Abriremos as janelas, algum dia?

Valéria Caimi – mestre em Letras, professora da rede estadual, poetisa, contista e cronista.

Queria trazer para você essa semana uma crônica leve, engraçada e doce, mas esse espaço também é para a reflexão e os tempos andam amargos. Por mais que tentamos manter o otimismo e a fé, isso não é possível o tempo todo. Há um ano o mundo cobriu seus rostos, fechou-se em casa e nos tornamos ilhas. Não nascemos para a solidão, ou o isolamento, somos seres sociais e já não suportamos mais essa situação. Porém, nos últimos dias nossas esperanças se renovaram ao ver os primeiros profissionais da saúde sendo vacinados em nosso país.
Teve um pouco de tudo: enfermeiro com fantasia de jacaré, protestos, fotos, transmissão ao vivo da primeira pessoa vacinada no Brasil, nos estados, nos municípios, etc. e tal. No entanto, também chegaram notícias que os casos de COVID-19 dispararam, a ponto de bebês precisarem ser transferidos para outro estado, por conta da falta de cilindros de oxigênio, em Manaus. O mundo já contabiliza mais de dois milhões de mortos, só no Brasil os números ultrapassam duzentas mil mortes. Não nos preparamos para a pandemia. De fato estamos preparados para alguma coisa?
Certamente não. A sensação de impotência que vivemos diante deste inimigo invisível destacou nosso despreparo. E porque não estamos? São tantas as respostas que vão desde as questões políticas, até as de ordem psicológicas. 
Os homens se preparam para desvendar o universo. O ser humano já chegou a lua, já enviou robôs a Marte, mas tem uma imensa dificuldade de chegar a si mesmo e aos outros. Nesses últimos tempos isso ficou incontestável. No inicio da pandemia, nosso preconceito de cada dia veio à tona. Os primeiros contaminados sofreram todo tipo de preconceito: vizinhos denunciando uma breve saída na varanda para tomar um solzinho, xingamentos nas redes sociais. Mesmo depois de curados, as pessoas não querendo se aproximar. Todo o preconceito é carregado de ignorância e toda a ignorância é permeada de despreparo.
Não estamos preparados para respeitar o nosso lugar na fila do banco, do supermercado, da vacina. A nossa corrupção subliminar, que apelidamos de “jeitinho brasileiro”, está tão enraizada, que a normalizamos: “todo mundo faz!”. Já dizia minha mãe: “Você não é todo mundo! Tome jeito!”
Não estamos economicamente preparados para o desemprego, para o aumento de preço dos alimentos, dos impostos, dos combustíveis. Somos um país rico, com muitos pobres que mal conseguem colocar o alimento na mesa. A pandemia só escancarou e acentuou a falta de comida, de água, de esgoto, de escola, de medicamentos e tantas outras faltas cotidianas.
Não estamos preparados para o uso da tecnologia como ferramenta de trabalho, ou de estudo. Somos iletrados digitalmente, ou analfabetos tecnológicos. O fato de sermos um dos povos que mais acessa as redes sociais no mundo, só revela o nosso lado de “fofoqueiros”. Passamos horas e horas em conversas fúteis, fazendo delas o nosso muro das lamentações, ou pior ainda, espalhando notícias nem sempre verdadeiras. Mas quando precisamos usar um email, um aplicativo, estudar, ou mesmo utilizar tais ferramentas para nosso crescimento pessoal, travamos.
Não estamos preparados para lidar com a morte que cresce diariamente diante dos nossos olhos. Não temos condições de abraçar a morte e olhá-la como parte do ciclo da vida. Não estamos preparados, porque não acreditamos suficientemente na nossa transitoriedade neste plano. Por mais fé que tenhamos, sempre sucumbimos diante dela.
Não estamos preparados para a espera. Durante esse ano, inúmeras vezes, perdemos a fé, entramos num ciclo de negativismo e de desespero. A espera faz de nós seres frágeis e a traz a tona o pior que há em nós. São raros os pacientes que esperam com confiança e fé inabalável.
Não estamos preparados para compreender que fazemos parte de um coletivo e que nossa irresponsabilidade pode causar o mal ao outro, levando-o, até mesmo, à morte! Assim não cumprimos as recomendações de não nos aglomerarmos, de não fazermos festas. Seguimos alienados como se nada estivesse acontecendo!
Nosso despreparo é total. Não conseguimos, muitas vezes, admitir porque nosso ego não permite essa iluminação. As nossas janelas estão fechadas e despreparadas para a autocrítica. O que fazemos então? Fechamo-as para que qualquer raio de sol não entre. Esquecemos que qualquer mudança desejada passa por nós primeiramente. Desta forma, seguimos, sabe Deus para onde!