do simpático cearense José Alves Martins, onde encontramos gibis antigos, defumadores, incensos, sabonetes para descarrego e um sem fim de cacarecos úteis no dia a dia. É o local de encontro de velhos moradores que conhecem a história antiga da região e são capazes de contá-la em detalhes. Lembramos de famílias de priscas eras que se tornaram inimigas, ocorrendo então várias mortes e vinganças. Muitos dos valentões já partiram desta para a melhor, restando alguns já na chamada terceira idade que hoje vivem pacificamente. Alguém lembrou de uma comunidade do interior colonizada por italianos vindos do Rio Grande do Sul e Santa Catarina que ali construíram capela e cemitério, mas racistas que eram só permitiam sepultamentos dos de sua raça. Numa serraria, nas proximidades, havia falecido um operário negro que não tinha familiares na região e o gerente conhecido como Seu Joanim, providenciou o feitio do caixão e, com um grupo de operários aboletados sobre um caminhão foram sepultar o finado no dito cemitério. Alguns dos fundadores da comunidade se dirigiram ao local e impediram o sepultamento daquele homem de pele escura. Depois de muita discussão debaixo duma garoa fina já estavam se aprontando para colocar o caixão novamente no caminhão e procurar outro local, quando pela estrada vinha um cavaleiro no passo cadenciado da sua mula. Amigo do gerente da madeireira, apeou e foi até ele se inteirar do assunto. Havia tirado a capa de chuva e da sua guiaca pendiam o 38 de cano longo e a faca carneadeira. Sabendo da proibição entrou calmamente no pequeno cemitério onde os peões já haviam aberto a cova para sepultar o colega, olhou ao redor e ordenou: “Podem abrir mais um buraco!” Alguém argumentou que era um defunto só e perguntou o porquê de um segundo buraco. Com a mesma calma o homem completou: “O outro buraco é para o primeiro que tentar impedir o enterro do pobre peão.” Conhecendo o personagem, não só permitiram o sepultamento como ajudaram a jogar terra sobre o caixão e recitaram breve oração fúnebre. O cavaleiro da história real hoje beira os 80 anos, cumpriu um tempão engaiolado e tem muitos amigos aqui em Laranjeiras do Sul, inclusive este colunista. Encerrando, lembro que meu falecido sogro, filho de poloneses que muito sofreram na Europa detestava alemães, tanto que só se referia ao namorado de uma de suas filhas como “Quinta Coluna”.

P.S. A expressão Quinta Coluna se popularizou internacionalmente com a Segunda Guerra Mundial, quando foi utilizada para se referir aos soldados que defendiam a invasão nazista e de seus aliados a países considerados inimigos e também a espiões e traidores da própria pátria.

VOCÊ ANDA MAIS QUE NOTÍCIA RUIM!

Foi a frase que ouvi de manhã há algum tempo atrás quando me dirigia ao trabalho na prefeitura onde completei 22 anos de labuta no serviço público e, devo acrescentar que lá muito aprendi nestas mais de duas décadas. Explico o motivo da saudação inusitada: na véspera, havia ocorrido a posse do governador do Estado, evento transmitido pelos meios de comunicação da Capital e, depois de formar a mesa de honra o mestre de cerimônias agradeceu pela presença de algumas autoridades citando entre outros o nome de JOÃO OLIVIR GABARDO, o xará importante deste colunista. Há 25 anos, ou seja, no dia 14 de outubro de 1994 era inaugurado o CAIC Irmã Dulce aqui em Laranjeiras do Sul, quando Mário Pereira respondia pelo governo estadual, o presidente era Fernando Collor, o prefeito local José Augusto Beck Lima, o ministro da educação Murilo Avelar Hingel e o secretário estadual de educação, João Olivir Gabardo. Neste evento, este colunista oriundo do rádio era o mestre de cerimônias e senti que os presentes estranharam quando chamei ao palco o secretário João Olivir Gabardo, confusão desfeita quando viram o homem um tanto mais velho que o escriba, um pouco mais alto e bem calvo. Em 1999, quando lancei o livro NERJE o deputado Nereu Moura, presente ao ato, diante de centenas de pessoas que lotavam o Iguaçu Tênis Clube fez a saudação aos presentes, especialmente ao autor da obra João Olivir Gabardo. Logo percebeu o engano e consertou a fala da forma elegante como é do seu estilo. Sempre o tive como um terno amigo e leitor fiel desta coluna. Meu xará famoso que é advogado e geógrafo nasceu em União da Vitória no ano de 1931, foi vereador, deputado estadual, deputado federal, senador, professor universitário e conselheiro do Tribunal de Contas do Estado do Paraná, além de outros cargos de importância na seara política. Devido a um parentesco com minha avó materna batizada como Regina Gabardo e pelo fato de meu pai que recebeu o nome de João Afonso, deram-me o nome desse parente distante o que gerou certa confusão em alguns atos públicos, pois Gabardo e Camargo soam de forma parecida. Meu amigo ouviu a noite pelo rádio o reprise de trechos do evento na Capital, quando foi citado o nome do meu xará importante. Este foi o motivo do amigo me saudar de manhã desta forma: Bom dia, puxa... Você anda mais do que notícia ruim. Ontem de noite você não estava em Curitiba?

