O Ponto do Conto - João Olivir Camargo
NÓS O TÍNHAMOS COMO UM SÁBIO

O que se aprende na escola da vida pode ser observado na sabedoria dos mais velhos que nos surpreendem com a experiência obtida nos muitos erros e acertos dos quais foram protagonistas ou testemunhas ao longo dos anos. Na fazenda onde viveu a minha família nos Campos de Palmas tínhamos um grande galpão próximo a casa e nele guardávamos ferramentas, os arreios dos cavalos e mais um sem fim de cacarecos. Um dia apareceram pedindo guarida Nhô Propício Almeida, a esposa, uma índia guarani que conhecíamos como Nhá Nena e o neto Antônio. Improvisaram um fogão de lenha, algumas camas e ocuparam a metade do nosso galpão. Nhô Propício começou a trabalhar conosco e mesmo com 77 anos de idade ainda manejava o machado ou as ferramentas de partir madeira com certo vigor. Havíamos assumido a empreitada de fechar 20 alqueires para o pessoal da fazenda plantar milho e feijão. O serviço consistia também de tirar palanques de imbúia e lascas de pinheiro. Nhô Almeida examinava a árvore ainda em pé, indicava a boa de partir e nunca errava. Com os manos e um primo gostávamos de ouvi-lo ao redor do fogo do galpão e ele nos ensinava: Nunca tratem os cachorros com brutalidade, assim eles não serão agressivos. Aconselhou-nos a passar a mão na cabeça do cavalo gavião (arisco), falar calmamente e jamais gritar com o animal e depois ver o bicho vir ao nosso encontro quando íamos buscá-lo no potreiro. Ensinou-nos a aparar os cascos dos cavalos e untá-los com sebo aquecido para evitar as rachaduras que maltratam o animal. Nunca tirem o baixeiro do lombo do cavalo suado, deixem pelo menos uns 15 minutos. Evita que o animal contraia garrotilho. Como tratávamos Nhô Almeida com respeito também éramos por ele paparicados quando nos contava causos engraçados nos quais imprimia certo exagero. Um dia veio visitá-los o genro Daniel, e trouxe consigo uns três guaipecas que se misturaram aos nossos cinco e mais dois da família Almeida. Foi aquela cheiração de trazeiros e o primo José Carlos querendo pregar uma peça indagou do velho o porquê daquele costume. Nhô Almeida estufou o peito e como era pândego inventou uma das suas: “Dizem que lá pelo começo do mundo houve um baile para a bicharada e os cães para poderem entrar tinham que deixar o c... (fiofó) num balaio colocado atrás da porta. Lá pelas tantas estourou tremenda briga e naquela correria os cachorros pegaram os fiofós trocados. É por isso que até hoje eles cheiram-se uns aos outros para encontrarem o fiofó original”. Demos boas risadas pelo causo inventado por Nhô Almeida que tinha resposta para tudo. Para nós, que saíamos da adolescência ele foi um sábio e hoje quando já estamos apelando para a geriatria resta à saudade.  

       

