O professor do futuro: na escola como um jardim

Quais as relações possíveis entre uma escola e um jardim? Comecemos por situar a essência de cada um:A escola trabalha

Quais as relações possíveis entre uma escola e um jardim?

Comecemos por situar a essência de cada um:
A escola trabalha com a alma humana, com os seres e as relações humanas, tudo sob a mediação do conhecimento: a experiência, a razão, as ciências, a ética e a estética. Como vimos na publicação anterior desta coluna, a escola é o templo que tem como função essencial a socialização dos conhecimentos científicos, tecnológicos, filosóficos e culturais acumulados pela humanidade. Na escola, cada professor é um cientista encarregado do exercício didático da sua ciência disciplinar. Ele se relaciona com os demais e com os estudantes, a partir da sua área de conhecimento, produzindo uma leitura interdisciplinar de mundo. Sob a interdisciplinaridade, as ciências humanas se articulam com as ciências da natureza como base da apropriação da realidade objetiva. Esse é o processo didático que filosoficamente se traduziria de uma condição “em si” da coisa, do fenômeno ou do conceito, num “para si” humano, como condição para que ocorra a leitura, a compreensão, a interpretação e a transformação do mundo. Assim se desenvolve a práxis consciente do devenir humano.
Por outro lado, o jardim seria o Éden do “princípio” como continuidade da beleza impregnada na alma humana, expressando a materialidade estética. Nele temos flores, cascatas, árvores, animais, abelhas, bancos para namorar, conversar com os amigos, descansar. Há jardins grandes e pequenos, não importa, cada casa, cada escola, cada praça deve ter o seu jardim. O jardim é o lugar da fruição, onde o pensamento voa. A natureza viva nele impulsiona e energiza a vida para dentro e para fora da alma humana. A folha que se desprende do galho ou as pétalas que dão lugar aos frutos são partes da harmonia da vida. O jardim é terra molhada. A terra é de onde se extrai o pão de cada dia, mas, dela nasce muito mais do que o pão, nasce também a espiritualidade, a ética e a estética, como espelho da condição humana.
O território da escola, assim como o território do jardim têm por objetivo a produção da vida articulada com o bem supremo. Esta seria a formulação para a compreensão da escola e do jardim em geral. Todavia, tanto a escola quanto o jardim, na sociedade de classes, são socialmente determinados. O fetichismo da mercadoria leva para dentro da escola a sua ideologia, que, nos dias atuais se apresentam como instrumentos desavergonhadamente claros, vis-à-vis o tal do “empreendedorismo”, a tal da “educação financeira”, etc. Essa mesma ideologia leva para o grande jardim (o Planeta Terra) a lógica da destrutividade socioambiental, tendo como produto as “selvas de pedras” e as desertificações de muitas regiões pelo mundo todo.
O fetichismo da mercadoria atua como um vírus destruindo vidas no jardim e destruindo vidas humanas no campo e na cidade. Esse mesmo vírus atua nas escolas, tornando-a um lugar de competição, como educação para a barbárie. O professor do futuro deve compreender essa contradição e se posicionar diante dela para poder educar para a paz e resgatar a escola e o jardim como unidade dialética.