Na janela, esperando a arte da estreia

Valéria Caimi – mestre em Letras, professora da rede estadual, poetisa, contista e cronista.

Numa pesquisa rápida ao dicionário buscando o verbo estrear encontramos os seguintes significados: de fazer pela primeira vez, inaugurar, fazer funcionar. Há quanto tempo estamos sem colocar esses verbos em prática? Há quanto tempo não fazemos algo pela primeira vez? Não inauguramos um novo espaço? Mesmo que seja aquele antigo ambiente em nossa casa que ousamos remodelar. Será que em alguma ocasião colocamos a vida para funcionar?
Ficamos na expectativa de uma data especial para estrear e não percebemos que todos os dias, assim como o sol, que surgem magnífico, deveríamos também nós abrilhantar o universo, ainda que seja um universo particularmente íntimo. A todo o momento, podemos inaugurar um novo pensamento, um novo modo de olhar, de ouvir e de sentir. E se não estreamos? É porque ainda não percebemos que a vida é um espetáculo, que abre as cortinas diariamente!
      A vida é para ser estreada e celebrada. Nesta estreia precisamos tomar cuidado para não sermos só mais um na platéia, assistindo boquiabertos o espetáculo dado por outros atores. Lance-se, suba no palco e tente um pequeno ato, ou um breve monólogo.  Nem precisa ser o ator principal; podemos sim ser coadjuvantes, até merecermos o papel de estrelas do espetáculo chamado vida. O importante é que subamos no palco, que nos desafiemos a deixar os holofotes focarem em nós, sem que tenhamos medo da luz! A brevidade da existência humana deveria levar-nos a viver cada instante como se fosse uma estreia hollywoodiana com luzes, câmeras, efeitos especiais e tudo o que merece uma grande produção.
 No entanto, com medo do novo, da luz e até das vais da platéia, desconsideramos que a vida é aqui e agora e ficamos esperando uma data especial para darmos aquele presente, ou falarmos aquelas palavras que guardamos no peito, ou que estão entaladas na garganta.  
Não usamos aquele salto alto que compramos, porque queremos estreá-lo em um evento especial, ou guardamos roupas, toalhas, lençóis, talheres, taças, vinhos, champanhes e tantas coisas para datas importantes, sem darmo-nos conta de que a vida é importante na sua totalidade! Ficamos sempre na janela a espera… do novo ano, do novo trabalho, do novo amor, da nova vida e, na maioria das vezes, nunca chegam, porque a nossa paralisia e a nossa distração não os permitem vir até nós! 
Outras vezes, achamos que nunca é a hora. Ficamos esperando a idade certa para fazer aquele ensaio fotográfico. Ficamos esperando a aposentadoria para realizar planos e metas. As férias para fazer a viagem dos sonhos, sem curtir o roteiro, apenas pensando na chegada. Os filhos crescerem para fazer para um jantar romântico com o amor da nossa vida.  A maré baixar para entrar no mar, por medo de que as ondas derrubem-nos! Esperamos o corpo ideal para usar aquela roupa que desejamos, sem, ao menos, oportunizarmo-nos experimentar outras cores, modelos e tamanhos.  Não postamos aquela foto, porque ficamos esperando tirar uma melhor.  
Assim, adiamos nossa estreia e com ela a possibilidade do novo, da luz, da existência em plenitude! Abrir as janelas, escancarar as portas é a única e a melhor maneira de atrairmos a luz! Em janelas encortinadas e portas cerradas com ferrolho, só há escuridão. E só haverá estreia, inauguração e vida funcionando se estivermos no centro do palco da existência, permitindo que o holofote principal esteja iluminando-nos, porque a única data que temos reservada no nosso calendário, para o grande espetáculo, é o hoje!
 

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