As janelas que se abrem no morro

A mão tateou pela cama em busca do celular que acabara de despertar. Os raios do sol que entravam pelas

A mão tateou pela cama em busca do celular que acabara de despertar. Os raios do sol que entravam pelas frestas da cortina dificultavam-lhe a abertura dos olhos. O dia acabara de raiar.

Lúcia, com o corpo pesado e os olhos ainda pouco despertos, levantou-se. Pegou lentamente suas roupas que já havia deixado na beira da cama e vestiu-se, sem prestar muita atenção no que fazia. Seu corpo de adolescente demorava pelo menos duas horas para despertar por completo. Quem será que inventou que deveriam ir à escola pela manhã?  Deve ser coisa de adulto, que pensa que a vida começa quando os galos cantam! Na sua indignação matinal, calçou os chinelos e dirigiu-se a cozinha, onde sua mãe já preparava o café:

_ Bença, mãe!

_ Deus te abençoe, Lúcia! Animada para mais uma semana de aula?

_ Não muito! Nem parece aula!

_ Mas é o que temos! Não pode ser diferente!

_ Mas aula é na escola…

_ Logo, logo voltaremos ao normal!

_ Que normal, mãe, não existe mais normal!

_ Esquece isso e toma seu café! Senão vai se atrasar!

Abaixou a cabeça e começou a adoçar o café. Mergulhou o olhar no redemoinho que a colher fez na xícara.  Será que um dia a escola voltaria ao normal? Quando veria novamente seus colegas insuportáveis e seus amigos queridos? E o lanche da escola? O melhor! Nada era igual ao lanche das tias! Será que um dia deixaríamos de usar essas máscaras sufocantes? Quando que os jornais parariam de noticiar o aumento de mortes?  Nunca desejou tanto uma vacina! Justo ela que odiava agulhas! Pegou um pedaço de pão e passou uma fina camada de margarina, tomou um gole de café e deu uma mordida apetitosa no pedaço de pão.

_ Anda, Lúcia, não fique pensando na morte da bezerra!

_ Mãe, tô pensando na morte das pessoas, que são bem mais importantes que qualquer bezerra!

_ Filha, para com isso! Um dia tudo isso vai acabar! Agora vamos logo! Termina e vai escovar esses dentes!

_ Pra quê escovar os dentes, as aulas são on-line! Meus colegas nem vão sentir o meu bafo!

_ Olha o deboche! Deixa de ser teimosa! Vai numa vez!

Lúcia respirou fundo e foi para o banheiro. Depois de mostrar a escova para os dentes, dirigiu-se até o quarto, olhou para a cama que lhe atraía, lhe sugava,  lhe hipnotizava. Sua vontade de deitar, só mais um minutinhos, era incontrolável.  Rapidamente, antes que cedesse à tentação, pegou o celular e a mochila e encaminhou-se para a porta da casa. De lá gritou à mãe que estava na cozinha:

_Mãe, tô indo!

_ Pegou o guarda-chuva?

_ Pra quê? Não vai chover!

_ Lá no morro, daqui a pouco, o sol vai ficar a pino! Você não vai ficar nesse solão?!

Lúcia pegou o guarda-chuva, que ficava pendurado atrás da porta, e pôs-se a seguir pela estradinha ladeada de flores que ainda estavam orvalhadas. O cheiro da aurora impregnava nas narinas. Olhou para o morro longo em frente. Era preciso subir ali para conseguir o sinal da internet, que nem sempre funcionava.  Será que hoje seria possível participar das aulas?

Virou-se e viu o olhar da mãe acompanhando-a pela janela. Sentiu-se forte, encorajada. Acelerou o passo e logo chegou ao topo do morro. Entrou no link da aula, na expectativa de rever os colegas e a professora português que era a sua preferida!

_ Bom dia, Lúcia! Seja bem vinda! Senti saudades!

Pela tela fria e distante do celular viu sua sala de aula. Seu coração estava disparado. Não sabia se era pelo esforço que fez para subir a estradinha íngreme, ou se era de ouvir aquela voz doce e tão entusiasmada!

_ Bom dia, professora. Eu também estou com saudades!