Os caminhos do agronegócio

O agronegócio brasileiro atravessa um momento de contraste: continua forte em produção e exportação, mas enfrenta um ciclo de aperto financeiro, crédito caro e menor apetite a investimento. A Agrishow 2026 resumiu bem esse quadro, com R$ 11,4 bilhões em intenção de negócios, queda de 22% ante 2025, num ambiente em que juros altos, câmbio volátil e commodities menos favoráveis frearam decisões

Segundo Maurílio Biagi Filho, presidente de honra do Agrishow, uma das maiores feiras do setor no país, a crise do agro é maior do que a oficialmente admitida, porque não se trata apenas de preço ou safra, mas de uma combinação de endividamento, custos elevados e falta de confiança no ambiente econômico.

Segundo alguns bancos, o diagnóstico não é muito diferente. O Banco do Brasil trabalha com a ideia de que uma queda da Selic pode destravar rapidamente a reação do setor, porque o agro responde de forma intensa ao custo do dinheiro e ao alongamento do crédito. Já o Santander aponta que, para muitos endividados, juros de 15% ou 13% ainda não resolvem a conta, o que mostra que o problema vai além da taxa básica e envolve estrutura de dívida, caixa pressionado e recuperação lenta.

No curto prazo, o cenário deve seguir de cautela, com foco em gestão, eficiência e controle de risco.

O que se vê hoje é uma transição dura entre os “dias de ouro” e uma fase em que o setor precisa aprender a operar com margens menores, crédito mais caro e decisões mais racionais. A Agrishow mostrou isso: houve público, houve interesse, mas o volume de negócios recuou porque a confiança do produtor está menor e o custo de investir ficou pesado.

A próxima onda de crescimento virá menos da euforia de investimento e mais da reorganização financeira, da inovação e da eficiência operacional. Quem entender que o ciclo mudou vai sobreviver melhor ao aperto atual e se preparar para a recuperação futura.