Sai da janela, Dolores, aí não é lugar de mulher!

Valéria Caimi é mestre em letras, professora da rede estadual, poetisa e cronista

Na semana passada um dos assuntos mais comentados foi o tal  estupro culposo. O termo culposo é utilizado para designar um ato ilícito praticado sem intenção. Não existe essa possibilidade quando se trata desse tipo de crime. Ficamos perplexos, porém necessitamos refletir sobre as entrelinhas dessa situação.
“ Tinha que ser mulher!”  
“ Tá de TPM?”
“Mulher só é bonita de cabelo comprido!”
“E esse esmalte vermelho?” 
“Menina direita não fala palavrão!”
“Sente direito!”
“Com essa roupa? Tá pedindo!”
Certamente, você já ouviu, disse, ou pensou uma dessas frases, ou ainda centenas de outras carregadas de machismo que desqualificam às mulheres! Uma das coisas que elas aprendem desde pequenas é que estão sempre erradas.  As que ousam ter um comportamento não feminino, ou mais ousado, são reprimidas.  Crescemos ouvido histórias em que o comportamento da personagem, visto como inadequado, teve um fim “bem merecido”, porque procurou!
No conto da Chapeuzinho Vermelho, chegamos a ficar com raiva da personagem, porque  ela desobedeceu a mãe e foi pelo caminho que não deveria ter ido. No entanto, em nenhum momento refletimos sobre as mentiras do Lobo, suas más intenções, sua lábia. Culpamos a vítima: se ela não tivesse desobedecido nada disso teria acontecido. Certamente com ela não, mas provavelmente passaria outra menina pelo mesmo caminho e o Lobo estaria lá.
Saindo dos contos de fadas e observando a vida do jeito que ela é, percebemos que muitas de mulheres, vivem casamentos abusivos e violentos porque aprenderam que precisam salvar sua família. E quem as salvará? Escondem-se atrás de portas e janelas reais e mentais, com medo de que um dia, ao abri-las o sol entre e as despertem da ilusão que é suas vidas!
Muitas são tratadas como objetos de desejos e não como sujeitos que têm sonhos, aspirações e inteligência! Abandonam-se para viver o projeto dos pais, do marido, ou dos próprios filhos! Submetem-se a tomar conta da casa, dos filhos, dos cachorros, mesmo trabalhando fora e ficam felizes caso o companheiro ajude nos serviços domésticos. Quando reclamam, ainda, precisam ouvir: “Homem é assim mesmo!”
Outras que ainda estudam, que criam filhos sozinhas, que trabalham dentro e fora de casa ganham o título de heroínas. Na verdade, são mulheres sobrecarregadas por uma sociedade machista e desigual.
As mulheres mães choram na porta da creche quando precisam deixar seus filhos aos cuidados de outras mulheres que são mães e estão tão sobrecarregadas quanto todas as outras.
Inúmeras mulheres adolescentes, sem o apoio do parceiro, escondem a gravidez, porque afinal “engravidou porque quis!” E várias chegam ao extremo do aborto, numa agonia de silêncio, solidão e dor que dilacera a alma.
Tantas cuidam, excessivamente, do corpo, porque a mídia impôs que para ser desejada e olhada é preciso estar com tudo em cima e a criança interior silenciada, desprezada, solitária grita por carinho. Essas mulheres buscam amor e afeto, onde, incontáveis vezes, só querem delas prazeres físicos ou satisfação do ego.
Destruímos nos psicológico tentando consertar pessoas, relações, situações, porque o nosso instinto materno diz que precisamos zelar, cuidar dos outros. 
Muitas são abusadas, assediadas, estupradas, mortas, dentro e fora de casa! E o que assistimos das nossas janelas, na maioria das vezes, de braços cruzados? Uma sociedade que nos julga, nos culpa, nos pune, pelo simples fato de termo nascido mulher!