Queimar livros

Vi uma reportagem essa semana sobre o descarte de livros de uma biblioteca em Osasco. Um acervo de milhares de livros jogados no lixo sem nenhum critério. Potencialmente criminoso, seria até anedótico se fosse apenas um caso isolado. Mas em tempos em que se tornou comum criticar livros disponíveis em bibliotecas escolares, talvez a condenação da literatura seja algo para além do despreparo de gestores. Interessante perceber que muitos desses livros criticados têm temáticas semelhantes. Em um país racista como o Brasil, não é de se admirar que um livro como O avesso da pele, de Jéferson Tenório, vencedor do Prêmio Jabuti, tenha sido alvo de tentativa de descarte em escolas do Paraná. Do mesmo modo, em um país com índices alarmantes de gravidez na infância e violência sexual contra menores, ser contra livros de educação sexual nas escolas é um absurdo. Nos Estados Unidos, país que se vangloria por sua liberdade de expressão, tem se tornado comuns queimas públicas e banimento de livros. Vale lembrar que um dos livros preferidos pelos incineradores literários americanos é O conto da aia, de Margaret Atwood. No mundo distópico narrado pelo livro, mulheres são relegadas a um papel predominantemente reprodutivo. Livro obviamente perigoso para sociedades, muitas vezes neopentecostais, onde a mulher é tida como inferior e subalterna aos homens. Curiosamente não encontrei notícias sobre se o livro Fahrenheit 451, distopia de Ray Bradbury onde bombeiros são encarregados de incendiar bibliotecas, tenha sido alvo dos incineradores de livros. Talvez as cenas do livro de Bradbury, com milhares de livros sendo incendiados com lança-chamas, seja, paradoxalmente, uma leitura prazerosa para quem odeia livros. De qualquer modo, penso sempre no quão aterradora pode ser uma escola sem livros, talvez apenas um pouco menos aterrorizante do que pais, mães e professores que acham que incendiar livros ou os jogar fora é melhor do que os ler.