Em busca do amor, pelas janelas virtuais

Valéria Caimi é mestre em letras, professora da rede estadual, poetisa e cronista

Era o dia 188 de isolamento, Maria já tinha faxinado todos os armários, limpado todas as janelas, adotado um cachorro, feito compras para os idosos do prédio, tentado emagrecer fazendo as aulas de ginástica virtual, assistido todas as lives sertanejas e até de missa a distância tinha participado. Estava cansada de ver as mesmas postagens, da #ficaemcasa. Resolveu aventurar-se num aplicativo de relacionamento. Vai que esse tempo de isolamento fosse a oportunidade que Deus havia destinado a ela para que encontrasse um grande amor.
Maria era só mais uma cinquentona solitária, em busca de uma companhia ideal.  Logo, logo conheceu João que já chegou chegando. João tinha jeito de conquistador barato, mas não custava tentar. Maria não estava fazendo nada mesmo. A princípio achou-o feio, mas gosto de sua lábia.
Conversa vai, conversa vem e João foi logo fazendo propostas:
_Assim que tudo isso passar vamos continuar essa conversa, tomando uma cerveja!
Maria ficou surpresa, porque João havia se revelado um grande conhecedor de vinhos. Fez até algumas sugestões de vinhos caros, que não cabiam no orçamento dela:
_Você não prefere vinho?
_ Mas você prefere cerveja! Bebo o que você beber!
E assim, seguiram-se os galanteios, dias de quarentena adentro, porém tudo virtualmente, pois Maria resistia em desrespeitar o isolamento.
Num dia de conversas, João veio com um papo que sabia ler mão. Que desenvolvera e aperfeiçoara esse dom, quando morava e vendia sua arte na praia. Maria desconfiou:
_Por acaso você faz leitura de mãos online?
_ Não, não é possível! Preciso ver as linhas, sentir a textura da pele. Só com contato físico, consigo desenvolver meu trabalho.
Maria que já era vivida e um pouco paranóica pensou: “Esse cara tá com Corona e quer me passar!” Sem titubear, recusou a investida de João.
No dia seguinte, João inventou que era astrônomo e que ensinaria a Maria o conhecimento dos astros. Mas para isso, precisavam se encontrar à noite. Maria ficou com uma pulga atrás da orelha e resolveu conversar sinceramente, com João:
_Olha, João, tô gostando dessas nossas conversas, mas você sabe que respeito o isolamento social e encontros só quando tudo isso passar!
_Boa noite, Maria, preciso ir!
Não deu sequer tempo de responder! Lá ficou Maria sem cerveja, sem saber do seu destino e sem o conhecimento das estrelas.
 João foi procurar outras Marias! E Maria voltou-se  para  a sua janela.