Abre a janela, hoje tem espetáculo!

Dias desses, em mais um daqueles dias de lockdown, estava a rever lives dos meus artistas favoritos. Algumas delas, que

Dias desses, em mais um daqueles dias de lockdown, estava a rever lives dos meus artistas favoritos. Algumas delas, que já tem mais de um milhão de acessos, só eu devo ter visto centenas de vezes! Lembro-me do início da pandemia em que ficávamos todos ansiosos pela mais pobre live de artistas embriagando-se ao vivo e cantávamos as letras mais deprimentes, como se não houvesse amanhã, porque como diz a canção “na verdade não há!”

Quem seríamos nós, em meio a tudo isso, sem um bocadinho de arte? Não cabe aqui discutir o conceito de arte, ou artista, a mim cabe somente sentí-la, apreciá-la, buscá-la. A arte é a oração das almas mais sedentas e sensíveis, mesmo que essa sensibilidade seja expressa num canto de rebeldia. São os paradoxos que só a arte é capaz de nos proporcionar. É a flor no asfalto do poeta , que persiste e resiste à dureza da existência.

Nestes tempos de isolamento, andamos todos mais artistas, terapeutas, mestre cucas. Muitos de nós, que tínhamos uma inimizade com o fogão,  passamos a  inventar e testar novas receitas. São os efeitos da  pandemia, nos moldando e nos remodelando. Ensinamos aos filhos, que estão mais ranzinza que nós, a também pilotar um fogão, pois cozinhar também é uma arte. Tudo isso em meio a um processo terapêutico, que temos exercitado diariamente. Repetimos para nós e para os outros que a vida é cíclica, que quem amamos não é imortal e que não temos o controle de nada em meio ao caos, exceto de nós mesmos (nem sempre, ou quase nunca). Se estivermos falando com nossos filhos adolescentes todo esse processo terapêutico deve ser repetido em tom de voz suave, doce como um brigadeiro, porém não espere um abraço no final desse papo, porque eles estão mais para mousse de limão.

 Todos temos nos tornado mais artistas durante a pandemia. Ela já rendeu a muitos a restauração de um móvel velho, que estava jogado num canto há anos, ou, ainda, aquela velha camiseta ganhou algumas cores e design novo.  Alguns andaram inventando até cores e cortes caseiros para os cabelos, que quase sempre se gasta o dobro para consertar.  Têm também os artistas mais arteiros que já tentaram uma nova tatuagem em sua própria coxa, ou aquele  pierce  novo no nariz.

O que dizer dos dançarinos que trocaram os  vastos salões e seus pares, por danças solitárias em apertados apartamentos? Os músicos, deixaram os palcos e as multidões e  foram às varandas e às sacadas olhar o sol que se esconde além da montanha, ou o solitário que ligeiro se apressa, na rua vazia. Esses artistas andam em busca da mais ensolarada e perfeita canção, que transforme a dor em melodia, a saudade em ritmo compassado,  as palavras não ditas em letras que se eternizem.

Todos estamos em busca de janelas em que entre um bocadinho de sol,  ou, pelo mesmo, que escutemos a chuva batendo na vidraça. Que ao abri-las, pela manhã, a brisa fresca encha nossos pulmões. Em tempos de cilindros de oxigênio e de respiradores, nossos corpos e nossa alma querem e precisam respirar. É aí que entra a arte, seja no canto religioso que eleva a alma e nos dá esperança, seja na batida do funk que energiza o corpo. Porque a arte é paradoxal, assim como a vida.