Pelas janelas das almas gêmeas

A cada passo seu, ao subir a rua, eu a observava pela janela da sala, enquanto  meu coração disparava mais

A cada passo seu, ao subir a rua, eu a observava pela janela da sala, enquanto  meu coração disparava mais e mais. Ela veio mesmo! Disse que viria, mas não acreditei, pois já havia feito essa promessa uma dezena de vezes!

Fiquei contemplando o seu caminhar e o vento, que batia em seus cabelos dourados pelo sol do entardecer, deixam a cena mais atrativa ainda! Ela veio! Há algum tempo não vivenciava aquela empolgação, fazia semanas que trocávamos mensagens pelas redes sociais, das mais inocentes às mais provocantes! Perdíamos a noção do tempo e ficávamos mergulhados no nosso mundo por horas e horas. Falávamos do céu, das estrelas, de política, religião, filosofia, música, meditação, bem à moda Eduardo e Mônica!

Quando a campainha tocou achei que não suportaria. Infartaria ali mesmo! Ela veio!  Abri a porta, quase sem conseguir pronunciar as palavras, que saíram confusas e desconexas:

_ Você veio, aqui, mesmo?

_ Ué, não era para vir?_ respondeu-me com aquele ar de menina sapeca, que tornava tudo ainda mais interessante e desconcerta qualquer frase feita que eu já elabora mentamente, numa tentativa inútil de defesa.

_ Claro que era? Só estou surpreso! 

_ Surpreso? Não parece! Parece assustado! Não precisa correr, eu não mordo! Mas seria de bom grado me convidar para entrar, esse sol está quente ainda, apesar do horário!

De tão atônito que estava na sua presença, havia esquecido de mandá-la entrar. Sua pele branca, seus olhos castanhos e seus longos cílios compunham uma tela aos meus olhos de profunda perplexidade. Era a minha paixão de adolescente, bem na minha frente!

_ Desculpa! Entre!_ Falei, dando um passo para trás e abrindo totalmente a porta.

Ela entrou e, sem cerimônia alguma, sentou-se no sofá, que ficava de frente para a porta!

Fechei a porta e sentei-me, ainda muito desconcertado, no outro canto do sofá! Parecia um bichinho acuado pelo predador! Ela percebia isso e parecia se divertir!

_ Está com medo de mim? Só não sai correndo, porque não sei a senha para abrir o portão e sair da sua casa! Terei que ficar aqui até você voltar!

Rimos os dois! Ela sabia tudo o que provocava em mim! Ela sempre soube, mas  fingia-se de desentendida. Tinha sempre uma piada, uma carta na manga, uma gentileza subliminar. Ao mesmo tempo que parecia revelar tudo em suas palavras, também deixavam sempre um ar de mistério em seus gestos. Era isso que me enfeitiçava e agora ela estava ali na minha frente. Ela veio!

_ Quantos anos, mesmo?

_ Trinta…

_ Tudo isso? Será?

_ Contei-os, dia a dia! São trinta anos, dez meses e vinte dois dias!

_ Contou mesmo?

_ Contei…_ Não conseguia dizer mais nada, mesmo que quisesse! Aquele olhar adolescente, naquele rosto e naquele corpo de mulher madura, só lhe deixavam mais atraente! O garoto que havia dentro de mim estava eufórico, porém o homem de cabelos grisalhos, que se apresentava naquela sala, estava hipnotizado, vivenciando um sonho e torcendo para o despertador não tocar!

Ali ficamos inebriados, um na presença do outro, em que as palavras já não eram necessárias e a longa ausência dissipou-se quando nos tocamos. Nossas almas nunca estiveram separadas!