QUANDO OS FINS JUSTIFICAM OS MEIOS

Vi nos noticiários o ato louvável de um policial turco que nadou cerca de 150 metros num lago congelado para salvar um filhote de cachorro prestes a morrer de hipotermia. O animalzinho, uma fêmea, foi levado à clínica veterinária e posteriormente adotado pelo seu salvador. Já a imprensa regional trouxe a notícia de que numa cidade do Sudoeste do Paraná, a família viajou e deixou o cachorro preso sem comida e água. Quando os vizinhos perceberam, não havia mais nada a fazer, o animal morreu de fome e sede. Contrastes que nos fazem meditar como os seres humanos, ditos racionais se diferenciam nos atos do cotidiano. Nunca gostei de quem maltrata seres indefesos como idosos, crianças ou animais domésticos, tanto que o assunto trouxe à mente fato acontecido há alguns anos. Com o colega José Luiz, a caminho do trabalho, passávamos três vezes por dia próximo a um casarão nos arredores da estação rodoviária e víamos um cachorro preso numa corrente muito curta, pregada a uma árvore. O utensílio para a água invariavelmente seco ou de fundo pra cima. Nos dias chuvosos que se prolongavam o animal sofria ainda mais, pois não havia nenhuma espécie de abrigo. Deus me deu a graça de escrever razoavelmente e inventei uma carta, na qual dizia que vindo à Laranjeiras visitar familiares, enquanto aguardava o horário do ônibus, circulando pelas imediações da rodoviária deparei-me com a situação do animal. Como fazia parte de uma associação de proteção aos animais, na cidade em que residia, iria apresentar denúncia, ainda mais que tinha estreitas relações com o Ministério Público da minha Comarca. Descobri o nome de um dos moradores e sabendo o nome da rua e o número da casa, envelopei a “carta de mentirinha”, colocando como remetente um nome que veio à cabeça e uma rua que achei na lista telefônica de cidade do Oeste e a postei no Correio. Dois dias depois, aquela família havia instalado uma casinha de cachorro nova, ampla e bonita, provavelmente comprada no comércio local. A vasilha com água estava sempre cheia e a corrente onde o bicho ficava amarrado agora era bem mais longa, possibilitando seus movimentos. Às vezes é certo o ditado que diz que os fins justificam os meios e a carta ameaçadora foi o meio que encontrei naquela situação, pois não conhecia os moradores daquela casa e se não tinham compaixão de um animal indefeso, como receberiam pessoalmente caso um abelhudo ousasse se meter na vida deles? Creio que não moram mais na cidade, ou se mudaram de endereço e lerem a coluna ficarão sabendo quem escreveu a carta ameaçadora.  

DISCURSO IMPROVISADO, OU QUASE ISSO...

Consta da história que o Brasil teve bons oradores e entre estes: Rui Barbosa, o Águia de Haia, Osvaldo Aranha, Juscelino Kubitschek, Machado de Assis e muitos outros ainda hoje que se fossem mencionados ocupariam todo o espaço que disponho neste jornal. Lembrei dos oradores ao assistir a diplomação pelo TSE do presidente eleito Jair Bolsonaro e seu vice Hamilton Mourão, quando o primeiro valeu-se de cinco ou seis páginas escritas para discursar. Voltando no tempo lembrei de eleição em cidade do Sudoeste do Paraná, onde morei cinco anos dum candidato a prefeito que tinha tremenda dificuldade de falar em público. Mesmo tendo sido vereador não dizia coisas que empolgassem o eleitorado e isto seria fatal para quem pretendia conquistar a chefia do executivo do município em que era empresário bem sucedido. Um de seus cabos eleitorais de confiança, advogado de formação elaborou um discurso e como não havia computador, foi tudo datilografado. Eram quatro páginas devidamente numeradas e mesmo lendo-as e relendo-as dezenas de vezes ainda soava de forma sofrível quando diante de um microfone. Na época o município tinha dois distritos populosos, atualmente municípios emancipados e num destes estava marcado comício, quando se permitia que músicos começassem a animar o evento com algumas horas de antecedência para reunir assistência numerosa. Sobre a carroceria do caminhão que serviu de palanque, discursaram candidatos a vereador e lideranças locais, ficando o candidato a prefeito para a última fala. Naquele lê e relê, guarda as páginas, pega as páginas, acabou perdendo a última folha, justamente a que relacionava as principais promessas do futuro prefeito. Empolgado, com as veias do pescoço salientes, leu a primeira, a segunda, a terceira e depois... gaguejou... gaguejou e pediu desculpas: “Vou encerrar porque perdi a parte mais importante do meu improviso!”

Dizem que Manoel Ribas que governou o Paraná de 1932 a 1945, ora como interventor, ora como governador detestava discursos longos. Numa solenidade em sua homenagem, uma liderança sentada ao seu lado sacou do bolso o calhamaço de papel para discursar. Num gesto rápido, Maneco Facão como era seu apelido teria puxado o maço de papéis dizendo: “Pode deixar, vou levar para ler em casa!”.

Falta de higiene: Esta eu ouvi em programa de humor: Dizem que a cozinha daquele restaurante tinha tantos bichos que a Vigilância Sanitária que fazia uma inspeção transferiu a tarefa ao IBAMA.

PORTO BARREIRO – 23 ANOS !!!

