O Ponto do Conto - João Olivir Camargo
Definitivamente, não entendo nada!

Por não termos algo melhor para fazer naquele momento, víamos desinteressadamente com a Joana um programa de curiosidades na televisão, no qual a repórter que buscava assuntos sobre moda entrou numa loja especializada em calças jeans de marcas famosas e constatou que as mais procuradas eram aquelas bastante gastas nas pernas, realmente puídas e com grandes buracos no tecido na altura dos joelhos.

A proprietária levou a moça da imprensa até uma repartição nos fundos da loja e mostrou ao vivo o que fazia para “valorizar” as calças que vendia. E eram de marcas muito procuradas e caras que levavam nomes de estilistas internacionais. Colocou uma delas sobre uma tábua de passar, apanhou algo que parecia um pedaço de pedra bruta e passou a esfregá-la vigorosamente sobre o tecido, até puí-lo e rasgá-lo em locais escolhidos, como nos joelhos. Terminada a operação disse à repórter da televisão: “Pronto, esta teve o preço final aumentado em X reais”.

Vendo a reportagem nosso pensamento voltou a um passado distante, quando os homens trabalhavam em serviços pesados e brutos, como madeireiras, fazendas e roças de mato ou capoeirão. Daí que, puir um rasgar a roupa era algo até natural, embora tomássemos o máximo de cuidado. Então entravam em cenas as mães, esposas, irmãs ou outras mulheres da casa, especializadas em fazer remendos, quase sempre cosidos à mão. Procuravam pedaços de tecidos, se não da mesma cor, pelo menos o mais parecido com o pano original das calças, raramente das camisas. De forma que vestir roupas remendadas não era demérito algum e até havia o dito de que se tratava de pessoa trabalhadora, havendo um pouco de verdade nisso. Comentarmos que hoje, se a garota vai a balada e encontra outra com roupa idêntica, uma delas volta a casa para trocar os panos.

O advogado Xenofonte Lopes (im-memoriam) que aqui chegou à época da Capital do Território Federal do Iguaçu deixou escrito que quando os armazéns recebiam peças com muitos metros de tecido com belas estampas, dias depois, era comum observar numa festa ou na igreja, senhoras, moças e meninas com vestidos de cores e estampas iguais. Havia também o brim conhecido como arranca-toco para as calças dos homens.

Famílias mais abastadas compravam peças inteiras e dali saíam as calças que vestiam desde o vovô, o papai, os demais homens da casa e até os guris, estes com as calças no meio das canelas e suspensórios do mesmo pano. Calças que mesmo feitas em tecido resistente, em curto espaço necessitariam de remendos, coisa que só vemos hoje em festas juninas, neste caso espalhafatosos, quase sempre de cores berrantes e chamativas, ao contrário de tempos idos, quando o remendo de pano quase idêntico e bem feito tentava disfarçar o indisfarçável.