AGIMOS COMO FARISEUS

No último dia 23 de janeiro, como é de costume, logo pela manhã, com a Joana acompanhamos a celebração da Santa Missa sintonizados com um canal católico de televisão. O Evangelho da citada data, escrito pelo apóstolo São Marcos, é o que abaixo segue:

“Naquele tempo, 3 1 entrou Jesus na sinagoga e achava-se ali um homem que tinha a mão seca. 2 Ora, estavam-no observando se o curaria no dia de sábado, para o acusarem. 3 Ele diz ao homem da mão seca: "Vem para o meio." 4 Então lhes pergunta: "É permitido fazer o bem ou o mal no sábado? Salvar uma vida ou matar?”Mas eles se calavam. 5 Então, relanceando um olhar indignado sobre eles, e contristado com a dureza de seus corações, diz ao homem: "Estende tua mão!" Ele estendeu-a e a mão foi curada. 6 Saindo os fariseus dali, deliberaram logo com os herodianos (seguidores de Herodes) como o haviam de prender.”
Tão logo terminou a Missa na televisão a Joana mudou de canal no exato momento em que era noticiado que um padre fora flagrado pelas câmaras de segurança furtando um par de óculos numa loja de Guarapuava. Ora, a mesma notícia já havia sido divulgada na véspera em vários canais de TV, no Rádio, nos jornais e na Internet. Concluímos, com a Joana, que também nós como a mídia agimos tal e qual os Fariseus do Evangelho em nosso cotidiano. Nosso semelhante pode ter inúmeras virtudes, mas basta uma “pisada na bola” para apontarmos o dedo acusador. Pelo que sabemos, a igreja, e não nos referimos apenas à Católica Apostólica Romana a qual somos seguidores, mas as demais denominações, têm levado incontáveis pessoas a seguir o bom caminho, abandonando vícios e costumes transgressores, mas disso, pouca gente ou ninguém fala. Outro exemplo: os prefeitos dos municípios, dentro de suas limitações, realizam várias obras que a população necessita, mas diante da impossibilidade muitas vezes financeira deixam de fazer algumas que também são necessárias e pronto, tornam-se os personagens principais das fofocas e críticas. Já ouvi munícipe que apanha com regularidade cinco ou mais medicamentos nos postos de saúde. De repente, falta um destes e já é motivo para ir até o bar da esquina, pedir um martelinho de cachaça e se sair com esta: “Falei pra moça lá no posto: “Porque não fecham esta bosta?” Voltando aos eleitos pelo voto, é bem verdade que alguns e não são poucos deixam a desejar, mas não podemos generalizar, o que não nos cabe é torcer pelo fracasso deles, que também será o nosso e quando formos apontar o dedo acusador para o vizinho, lembremos dos Fariseus do Evangelho. 

POOR NIÁGARA!

