O Ponto do Conto - João Olivir Camargo
Viola de cocho e tripa de mico

 Algumas curiosidades que conto neste espaço parecem meras invenções, mas lhes asseguro que têm um fundo de verdade, basta conhecer um pouco mais da história antiga quando nossos antepassados usavam ferramentas e utensílios que eles mesmos criavam com o que tinham à mão. No meu tempo de guri era comum irmos aos armazéns comprar alguns metros de “tripa de mico”, como era conhecida a linha de pescar. Em priscas eras o intestino do animal foi utilizado pelos índios como corda do arco que lançava flechas. Há muitos anos, repórter de TV foi a certa região de Mato Grosso buscar a origem da viola de cocho. Caboclos bastante vividos mostraram-lhe a árvore de madeira leve e macia que era derrubada e escavada para o corpo principal da viola cujas cordas eram feitas das tripas do macaco conhecido como bugio. O repórter viu e mostrou no programa algumas violas de cocho originais, inclusive com as cordas que levavam o nome de tripa de mico por serem feitas dos intestinos do animal. O indigenista Telêmaco Borba (1840/1918) deixou escrito sobre o ritual dos índios para fazer referida corda de seus arcos. Os intestinos do animal eram retirados e limpados cuidadosamente; depois, à sombra, esticados e torcidos durante vários dias até se chegar à espessura desejada. Pela resistência, da mesma forma eram feitas as cordas para as violas de cocho, onde podiam ser esticadas até produzir o som desejado. O tempo passou e surgiu a linha de náilon muito resistente, utilizada como linha de pesca e para a confecção de redes e tarrafas, mas ficou o nome de tripa de mico como dizíamos em nossos tempos de guri quando íamos aos armazéns comprar o produto. Voltando ao repórter e aos caboclos de Mato Grosso, é bom lembrar que a linha de náilon hoje substitui as tripas do bugio até mesmo nas violas de cocho. Também os índios, não matavam o bicho apenas para aproveitar as tripas, mas sim para comê-lo, pois carne de macaco fazia parte do seu cardápio, principalmente nas tribos dos guaranis, escreveu Telêmaco Borba. A propósito do indigenista Telêmaco Borba, diz a história que já velho, possuidor de rara autocrítica, dono de vasto conhecimento adquirido através de estudos e pesquisas, prefeito vitalício do município paranaense de Tibagi, determinou por testamento a doação das coleções de seu museu particular ao acervo do Museu Paranaense.