Confesso que já tinha coluna pronta, no entanto aproveitando a compreensão da Joice Fabrício, diretora deste jornal que me autorizou tema livre para este espaço resolvi homenagear o Município de Porto Barreiro e os porto barreirenses pela passagem do 23º aniversário de emancipação política e administrativa que transcorreu no último dia 13. O objetivo é saudar a memória dos pioneiros e pioneiras que enfrentando dificuldades inimagináveis, com garra e bravura povoaram essa terra de futuro promissor e, quem sabe, alguém ao ler a coluna possa identificar um antepassado que faz parte desta história. Ao final da década de 90, ao realizar pesquisas para o livro NERJE (laranja no idioma kaingang), já tinha em mãos vários apanhados relacionados ao assunto em pauta que procurarei descrever em ordem cronológica: No ano de 1850, José Gonçalves da Costa e Maria Gonçalves da Costa se instalaram na localidade que ficou conhecida como Guarani dos Pobres, hoje Guarani do Cristo Rei. Além dos citados são considerados pioneiros, Joaquim e Catarina da Costa, Francisco Gonçalves, Domingos Gonçalves, Benedito Antonio de Oliveira, Manoel e Pedra Paulista, vindos de São Paulo. Em 1900, também vindos de São Paulo, chegavam, ao pequeno povoado Amantino Alves dos Santos e Gregório Alves dos Santos que da vila de Laranjeiras abriram uma picada com foice e facão para chegar ao destino. Em 1941, procedente de Santa Catarina chegava a Porto Santana a família de Cristiano Moro que em 1945 colocou em funcionamento uma balsa a remo para a travessia do rio Iguaçu, iniciando-se em seguida a construção da estrada a cargo do governo do Território Federal do Iguaçu, sendo empreiteiros da obra: José Norsio, José Nestor, Júlio da Luz, Albertino Martins e Osvaldo Vieira Branco. Em 1948 a estrada foi considerada concluída quando as obras estavam sob o comando de Valdomiro Costel. Foi então que Domingos Muffato e João Carradore colocaram em funcionamento a primeira linha de ônibus entre Laranjeiras do Sul e o Sudoeste do Estado.. Corria o ano de 1949, quando a professora Nair Brustolin começou a lecionar em Barreirinho. Em 1952 começou a funcionar a serraria de Florindo Pellizzari. Manoel Machado, Mathias Machado e Pedro Rodaschi foram os comerciantes pioneiros e este último também instalou uma ferraria. Em 30 de novembro de 1953 Lei Municipal elevou Barreirinho e Porto Santana à categoria de distritos de Laranjeiras do Sul. A Lei Estadual nº 11.248, de 13 de dezembro de 1995 emancipou o Município de Porto Barreiro. Na primeira eleição municipal foram eleitos: José Crotti e Valdemar Zocche, prefeito e vice e os vereadores: Valmor Dalastra, Sérgio Bianchin, Sílvio Moraes da Rosa, Vilmar Rochi, João Pedro dos Santos, Alceu Rigo, Enilda Pagliari, Alberto Marangoni e Valério Morelli. A prefeita atual é a Senhora Marinez B. Crotti.

Galpão crioulo

Ouvindo dia destes a música Canto Alegretense lembrei o seu autor Antônio Augusto Fagundes que apresentou o programa televisivo Galpão Crioulo durante três décadas, programa que sempre iniciava com a saudação: “Gaúchos e gaúchas de todas as querências!”. Advogado, folclorista, historiador e autor de vários livros, Nico Fagundes como era conhecido também foi grande contador de causos de humor, como os que seguem e li não lembro aonde: “Um belo dia, um gauchão bem pilchado, chegou numa barbearia juntamente com um menino, os dois para cortar o cabelo. O barbeiro, gente mui buena, fez um belo corte no gaudério, que já aproveitou pra aparar a barba, enfim deu trato geral. Depois de pronto o índio, chegou a vez do guri. Nisso o índio disse pro barbeiro: - Tchê, enquanto tu corta as melena do guri, vou dar um pulo até o bolicho da esquina comprar um cigarrito e já tô de volta. - Tá bueno! disse o barbeiro. Só que o barbeiro terminou de cortar o cabelo do guri e o índio não apareceu. - Senta aí e espera que teu pai já vem te buscar. - Ele não é meu pai! - disse o moleque. - Teu irmão, teu tio, seja lá o que for, senta aí. - Ele não é nada meu! falou o guri. Ai o barbeiro perguntou intrigado: - Mas quem é o animal então? - Não sei! Ele me pegou ali na esquina e perguntou se eu queria cortar o cabelo de graça!

