O Ponto do Conto - João Olivir Camargo
Taraias da infância

Mandirituba, a terra natal onde deixei o umbigo, teve em tempos idos dezenas de açudes cujas águas moviam moinhos e várias pequenas indústrias familiares. Abundavam peixes desde os pequenos lambaris, acarás, até vistosas taraíras como dizíamos na época. Nós, os garotos da escola, sempre tínhamos o que comentar sobre pescarias, até que um dia, muito gentilmente a professora Ana Maria da Rocha nos corrigiu: “Meninos, não é taraíra como vocês falam; o correto é traíra.”

Nunca esqueci a gentil correção. O peixe de carne saborosa e dos mais espinhentos que existem, carnívoro e dotado de dentes afiados, diziam os mais velhos, é extremamente agressivo quando está desovando. Conferimos esta agressividade, quando olhávamos o Sr. Abílio Franco e seus filhos limpando uma longa valeta que levava água à roda que movia um moinho e uma pequena marcenaria.

O menino Manoel, conhecido como Neco do Jacinto, nome de seu pai, entrou na valeta alguns metros acima. Logo saiu aos berros com uma traíra que cravara os dentes em sua panturrilha. Com a ajuda dos Franco, a traíra soltou a perna do garoto que correu para casa lavar a panturrilha com salmoura e álcool levando o peixe com ele. Noutro local, havia um velho açude que no passado tocara um moinho que fora desativado.

O lago todo estava coberto de piri, vegetal que era recolhido em canoas e secado à sombra. Servia para empalhar aquelas cadeiras antigas. Havia ainda um vasto gramado e nele pastando diuturnamente um velho cavalo tordilho que fora aposentado pelo Sr. Ângelo Palu que possuiu pequena padaria e fazia entrega de pães numa carrocinha. Estávamos, dois ou três garotos pescando lambaris num pequeno riacho, quando vimos o tordilho entrar com as patas dianteiras no açude e curvar o pescoço para beber água. Súbito, o animal saltou para trás, soltando um bufo e todos os gases acumulados nos intestinos. O cavalo saiu em disparada e vimos se debatendo no gramado uma bela traíra de mais de um quilo. O peixe havia cravado os dentes no focinho do cavalo que, naquele grande salto o atirou no gramado. Quase disputamos no tapa quem levaria a traíra para casa. Parece que entramos num acordo que não lembro mais.

Renato Cunha, um piadista exagerado

Renato foi meu colega de trabalho na Rádio Educadora durante alguns anos. Contava piadas breves que exigiam do ouvinte rápido raciocínio. Numa segunda-feira perguntamos sobre o baile do sábado anterior no Clube Pinheiros, hoje o Iguaçu Tênis Clube. Não foi grande coisa, disse ele. Imaginem que a banda era tão ruim que um garçom derrubou uma bandeja e todo mundo saiu dançando!