Escrever para teatro II
(continuação) Talvez por isso, pelo hábito e o prazer de ler teatro, não consigo mais ver um filme sem pensar na qualidade dos diálogos, da arquitetura do enredo, da lógica das ações.
Pensar um personagem, para mim, como leitor e autor de teatro, é pensar no quanto ele é verossímil.
Há bastante tempo que ministro oficinas e cursos sobre dramaturgia. É sempre um tanto quanto inquietador, pois embora escreva para teatro há mais de 20 anos, nunca sei ao certo se o que é útil para mim será para outras pessoas. Nem toda técnica, nem toda referência literária, nem todo gosto agrada todo mundo, ou mesmo pode ser interessante para todos.
Entretanto, em meio às dúvidas, parece que o desejo por criar histórias, de pensar ficcionalmente as situações da vida, da sociedade e do cotidiano é sempre compartilhado. Suponho que a ficção é um modo de entender o mundo para além das objetividades, das concepções pré-definidas ou frágeis de uma realidade que muitas vezes não parece fazer sentido. Nem tudo pode ser explicado, mas tudo pode ser narrado, contado, cantado.
Sei que nem todo mundo que passa pelas minhas aulas vai sair sabendo escrever um bom texto teatral, mas por um momento, se eu conseguir insuflar nas mentes criativas que desejam escrever, pelo meno um pouco do prazer da leitura de textos teatrais, acho que já me dou minimamente por satisfeito.
Não há como começar a escrever sem ler, sem entender porque um personagem faz o que faz, ou mesmo o que mantém uma história de pé. Ler dramaturgia ajuda a entender a ficção de uma maneira mais ampla, profunda, diversa.
Penso, de um modo muito pessoal, como leitor e escritor, que o teatro abarca o mundo e não o contrário.