Bom de Mira - O gaúcho prestou grandes favores a um industrial carioca e foi convidado a passar alguns dias na mansão do milionário no Rio. Tanto recusou os convites que o carioca mandou buscá-lo em seu jatinho particular. Aí o índio não resistiu e se mandou pra cidade maravilhosa. Saiu do aeroporto direto para uma Mercedes último tipo, todo automático, com botões pra baixar vidro, subir antena, bar embutido, televisão, telefone, o índio babando no lenço de admiração. Quando reparou no símbolo da Mercedes sobre o capô na frente do carro, perguntou pro motorista para que servia aquilo e o negrão, bom gozador, inventou que era a mira do veículo. Pra mostrar na prática pra que servia, apontou um velhinho que ia atravessando a rua e falou: - Vou acertar ele em cheio olhando pela mira. Acelerou o carrão e quando chegou a centímetros do pedestre, desviou. Já ia dar uma gargalhada do susto que devia estar o gaúcho quando ouviu um baque no lado do carro. Olhando pra trás, viu o pobre velho todo quebrado no meio da rua. E o gauchão explicando: - Mas Báh, tchê, se eu não abro a porta ele nos escapava!

Antônio Augusto Fagundes, nascido em Alegrete no dia 4 de novembro de 1934, faleceu em Porto Alegre no dia 15 de junho de 2015.

SEO PSIDÔNIO, O HOMEM QUE VIA BASES

 No meio rural ainda existem benzedores e curandeiros que vêem bases sobre qualquer dúvida, ou seja, uma espécie de premonição do futuro seja em negócios, assuntos amorosos e até mesmo apostas. A crendice do povo da roça ainda os faz admirados, respeitados e consultados sempre que surge alguma dúvida. Feito o preâmbulo lembro o que contou o professor Arno Bento Mussói que quando menino morava com a família em Rio Antero, local do meio rural relativamente próximo ao perímetro urbano, tanto que ela fazia a pé o trajeto de ida e volta entre sua casa e a escola. No meio do caminho havia um casebre onde moravam Seo Psidônio e a esposa, D. Alzira, ele afamado por “ver bases”, portanto, muito procurado pelos moradores. Próximo dali, onde hoje se situa o campus da Universidade Federal da Fronteira Sul, havia uma “hípica” onde se realizavam quase todos os finais de semana corridas de cavalos. Dias antes das corridas Seo Psidônio recebia individualmente dezenas de apostadores, interessados em suas bases sobre qual cavalo venceria as corridas em duplas. Após as corridas sempre vinha gente até seu casebre para lhe gratificar, em espécie ou outros mimos, como galinhas gordas, leitões, litros de cachaça da boa ou fumo em corda para os palheiros. Fosse qual fosse o cavalo vencedor, sempre aparecia alguém para lhe presentear. Depois de muitas corridas um Sherlock Holmes da terrinha descobriu como Seu Psidônio “acertava com suas bases”. A um, garantia a vitória do cavalo “X”, a outro do cavalo “Y”, ou seja, uma espécie de meio a meio. Isto quer dizer que os que ganhavam, já que se apostava bastante, vinham agradecê-lo, o que evidentemente não ocorria com os que tinham apostado no perdedor de forma que Seo Psidônio sempre se saia bem. Os causos antigos de Laranjeiras do Sul não foram totalmente soterrados pelas cinzas do tempo, graças a memórias privilegiados como a do professor Arno Bento Mussói, incansável pesquisador e autor de livros sobre a história local e regional. 

