O doce sabor do desejo

Tem dias que saímos de casa, com o nosso olhar de julgamento pronto para fuzilar o primeiro que passar pela

Tem dias que saímos de casa, com o nosso olhar de julgamento pronto para fuzilar o primeiro que passar pela nossa vista. Num desses dias de juíza da humanidade, precisei ir ao supermercado.

Sabia que seria o dia de maior movimento naquela rede de supermercado e que, naquele horário, o único horário que tinha para fazer as compras da semana, triplicava o movimento. Nunca vá ao supermercado depois das dezoito horas, pois todas, exatamente, todas as pessoas da cidade também estarão lá!

Andando pelos corredores, desviando de carrinhos e idosos lentos, eu tentava fazer rápido minhas compras, mesmo sabendo que isso seria impossível. Fui interrompida na minha maratona, por uma disputa no meio do corredor: uma garotinha de uns quatro anos catando tudo o que via na sessão de doces e jogando no carrinho, enquanto repetia a frase: “Lá em casa, precisa desse!” Ri silenciosamente debaixo da máscara! Ela era um encanto!  Parecia saber bem a diferença entre dizer: “eu quero e eu preciso.” Enquanto isso, a mãe retirava item por item do carrinho e dizia: “Não precisamos!” Mas a bichinha era tinhosa, rapidamente pegava mais e mais coisas e repetia afirmativamente: “Precisa!”

Fiquei parada olhando para ela e pensando em quanto tempo fazia que não presenciava uma cena como essa. Ou aquelas melhores ainda, totalmente completas com birras de rolar-se pelo chão do supermercado! A pandemia havia retirado de cena esses personagens tão incríveis da dramaturgia da vida como ela é. Capazes de encenar o drama e comédia ao mesmo tempo. Drama para os pais, comédias para os expectadores! Eu me encaixo mais na função de jurada, apesar de já ter vivenciado tanto o drama, quanto a comédia!

Na minha função de jurada fiquei paralisada, dando pontos para a garotinha! Estava nítido, ela vencia a disputa disparadamente! Era muito rápida e parecia desconsiderar o fato de que sua mãe, provavelmente havia feito uma lista de compras anteriormente. Lista pra quê? Para ela, nada mais importava além da necessidade que via naqueles produtos, repetindo a cada arremesso no carrinho: “Lá em casa, precisa desse!”

Sua mãe, quando percebeu que a minha passagem estava sendo interrompida por elas, ficou totalmente sem graça, ainda mais porque nem consegui disfarçar que apreciava a cena.

_ Filha, vamos? Dá licença pra tia, ela precisa passar!

A garotinha num olhar ligeiro, tirou o foco da prateleira dos seus produtos de necessidade e olhou para mim, segurando um pacote de pirulitos em mãos:

_Oi tia, lá em casa precisa desse!

Sorri como os olhos para ambas, observando o constrangimento da mãe me voltei para a garotinha e perguntei:

_Precisa mesmo?

_Precisa…

_Você gosta disso?

_Gosto!

Enquanto conversávamos, a mãe sorrateiramente, aproveitou-se da distração da filha e devolveu vários pacotes de pirulitos, balas e chicletes às prateleiras, de onde ela acreditava que eles nunca deveriam ter saído. Senti internamente um pouco desconforto de ter favorecido a mãe a ganhar aquele round da luta. Ela havia sido desonesta! Esperou uma distração da garota para enganá-la. Aquilo não era justo!

 Decepcionada, pedi licença, acenei e segui a minha maratona desviando de outros carrinhos. A uns dez passos a frente, ouvi aquela vozinha infantil, aos prantos e gritos, protestando pelas retiradas dos doces do carrinho:

_Lá em casa precisa! Lá em casa precisa! Eu quero! Eu quero!

Enfim, ela havia se rendido: não era uma necessidade, era um desejo!  Segui satisfeita. Internamente torcia pela garotinha!