Pelas janelas do silêncio

A alguns metros da porta já era possível verificar as dezenas de cadeiras, organizadas em um semicírculo. A maioria delas

A alguns metros da porta já era possível verificar as dezenas de cadeiras, organizadas em um semicírculo. A maioria delas encontrava-se vazias.  O cheiro de vela era impregnante.  Muitas flores, que traziam laços com nomes desconhecidos e outros bem populares, embelezavam aquele ambiente.

No centro da sala estava José, seu Zé como lhe chamavam carinhosamente. Era um homem muito popular e querido por todos.  Sempre ajudava a vizinhança, amparava aos familiares, cuidava dos animais de rua. Era o tal sujeito gente boa.  Mas naquela imensa sala, estavam somente cinco pessoas. Nenhum familiar.

As fitas de isolamento ao redor do caixão deixavam aquele momento mais distante e doloroso. As dores das despedidas ficaram mais doloridas nesses tempos. Não era possível aproximar-se para fazer as últimas rezas, nem tocar na mão do defunto. Vários metros distanciavam seu Zé.  Justamente ele, um homem que adorava longas conversas na esquina de casa, que escutava a reclamação da vizinhança pela falta de água, pela baderna que os cães faziam nas lixeiras da rua. Sempre ouvia atentamente a todos. Depois, antes de despedir-se, dava um tapinha no ombro e dizia: “Nada que o tempo não dê um jeito!” Nem sempre o tempo dava um jeito, mas ele era um homem convicto que o tempo curava tudo.

Agora, ali estava ele esperando que o tempo se cumprisse por completo. Ainda faltavam algumas horas, para que sua despedida, silenciosa desta vez, fosse concluída. Os rostos cobertos, pelas máscaras, traziam para aquela sala, mais tristeza ainda. Mas uma voz rompeu a mudez sepulcral.

__ Quem é que morreu?

Todos os olhares voltaram-se para a porta e viram entrar um ser maltrapilho e cambaleante, com dois cachorros atrás.

Como ninguém respondeu à pergunta que repetiu inúmeras vezes, aproximou-se da fita amarela e traçou sobre si o sinal da cruz. Tirou o boné sujo e rasgado e colocou-o ao peito, num gesto de respeito e devoção.  Os animaizinhos pararam ao seu lado e pareciam estar no mesmo clima de oração de seu dono. O homem embriagado elevou uma prece em voz alta, pouco compreensiva aos ouvidos humanos devido ao seu estado, mas a devoção era tão verdadeira que, provavelmente, foi ouvida pelos céus.

Poucos minutos depois colocou seu boné e refez o sinal da cruz, olhou para uma senhora sentada numa das cadeiras mais próximas, que estava com um rosário nas mãos e parecia compenetrada na oração. Aproximou-se dela e repetiu a pergunta:

__ Quem é que morreu?

A mulher continuou de olhos fechados repetindo suas rezas. Mas ele era persistente (alguns vão dizer que é impertinência) como todo bêbado! Foi até aos dois homens que estavam bem entretidos em suas conversas:

__ Quem é que morreu?

Não lhe deram ouvidos e continuaram compenetrados na prosa animada. Não contente, dirigiu-se até duas senhoras que pareciam empolgadas em seus diálogos e fez sua última tentativa:

__ Quem é que morreu?

Como não obteve a resposta que esperava, o homem foi-se dirigindo pelo mesmo caminho que veio e sumiu pela rua, juntamente com seus amigos fieis.

E o silêncio do adeus encheu novamente a sala.