Quando as janelas do amor abrem-se

Sarah sempre foi uma garota incrédula em relação ao amor. Quando criança conheceu o que chamavam de amor da pior

Sarah sempre foi uma garota incrédula em relação ao amor. Quando criança conheceu o que chamavam de amor da pior forma possível. Seu pai amava sua mãe intensamente, ao ponto de não deixá-la trabalhar fora, ou ir dirigir um automóvel. Lá estava ele com o título de  bom marido, sempre lutando dia a dia para  sustentar a casa e sendo o motorista particular de Sarah e sua mãe, para que elas nunca precisassem sair sozinhas. “Uma mulher sozinha é presa fácil!” repetia, sempre que tivesse oportunidade.

Desta forma, quando conseguiu tornar-se independente a primeira coisa que Sarah jurou é que nunca deixaria se aprisionar de novo por um homem. Evitava todo e qualquer tipo de relacionamento que gerasse o tal possível amor. Do amor ela já conhecia bem e não queria provar mais.

Tornou-se cética demais para esses romantismos exacerbados. Amor a primeira vista era coisa de gente devaneadora. Esta história de olhou nos olhos e encontrou sua alma gêmea, sempre  deixaram-lhe desconfiada. Como amar alguém a primeira vista? Amor é construção diária, sacrifício, doação e renúncia, às vezes, uma alegriazinha aqui e acolá.

 Mas o verdadeiro amor tem lá suas peças. Muitas vezes, é encontrado das formas mais bizarras e inadequadas possíveis. Quando se está preparado ou não, porque amar não exige preparo. O próprio amor prepara-nos. Quem se sente preparado demais está acima daquilo que o coração e alma podem viver e fecha-se ao desconhecido.

Num destes dias, Sarah foi pega nas peças do tal do amor, ou seria apenas uma paixão? Não importa o nome que lhe dão, mas sim, as sensações que esse sentimento é capaz de despertar. Desde então, Sarah não é mais a mesma. Anda avoada, olhando as estrelas, na espera de uma estrela cadente passar e ela poder fazer um pedido.  Tem pensado até em procurar uma cartomante para tentar localizar o paradeiro daquele que ela só viu de relance.

Naquela sexta-feira, final de expediente, Sarah e seus colegas só esperavam aquela tarde preguiçosa passar para aproveitar o final de semana que se aproximava. Mas o tique-taque do relógio parecia mover-se mais lento que o normal.  

Sarah na esperança que o tempo acelerasse, ou pelo menos que seus olhos desviassem do relógio, aproximou-se da janela do vigésimo andar onde trabalhava. Chegou a ter tontura quando olhou para baixo, e viu as pessoas andarem como formiguinhas que se moviam rápidas, em zigue-zague. Pensou na imbecilidade humana. Todos os dias fazemos as mesmas coisas, numa rotina infinita, sem entusiasmo, sem alegria, sem paixão. Ela incluía-se também nesse grupo, pois sentia-se uma formiguinha operária, carregando nas costas um peso muito maior do que parecia suportar. Todos os dias pareciam passar num compasso vagaroso e similar.

De repente, ouviu uma voz que a tirou das suas reflexões e foi tomada por um arrepiou que lhe percorreu o corpo. Quem era aquele estranho que aparecera do nada? Como ela não havia percebido sua entrada? Não conseguia tirar os olhos daquele ser e aquela voz parecia penetrar-lhe a alma. Ficou paralisada olhando-o boquiaberta. Um turbilhão de emoções dominavam-lhe, porém não sabia exatamente o que estava sentindo. Parecia estar numa bolha, pois tudo sumira ao seu redor, nada mais existia, somente aquela voz.

Na sua paralisia, viu o homem aproximar-se da saída. Sentiu uma imensurável  vontade de ir atrás, perguntar-lhe o nome, onde mora, o que fazia ali… No entanto, não teve capacidade de mover-se e viu-o desaparecer. Voltou a olhar pela janela na esperança de vê-lo entres as formiguinhas que continuavam a rota de sempre, porém era impossível do vigésimo andar identificar alguém lá embaixo.

_Sarah, estamos fechando! Vai ficar aí fechada durante o final de semana?

Despertou! Moveu-se em câmera lenta, até sua bolsa que estava pendura na cadeira, da sua mesa de trabalho. Saiu dali flutuando, não consegui tirar a imagem daquele homem da cabeça. Andou pela rua tentando ver naqueles rostos desconhecidos, aquele que conhecera há instantes.

Naquele dia, pela primeira vez, havia aproximado-se da janela do amor!