O Ponto do Conto - João Olivir Camargo
Que Deus o tenha, tio Pedrinho

Anos atrás, mês de julho, fui até o portão conferir quem passava gritando e falando alto na rua e vi um homem de baixa estatura que me pediu se não tinha um casaco para aliviar-lhe o frio. Dei-lhe um de meu uso, ele agradeceu e seguiu seu caminho. Alguns dias depois, saímos eu e a Joana da Missa naquela manhã de inverno e o mesmo homem sentado junto à parede duma loja, tremendo de frio novamente pediu-me uma blusa. Disse-lhe para esperar, vim até a casa e mais uma vez levei-lhe uma blusa que já estava separada para estas campanhas do agasalho que se repetem todos os anos. Enfim, o homem passou a ser mais um dos moradores de rua desta cidade. Pouco sabíamos dele, apenas que seu nome era Pedro, daí que ficou conhecido como Tio Pedrinho. O povo caridoso custeava sua alimentação e as tantas blusas, pois bastava esquentar um pouco e ele tirava e deixava a peça onde estivesse. Andava de um lado a outro, gritando como se estivesse furioso, mas era afável e inofensivo. Vários cachorros o acompanhavam em suas andanças, pois sempre repartia com eles o que recebia para comer, menos a cachaça, cuja garrafinha não tirava duma sacola. Um dia, ao chegar num supermercado, vi na frente do estabelecimento o Tio Pedrinho, com uma enorme volta de linguiça num dos braços. Queria um trocado, mas como eu só tinha uma nota, pedi-lhe para esperar. Saí do local e quando alcancei Tio Pedrinho, vi que ele tinha repartido a linguiça com as mãos em vários pedaços e dado aos cães que o acompanhavam, como era de seu costume. Claro, ele não estava com fome, mas precisando comprar cachaça, a companheira que o ajudava a esquecer o passado e enfrentar o presente. Um dia, ficamos tristes com a notícia. Foi encontrado morto num barracão onde costumava passar as noites. Morreu, tendo como testemunhas os cães que o acompanhavam onde quer que estivesse. Que Deus o tenha, Tio Pedrinho!   

 Sempre gostei de causos inteligentes como este que não lembro onde li e narro a seguir: João, que morava só convidou sua mãe para jantar. A mãe não pôde deixar de notar o quanto a empregada era atraente e sensual. Após o jantar, ela começou a imaginar se havia mais alguma coisa entre seu filho e a moça. Lendo os pensamentos da mãe, João disse: - Eu sei o que você deve estar pensando, mas te asseguro que o meu relacionamento com a empregada é puramente profissional. Uma semana depois a empregada disse ao João: - Desde que sua mãe veio para jantar, a concha de prata sumiu. Você não acha que ela levou, acha? João disse: - Bem, eu duvido, mas mesmo assim vou escrever um e-mail, para ela, só para ter certeza. Então ele sentou-se e escreveu: - Querida mamãe, eu não estou querendo dizer que você pegou a concha da minha casa, e não estou querendo dizer que você não pegou a concha de sopa. Mas o fato é que ela sumiu desde o dia que você esteve aqui. No dia seguinte, João recebeu a resposta do e-mail onde sua mãe dizia: - Querido filho, eu não estou querendo dizer que você dorme com a empregada, e não estou querendo dizer que você não dorme com a empregada. Mas o fato é que se ela estivesse dormindo na cama dela, já teria achado a concha que eu coloquei lá na noite em que aí estive. Com amor, sua mãe.