Na janela: em busca da minha criança

Já viu a previsão do tempo hoje? Será mais um daqueles dias chuvosos? E como chove ultimamente!  Muitos dias nublados,

Já viu a previsão do tempo hoje? Será mais um daqueles dias chuvosos? E como chove ultimamente!  Muitos dias nublados, de cinza no céu deixam os adultos para baixo e estressados.

As mães e donas de casas que o digam! As roupas nunca secam, as paredes parecem ter vertentes, as calçadas nunca ficam limpas e a grama cresce transformando o lindo pátio em uma pastagem! Já as crianças são os únicos exaltados em dias de aguaceiro. Elas sobem e pulam nos sofás, escalam as janelas, pendurando-se nas grades e ficam contando as gotas que caem dos beirais!  Às escondidas, molham as mãos e os pés, depois saem pela casa deixando suas pegadas como se nada tivesse acontecido.

A janela é a primeira abertura do mundo para uma criança. Talvez a primeira experiência de dor, quando esgoeladas olham a mãe que sai para sua rotina de trabalho. Mas também, é a primeira experiência de contemplação e ansiedade ao observarem as outras crianças a brincar na rua, em dias chuvosos, sem medo de qualquer resfriado.  Não existe no universo algo mais emocionante que uma criança.

Dias desses, peguei-me, à minha janela de gente crescida, espionando dois garotinhos magricelos e sem camisa que brincam na enxurrada espessa que escorria pela rua de pedras irregulares. Aparentavam ter em torno de cinco anos e divertiam-se com suas bicicletinhas. Ao vê-los com tanta espontaneidade, fiz uma viagem até a minha criança arteira e cheia de vida. Uma das coisas que mais gostava era brincar nas piscinas naturais que a chuva proporcionava no meio dos potreiros. Passa horas, com meus primos, naquela água gelada e verde das pastagens, até os pés e as mãos estarem enrrugadinhos!

Fui trazida novamente ao presente pela gargalhada de um dos meninos. Como pareciam felizes! Nada os inquietava. Procurei identificar ao redor onde estariam suas mães, ou se eram fugitivos mirins que se aventuravam nas valetas da cidade.

A chuva começou a cair mais forte e a alegria dos garotos aumentava proporcionalmente a ela. Pedalavam cada vez mais velozes como se estivessem numa competição. No entanto, percorriam apenas alguns metros. O que isso importava? Pois a satisfação estampada em seus rostos era de um velocista cruzando a linha de chegada. Perguntei-me em que momento a nossa criança interior desapareceu. Em que gaveta ela está guardada? Em que corredeira ela se foi? Em que labirinto se perdeu? Ou será que está em algum canto da casa, atrás de alguma cortina, dentro de algum armário escondida ou cochilando?

Uma voz adulta acordou-me desse devaneio em que estava paralisada na janela, a buscar pela minha criança. A voz vinha de uma construção próxima: “Vamos, pra casa!”.

Os garotos construíam sonhos, enquanto o pai erguia paredes. A chateação tomou conta do semblante dos garotos. A aventura provavelmente chegara ao fim. Embarcaram cabisbaixos no velho e desbotado carro, enquanto o pai guardava as bicicletinhas, juntamente com suas ferramentas de trabalho. Sonhos e suor misturavam-se naquele porta-malas.