Por quem choramos?

Na semana passada já havia pensado em trazer essa temática para esta coluna semanal, mas, na verdade, fiquei receosa. Então

Na semana passada já havia pensado em trazer essa temática para esta coluna semanal, mas, na verdade, fiquei receosa. Então apresentei-a de forma suave pela visão de uma criança, assim, a crônica saiu-se poética, sensível e emocionante. No entanto, os últimos acontecimentos fizeram-me pensar novamente nesse assunto. Juro que adiei essas linhas o mais que pude, todavia existe um momento em que escrevemos o que está em ebulição dentro de nós, ou as palavras sufocam-nos.

 Na semana passada, o país voltou a chorar por mais uma tragédia ocorrida com uma artista renomada. O que leva as pessoas a ficarem tão comovidas e chorarem por alguém que nunca viram pessoalmente? As redes sociais encheram-se de mensagens, homenagens, luto e lágrimas pela cantora Marília Mendonça. Lembrei-me de um fato que vivi na minha adolescência: a perda do grande ídolo Ayrton Senna.

Nunca esquecerei do Grande Prêmio de San Marino,  da famosa curva  Tamburello e do momento exato em que ouvi o narrador dizer que Ayrton havia batido o carro. Lembro da expectativa, das orações, do clamor, porém a notícia que os brasileiros não gostariam de ouvir foi dada. Lembro-me que chorei muito pelo meu  ídolo, pelo meu país, chorei por tudo o que o Ayrton representava para o esporte, chorei também por mim, pois parecia que havia perdido alguém da minha família. E era, pois já fazia parte do nosso almoço de domingo.

O funeral do Ayrton Senna do Brasil parou o país, numa tristeza inigualável.  Naquela manhã dolorosa, estávamos na escola, entretanto nosso coração e a nossa mente não estavam ali. Abandonamos a sala de aula para assistir ao funeral, espiando pelas pequenas janelinhas da biblioteca, por onde vi aquele caixão sendo levado pelo caminhão do Corpo de bombeiro pelas ruas do nosso país. Lá  estavam inúmeros brasileiros chorando abraçados com a bandeira do Brasil e nós, adolescentes incompreendidos, com o olhar choroso focados na pequena TV, que olhavámos de longe pelas minúsculas janelas.

            Nesta semana, quando eu vi as redes sociais invadidas de depoimentos falando da cantora Marília Mendonça, relembrei de como somos carentes de heróis, carente de Ídolos, carentes de quem faça nosso coração vibrar. Quando um deles se vai  abruptamente e de forma tão trágica ficamos desolados! Até mesmo aqueles que não acompanhavam sua carreira foram tocados pela onda de comoção que se estendeu do Oiapoque ao Chuí. Várias frases de despedida foram postadas, outras ainda que nos fizeram refletir sobre a importância de viver o momento presente, de valorizar a vida e estar próximo daqueles que amamos.

            A tragédia da morte prematura relembra-nos do quanto somos frágeis, impotentes, e acima de tudo, humanos. A dor que nos une nessas situações remete-nos, primeiramente,  à nossa essência de humanidade.

            Na verdade não é a morte que nos assusta, mas sim, o fato de não termos aproveitado o melhor sorriso baguela dos nossos filhos, um dia qualquer de sol, ou de chuva, de termos sido gratos por viver.

Sabemos sim, que a morte estará logo ali, mas percebermos que ficamos, muitas vezes, inertes perante a beleza dos dias, que corriqueiramente deixamos passar despercebidos, sacode-nos internamente.

A comoção por nossos ídolos é real e verdadeira, no entanto, quando eles se vão tão jovens, belos, ricos e famosos, olhamos muito mais para nós do que para eles e damos conta de que a maioria do tempo simplesmente existimos, porque viver exige renunciar a tudo aquilo que aparentemente faz parte da nossa vida, mas que na realidade não tem importância alguma. E isso dói. Ah, como dói!

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