 Os noticiários no rádio, televisão e jornais destacaram neste mês prestes a terminar o 80º aniversário do Parque Nacional do Iguaçu, criado efetivamente em 10 de janeiro de 1939, através do Decreto-Lei nº 1.035 do então Presidente da República, Getúlio Vargas. Em 17 de Novembro de 1986, recebeu a distinção, concedida pela UNESCO, de Patrimônio Natural da Humanidade. Para orgulho dos paranaenses esse espetáculo da natureza fica na divisa do nosso Estado com a Argentina e, obviamente, é um dos locais mais visitados por brasileiros e turistas de além mar. Atribui-se a Eleanor Roosevelt então primeira dama norte americana que esteve no Brasil em 1944 a exclamação “Poor Niagara!” (Pobre Niágara!) ao comparar a mais famosa queda d’água dos Estados Unidos na divisa com o Canadá com a grandiosidade e a beleza das Cataratas do Iguaçu. Tive em mãos e devo ter perdido um cartão postal muito antigo que mostra a senhora Eleanora, tendo ao fundo as Cataratas e abaixo grafada a exclamação “Poor Niágara!” que dita de forma espontânea põe no chinelo qualquer propaganda por mais elaborada que seja. Elogios, quando sinceros e inesperados são sempre bem-vindos. Lembro que há alguns anos fomos a um jogo de futsal em Rio Bonito do Iguaçu e com a Joana levamos a mãe de um atleta da rádio na qual eu também trabalhava. A jovem senhora que é nossa sobrinha sentou-se conosco e duas ou três vezes o jogador, seu filho veio até ela falar-lhe algo. Após o jogo, fomos convidados a um jantar quando alguns moços vieram até mim perguntar educadamente: “Aquela moça que estava nas arquibancadas é irmã ou namorada do F?” (declino o nome do atleta). Quando lhes disse que não era nem uma coisa e nem outra, mas a mãe do F ficaram realmente admirados. Penso que qualquer pessoa, especialmente as mulheres, devem se sentir lisonjeadas quando aparentam alguns ou vários anos a menos e até hoje a senhora ainda deve estar lembrada daquela manifestação gratuita e sincera dos jovens de Rio Bonito do Iguaçu que não foi feita diretamente a ela, mas a mim, seu tio que lhe contei.

Falando em idade lembro do Ronald Golias (im-memoriam) que dizia que seu tio tinha tantas rugas que para o boné entrar na cabeça era preciso rosqueá-lo.

Romanini, o filósofo: Estávamos na área externa da emissora quando o veterano e experiente radialista Henrique Romani que olhava o céu e um urubu planando saiu com essa: “Admiro o urubu, ele conhece as correntes aéreas e plana como ninguém; não tem predador; vive mais de cem anos e, pra ele qualquer carniça é um banquete!”   

NÓS O TÍNHAMOS COMO UM SÁBIO

O que se aprende na escola da vida pode ser observado na sabedoria dos mais velhos que nos surpreendem com a experiência obtida nos muitos erros e acertos dos quais foram protagonistas ou testemunhas ao longo dos anos. Na fazenda onde viveu a minha família nos Campos de Palmas tínhamos um grande galpão próximo a casa e nele guardávamos ferramentas, os arreios dos cavalos e mais um sem fim de cacarecos. Um dia apareceram pedindo guarida Nhô Propício Almeida, a esposa, uma índia guarani que conhecíamos como Nhá Nena e o neto Antônio. Improvisaram um fogão de lenha, algumas camas e ocuparam a metade do nosso galpão. Nhô Propício começou a trabalhar conosco e mesmo com 77 anos de idade ainda manejava o machado ou as ferramentas de partir madeira com certo vigor. Havíamos assumido a empreitada de fechar 20 alqueires para o pessoal da fazenda plantar milho e feijão. O serviço consistia também de tirar palanques de imbúia e lascas de pinheiro. Nhô Almeida examinava a árvore ainda em pé, indicava a boa de partir e nunca errava. Com os manos e um primo gostávamos de ouvi-lo ao redor do fogo do galpão e ele nos ensinava: Nunca tratem os cachorros com brutalidade, assim eles não serão agressivos. Aconselhou-nos a passar a mão na cabeça do cavalo gavião (arisco), falar calmamente e jamais gritar com o animal e depois ver o bicho vir ao nosso encontro quando íamos buscá-lo no potreiro. Ensinou-nos a aparar os cascos dos cavalos e untá-los com sebo aquecido para evitar as rachaduras que maltratam o animal. Nunca tirem o baixeiro do lombo do cavalo suado, deixem pelo menos uns 15 minutos. Evita que o animal contraia garrotilho. Como tratávamos Nhô Almeida com respeito também éramos por ele paparicados quando nos contava causos engraçados nos quais imprimia certo exagero. Um dia veio visitá-los o genro Daniel, e trouxe consigo uns três guaipecas que se misturaram aos nossos cinco e mais dois da família Almeida. Foi aquela cheiração de trazeiros e o primo José Carlos querendo pregar uma peça indagou do velho o porquê daquele costume. Nhô Almeida estufou o peito e como era pândego inventou uma das suas: “Dizem que lá pelo começo do mundo houve um baile para a bicharada e os cães para poderem entrar tinham que deixar o c... (fiofó) num balaio colocado atrás da porta. Lá pelas tantas estourou tremenda briga e naquela correria os cachorros pegaram os fiofós trocados. É por isso que até hoje eles cheiram-se uns aos outros para encontrarem o fiofó original”. Demos boas risadas pelo causo inventado por Nhô Almeida que tinha resposta para tudo. Para nós, que saíamos da adolescência ele foi um sábio e hoje quando já estamos apelando para a geriatria resta à saudade.  

