Quem são os invisíveis?

O tema do Enem apesar de provocante não foi surpresa para muitos. Talvez a maioria dos candidatos, não tenham  tantos

O tema do Enem apesar de provocante não foi surpresa para muitos. Talvez a maioria dos candidatos, não tenham  tantos argumentos para discorrer sobre o tema com muita propriedade, já que a maioria são jovens e o assunto exige maturidade

A palavra invisibilidade é uma palavra até certo ponto bonita, prolixa e desafiadora. No entanto, a vida, como ela  é, expõe o lado mais cruel de uma sociedade que não garante o mínimo necessário para que alguém simplesmente pertença, faça parte, seja visto. Ser invisível é bom somente nos filmes.

 Se existem pessoas em situação de invisibilidade, provavelmente não foi devido a um antídoto que eles utilizaram para tornarem-se invisíveis. Só há pessoas que não foram vistas, olhadas, porque nossos princípios de igualdade e equidade social já foram para o brejo há tempo, ou nunca existiram nesta Terra de Santa Cruz!

Quando aqui, os portugueses chegaram logo nomearam os nativos, donos da terra, de Índios por acreditarem (supostamente) que haviam chegado às Índias. De cara, já foi negado a eles o direito de apresentarem-se aos europeus com seus nomes e identidades.  O que dizer, então, dos africanos, que ao chegarem, ganharam logo o sobrenome do senhor de escravos que os adquiria? Somos mestre na arte de invisibilizar pessoas, etnias, crenças e culturas!

Mas quem são os invisíveis na sociedade brasileira, atualmente? Somente aqueles que não tiveram direito a um documento? Na minha opinião, (aqui eu posso usar, pois é uma crônica reflexiva e não um texto argumentativo) temos muito mais seres invisíveis do que ausência de Registro de Nascimento.

Existe algo tão profundo e doloroso quanto a invisibilidade: fazer vistas grossas. Talvez essa expressão, tão comum e popular na nossa língua, seja muito mais recorrente que a própria invisibilidade.  Segundo o site Dicionário Informal, fazer vistas grossas é: “Fingir não ver as coisas; deixar passar como que despercebido; ver sem querer ver; ignorar o que foi visto.”

Durante anos fez-se vistas grossas para a escravidão, para o genocídio dos povos nativos, para os cortiços e continuamos fingindo não ver a violência no campo, nas periferias das grandes cidades, contra as crianças e as mulheres.

O que dizer de uma sociedade que ignora  seus idosos e suas necessidades primárias? De um país que mais produz alimentos no mundo, mas que tem quase 20 milhões de pessoas passando fome? Existe muita gente invisível na fila do SUS, muitos jovens que tomaram chá de sumiço da escola, antes mesmo de terminar o Ensino Médio. Muitas profissões que só são notadas quando deixam de realizar o seu trabalho. Muitos seres invisíveis em busca de emprego perambulando  pelas ruas das grandes cidades.

Talvez a nossa maior falha é fazer vistas grossas para a corrupção que, certamente, está no cerne das demais questões que geram cenários de invisibilidade social. E assim caminha a humanidade, vivendo aquele ditado particular: o que os olhos não veem o coração não sente.  Optamos por não ver, porque a realidade é dura demais para abrirmos os olhos!

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