O Ponto do Conto - João Olivir Camargo
Agosto é mesmo o mês do cachorro louco?

Acredito já ter abordado este tema há mais de um ano, quando escrevi que a superstição é a crença em relações de causa e efeito à face de determinados fenômenos, crença que, entretanto, não tem respaldo na racionalidade. Assim haveria uma oposição entre o olhar científico e o olhar supersticioso. Colocamos ponto de interrogação no título da coluna para que a conclusão fique por conta do leitor. Daqui a dois dias inicia-se o mês de agosto quando na alma popular, o oitavo mês do ano está associado a pesar, tristeza, dissabor, sofrimento. Já diziam nossos avós: “agosto é mês de desgosto”. Também diziam “o mês do cachorro louco”. Falam os entendidos que em agosto aumenta o número de fêmeas no cio e consequentemente a aglomeração de cães e na eventualidade de um ou mais estarem com hidrofobia contamina os demais. Cachorro louco não assusta mais, graças a vacina, barata e acessível. Talvez a crendice tenha origem em Portugal, onde as mulheres nunca se casavam em agosto porque nesse mês os navios das expedições zarpavam à procura de novas terras. Casar em agosto significava ficar só, sem lua-de-mel e ainda correr o risco de sofrer uma viuvez precoce. Nem Vinicius de Moraes fugiu ao presságio negativo do mês de agosto que, no Zodíaco, é comandado por Leão. Nos versos do poeta, “A mulher de Leão brilha na escuridão. A mulher de Leão, mesmo sem fome, pega, mata e come. A mulher de Leão não tem perdão. As mulheres de Leão, leoas são. Poeta, operário, capitão. Cuidado com a mulher de Leão!” Também outra justificativa para essa crença de agosto azarado é o fato de muitos episódios tristes, no mundo e no Brasil, terem acontecido no mês de agosto. Senão vejamos: Em 24 de agosto de 1572, por ordem de Catarina de Médici, ocorreu o massacre dos huguenotes, que eram protestantes ou calvinistas. Na cidade de Nova York, no dia 6 de agosto de 1890, o primeiro homem foi executado numa cadeira elétrica. Esta primeira execução traduz uma mensagem de iniquidade. Ou seja, o Estado arvora-se defensor da sociedade e supõe ser legítimo tirar a vida de alguém. Entre os dias 6 e 9 de agosto de 1945, as cidades japonesas de Hiroshima e Nagazaki foram destruídas pela bomba atômica, nisto que foi certamente o maior genocídio da História. No Brasil, dois presidentes da República, muito amados pelo povo, morreram tragicamente no mês de agosto. Em 24 de agosto de 1954 Getúlio Vargas praticou suicídio, “saindo da vida para entrar na História”. O presidente Jânio Quadros renunciou em agosto de 1961. Em 22 de agosto de 1976, Juscelino Kubitscheck faleceu, vítima de desastre automobilístico.