       

QUANDO OS FINS JUSTIFICAM OS MEIOS

Vi nos noticiários o ato louvável de um policial turco que nadou cerca de 150 metros num lago congelado para salvar um filhote de cachorro prestes a morrer de hipotermia. O animalzinho, uma fêmea, foi levado à clínica veterinária e posteriormente adotado pelo seu salvador. Já a imprensa regional trouxe a notícia de que numa cidade do Sudoeste do Paraná, a família viajou e deixou o cachorro preso sem comida e água. Quando os vizinhos perceberam, não havia mais nada a fazer, o animal morreu de fome e sede. Contrastes que nos fazem meditar como os seres humanos, ditos racionais se diferenciam nos atos do cotidiano. Nunca gostei de quem maltrata seres indefesos como idosos, crianças ou animais domésticos, tanto que o assunto trouxe à mente fato acontecido há alguns anos. Com o colega José Luiz, a caminho do trabalho, passávamos três vezes por dia próximo a um casarão nos arredores da estação rodoviária e víamos um cachorro preso numa corrente muito curta, pregada a uma árvore. O utensílio para a água invariavelmente seco ou de fundo pra cima. Nos dias chuvosos que se prolongavam o animal sofria ainda mais, pois não havia nenhuma espécie de abrigo. Deus me deu a graça de escrever razoavelmente e inventei uma carta, na qual dizia que vindo à Laranjeiras visitar familiares, enquanto aguardava o horário do ônibus, circulando pelas imediações da rodoviária deparei-me com a situação do animal. Como fazia parte de uma associação de proteção aos animais, na cidade em que residia, iria apresentar denúncia, ainda mais que tinha estreitas relações com o Ministério Público da minha Comarca. Descobri o nome de um dos moradores e sabendo o nome da rua e o número da casa, envelopei a “carta de mentirinha”, colocando como remetente um nome que veio à cabeça e uma rua que achei na lista telefônica de cidade do Oeste e a postei no Correio. Dois dias depois, aquela família havia instalado uma casinha de cachorro nova, ampla e bonita, provavelmente comprada no comércio local. A vasilha com água estava sempre cheia e a corrente onde o bicho ficava amarrado agora era bem mais longa, possibilitando seus movimentos. Às vezes é certo o ditado que diz que os fins justificam os meios e a carta ameaçadora foi o meio que encontrei naquela situação, pois não conhecia os moradores daquela casa e se não tinham compaixão de um animal indefeso, como receberiam pessoalmente caso um abelhudo ousasse se meter na vida deles? Creio que não moram mais na cidade, ou se mudaram de endereço e lerem a coluna ficarão sabendo quem escreveu a carta ameaçadora.  

DISCURSO IMPROVISADO, OU QUASE ISSO...