PS. Mudando de profissão. Depois de 40 anos como médico proctologista, João decidiu se aposentar e assumir seu verdadeiro amor – mecânica de automóveis. Matriculou-se numa aula de mecânica e estudou muito.  A maioria dos alunos completou o exame em duas horas. João, por outro lado, levou às quatro horas disponíveis. No dia seguinte, João ficou surpreso ao ver a pontuação de 150% para o seu exame e falou com o professor depois da aula. – Eu nunca sonhei que poderia ir tão bem no exame. Como ganhei uma pontuação de 150%? O professor respondeu: – Dei 50% por desmontar perfeitamente o motor do carro, outros 50% por remontá-lo com perfeição. No final te dei mais 50% por ter feito tudo através do cano de descarga.

 

MEDO DE DENTISTA

Tenho por hábito contar fatos reais com nuances de humor e que parecem até improváveis. Confesso que leio muito e às vezes deparo com textos hilários e não resisto à tentação de publicá-los neste espaço como o que segue e tem a autoria do cronista Carlos Eduardo Novaes.  “Para mim um "pau-de-arara" ou uma cadeira de dentista é tudo instrumento de tortura, desta vez, porém, não tive como escapar. Os dentes do lado esquerdo já tinham virado meros figurantes dentro da boca e ao estourar o pré-molar do lado direito, fiquei restrito à linha de frente para mastigar, experiência que poderia ter dado certo, caso tivesse algum jeito para esquilo. A secretária convocou-me na sala de espera. Acompanhei-a, após o sinal-da-cruz, e entramos no gabinete do dentista, que, como personagem principal, só aparece depois do circo armado. - Sente-se - disse ela, apontando para a cadeira. - Sente-se a senhora - respondi com educada reverência, primeiro as damas. Minhas pernas tremiam. Ela tornou a apontar para a cadeira. - O senhor é o paciente! - O dentista surgiu com aquele ar triunfal de quem jamais teve cárie. Ah! Como adoraria vê-lo na própria cadeira extraindo um siso incluso! Mal me acomodei e ele já estava curvado sobre a cadeira, empunhando dois ferrinhos para entrar em ação. Nem uma palavra de estímulo ou reconforto. Foi logo ordenando: - Abra a boca. Tentei, mas a boca não obedeceu. - Não vai doer nada! - Todos dizem a mesma coisa - reagi. Não acredito mais em vocês! - Abra a boca! - insistiu ele. Abri a boca.  Ele enfiou um monte de coisas na minha boca e tocou o dente com um gancho. - Ta doendo? - Urgh argh hogli hugli. Os dentistas são tipos curiosos, enchem a boca da gente de algodão, ferros, e.t.c. e depois desandam a fazer perguntas. Não sou daqueles que conseguem responder apenas movendo a cabeça.  - A anestesia vai impedir a dor - disse ele, armado com a seringa. - E eu vou impedir a anestesia - respondi duro segurando firme no seu pulso. Ele fez pressão para alcançar a gengiva. Permaneci segurando seu pulso. Ele apoiou o joelho no meu baixo ventre. Continuei resistindo, em posição defensiva. Ele subiu em cima de mim. Gemi quase sem forças. Ele afastou a mão que agarrava seu pulso e desceu com a seringa. Lembrei-me de Indiana Jones e, num gesto rápido, desviei a cabeça. A agulha penetrou à poltrona. Peguei o esguichador de água e lancei-lhe um jato no rosto. Ele voltou com a seringa. - Não pense que o senhor vai me anestesiar como anestesia qualquer um - disse, dando-lhe um tapa na mão. A seringa voou longe e escorregou pelo assoalho. Corremos os dois pra alcançá-la, caímos embolados, esticando os braços para ver quem pegava a seringa. Tapei-lhe o rosto com o babador e cheguei antes. A situação se invertera: eu estava por cima. - Agora sou eu quem dá as ordens - vociferei, rangendo os dentes. - Abra a boca! - Mas... não há nada de errado com meus dentes. - A mim você não engana. Todo mundo tem problemas dentários. Por que só você iria ficar de fora? Vamos, abra essa boca! - Não, não, não. Por favor - implorou. Morro de medo de anestesia. Era o que eu suspeitava. É fácil ser corajoso com a boca dos outros. Quero ver é na hora de abrir a própria boca. Levantei-me, joguei a seringa para o lado e disse-lhe: - Você não passa de um paciente!”

