Janelas da esperança

Valéria Caimi é mestre em letras, professora da rede estadual, poetisa e cronista

Era  só mais uma viagem. Um longo e cansativo dia, igual a tantos outros que já havia vivido. A paisagem era consoladora: revestida de verdes, entre colinas e vales, emoldurada pela neblina que encobria a estrada sinuosa. 
Encostei a cabeça na almofada e, em meio às vozes que interrompiam meu pensamento, tentei me concentrar na oração matinal. Não precisava mais do meu livrinho velho e gasto, já havia decorado alguns salmos e orações que fazia todos os dias. Em alguns dias, recitava-os com tamanha fé que abalaria montanhas. Em outros, com tanta angústia, que um nó se instalava na garganta e não saia uma só palavra! O silêncio era a forma de falar com Deus.
Mas nesse dia a oração, ora era sufocada pelas vozes desanimadas,  que sempre  tinham uma tragédia a contar, ora pelo meu pensamento, que ao olhar a paisagem passando rápida  pela janela do ônibus, perdia o fio da meada e precisava retomá-la desde o começo.
Em meio à oração lembrei-me dos olhinhos sapecas do Vinícius. Meu filho, apesar de não ter tido uma mãe presente, como eu gostaria de ter sido, era uma criança dócil e espoleta, nos  seus incríveis dois aninhos. Sim já dois aninhos! Contrariando todas as expectativas médicas ele nasceu saudável! Não poder amamentá-lo dilacerou o meu coração! Ao lembrar-me de tudo isso, apertei contra o peito o livrinho e um rosário que carregava comigo e disse baixinho: “O Senhor é o meu pastor e nada me faltará!” Na verdade, essa visão de um Deus pastor estava um pouco longe daquilo que eu sentia como Deus. Nunca fora uma menina do campo e essa imagem de Deus que pastoreava as ovelhas não me atraia em nada! Preferia ver Deus no olhar das crianças, na mão dos enfermeiros e na sabedoria dos professores. Mas rezei como mandava a catequese, vai que Deus castiga! E de castigo já me sentia exausta!
A viagem durava em média duas horas e eu já havia percorrido aquela estrada centenas de vezes. Nos últimos dois anos e meio, assim fora minha rotina semanal. Aquele ônibus já era quase um lar desconfortável! Por suas janelas contemplava a  paisagem e fingia olhar por elas, quando as lágrimas escorriam e não queria que ninguém percebesse. Outras vezes, olhar pela janela, só aumentava o enjoo!
 Naquela manhã estava muito introspectiva e lembrei-me do início daquela jornada, quando precisei abandonar meus lindos cabelos pretos e sentia-me a mulher mais feia do mundo. Porém com o passar dos dias assumi minha nova identidade e isso só me fortaleceu! Hoje brinco com as cores e diversidades de lenços que ganhei dos familiares e amigos. Passava um filme na minha cabeça: a alegria da gravidez, o diagnóstico, o medo, a aceitação, o tratamento. Mas a voz do motorista entrecortou meu divagar:
_Chegamos! Passo pegar vocês às 16h30.
Juntei minhas coisas, peguei minha bolsa e desci com homens e mulheres que ali passariam mais um dia de suas vidas, olhando pelas janelas minúsculas daquele lugar, que eu ousaria chamar de janelas da esperanças.  Olhei no relógio e apressei o passo, dentro de alguns instantes começaria mais uma sessão de quimioterapia.

*Minha homenagens as mulheres que enfrentam, ou enfrentaram essa rotina difícil!
 

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