Consta da história que o Brasil teve bons oradores e entre estes: Rui Barbosa, o Águia de Haia, Osvaldo Aranha, Juscelino Kubitschek, Machado de Assis e muitos outros ainda hoje que se fossem mencionados ocupariam todo o espaço que disponho neste jornal. Lembrei dos oradores ao assistir a diplomação pelo TSE do presidente eleito Jair Bolsonaro e seu vice Hamilton Mourão, quando o primeiro valeu-se de cinco ou seis páginas escritas para discursar. Voltando no tempo lembrei de eleição em cidade do Sudoeste do Paraná, onde morei cinco anos dum candidato a prefeito que tinha tremenda dificuldade de falar em público. Mesmo tendo sido vereador não dizia coisas que empolgassem o eleitorado e isto seria fatal para quem pretendia conquistar a chefia do executivo do município em que era empresário bem sucedido. Um de seus cabos eleitorais de confiança, advogado de formação elaborou um discurso e como não havia computador, foi tudo datilografado. Eram quatro páginas devidamente numeradas e mesmo lendo-as e relendo-as dezenas de vezes ainda soava de forma sofrível quando diante de um microfone. Na época o município tinha dois distritos populosos, atualmente municípios emancipados e num destes estava marcado comício, quando se permitia que músicos começassem a animar o evento com algumas horas de antecedência para reunir assistência numerosa. Sobre a carroceria do caminhão que serviu de palanque, discursaram candidatos a vereador e lideranças locais, ficando o candidato a prefeito para a última fala. Naquele lê e relê, guarda as páginas, pega as páginas, acabou perdendo a última folha, justamente a que relacionava as principais promessas do futuro prefeito. Empolgado, com as veias do pescoço salientes, leu a primeira, a segunda, a terceira e depois... gaguejou... gaguejou e pediu desculpas: “Vou encerrar porque perdi a parte mais importante do meu improviso!”

Dizem que Manoel Ribas que governou o Paraná de 1932 a 1945, ora como interventor, ora como governador detestava discursos longos. Numa solenidade em sua homenagem, uma liderança sentada ao seu lado sacou do bolso o calhamaço de papel para discursar. Num gesto rápido, Maneco Facão como era seu apelido teria puxado o maço de papéis dizendo: “Pode deixar, vou levar para ler em casa!”.

Falta de higiene: Esta eu ouvi em programa de humor: Dizem que a cozinha daquele restaurante tinha tantos bichos que a Vigilância Sanitária que fazia uma inspeção transferiu a tarefa ao IBAMA.

PORTO BARREIRO – 23 ANOS !!!

Confesso que já tinha coluna pronta, no entanto aproveitando a compreensão da Joice Fabrício, diretora deste jornal que me autorizou tema livre para este espaço resolvi homenagear o Município de Porto Barreiro e os porto barreirenses pela passagem do 23º aniversário de emancipação política e administrativa que transcorreu no último dia 13. O objetivo é saudar a memória dos pioneiros e pioneiras que enfrentando dificuldades inimagináveis, com garra e bravura povoaram essa terra de futuro promissor e, quem sabe, alguém ao ler a coluna possa identificar um antepassado que faz parte desta história. Ao final da década de 90, ao realizar pesquisas para o livro NERJE (laranja no idioma kaingang), já tinha em mãos vários apanhados relacionados ao assunto em pauta que procurarei descrever em ordem cronológica: No ano de 1850, José Gonçalves da Costa e Maria Gonçalves da Costa se instalaram na localidade que ficou conhecida como Guarani dos Pobres, hoje Guarani do Cristo Rei. Além dos citados são considerados pioneiros, Joaquim e Catarina da Costa, Francisco Gonçalves, Domingos Gonçalves, Benedito Antonio de Oliveira, Manoel e Pedra Paulista, vindos de São Paulo. Em 1900, também vindos de São Paulo, chegavam, ao pequeno povoado Amantino Alves dos Santos e Gregório Alves dos Santos que da vila de Laranjeiras abriram uma picada com foice e facão para chegar ao destino. Em 1941, procedente de Santa Catarina chegava a Porto Santana a família de Cristiano Moro que em 1945 colocou em funcionamento uma balsa a remo para a travessia do rio Iguaçu, iniciando-se em seguida a construção da estrada a cargo do governo do Território Federal do Iguaçu, sendo empreiteiros da obra: José Norsio, José Nestor, Júlio da Luz, Albertino Martins e Osvaldo Vieira Branco. Em 1948 a estrada foi considerada concluída quando as obras estavam sob o comando de Valdomiro Costel. Foi então que Domingos Muffato e João Carradore colocaram em funcionamento a primeira linha de ônibus entre Laranjeiras do Sul e o Sudoeste do Estado.. Corria o ano de 1949, quando a professora Nair Brustolin começou a lecionar em Barreirinho. Em 1952 começou a funcionar a serraria de Florindo Pellizzari. Manoel Machado, Mathias Machado e Pedro Rodaschi foram os comerciantes pioneiros e este último também instalou uma ferraria. Em 30 de novembro de 1953 Lei Municipal elevou Barreirinho e Porto Santana à categoria de distritos de Laranjeiras do Sul. A Lei Estadual nº 11.248, de 13 de dezembro de 1995 emancipou o Município de Porto Barreiro. Na primeira eleição municipal foram eleitos: José Crotti e Valdemar Zocche, prefeito e vice e os vereadores: Valmor Dalastra, Sérgio Bianchin, Sílvio Moraes da Rosa, Vilmar Rochi, João Pedro dos Santos, Alceu Rigo, Enilda Pagliari, Alberto Marangoni e Valério Morelli. A prefeita atual é a Senhora Marinez B. Crotti.

