Cultura

Dr. Rangel: Memória viva da grande Laranjeiras

Aos 87 anos, o ex-prefeito faz comparações do cenário político dos anos 70 – época do seu mandato – com os dias atuais. Em meio a proesas, afetos e desafetos, ele prepara o lançamento de seu segundo livro

Nascido em Ipiranga, cidade localizada nas proximidades de Ponta Grossa, Rangel de Souza Muller se formou em Odontologia. Antes disso, se aventurou no jornalismo e chegou a trabalhar no ‘Diário dos Campos’, de Ponta Grossa um dos impressos mais tradicionais de todo o Paraná. Entre idas para o oeste do estado, chegou em Laranjeiras do Sul no início da década de 1960. Chega a prefeitura em 1973, em uma época em que a cidade possuia um território cinco vezes maior. Aos 87 anos e após 40 de sua saída do poder, ele se diz lembrado pela honestidade, rememora momentos, elenca políticos e faz reflexões sobre o atual cenário político. Doutor Rangel, como é popularmente conhecido, é o Persona em Foco desta quinta (6).

Rangel de Souza Muller tem 87 anos e foi prefeito de Laranjeiras do Sul entre 1973 e 1977

 

Correio: Como foi sua trajetória até se eleger prefeito?

Dr. Rangel: Cheguei em Laranjeiras em dezembro de 1960, trabalhando como dentista e exercendo também a função de professor. Havia muita carência desses profissionais na região. Em 1964 fui nomeado inspetor reginal de ensino. Ajudei o prefeito Amandio Babinski a se eleger para o pleito de 1969 a 1972. Com isso, me elegeram presidente da ARENA – um dos dois partidos que perduravam durante a Ditadura Militar – até ser escolhido como o candidato à prefeitura do grupo para 1973. Aceitei e venci a eleição contra sêo Arival Camargo.

 

 

Correio: Qual foi o grande desafio do seu governo?

Dr. Rangel: Foram tantos...Mas naquela época existia um índice de criminalidade muito alto em Laranjeiras, só que se tratava de crimes de roubo ou assalto, era pistoleirismo. Contratei um inspetor da Polícia de Curitiba, ele fez um levantamento e decobriu 18 pistoleiros profissionais aqui. Muita gente me aconselhou a não ‘mexer nisso’, mas eu era prefeito e tinha o dever de combater. Fiz uma campanha muito forte contra esse movimento de violência e conseguimos promover o desarmamento.

Correio: E a maior obra?

Dr. Rangel: Foi a honestidade. Meu mandato ficou marcado na memória da população por ser o mais honesto. Não houve corrupção, não desviei dinheiro. Da maneira que entrei na prefeitura, eu sai: sem pegar um ‘tostão’. Mesmo até porque as prefeituras eram pobres. E pra você ser um prefeito considerado bom naquele tempo, precisava fazer escolas e estradas. Fui o que mais adquiriu máquinas até hoje. Paguei tudo até o fim do mandato, entreguei a prefeitura sem dívidas e com dinheiro em caixa. Criei a galeria dos prefeitos e fiz 120 pontes, 31 escolas só no interior, além do Gildo Aluísio Schuck.

Correio: Em 1973, as hoje cidades de Nova Laranjeiras do Sul, Porto Barreiro, Rio Bonito do Iguaçu e Virmond pertenciam à ex-capital do Território Federal do Iguaçu. Atualmente Laranjeiras possui pouco mais de 600 mil km², diante cerca de 3 milhões de km² da época de seu mandato. Qual a diferença de governar em 1973 e em 2018?

Dr. Rangel: Existe muita diferença. Nos anos 70 o país era pobre, os estados eram pobres e os municípios eram miseráveis. Hoje a preocupação dos prefeitos é administrar os milhões que chegam. Nós tínhamos que trabalhar com a miséria. Não foi fácil. Ouço falarem “ah, mas aquele prefeito fez mais que o outro”. Isso é relativo, pois o trabalho de um prefeito depende muito também da situação economica do país. Os prefeitos que vieram após o meu mandato tiveram mais facilidade em realizar obras, pois os repasses começaram a ser maiores.

Correio: Como foi administrar uma cidade sem tecnologia?

Dr. Rangel: Complicado. Quando peguei a prefeitura havia uma desorganização tamanha. A documentação da cidade ficava empilhada em um quarto. Mandei fazer armários e organizarem. Mas infelizmente por causa dessa desorganização muitos documentos importantes foram perdidos. Houve um caso da Usina do Cavernoso – hoje pertencente a Virmond – onde Amantino Stefanes – prefeito de 1951 a 1954 - iniciou a construção, comprou da Itália um gerador e uma turbina. Tempos depois essa documentação se estraviou dentro da prefeitura e ele quase foi cassado. Tive dificuldade quando fundaram a Copel e ela passsou a administrar a usina, pois o terreno era de Laranjeiras e compramos as coisas. Então, queria que indenizassem o município, mas não tinha a documentação para comprovar a posse. Depois de muito trâmite eles nos indenizaram. O posteamento de Rio Bonito foi feito com esse dinheiro.

Correio: Como ficou sua relação com a política após a saída do poder?

Dr. Rangel: Nunca quis voltar como candidato, mas fui secretário do prefeito Lauro Ruths (1989/1992) e assessor técnico da Câmara no mandato de José Augusto (1993/1996). E vivenciando o universo do legislativo, escrevi um livro, lançado em 1997, chamado “Vocabulário do Vereador”. Porque o vereador é aquele homem do povo que chega ao poder, muitas das vezes, sem saber nem menos se senta de frente, de costas…(risos). Escrevi para que eles pudessem melhorar suas atuações.

Correio: Quem são os políticos nacionais e da região que admira?

Dr. Rangel: Tenho um livro em casa que diz que apenas dois presidentes realmente fizeram alguma coisa pelo Brasil: Getúlio Vargas e Juscelino Kubitsheski. É difícil elencar políticos da região, pois o contexto, como falei anteriormente, é relativo. Não posso dizer que os primeiros prefeitos não fizeram nada, pois não tinham dinheiro. Ser prefeito já foi ato de sacrifício e não trabalho. Mas posso citar Alcindo Natel de Camargo, o José Augusto, que teve um problema particular, mas que foi um ótimo administrador e que se não tivesse tido o problema, poderia voltar a se candidatar com muita força. A Sirlene foi uma ótima administradora, fez muitas obras e não foi populista. Ela não era política, mas fez um governo sem alardes e bom. A Avenida Santos Dumont, feita por ela, foi uma obra que entrou para a história de Laranjeiras do Sul. Nunca votei e não simpatizo com o Berto Silva, mas é inteligente, popular, possui uma capacidade de comunicação boa e tem produzido muito pela cidade. Apesar de que ele pegou uma época com dinheiro. Se fosse há 50 anos ele não conseguiria fazer o mesmo trabalho.

Correio: Mais de 20 anos após lançar o primeiro livro, você está prestes a emplacar o segundo título. Conte-nos sobre “Memorial histórico de Laranjeiras do Sul”.

Dr. Rangel: Irei lançar em janeiro, sem cobrar. Nele, contarei a história do município de Laranjeiras do Sul, desde os tempos da monarquia, em que o Paraná pertencia a São Paulo e na nossa região só existiam índios. Vou contar a trajetória de José Nogueira do Amaral, o homem que veio parar aqui castigado pela polícia e desbravou esse lugar.