Tanta liberdade quanto a de um homem
Afonso Nilson
Em Os anos, a autobiografia impessoal de Annie Ernaux, vencedora do Nobel de Literatura de 2022, tem um trechinho que acho muito apropriado para esta semana, em que o senado aprovou o projeto de lei que equipara a misoginia ao racismo. É quando ela, Ernaux, conta quando finalmente, nos anos 60, os anticoncepcionais foram liberados na França: “sabíamos que a vida com a pílula seria desconcertante, o corpo viveria com tanta liberdade que dava medo de imaginar, tanta liberdade quanto a de um homem”. Tanta liberdade quanto a de um homem, essa frase parece tão irreal em meio à violência exacerbada com que as mulheres convivem cotidianamente. Sair sozinha à noite não é o problema, o problema é qualquer hora do dia. É qualquer dia em que um ex inconformado tenha um ataque de fúria, ou um chefe se sinta no direito de assediar, ou mesmo quando um político diz em rede nacional que “mulheres deveriam ganhar menos porque engravidam”. Ernaux narra em sua autobiografia décadas de avanços, de direitos adquiridos, de liberdade sexual e reprodutiva na França. Mas mesmo assim, o recente livro de sua conterrânea, Gisèle Pelicot, Um hino à vida – a vergonha precisa mudar de lado, onde os abusos de seu marido, parece nos dizer que ainda há um distância grande, mesmo em países com legislações avançadas, a ser percorrida em direção a essa tão utópica “tanta liberdade quanto a de um homem”. Recentemente apareceu nos noticiários um feminicida alegando que tratava a sua mulher, sua vítima, como um “macho alfa”. Ou seja, tipo um cão feroz. Incels, red pills, machistas em geral pensam o feminino como algo a ser usado, como propriedade. Há bem pouco tempo não havia lei nenhuma em defesa contra a violência de gênero. Hoje, mesmo com avanços, ainda há muito a se fazer e pensar para que as mulheres posam ter, de fato, tanta liberdade quanto um homem.



