O amor caiu na rede

Nesta semana faremos uma pausa para a celebração do amor. Acho que nunca estivemos tão precisados celebrá-lo. O dia dos

Nesta semana faremos uma pausa para a celebração do amor. Acho que nunca estivemos tão precisados celebrá-lo. O dia dos namorados, que só será comemorado no próximo sábado, já começou a movimentar o cotidiano e o imaginário dos casais apaixonados.

No Brasil, essa data surgiu a partir da ideia de um empresário, pai de um notável político da atualidade, com a intenção de alavancar o comércio do mês de junho. O dia 12 foi escolhido por estar próximo do dia de Santo Antônio, famoso por ser casamenteiro. Nos demais países, o dia dos namorados é comemorado em 14 de fevereiro, dia em que São Valentin, bispo romano, perdeu a cabeça em nome do amor! Segundo as más línguas ele também apaixonou-se, quando já estava preso. Depois, perdeu a cabeça literalmente: foi decapitado, por casar jovens às escondidas. Tudo em nome do amor!

No governo romano do imperador Cláudio II, no Século III, casar era algo desafiador (ainda continua), mas a diferença é que naquele tempo os jovens desejavam ardentemente dizer sim! Talvez porque fosse proibido, pois, bem sabemos o quê a proibição faz com a mente humana! Já dizia o ditado popular: “Tudo o que é proibido é melhor!”. Naquele período estava proibida a realização de casamentos, pois acreditava-se que se os jovens não se casassem alistariam-se e serviriam o exército. Tudo em nome da guerra! Valentin, já na prisão, recebia cartas e flores dos pombinhos agradecidos, que ainda acreditavam no amor! No calabouço, Valentin também foi flechado pelo Cupido ao conhecer uma jovem cega que após vê-lo, milagrosamente, recuperou a visão. No dia em que foi decapitado, escreveu-lhe uma carta de despedida e assinou “de seu Valentin!” Se não fosse tão trágico, seria romântico!

Estamos mais livres, quiçá, para amar, porém numa estivemos tão presos em relacionamentos superficiais, fugaz, frágeis, impacientes e até doentios. Apesar disso, o amor sobrevive! Sim, ele já suportou a dor das guerras, a brutalidade das invasões territoriais, o desespero das catástrofes naturais, porque, no final, só o amor prevalece. No entanto, podemos ver o quanto as relações amorosas mudaram no decorrer dos tempos.

A comercialização do amor, exposto nas vitrines repletas de corações vermelhos, em cidades onde não se pode passear por aí! Mesmo assim, o amor simbolizado nas possibilidades de presentes tende a perdurar. Em tempos midiáticos, o amor também caiu na rede!

A nova forma de comercializar produtos também aposta no amor. Nestes últimos dias, corriqueiramente, vemos promoções: “Envie uma foto sua e do seu amor”. Eis, que vemos fotos dos mais diversos casais: temos os apaixonados tímidos que levemente tocando-se para pousar para as câmeras; há aqueles sorridentes casais de longa data que, ao olhá-los, temos a plena certeza que nasceram um para o outro; existem outros mais ousados em fotos provocantes e insinuantes. Entretanto, quando trata-se de ganhar alguma coisa, vale tudo. Até amigos, posam como casais! Afinal é um sorteio e em sorteio de rede social o importante é ganhar, mesmo que para isso seja necessário mandar aquela foto com o ex!

Outras formas de divulgar seus produtos é marcando pessoas nos comentários. Frases do tipo: “marque seu amor, nos comentários, quantas vezes quiser” são as mais usadas. Fico pensando se é possível marcar mais que um, nesses tempos de poliamor? Ou marcar aquele crush secreto? Quem sabe, ainda, aquele velho amor da adolescência? Ou o amor platônico, que todo mundo já teve, ou tem? Se você não teve, provavelmente é o amor platônico de alguém!

Ao ver uma publicação assim, despertou-me a comoção por aqueles que se amam, mas que não podem gritar ao mundo “em cima dos telhados”! Ah, os amores proibidos! Nem todos que amam são livres para amar. A humanidade conseguiu até padronizar o amor, a ponto de dizer que tipo de pessoas tem direito de amar. Como se isso fosse possível! O amor não é a forma mais pura de sentimento? O amor não é propriedade de ninguém, ele simplesmente é!

Nestes dias, muda-se a foto de perfil, publica-se longas e empolgantes declarações, posta-se a joia, o chocolate da marca cara, o carro, as flores, ou seja, tudo aquilo que materializa o amor, na ânsia de mostrar ao mundo o quanto amamos. Contudo, os grandes encontros de almas, não são captados pelos megapixels dos melhores celulares, nem curtidos ao milhares nas redes sociais, muito menos recebem inúmeros comentários (muitos deles falsos). Encontro de alma dá-se no silêncio do coração que palpita, na foto esquecida de ser tirada, porque eternizou-se na memória; na verdade do olhar, porque há insuficiência nas palavras! Na tentativa de materializar o amor, esquecemos de vivê-lo!