O amor espera na janela

Valéria Caimi é mestre em letras, professora da rede estadual, poetisa e cronista

Esses dias uma cena, que passaria despercebida em outros tempos, despertou-me.  Numa das minhas saídas para as caminhadas, a fim de não me sentir um móvel da casa, passei por um barraquinho de lona e restos de madeira, com uma janela improvisada, que a verdade era apenas um quadrado, por onde entrava luz. Por ela, vi dois olhinhos curiosos a espreitar a rua. Quando olhei mais atentamente, eram seis. Não sei ao certo, mas pela minha experiência materna, deveriam ter entre oito e cinco anos. Percebi que olhavam, euforicamente, em direção ao caminho que eu seguiria.  A curiosidade fez-me olhar com atenção. Então, percebi que uma figura muito tísica puxava um carrinho cheio de papelão e outros objetos não identificáveis. Parecia, como diz o velho ditado, uma formiguinha puxando um elefante! 
Olhei novamente para as crianças que logo abriram um sorriso. Ah, ver sorrisos em tempos de máscaras refrigera a alma! E sorrisos infantis, livres, puros, nos enchem de esperança! Retribui com um sorriso também, apesar delas não ter visto!
Diminui o passo, a fim de observar a cena melhor, pois achei-a tão poética! Aquelas carinhas tão iluminadas contrastavam com a palidez do barraco. Rapidamente, as crianças deixaram a janela e correram para a porta, se assim pudermos chamar. Quem estaria dentro do barraco com aquelas crianças? Parecia não haver ninguém. Ao olhar fixamente para frente, observei que o carrinho de coleta se movia, em minha direção. O trajeto era íngreme, isso só tornava a cena, ainda, mais comovente. Tive pena, a ponto de interessar-se por aquele ser humano, senti até mesmo vontade de empurrar aquele carrinho! 
De repente, aviste algo que parecia um braço que empurrava o carrinho. Mais próximo percebi que era uma mulher. Nesse tempo, já havia esquecido as crianças e a minha preocupação de quem estava com elas. 
Direcionei meu olhar no trajeto que fazia e arrumei o fone de ouvido, no entanto, um turbilhão de cabecinhas e vozes passaram por mim, numa velocidade alucinante como se fosse os 100 metros finais da prova de São Silvestre.
Eram as três crianças que corriam ao encontro daqueles seres cansados, que mais pareciam almas perdidas no limbo do que seres terrenos. O cansaço de ambos e o tamanho do carrinho que puxavam  fez-me pensar nas condições dos trabalhadores e nas injustiças sociais.  A vontade conhecer suas histórias, aumentou em mim. Por que puxavam um carrinho de reciclável? Por que não haviam estudado? Por que não lutavam para mudar de vida? Quer luta maior do que todos os dias acordar antes do sol nascer e andar a cidade toda, catando o lixo de outras famílias, para sustentar a sua? Fique com raiva de mim pelos pensamentos que tive!
Fui acordada dos meus devaneios pela euforia das crianças que abraçavam aqueles dois seres sujos, maltrapilhos, aos gritos de “mãe”, “pai!”.  A fobia do corona revirou minhas entranhas! Na minha casa ninguém entrava sem lavar as mãos, ou limpar-se com álcool. Mas, no mesmo instante, a  contemplação da cena destruiu qualquer razão. As janelas do amor mais puro se abriram à minha frente. Nos olhos e nos sorrisos daqueles três seres de luz, não havia medo, não havia interesses, não havia nada, além de um amor esperado na janela! 
Logo aquelas mãozinhas colocaram-se a empurrar o carrinho. Eu sentia uma vontade enorme de abraçá-los, de acolhê-los, pareciam precisar de amor. No entanto, logo percebi que eles eram o Amor personificado. E eu, quem era? 
Segui, quase que correndo daquele pensamento, porém, ainda,  olhei para trás e pude vê-los, animados, descarregando o carrinho em frente ao barraco. Aquele dia havia rendido! Como havia! Mal sabiam aqueles pequenos, quantas janelas de esperança e verdade, abriram no meu íntimo. Aquela cena transfigurou-me, fui arrebatada pelo verdadeiro amor. 

*Homenagem a todas as crianças, pelo seu dia!