“Os deuses têm sede”, do francês Anatole France (Nobel de Literatura, 1921), é muito mais que um romance histórico sobre o Período do Terror (1793-1794). Publicado em 1912, é um mergulho perturbador na alma humana quando cega por ideais absolutos e violência institucionalizada.
Em “Os deuses têm sede”, France transporta o leitor a 1793-1794, quando os jacobinos, liderados por Robespierre e Marat, governavam com mão de ferro. Sufrágio universal, abolição da escravidão e tabelamento de preços conviveram com a Lei dos Suspeitos, que permitia prender e julgar qualquer cidadão acusado de traição. A promessa de liberdade, igualdade e fraternidade degenerou em banho de sangue.
No centro, está Évariste Gamelin, pintor pobre, que vive com a mãe viúva. Vende quadros, mas sua arte é desprezada pelo pai de sua amada, que só vê valor em telas com mulheres. Gamelin ama secretamente Élodie, filha de rico comerciante que jamais aceitaria um genro humilde. O namoro é escondido.
Gamelin, porém, é revolucionário entusiasta, devoto de Robespierre e Marat, acreditando que, extirpados os “inimigos da pátria”, a França conhecerá sua era dourada. Seu fervor o leva ao Tribunal Revolucionário como juiz. Ganha status, renda e poder.
O drama está na desumanização que o poder lhe impõe. O Tribunal, movido por convicções, não por provas, envia milhares à guilhotina. Amigos e Élodie já não reconhecem o homem que admiravam. Gamelin justifica cada sentença em nome do dever patriótico. Sua fé é testada quando pessoas próximas tornam-se réus.
O título, longe de conotação religiosa, é metáfora cruel, os deuses são os homens que se arvoram juízes absolutos. A sede não é por água, mas por sangue, vingança e purificação. Quanto mais se elimina o “inimigo”, mais se cria uma máquina que devora seus criadores inclusive o líder Robespierre morreu na guilhotina.
“Os deuses têm sede” não é apenas aula de História. É espelho incômodo para épocas de polarização, medo e desconfiança. France não condena seus personagens facilmente, mostra-os em sua complexidade, movidos por esperança, medo, ambição e cegueira.
O romance pergunta: até onde vamos em nome de um ideal? Quando a justiça vira tirania? Como reconhecer o algoz que se torna vítima?
Com desfecho que não revelo, France entrega obra que incomoda, emociona e provoca reflexões. Recomendo a quem aprecia ficção histórica com densidade filosófica e deseja compreender, pelas entrelinhas, as fragilidades da condição humana.
Sugestão de boa leitura:
Título: Os deuses têm sede.
Autor: Anatole France.
Editora: Boitempo Editorial, 2007, 256 páginas.



