O Ponto do Conto - João Olivir Camargo
O Salário do Gerente

Há uns dois anos buscávamos mudas da planta ora-pronóbis (rogai por nós em latim), que é uma espécie de trepadeira cujos galhos alongados como finos cipós têm espinhos agudos e curvos como anzóis. Diz a história que foi usada como cerca viva em conventos e igrejas e por conter proteínas, suas folhas integram molhos e refogados de vários pratos da culinária mineira onde é tida como a carne dos pobres. Num grande viveiro de mudas à margem da BR 277, em Cascavel, o rapaz que atendeu a mim e a Joana, arregalou os olhos e disse que não conhecia e nunca tinha ouvido falar da tal planta, nem mesmo tinha lido algo a respeito em publicações do gênero. Ao senti-lo despreparado para a função de atender viveiro tão grande especializado em mudas diversas, veio à lembrança a história do empresário que instalou cerealista na sede de um distrito de alta produção agrícola. Contratou quatro ou cinco jovens do lugar, conhecidos entre si e de idades semelhantes. Meses depois um deles foi promovido a gerente da cerealista com aumento correspondente do salário. Um dos rapazes que tinha certa intimidade com o empresário vivia soltando indiretas reclamando sobre o salário do gerente e dos demais funcionários. O empresário esperou chegar a ocasião para acalmar o reclamante, até que um dia, estavam ele e o gerente na sala do chefe quando chegou um caminhão de tamanho médio no local da balança e descarga. O moço foi encarregado de verificar a situação. Foi, trocou algumas palavras com o do caminhão e voltou anunciando: “O homem quer vender uma carga de feijão”. Convidado a se assentar e aguardar na sala, enquanto o chefe mandou o outro funcionário até o caminhão. Este conversou uns dez ou quinze minutos com o do caminhão, subiu até a carga, verificou o produto e voltou até a sala do chefe contando: “Ele tem 5 mil quilos de feijão preto e 3 mil quilos do tipo carioca, ambos plantados no início de setembro e colhidos no final de novembro. Não foi necessário nenhum tipo de defensivo, como choveu moderadamente, apanhou longos dias de sol e foi colhido na época certa. O homem disse que como tem um grande terreiro, secou o feijão ao sol e garante um mínimo de umidade e impurezas. Aceita o preço de mercado pelos 8 mil quilos”. O chefe olhou fixamente para o que reclamava constantemente e disse apenas: “Entendeu agora porque ele é o gerente?     

Coluna Observatório de Victor Rivas. Irretocável sob todos os aspectos a coluna Observatório do Professor e Colunista Victor Rivas publicada na edição de 03 de julho passado, ela reflete a realidade na forma em que vivíamos e como vivemos hoje. Parabéns.