Quem tem a chave?

Esta crônica atende ao pedido de uma amiga de longa data. Logo que iniciei esta coluna, ela sugeriu que eu

Esta crônica atende ao pedido de uma amiga de longa data. Logo que iniciei esta coluna, ela sugeriu que eu escrevesse sobre a amizade. Entretanto, o que dizer? Numa busca rápida pelo Google encontramos centenas de milhares de textos falando sobre o assunto.

Vivemos tempos de despedidas rápidas, inesperadas, quando possível, pois em algumas situações até a despedida nos é negada. Essa circunstância, certamente, levou-nos a perceber a preciosidade que é uma amizade verdadeira. Como diz a canção: “Amigo é coisa para se guardar no lado esquerdo do peito.”

Durante nossa vida somos agraciados pelo mais diversos tipos de amigos. Desde a nossa infância temos aqueles seres especiais que dividem o lanche, ajudam na tarefa, emprestam a borracha, chamam para compor o time, mesmo sabendo da nossa inaptidão em determinado esporte. Outros, ainda, defendem-nos dos valentões e, na maioria das vezes, apanham junto. Esses camaradas da escola marcam-nos para a vida toda, mesmo que nunca mais seja possível um reencontro, eles estarão sempre do lado esquerdo do peito, pois são os responsáveis por ensinar-nos como é sair do ninho e tentar alçar voo.

Depois chegam, em nossa vida, os amigos da adolescência e juventude. Com esses aprontamos tudo o que é possível. São os parceiros da primeira balada, do primeiro gole, do primeiro amor, das mentiras, não tão inocentes, que contamos aos pais. Com eles passamos noites intermináveis de longas conversas sempre regadas a risos, ou lágrimas. Isso é o que menos importa, importante é ter alguém que nos compreenda na mesma medida. As amizades dessa fase são envolvidas pelos mais longos abraços, pela necessidade do toque e do olhar que compreende. Divide-se tudo: roupas, sorvete, cama, maquiagem e boné! Empresta-se, até a mãe, para o amigo chorar no colo. Mas chegará o dia em que cada um precisará trilhar seu próprio caminho. Guardaremos, na lembrança, as mais belas gargalhadas, os mais sinceros olhares, as mais doloridas lágrimas, pois as amizades juvenis são intensas e por isso inesquecíveis.

Conforme o tempo passa, somos mais seletos na escolha de nossas amizades, porque à medida que nos tornamos adultos conhecemos o antônimo da palavra amigo. Nem todos que pensávamos ser nossos friends do coração, realmente, se mostram assim e o mundo cor-de-rosa da juventude, na maioria das vezes, desbota e até pode torna-se cinza.

Na fase adulta, cultivamos os amigos dos trabalho, os quais separamos bem daqueles que são só colegas. A principal diferença entre o colega e o amigo do trabalho, está em quem participa do grupo secreto do WhatsApp. Manter amizades adultas é um processo de resiliência, porém quando temos a oportunidade de ter pelo menos um, é um presente dos céus!

Com o decorrer do anos também passamos a ser amigos de nossos familiares. Sem deixar de ser filhos, somos amigos de nossos pais. Em algum momento, superamos a disputa pelo colo da mãe e passamos cultivar a amizade dos irmãos (pelo menos, até que o testamento nos separe)! Ainda tem aqueles primos, tios, sobrinhos que são mais que parentes, são amigos.

Nestes tempos de redes sociais, as amizades antigas podem ser refeitas, reencontradas e revividas. Aquelas almas amigas conectadas pelo fio do destino, cedo ou tarde, atarão laços. Aquele amigo, das férias na praia, chegará como uma grata surpresa. Mesmo a amizade colorida, que teceu dias ensolarados em algum momento nebuloso da nossa noite escura, pode se recolorir.

No entanto, nada substitui o olhar, o abraço, ou um afago desinteressado de um amigo, pois não existe amor mais puro, desapegado, respeitoso e abundante! É no ombro amigo que, tão somente, podemos encostar a cabeça e permanecermos em longos silêncios, sem precisar abrir qualquer janela, pois o amigo tem a chave da porta.