BURLANDO A LEI SECA

No dia 21 de abril de 1960 o empresário Heitor Moro inaugurou moderna laminadora na Fazenda São Pedro, interior do

No dia 21 de abril de 1960 o empresário Heitor Moro inaugurou moderna laminadora na Fazenda São Pedro, interior do Município de Mangueirinha. Lembro a data por ser a mesma da inauguração de Brasília e porque minha mãe, D. Nahir, lecionava no local pelo Estado numa escolinha do interior, que diziam à época escola isolada. Trabalhei algum tempo na madeireira na qual foi feito o primeiro registro em minha Carteira de Trabalho que guardo com certo orgulho onde se lê que o salário era de Cr$ 0,33 (Trinta e Três Centavos) por hora. O patrão, conhecido como Ito Moro era um italianão bastante rígido, mas pagava o pessoal em dia e tratava a todos amigavelmente. Vez ou outra trazia de São José dos Pinhais onde residia um novo trabalhador, muitos deles bebuns ao extremo, na esperança de estar fazendo uma boa ação, haja vista que na madeireira e arredores ele proibira o comércio de bebidas e o único armazém existente para atender a peonada só vendia alimentos e outros quetais. Quem quisesse molhar o gogó teria que ir até um comércio em Santo Antônio distante 15 quilômetros ou em Clevelândia há 24 quilômetros. A balsa sobre o rio Chopim, era atendida pelo Bonifácio e como ficava a apenas 4 quilômetros ele passou a vender cachaça de barril, tanto aos operários como aos peões das fazendas vizinhas. Havia em nosso meio um rapaz conhecido como Graps, trazido da cidade grande pelo Sêo Ito. De noite, antes do jantar nos reuníamos na república, dormitório dos solteiros e não sei de onde o Graps sempre tinha um trago a nos oferecer. Numa daquelas noites ele lamentava não ter um mísero gole para abrir o apetite. No dia seguinte iniciamos o trabalho às cinco da manhã e eu estranhei que o Graps se apresentasse animado, falante e cheirando a álcool. Não foi preciso indagar nada, foi ele quem falou: Ontem eu não tinha nada para beber e como não conseguia dormir me levantei por volta da meia noite e fui até a balsa, gritei do lado de cá do rio e o Bonifácio atravessou de canoa e me trouxe um garrafão. Hoje vamos tomar aquele gole lá na república. Entre ida e volta ele caminhou uns oito quilômetros e o Bonifácio não se importava em ser acordado altas horas, pois vendia a sua cachaça de qualidade discutível a preço indiscutivelmente salgado.

P.S. A garota bonita saía daquela igreja gritando: Ontem eu estava nos braços do capeta, hoje estou nos braços de Jesus! O bebum que ia passando perguntou: E para amanhã, você já tem compromisso?