Comportamento

"O que se leva da vida é a vida que se leva"

Visitando Laranjeiras, casal larga tudo na Argentina e sai para viver conhecendo o mundo
O casal argentino confecciona algumas peças de artesanato para sobreviver (Foto: Juliam Nazaré)

 

“Vida louca vida, vida breve. Já que eu não posso te levar, quero que você me leve”, já cantava o poeta Cazuza. A sociedade capitalista, onde impera o consumismo, faz com que as pessoas vivam de forma monótoma e mecânica.

Há quem defenda que isso não seja viver em essência. Foi mais ou menos através dessa conclusão que Luciana Reartes, 27 anos, e Benjamim Chitti, 36, argentinos da província de Córdoba, deixaram pra lá toda essa monotonia e 'meteram o pé na estrada'. Com um carro popular, o cãozinho de estimação de nome Ciro e muita vontade de viver novas experiências, conhecer outras culturas, que eles largaram a ‘rotina’.

 

Por aqui, por ali

Desde 31 de dezembro de 2018, eles estão em Laranjeiras do Sul, convivendo com seu povo e apreciando o que há de mais interessante na ex-capital do Território Federal do Iguaçu. “A cidade é muito hospitaleira, com muitas áreas verdes, estamos gostando”, diz Luciana. Ela, que já foi costureria, garçonete, pintora, atendente de mercado e que já está há um ano e nove meses fora de casa, vivendo de uma rotina ousada.

Benjamim, ah, esse afirmou ter feito tanta coisa e não entrou em detalhes. Ele,nos dois anos que começou a peregrinar pelas estradas da América do Sul, já conheceu países como Uruguai, Bolívia e Colômbia. “Agora estou vivendo. Antes trabalhava, trabalhava e só ‘juntava’ para poder comer. Trabalhava muito e não sabia o que era viver”, conta o homem.

Eles estão vivendo como nômades e estão curtindo. Amando o Brasil, contam que em breve terão de voltar para a Argentina, pois a licença para visitar a ‘Terra Dourada’ termina em meados de fevereiro. “Iremos voltar, mas em setembro já estaremos aptos a voltar para cá novamente. Quero conhecer, ainda, Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, Goiás e Tocantins. Essas regiões me encatam. O Brasil é um país muito grande para ser resumido em uma ou outra visita”.

 

“Você que só ganha pra juntar, você vai ver um dia em que fria você vai entrar”, do poeta e diplomata brasileiro Vinicíus de Moraes

Conhecendo outras culturas, mas deixando sempre algo enraizado. Luciana e Benjamim não largam por nada o mate argentino, similar ao chimarrão.Mas isso não é nenhum luxo, pelo contrário. Eles estão vivendo do essencial, talvez até muito parecido da forma quando tinham residência sedentária. Para se alimentar, eles contam com a ajuda das pessoas e com a venda de materiais de artesanato, confeccionados por eles e nada se compara ao nível de satisfação dos ‘hermanos’.

Vivem como se não houvesse amanhã. Perguntada pela reportagem sobre até quando pretendem ficar em Laranjeiras, Luciana é categorica. “Não temos previsão, não fazemos isso. Ficamos na cidade para conhecer e conseguir combustível para chegar até outro município. Queremos ir para Três Barras do Paraná (também na Cantu) e depois retornar para a Argentina”, diz Luciana.

 

É reflexivo

Histórias como a de Luciana e Benjamim, que resolvem deixar o trabalho, o cotidiano monótono, estão cada vez mais comum. Em meados de 2018 o Correio já contou a história de outro casal latino-americano que seguiu uma trajetória idêntica a narrada nesta edição. Mas qual seria o motivo para essa nova ‘bossa’? Existe quem diga que seja a fuga da rotina repetitiva e cansativa. Outros falam que é algo mais espiritual. Certo mesmo, é que histórias como essa, que fogem a realidade de boa parte da população, nos chamam a atenção e podemos tirar algo de lição disso.