Qual a tua desculpa?

Na crônica de hoje o assunto é mais sério do que outros assuntos sérios que já escrevi por aqui.  Estamos

Na crônica de hoje o assunto é mais sério do que outros assuntos sérios que já escrevi por aqui.  Estamos encerrando o mês de agosto, conhecido como  Agosto Lilás, no qual se dedicou à campanha de enfrentamento à violência doméstica e familiar contra a mulher e a divulgação da Lei Maria da Penha.

Muito já se falou sobre essa questão, até mesmo os violentos falam sobre a violência, inclusive se posicionando contra ela. Não é novidade a ninguém que a nossa sociedade é uma das mais violentas do mundo. Ficamos horrorizado com situações em que as mulheres são vítimas das mais variadas formas de discriminação e violência em alguns países do mundo, porém somos incapazes, muita vezes,  de observarmos quando essas situações ocorrem ao nosso redor.

 Mesmo nós, mulheres, que pelo menos, uma vez na vida já passamos por situações de violência, somos levadas a negar o acolhimento e apontar o dedo, utilizando frases do tipo: “apanha porque quer”, “tem mulher que merece apanhar”,  “eu já teria ido embora a muito tempo”, “é uma trouxa, mesmo!” Desenvolver a empatia e colocar-se no lugar do outro deveria ser exercício diário, pois a vítima, geralmente, é uma mulher que, muitas vezes, é alguém que conhecemos bem, que dividimos nossos dias, ou mesmo, aquela vizinha que escutamos gritar por socorro, cada vez que está apanhando de seu companheiro. Quantos de nós ouvimos os gritos da vizinha, no sábado à noite! Escutamos os pratos que caem, os móveis sendo quebrados, as crianças gritando: “Para pai” e ficamos calados diante de tudo isso. Fechamos as portas e as janelas na tentativa de abafar o barulho e a nossa consciência que grita. Ainda justificamos nosso pecado de omissão dizendo que “em briga de marido e mulher, ninguém mete a colher!”

Para muitos de nós a violência, só é violência  se for física ou verbal. Se não empurrou, ou não gritou não há do que reclamar. Porém, existem violências e abusos que são tão sutis que nem mesmo a vítima percebe, quando está sofrendo, ou mesmo que perceba, na maioria das vezes, guarda esse sofrimento só para si. Criou-se um mito que as mulheres são fortes, capazes de aguentar qualquer situação, inclusive um companheiro que lhe sabote, ironize, humilhe, espanque, que a veja e a trate como um objeto. Essa visão só contribui para que a violência seja ainda mais camuflada!

As mulheres sofrem as mais variadas formas de violência, muitas delas foram inclusive concebidas por violência sexual.  Os números relacionados a esse tipo de violência só dispararam em nosso país. Estima-se que três crianças, ou adolescentes, numa imensa maioria meninas, sejam abusadas a cada hora no Brasil. O mais grave e repugnante de tudo isso é que os abusadores são, comumente, pais, irmãos, padrastos, avós, amigos e vizinhos, ou seja, pessoas do convívio das vítimas.Dessa forma, a dor é ainda mais profunda e silenciosa.

Enquanto não mudarmos nossa forma de olhar para a mulher e isso parte principalmente de nós mulheres. Olhando primeiro para nosso íntimo e buscando algo que nos conecte com nossa essência e nos empodere. Parece uma visão romantizada para resolver uma situação social tão grave!  Mas para ir ao encontro do outro é preciso encontrar-se a si mesmo primeiro. Certamente,  o lugar do outro é o mais difícil de estar. Desenvolver empatia e estar livres de julgamentos é um trabalho árduo, que nem todos estão dispostos a fazer.