Abra a janela, tem novidade lá fora!

Naquela manhã, perdida em meus pensamentos, buscava inspiração para a próxima crônica quando, ao ligar o rádio do carro, ouvi

Naquela manhã, perdida em meus pensamentos, buscava inspiração para a próxima crônica quando, ao ligar o rádio do carro, ouvi uma voz que mexeu comigo. O locutor de voz forte e imponente: “E aí, você vai trabalhar tanto assim até morrer? Como estava indo para o trabalho, respondi mentalmente que sim.

Segui por mais algumas ruas, tentando retomar minha linha de raciocínio em relação a crônica que precisava escrever, mas aquela frase ficou martelando na minha cabeça. Imediatamente desliguei o rádio com ódio mortal daquele radialista que ousava se meter na vida de tantos trabalhadores, naquela segunda-feira!

As horas foram passando e uma voz sussurrava ao meu ouvido: “E aí, você vai trabalhar tanto assim até morrer?” Será que iria? Não! Eu não! Sim! Se continuasse fazendo tudo igual! Odiei com mais intensidade ainda aquela voz! Larguei o copo ao lado do notebook e fixei o olhar na tela, assombrada por aquela voz. Parei para pensar e percebi que, às vezes, não abrimos espaço para o novo, para os nossos projetos, sonhos, nossas vontades, ou, simplesmente, para aquilo que está na nossa essência. Queremos o novo a todo custo, no entanto, não nos despimos do velho!

A cada nova estação, ou quando compramos uma roupa nova, precisamos sempre limpar as gavetas, organizar o guarda-roupa. No nosso jardim sempre estamos tirando aquele matinho que cresce, podamos as roseiras fazendo mudas novas. Será que somos tão cuidadosos, assim, em relação ao nosso interior?

Queremos tanto novo amor, no entanto não abrimos espaço para o perdão! Queremos tanto o afeto das pessoas, porém ficamos fechados para o abraço, amarrados em mágoas e ressentimentos do passado. Queremos um novo trabalho, mas temos apego ao nosso computador, à nossa mesa, à nossa caneta favorita, às pessoas com as quais convivemos diariamente. Dessa forma, ficamos presos e inflexíveis às mudanças. Vai ser assim até morrer!

Vivemos como se fôssemos imortais, acumulando, guardando e arrastando tantas correntes por anos e anos! Se soubéssemos o dia de nossa partida, certamente iríamos pensar mais em como estamos vivendo o aqui e o agora.
Talvez ansiar pelo novo seja próprio do ser humano. Estamos sempre na expectativa do ano novo, da semana nova, do próximo aniversário, mas, simplesmente esquecemos que, quando o novo chega é necessário deixar ir tudo aquilo que não cabe mais. Isso inclui nos desfazermos do nosso velho eu, das nossas crenças arraigadas, da nossa antiquada maneira de ver a vida.

Deixar o que é velho não quer dizer que não carregaremos todas as experiências que nos fizeram ser aquilo que somos. Abandonar o velho significa retirar da nossa bagagem tudo aquilo que já não devemos mais carregar. Entretanto, as malas da nossa existência sempre nos acompanharam pelos caminhos que trilharmos.

Seguiremos assim, trabalhando até morrer, sem abrir espaço para as novidades, para os lindos projetos que se apresentam, para as dádivas que o universo presenteia-nos? Deixaremos de olhar para o novo, simplesmente por medo de abrirmos uma nova porta, ou, ao menos, nos debruçarmos na janela, a fim de ver a novidade que passa lá fora?

Acorda… Sonhando acordada, ou pensando na próxima história pro jornal? Temos que despachar todos esses documentos hoje! Desculpa, tava divagando!
Odiei aquela voz anônima pelo resto do meu dia!

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