 

TIPOS TÍPICOS

 Quase todas as cidades, vilas e povoados grandes, médios ou pequenos têm seus tipos típicos que devido a certas particularidades tornam-se conhecidos da população. Aqui em Laranjeiras do Sul tivemos Seo Geninho (Eugênio) conhecido como Velho do Galo por sempre carregar um galo índio debaixo do braço e ficar muito irritado quando provocado pela piazada ou adultos de maus bofes. Dona Maria que perambulava pela cidade portando dezenas de anéis, pulseiras, brincos e correntões de bijuteria era a Dona Maria Joinha. Na época do governo Sarney quando no Plano Cruzado a população era convidada a fiscalizar os preços e até denunciar o esconderijo de bois que os pecuaristas preferiam não vender pelo baixo preço, alguém confeccionou um crachá com fotografia e então Dona Maria Joinha circulava identificada como “Fiscala do Sarney”. Nas fazendas dos Campos de Palmas de onde vim, um tipo típico muito popular era conhecido como Turíbio. Nunca soube quem eram seus pais e irmãos, se é que os tinha e nem o seu nome completo. Mulato, forte e de média estatura, só tinha os dois dentes caninos na arcada superior, dando-lhe um aspecto vampiresco. De pés descalços e calças arremangadas falava com muita dificuldade, eram na verdade grunhidos que só uns poucos entendiam. Sua vida era zanzar nas fazendas, com várias casas de peões e capatazes com suas famílias. Hospitaleiros e caridosos sempre lhe garantiam a comida e o pouso nos galpões, onde havia alguma cama tosca forrada com pelegos. Turíbio buscava lenha nos matos de onde trazia enormes feixes sobre os ombros como forma de pagar a hospedagem, depois sumia sem avisar ninguém até aparecer noutra fazenda. Numa daquelas fazendas, passava longe e não ousava nem chegar próximo à porteira. Fofoqueiros de plantão espalharam qual era o motivo dele ter ficado arisco. Uma moça já bem criada, tida como de família, mas do tipo “faca na bota” teria saído da casa pé ante pé algumas vezes em altas horas e ido até o galpão para dar uma dormida (eu falei dormida?) com Turíbio. A safadeza foi descoberta e resultou na expulsão do hóspede contumaz debaixo de golpes de jibóia (tipo de relho de couro cru) no lombo do homem que perdeu a hospedagem pra sempre na referida fazenda. 

 

P. S. Como os pacientes reagem à prescrição de antibióticos em alguns países:

O médico:

– Você deve tomar esses comprimidos de antibiótico a cada 8 horas durante uma semana.

Nos Estados Unidos – Thank you, doctor.

Na Espanha – Gracias, señor.

Na França – Merci, monsieur.

No Japão – Arigatô.

No Brasil – Precisa parar de beber?    

"SARVA DE TIROS"

Laranjeiras do Sul, em tempos idos, teve a fama nada edificante de ser “terra de pistoleiros” e, posso lhes assegurar que o altíssimo número de homicídios dava credibilidade a esta fama. Diziam até que, bastava você chegar noutra cidade num carro com placas daqui da terrinha para que lhe olhassem com certo respeito. O colunista não está inventando nada, pois não ousa falar mal da terra onde vive, mas tendo aqui chegado na década de sessenta viveu aqueles tempos que felizmente ficaram no passado. Primeiro, cuidando de pequena casa comercial em Guaraí, distrito de Erveira e depois como um dos primeiros funcionários da Rádio Educadora onde também apresentava o programa policial, portanto sabe o que está narrando. Certos delegados de polícia como o Dr. Edgard Polchopec exigiam que o repórter acompanhasse os policiais em missões até certo ponto perigosas, mas sempre colaborava dando as notícias em primeira mão. Contou-me o médico Carlos Felipe de Sio (im-memoriam) que aqui havia chegado em 1962 e, portanto, atendido dezenas de baleados e esfaqueados que naquela época fora designado para Juiz da Comarca, magistrado que havia sido seu colega na universidade. O homem desembarcou cabreiro na cidade, pois sabia da fama e do trabalho duro que teria que desempenhar na Vara Criminal. Houve uma festa de aniversário de um senhor pioneiro e respeitadíssimo no município para a qual, entre os convidados estavam o  médico e o juiz de direito. Na comprida mesa debaixo das laranjeiras fora servido o farto almoço. Lá pelas tantas, animado por alguns goles de cachaça um dos convidados gritou: “Vamos dar uma sarva pro aniversariante”. Referia-se ele a uma salva de tiros e contou-me o Dr. Felipe que para espanto do juiz, em segundos mais de uma dezena de revólveres e garruchas foram sacados debaixo dos paletós e camisas dos peões e convidados, todos disparando para o alto. Próximo do médico e do juiz estava um moço que cuidava da bomba d’água que abastecia a cidade. Este, sacou uma garrucha daquelas de carregar pela boca e disparou os dois canos. As buchas de papel utilizadas para carregar aquele tipo de arma normalmente incendeiam. Foi o que aconteceu e acabaram caindo na cabeça do juiz chamuscando seus cabelos. O magistrado teria olhado para o médico exclamando: “Felipe, onde é que eu vim me meter!” O médico me contou que acalmou o amigo juiz garantindo-lhe que acabaria gostando da cidade e do seu povo e foi o que realmente aconteceu. O almoço transcorreu animado e ninguém mais teve a idéia de uma nova “sarva de tiros”.

