LANTERNA DE TRÊS ELEMENTOS

Corria o ano de dois mil, quando Joice Fabrício, diretora deste diário que à época era semanal fez-me o convite

Corria o ano de dois mil, quando Joice Fabrício, diretora deste diário que à época era semanal fez-me o convite para escrever uma coluna que em março último completou dezoito anos de publicações ininterruptas. Assumi o compromisso de que contaria fatos engraçados ou pitorescos, a maioria verídicos, ela aceitou e aqui estamos. Lembro que um dos primeiros causos referia-se a Theodoro, morador de um sítio há poucos quilômetros da cidade, bom dançarino que não perdia os bailões populares dos finais de semana. Um destes bailões que ficou na história era organizado pela Sra. Miquelina Sampaio e funcionava num velho casarão na Rua Manoel Ribas. Reunia o pessoal de menor poder aquisitivo que por razões óbvias não frequentava os clubes. Theodoro além de marcar presença todos os finais de semana e dançar bem, ainda trazia uns cobres e não se negava a pagar cervejas, refrigerantes e pastéis para as moças e senhoras, daí que não lhe faltavam pares para rodopiar na sala até o clarear do dia. Do tipo elegante, fazia questão de vestir paletó e gravata. Uma prendada irmã do nosso dançarino, para fazer um agrado ao rapaz que dava duro na roça de segunda à sexta-feira, ajudava a pagar as contas da casa e ainda comprava vestidos, sapatos e outros mimos para ela e mais duas irmãs bordou a letra inicial do nome Theodoro na sua gravata preferida. No bailão uma moça que dançava com o rapaz, após olhar demoradamente a gravata enfeitada com a exagerada e chamativa letra T teria exclamado: mas que baita tesão!. Muito encabulado ouviu de Theodoro: Não é nada do que você está pensando. É a lanterna de três elementos que eu trago no bolso da calça. Os mais antigos devem lembrar que se dizia lanterna de três elementos para aquelas que funcionavam com três pilhas elétricas. Theodoro sempre trazia a lanterna para iluminar o caminho na volta para casa. Tempos depois, uma daquelas dançarinas conquistou o pé de valsa que com ela se casou. A moça arrumou um bom marido e o bailão perdeu um de seus mais fiéis clientes.

OS. Numa madrugada este colunista encontrou saindo do bailão o compadre Pedro Belarmino que à época era motorista de caminhão tanque que trazia combustível de Guarapuava à Laranjeiras do Sul. Havia notado a sua ausência no barzinho onde nos encontrávamos quase todas as tardes para tomar uns goles e atualizar as fofocas. Ele saía do bailão e disse-me: Estou de férias e o único serviço braçal que tenho feito é dançar.