Tempo para ler e tomar detergente

Enquanto uma parcela da população toma detergente potencialmente contaminado, as denúncias de corrupção de políticos ligados à extrema-direita e os debates sobre o fim da escala 6×1 se avolumam. O discurso de que nenhum político presta, que são todos desonestos, sempre aparece quando alguém do espectro da direita é denunciado ou preso. Convém notar que um trabalhador que passa doze horas no serviço, contando deslocamento e intervalo, muito provavelmente não terá tempo de se informar com profundidade sobre os escândalos políticos que assolam o país, ou mesmo, como lazer, ler um capítulo de um livro do seu interesse. Por isso, é extremamente conveniente a políticos que tenham mais faltas dos que presenças na câmara de deputados lutar para que o fim da escala 6×1 aconteça apenas após 2038. Uma população que não tem tempo de ler o jornal (este artigo, por exemplo) terá sempre mais dificuldade em se informar sobre qualquer assunto, e manterá o discurso de que nenhum político presta. Mas não falo apenas de tempo de leitura, falo da possibilidade de estudo, de aperfeiçoamento. Como estudar, fazer uma faculdade ou um curso técnico após o trabalho se a jornada muitas vezes ultrapassa 9 horas diárias? Como educar filhos se passamos mais tempo no trabalho do que com a família? Houve um tempo, e isso nem passa mais pela cabeça dos trabalhadores, que as férias, o décimo terceiro e o fim da escravidão entraram no mesmo debate. Hoje é um direito adquirido ter férias remuneradas e poder se aposentar. Mas, até há poucas décadas, o discurso é que isso iria falir o país. O discurso é o mesmo, apenas a maioria da população, sem tempo para ler, ainda não se deu conta. Não dá para pensar em interpretação de texto, em aumento da capacidade cognitiva, sem tempo livre para estudar e ler. Enquanto isso, parece que tomar detergente para defender criminosos está se tornando um hábito.