Há algo profundamente democrático na estupidez humana: ela não respeita dinheiro, diploma, profissão, ideologia ou posição social. O estúpido pode estar na fila do banco, no Congresso, na universidade ou diante de um computador escrevendo sobre assuntos que mal compreende. Para o historiador italiano Carlo Maria Cipolla, esse talvez seja um dos problemas mais subestimados da humanidade.
Em seu famoso ensaio As Leis Fundamentais da Estupidez Humana, Cipolla tratou o assunto com uma mistura de ironia e aparente seriedade. Sua classificação é simples. Há quem produza benefícios para si e para os outros: os inteligentes. Há quem beneficie os outros à custa de si próprio: os incautos. Há quem obtenha vantagens causando prejuízos aos demais: os bandidos. E há os estúpidos: aqueles que provocam prejuízos aos outros sem obter benefício equivalente que, às vezes, conseguem prejudicar a si mesmos.
A parte mais desconfortável da tese é que a estupidez não depende da inteligência. Uma pessoa pode dominar uma profissão, acumular títulos acadêmicos, administrar empresas ou exercer poder político e, ainda assim, comportar-se estupidamente. Saber muito sobre uma coisa não imuniza ninguém contra decisões absurdas em outra.
Cipolla ainda nos provoca ao afirmar que tendemos a subestimar os estúpidos. Talvez porque presumamos que as pessoas sempre ajam buscando algum benefício, ainda que oculto. Procuramos uma estratégia ou uma intenção. Por vezes simplesmente não queremos admitir que alguém fez algo prejudicial porque foi incapaz de perceber suas consequências.
O mais perigoso, porém, talvez não seja reconhecer a estupidez dos outros. É perceber que a classificação de Cipolla não foi criada somente para que encontremos estúpidos à nossa volta e nos proteger deles. Mas, também foi criada para nos lembrar de uma possibilidade muito menos confortável: nós também podemos ser um deles.
Jure et facto.



