PÓLVORA PRETA

Dias atrás tivemos a alegria de receber as visitas de Lírio Vidal, sua esposa Sandra e a sogra Tereza, esta

Dias atrás tivemos a alegria de receber as visitas de Lírio Vidal, sua esposa Sandra e a sogra Tereza, esta última irmã do meu padrasto e compadre João Gutoski. O casal hoje reside no município catarinense de Abelardo Luz, mas são crioulos dos Campos de Palmas, onde ainda mora dona Tereza, que tem propriedade nas margens do rio Iratim. Em diversos momentos das nossas conversas, o assunto voltava a ser a década de sessenta, quando este colunista, ainda vestido calças curtas com suspensórios do mesmo pano perambulava pela costa do rio Estrela, caçando passarinhos com os manos e amigos. Lembraram da verdadeira guerra que envolveu diversas famílias cujos membros eram conhecidos como Pica-Pau e uma família de fazendeiros, fato real que manchou de sangue aquelas paragens. Alguns dos Pica-Pau (poucos é bom que se diga) eram dados a afanar animais das fazendas e numa certa ocasião quando um filho de fazendeiro campereava na propriedade fora assinado pelo famigerado conhecido como Janguinho Pica-Pau. Foi o estopim que dera início aqueles meses infindáveis em que todos os dias se ouvia falar dos tiroteios e quem perdera a vida. A família do fazendeiro havia recrutado em outros estados, mercenários conhecidos como pistoleiros, daqueles que matavam de empreitada. Dizia-se na região que eram os Cartas Brancas, por possuir um documento que os autorizava a matar todos os Pica-Pau de 14 anos para cima. Foram muitos os entreveros, inocentes foram mortos e muitos Carta Brancas também sucumbiram, quando encontravam um Pica Pau bom de briga. Dona Nahir, minha mãe, viúva e com filhos pequenos tinha um pequeno armazém próximo a uma madeireira, onde os homens colocavam os assuntos em dia. Menino ainda lembrei do Generoso de Oliveira, o Generoso Pica Pau contando que os Carta Branca haviam visitado de surpresa seu paiol, na costa do Iratim com a finalidade de matá-lo. Não o tendo encontrado, levaram uma lata de pólvora da marca Elefante que ele usava para guardar sementes de abóbora. Dita semente é adorada pelos ratos e guardá-las na lata garantia a integridade da mesma. Generoso contava divertido sobre o engano dos Carta Branca. Era ele homem trabalhador, não se envolvia em furto de animais, no entanto havia abatido em duelos pelo menos meia dúzia de oponentes. Acabou morto de tocaia numa casa de monjolo, teve a orelha decepada que foi levada a uma viúva que patrocinara a macabra ação. Algum tempo atrás levei até Palmas o padrasto João Gutoski ao funeral de Dona Maria Trindade, sua tia e madrinha, viúva do Generoso Pica Pau. Um quadro na parede da sala com a fotografia do homem me fez recordar a história da lata de pólvora com sementes de abóbora.

CAVALARIA – Contam que o recruta da cidade choramingava ao sargento da tropa que nunca havia montado um cavalo e que o livrasse daquele sacrifício. O sargento teria respondido: Tudo bem, eu mando lhe dar um cavalo que nunca foi montado e vocês dois aprendem juntos.