Galpão crioulo

Ouvindo dia destes a música Canto Alegretense lembrei o seu autor Antônio Augusto Fagundes que apresentou o programa televisivo Galpão Crioulo durante três décadas, programa que sempre iniciava com a saudação: “Gaúchos e gaúchas de todas as querências!”. Advogado, folclorista, historiador e autor de vários livros, Nico Fagundes como era conhecido também foi grande contador de causos de humor, como os que seguem e li não lembro aonde: “Um belo dia, um gauchão bem pilchado, chegou numa barbearia juntamente com um menino, os dois para cortar o cabelo. O barbeiro, gente mui buena, fez um belo corte no gaudério, que já aproveitou pra aparar a barba, enfim deu trato geral. Depois de pronto o índio, chegou a vez do guri. Nisso o índio disse pro barbeiro: - Tchê, enquanto tu corta as melena do guri, vou dar um pulo até o bolicho da esquina comprar um cigarrito e já tô de volta. - Tá bueno! disse o barbeiro. Só que o barbeiro terminou de cortar o cabelo do guri e o índio não apareceu. - Senta aí e espera que teu pai já vem te buscar. - Ele não é meu pai! - disse o moleque. - Teu irmão, teu tio, seja lá o que for, senta aí. - Ele não é nada meu! falou o guri. Ai o barbeiro perguntou intrigado: - Mas quem é o animal então? - Não sei! Ele me pegou ali na esquina e perguntou se eu queria cortar o cabelo de graça!

Bom de Mira - O gaúcho prestou grandes favores a um industrial carioca e foi convidado a passar alguns dias na mansão do milionário no Rio. Tanto recusou os convites que o carioca mandou buscá-lo em seu jatinho particular. Aí o índio não resistiu e se mandou pra cidade maravilhosa. Saiu do aeroporto direto para uma Mercedes último tipo, todo automático, com botões pra baixar vidro, subir antena, bar embutido, televisão, telefone, o índio babando no lenço de admiração. Quando reparou no símbolo da Mercedes sobre o capô na frente do carro, perguntou pro motorista para que servia aquilo e o negrão, bom gozador, inventou que era a mira do veículo. Pra mostrar na prática pra que servia, apontou um velhinho que ia atravessando a rua e falou: - Vou acertar ele em cheio olhando pela mira. Acelerou o carrão e quando chegou a centímetros do pedestre, desviou. Já ia dar uma gargalhada do susto que devia estar o gaúcho quando ouviu um baque no lado do carro. Olhando pra trás, viu o pobre velho todo quebrado no meio da rua. E o gauchão explicando: - Mas Báh, tchê, se eu não abro a porta ele nos escapava!

Antônio Augusto Fagundes, nascido em Alegrete no dia 4 de novembro de 1934, faleceu em Porto Alegre no dia 15 de junho de 2015.