Pelas janelas da vida e da morte

Quando tocou a mão na maçaneta da porta para sair à rua, um vento impetuoso, fechou-a e fez o trinco

Quando tocou a mão na maçaneta da porta para sair à rua, um vento impetuoso, fechou-a e fez o trinco cair e desmontar no lado de fora. Ficaria presa ali até quando? Só o que faltava! Aquela tarde de outono, com cara de primavera, pois o tempo parecia ter virado repentinamente e viria uma daquelas tempestade de dias abafadas.

Puxou o trinco e acabou ficando com uma das partes na mão. Agora não conseguiria mais abrir a porta. Tentou ainda pôr a chave na fechadura e girá-la, mas nada! Não haveria outra solução senão esperar uma boa alma aparecer e tirá-la dali.
Olhou pelo vidro da porta e viu que uma nuvem de terra parecia cobrir a rua, ficava difícil ver nitidamente qualquer coisa. “Ufa, foi melhor ter ficado presa aqui, senão iria sujar o cabelo, que não pretendo lavar hoje!”. Envolta em seus desejos e preocupações, no auge dos seus dezessete anos, nem ao menos percebeu que lá fora o vento carregava bem mais que poeira.
Desistiu, definitivamente, da sua vontade de sair à rua, quando percebeu que algumas sujeirinhas do foro velho e de madeira começaram a cair no seu cabelo limpo e hidratado. “Mas que droga!” Lembrou-se da roupa que havia deixado no varal, parecia que seria bem mais que um vento, viria uma chuva torrencial, oxalá se não viesse granizo também. Teria que lavar as roupas novamente, no sábado! “Isso é bem pior que lavar os cabelos!”

Um barulho estrondoso tirou-lhe da sua egolatria. Notou que a sujeira que caia do foro havia aumentado consideravelmente, assim como, o barulho de coisas sendo levadas pelo vento. Naquele momento, o telhado foi arrancado e algumas tábuas do forro começaram a soltar-se. Correu desligar o computador e guardou-o dentro de um dos armários, para que a chuva não o estrague e não perdesse seus arquivos. Nesse instante, já não ouvia mais a sua voz que rezava ardentemente o Salmo 22. O barulho era ensurdecedor. Vozes misturavam-se ao barulho de vidros estilhaçados.
Na tentativa de proteger-se, correu ao banheiro, pois parecia que o teto seria arrancado a qualquer hora, num novo golpe de vento e as paredes pareciam desabar em breve. Sentou em cima do vaso e encostou-se na parede que tremia como uma folha verde.

Tapou os ouvidos com as mãos, num esforço de não ouvir mais nada e aumentou o som de sua voz, na tentativa de que Deus também lhe ouvisse. Sua oração já não era inteligível, uma mistura de salmos, orações tradicionais que aprendera na catequese e palavras espontâneas, a fim de que Deus a atendesse na sua angústia, era apenas uma infeliz e queria ser ouvida, como afirmava o salmo de que lembrara! Tirou a mão esquerda do ouvido para conferir a hora, pois parece que escurecera mais ainda. “Só quatro e quinze da tarde! Será o fim do mundo?” Achou melhor arrepender-se dos seus últimos delitos: pediu perdão por desejar que a professora de química ficasse com dor de barriga, para que não tivesse prova naquela noite!
Pela primeira vez, sentiu medo de morrer. Era tão moça! Tinha tantos sonhos! Queria escrever tantos poemas ainda e ter um trabalho legal para possuir dinheiro para comprar os livros que desejava! Ela sabia que seus sonhos eram bobos, mas mesmo assim falou com Deus! Apesar de achar que Ele tinha coisa mais importante para fazer! Tinha medo de ir embora, sem sequer ter chegado realmente!

Envolta em sua oração, nem percebeu que tudo parecia voltar ao normal. Lentamente, tirou as mãos dos ouvidos e começou a limpar as lágrimas que escorriam e marcavam sua face suja pela poeira. O silêncio era sepulcral.
Saiu do banheiro e olhou para a porta de entrada, ainda estava trancada. caminhou em direção a janela que ficava nos fundos da sala. Abriu-a e pela primeira vez, deparou-se com sua insignificância perante a vida e a morte! Tudo naquele lugar já não havia mais!