Esporte

Coisas que só o coração pode entender

A palmeirense Erlete Beê é uma figura carismática da Cantu e o motivo disso é seu amor imensurável pelo clube
Erlete Beê: a mulher que lidera uma torcida (Foto: Juliam Nazaré)

Ela é torcedora símbolo. Erlete Beê nasceu em Nova Laranjeiras, se mudou para Laranjeiras do Sul aos 13, foi embora para Vargem Grande do Sul, interior paulista, mas voltou há aproximadamente dez anos para a ex-capital do Território Federal do Iguaçu. Aos 64 anos, ela guarda no sangue a relação com as raízes italianas.

Razão está que fez com que ela nutrisse um amor inenarrável pelo Palmeiras. Entre loucuras e momentos únicos vividos em prol do Verdão, ela fez história: foi a primeira mulher a receber o título de ‘Consulesa do Palmeiras’. Erlete Beê é a ‘Persona em Foco’ de hoje.

 

Correio: Quando surgiu sua relação com o Palmeiras?

Erlete: Minha relação com o Palmeiras sempre existiu. Meu avô foi combatente pela Itália na Primeira Guerra Mundial (1914-1918). Então sempre gostei de tudo que remetesse à Itália e o Palmeiras é de origem italiana, inclusive, chamava-se Palestra Itália e precisou mudar de nome durante a Segunda Guerra (1939-1945) para jogar uma decisão de campeonato. O Palestra morreu líder e o Palmeiras nasceu campeão.

 

Correio: Qual foi o primeiro jogo que você assistiu em estádio? Já viu quantos?

Erlete: Foi entre 1970 e 1971, em Curitiba. Tinha 17 anos. Não sei dizer um número exato de partidas em que assisti. Quando morava no interior de São Paulo eu ‘ia direto’, perdi as contas…Fiz algumas viagens para o Paraguai, recentemente estive em ‘La Bombonera’, assistindo as duas partidas que o Palmeiras disputou na Argentina contra o Boca Juniors, mas te confesso que não gosto de visitar estádios, gosto mesmo é de ir na nossa casa. Nunca fui e nunca entrarei no Morumbi e no estádio do Corinthians.

 

Correio: E qual destas partidas que assistiu mais te marcou?

Erlete: A do título do Brasileiro de 2016. Nosso goleiro Fernando Praz se machucou e ficou fora quase todo o campeonato. No último jogo, contra a Chapecoense, ele entrou no fim da partida, todos os torcedores se emocionaram. Você olhava pro lado e todos estavam chorando. Foi muito emocionante. O jogo da despedida do Marcos no antigo estádio Palestra Itália também me marcou. Fizemos caravana de Laranjeiras e fomos. Terminou a partida, todos saíram do campo e ficou só o Marcos, ele olhava para todos os lados, talvez a espera de alguma homenagem e nada foi feito. Depois de uns tempos, até fizeram, mas chamaram o Boca e ‘apanharam’ no amistoso. Outro jogo que me marcou foi entre o Boca e Palmeiras, pela primeira fase da Libertadores deste ano. Nunca tinha ido a Bombonera e a torcida deles é ‘a coisa mais lindo mundo’ de se ver. Em 2003, quando o Palmeiras disputou pela primeira vez a Série B, assisti apenas uma partida em estádio, mas a que assisti foi chorando. Não conseguia me conformar em ver meu time na segunda divisão.

 

Correio: Como é ser mulher e ser líder de uma torcida em um esporte dominado por homens?

Erlete: Nunca tive problemas com isso. Há algum tempo, tínhamos em Laranjeiras um campeonato chamado ‘Inter-torcidas’, e eu era a técnica do Palmeiras. Ficava lá no banco de reservas ‘corneteando’. Quando era mais nova, algumas pessoas até se implicavam com meu amor pelo Palmeiras, mas nunca dei bola.

 

Correio: Você é uma espécie de ‘embaixadora’ do Palmeiras aqui na região. Conte-nos sobre isso.

Erlete: Sou consulesa da entidade. E o que faço é representar o clube e fazer uma intermediação entre os torcedores a instituição. Por exemplo, se um torcedor quer uma camisa autografada, ele fala comigo, converso com o pessoal da sede do Palmeiras, mandamos o dinheiro e tudo se resolve. Fui a primeira mulher no Brasil a ter esse título no Palmeiras. Isso foi há 20 anos. Conheci muita gente ‘importante’ do clube, inclusive, fiz amizade com o Paulo Nobre (ex-presidente do Palmeiras) quando ele nem pensava em fazer parte da diretoria.

 

Correio: Como consulesa, viveu algum momento marcante com algum jogador do Verdão?

Erlete: Certa vez, ainda quando morava em São Paulo, levei uns garotos carentes da minha cidade para ver um jogo. Eles queriam muito tirar uma foto com o Marcos. O Leão era o técnico e não deixava ninguém entrar em áreas privativas do estádio. Fiquei na porta do estádio, com as crianças sentadas no meio-fio e um velhinho que trabalhava por lá se sensibilizou e me explicou qual era o carro do Marcos. Quando ele chegou, fui em direção e disse “Pelo o amor de Deus, são crianças carentes que só querem uma foto com você”. Ele foi super humilde, tirou fotos com todos e ainda disse que se quisesse era pra mandá-las pra ele que ele iria autografar.

 

Correio: Já fez loucuras pelo Palmeiras?

Erlete: Sim. Quando minha filha era pequena, ela tinha aula com um professor de Educação Física que era sãopaulino. Um dia ela chegou e me disse que queria torcer pro São Paulo porque esse professor iria dar uma camisa do time pra ela. Fiz as malas dela, coloquei em cima da cama e disse “escolha o que mais você vai levar, porque aqui ninguém torce contra o Palmeiras” (risos). Ela ficou, é palmeirense e, recentemente, até foi pra Buenos Aires ver o jogo comigo. Estou indo embora para Balneário Camboriú para poder ficar junto dela.

 

Correio: Como é a rotina da Erlete em dia de jogo do Palmeiras?

Erlete: Quando morava em São Paulo e tinha clássico, saia na quinta-feira e comprava tudo o que precisasse para uma semana. Se o Palmeiras perdesse eu não saía de casa, porque se não eu iria brigar. Se alguém me falasse “ah, o teu time perdeu”, eu dava uns tapas. Quando minha filha era pequena, saíamos na rua e ela via um corintiano ou sãopaulino, ela logo dizia “mãe, por favor não brigue” (risos). Aqui em Laranjeiras é sossegado, porém não perco nenhum jogo. Prefiro acompanhar o jogo pelo rádio. Me criei ouvindo jogo na Rádio Bandeirantes, mas agora escuto na Web Rádio Verdão (risos).

 

Correio: Quem é seu maior ídolo?

Erlete: Ademir da Guia. Ele jogou no Palmeiras durante os anos 60 e 70 e era fantástico. Não era como os ídolos de hoje, era simples e jogava muito. Super disciplinado, acho até que nunca foi expulso durante toda a carreira. Admiro muito o Felipão, eu já esperava essa arrancada do time com ele. Sabia que ele iria triunfar. Felipão é pai, que corrige, puxa a orelha e abraça a hora que precisa. Podem perceber que inclusive ele reabilitou o Dudu.

 

Correio: Tem simpatia por outro time do Brasil?

Erlete: Passei a gostar da Chapecoense depois do acidente de avião. Sinto pena do Guarani, que é um time grande. Gosto de todos os times que ganham do Corinthians. Aqui no Paraná eu gosto do Atlético Paranaense.