Dissonância cognitiva e hipocrisia

As mesmas pessoas que criticam uma pessoa acusada de dar bebida alcoólica para menores, em flagrante desobediência ao artigo 243 do ECA, esquecem quando no final de semana dão cerveja, vinho, quentão etc. a seus filhos, demonstrando hipocrisia social.

Quem aponta o dedo indicador para outro, esquece que tem 3 dedos voltados contra si mesmo, considerando o dedo legal, o dedo moral e o dedo de quem tem o dever de cuidado – pai, mãe, etc. – e não o faz.

Os pais têm o dever de proteger a saúde de seus filhos, não expondo-os a riscos. Fornecer bebida alcoólica a eles configura o crime inscrito no artigo 243 do ECA e passível de punição podendo, em situações graves e mediante decisão judicial, ensejar na esfera da infância e juventude, inclusive a suspensão ou perda do poder familiar.

Mas, o ponto central, porém, é a hipocrisia social de condenar um desconhecido que viola o artigo 243 enquanto se pratica exatamente a mesma conduta dentro de casa. Não estou relativizando as culpas, mas falando sobre uma dinâmica presente na sociedade que é apontar um dedo acusador para o outro, sendo que quem aponta incorre simultaneamente em responsabilidade jurídica, moral e no descumprimento do dever de cuidado.

Esse comportamento pode, em alguns casos, estar relacionado a mecanismos como a projeção ou à redução da dissonância cognitiva. Apontar o erro alheio é um mecanismo de defesa para esconder as próprias falhas, criando uma máscara de moralidade e aliviando a culpa de cometer os mesmos atos em segredo. E isso é mais comum do que se imagina!1

Desta forma, a hipocrisia de apontar o outro como violador de leis dá a muitas pessoas essa sensação de estar do lado certo da lei, porém esquecendo que também é praticante da mesma violação que aponta contra terceiros. Cuidar da própria vida, e não da de terceiros, deveria ser um exercício necessário para o exercício da democracia.

Jure et facto.