P.S. Dr. Felipe tinha senso de humor admirável e sabia contar causos reais e engraçados da antiga Laranjeiras. Faleceu no mês de maio de 2014 e este colunista que trabalhava no serviço público municipal redigiu com tristeza o Decreto de Luto Oficial.
 

NÃO CONHECE MAIS MOGANGA?

Esta é do tempo em que ainda não haviam sido inventadas receitas deliciosas com abóbora, moranga (também diziam moganga) e mandioca, tidas num passado não tão distante como comida de pobre pelo fato de serem fáceis de produzir e, portanto, abundantes. É bom que se diga que no meio rural, também são utilizadas no trato de suínos e bovinos. Quando menino, em Mandirituba, cortei muita abóbora para o porco no chiqueiro e a vaca leiteira na casa do avô João Moletta. Mamãe contava que em Areia Branca, hoje distrito de Mandiritiba, nas margens do atual BR 116, havia uma Seção do DNER com trabalhadores de várias regiões do Brasil, atuando como motoristas, tratoristas, patroleiros, mecânicos e demais atividades do gênero. Residia ali, uma família de mineiros composta pelo casal e três filhas moças. Morávamos à época em Areia Branca, onde a parteira enterrou meu umbigo e ali também nasceram meus irmãos Farid Sebastião, José Itamir e Antônio Neuzir. Mamãe gostava de visitar a família mineira onde era muito bem recebida e como não havia chimarrão tomava café e fumava palheiro. As moças do lugar, cuja distância de Curitiba é de 48 quilômetros, em sua maioria trabalhavam na capital como domésticas, emprego honrado como qualquer outro. Em casas de famílias abastadas, aprendiam a se produzir e falar um português mais aceitável. Muitas arranjavam namorado que virava noivo e marido. Mamãe estava na casa dos mineiros, coincidindo o dia em que uma das filhas veio da capital trazendo a tiracolo o namorado curitibano para que os pais o conhecessem. De mãos dadas com o rapaz foi até a varanda nos fundos da casa onde havia a horta e nela dezenas de morangas maduras, à época, como já disse, conhecidas como comida de pobre. Certamente para aparecer para o namorado perguntou: “Mamãe, que frutas são aquelas que estão espalhadas por toda a horta?”. E ouviu da mamãe mineira: “Uai minha fíia, não conhece mais moganga? Você se criou comendo isso, no armoço e na janta!” E completou: “Vou cortá e cuzinhá uma pra vocês comerem de sobre mesa com leite.

PS. João Afonso Camargo, meu pai, foi uma liderança em Areia Branca dos Assis, onde tinha armazém e posto de gasolina. Um dos poucos moradores da época que possuía automóvel vivia levando doentes que precisavam de atendimento médico em Curitiba. Como homenagem póstuma, o maior estabelecimento de ensino de Areia Branca é o Colégio Estadual João Afonso Camargo.