O tempo é apenas a janela da ilusão

Estamos finalizando março, já nos despedimos do verão e logo as folhas começarão a cair, o amanhecer e o final

Estamos finalizando março, já nos despedimos do verão e logo as folhas começarão a cair, o amanhecer e o final da tarde trarão uma brisa fria que entrará por nossas janelas prenunciando o inverno. Para os católicos o tempo de jejum e penitência também está findando e, em breve, o Cristo Ressuscitado renovará a esperança na vida que sempre supera a morte.

Por estarmos há mais de um ano com a rotina alterada não percebemos o fechamento desses ciclos, pois voltamos os olhos e o coração para o fim do ciclo da pandemia. No entanto, as águas de março deram espaço às lágrimas de março.  Não suportamos mais a cada dia mais medos, mais dores, mais perdas. O número de mortes só aumenta e o pesadelo parece interminável, assim, parece estarmos à beira do colapso de nervos, de saúde pública, do ser humano.

As redes sociais de nossos amigos, familiares e nossas estão sempre enlutadas. Contamos os mortos todos os dias. Aos milhares. Famosos, anônimos, amigos, inimigos, doentes e sãos! Todos em despedidas silenciosas e caixões lacrados. A dor da morte que bate à nossa porta, nos recolhe ainda mais ao nosso individualismo e egoísmo. Temos medo do abraço, do aperto de mão e numa luta quase insana buscamos desesperadamente proteger a nós e aos nossos amores. Estamos errados? Certamente não!

Nessa luta pela sobrevivência, ouvimos e fazemos discursos que estão muito mais para a morte do que para vida. “Por que vacinar velho?” “Preso não precisa de vacina!” “Professor, tá em casa, sem fazer nada, e reclamando que quer vacina!” É o nosso egoísmo berrando e o nosso individualismo sobrepondo-se ao coletivo! A pergunta do momento não deveria ser quando serei vacinado, mas sim, quanto tempo tenho? Sim, quanto tempo você acha que tem?

Caro leitor, não me leve a mal e nem me ache uma pessimista de carteirinha. Pensar no dia em que seremos vacinados é só mais um ato egoísta e ansioso. Quando me pergunto quanto tempo tenho, eu mudo a perspectiva do tempo e das minhas necessidades reais.

Andamos com tanta pressa e nossa ansiedade impede-nos de estar no presente, presentes no aqui e no agora! Desta forma, não prestamos atenção nem em nós, muito menos nos outros. Não olhamos nos olhos quando chegamos aos lugares e cumprimentamos com a voz abafada pela máscara! Sim, restam os olhos, que estão descobertos à espera de um sorriso, que mostre as ruguinhas! Ao sair, sempre atrasados, para o trabalho, pegamos as chaves e corremos alucinadamente sem darmos, aos nossos amores, o melhor sorriso nas despedidas diárias. Quanto tempo temos?

Só quem deu um abraço apertado, sabendo que seria o último teve a impressão de dominar o tempo e reconhecer que não precisamos de mais nada, além disso! Só quem encostou a cabeça no peito e recebeu um beijo na testa, conhece o sentido do amor incondicional e atemporal. Só quem olhou alguém indo embora, sabe o significado da despedida. Só quem não pode estar ao lado do seu amor, num momento em que essa pessoa mais precisou, sabe a preciosidade que é  cada segundo. Só quem ouviu a voz de quem ama pela última vez reconhece o poder das palavras. Só quem não pode se despedir, tocou o vazio da ausência! Só quem se viu diante da morte, se questionou: Quanto tempo tenho?

         A canção diz “temos todo o tempo do mundo”. De que tempo estamos falando? Do nosso tempo dos relógios, ou do tempo interior de cada um de nós. Repetir que o tempo é a única coisa que temos é chover no molhado.  Mas parece que, mesmo diante de todas as dores que temos vivido, não despertamos para essa realidade. Aonde vamos com tanta pressa? E se vou, é realmente necessário ir?

O poeta Carlos Drummond em seu genial poema José já questionava: “E agora, José?” Somos tantos Josés e Marias sem essa resposta, encurralados por enormes relógios que em seu tic-tac nos roubam o aqui e o agora! Desta forma, seguimos nossa marcha, sem saber para onde!

Quanto tempo temos? Nenhum! O tempo é apenas a janela da ilusão, que todos os dias se abre para que acreditemos que ainda é possível!