Tempo de metamorfose

Por Ricardo Viveiros, jornalista, professor e escritor. Doutor emEducação, Arte e História da Cultura pela Universidade PresbiterianaMackenzie, membro honorário da Academia Paulista de Educação (APE) éautor de vários livros, entre os quais “Justiça Seja Feita”, “A Vilaque Descobriu o Brasil”, “Pelos Caminhos da Educação” e “O Poeta e oPassarinho”. Quando menino, nas aulas de Ciências do curso Ginasial no ColégioSanto Inácio, no Rio de Janeiro, fui tomado por um encantamento, muitoalém do que o real desejo de aprender, quando o professor explicou comonascia uma borboleta. Eu já arriscava escrever versos e, para umaprendiz de poeta, a borboleta é algo inspirador – leveza, cor, magia. Gostei de estudar a “Metamorfose”. Já era repórter e não sabia,sempre fui muito curioso. Um eterno perguntador: Por que? Por que? Porque? E havia lido, embora muito jovem para entender, o livro de FranzKafka e ficado meio confuso (sempre detestei baratas). No caso daborboleta, a possibilidade de viver um processo de transformação quepermita a possibilidade de voar, descobrir novos lugares, pessoas,viveres é fascinante. Muitos anos depois, no final dos anos 1990, ao assistir o distópicofilme “Matrix” (vencedor de quatro Oscar), das irmãs norte-americanasLilly e Lana Wachowiski, observei que um dos personagens podia escolherentre despertar ou seguir adormecido na sua “matriz”. A metamorfosenaquela falsa realidade capaz de libertar alguém do mundo sonhado, eracomo a das borboletas. Na época, já havia relido e entendido Kafka.Bem como, também era capaz de alcançar a transformação pessoal dasirmãs Wachowiski. Hoje, diante das questões políticas que nos perturbam, recordo ostempos do colégio dos padres jesuítas, quando então fascinado pelasdescobertas biológicas que permitiam criar textos fora do mais domesmo, achava instigante uma lagarta nojenta se transformar em umaarrebatadora borboleta. O professor, educador sensível e inteligente, ensinava de verdade –não deixava apenas decorar para passar nas provas. De maneira lúdica,mostrou que a lagarta com o passar do tempo se tornava um ser guloso,esfomeado e, quando tanta comida a tornava obesa em muito ultrapassandosuas necessidades metabólicas, começava a morrer. Nesse momento,acontecia algo fantástico: surgiam as células imaginativas. Células imaginativas… Não é figura de linguagem, existem mesmo! Porserem novidade no sistema imunológico da espécie, são atacadas pelasúltimas forças da morrediça lagarta. Como atuam em uma frequênciaprópria não se deixam atingir. Vão se unindo, criando núcleos e, nasequência, conectam-se e se tornam ainda mais fortes. E acontece algodeterminante: um gene adormecido desperta e traz um novo ser, e alagarta alimenta a borboleta que nasce. E não pode ser ajudada a selivrar do casulo, porque caso isso aconteça não terá a necessáriaforça para voar. A metamorfose transforma a lagarta em borboleta, dando-lhe pela uniãode objetivos comuns uma nova existência capaz de – conscientemente –ser muito mais útil, porque na sua diversidade que alcança 25 milespécies, esse inseto exerce um papel essencial à vida pelapolinização dos ecossistemas, fonte de alimento e bem-estar. Umexemplo motivador para nós, humanos, do que seja awakening, odespertar. Estamos vivendo tempos complexos, de insegurança e medo. Não podemosmorrer por desconhecimento, por falta de respeito comum. Devemos fazercomo ensina a metamorfose da lagarta ao se tornar borboleta. Ter coragempara transformar, unir para vencer os desafios que se impõem.Conscientes e motivados, embora as adversidades, podemos ser muito maisfortes e mudar o destino. A pandemia não pode ter sido em vão, apenaspara roubar vidas. A estrutura social deve evoluir no aprendizado, é hora de sair domarasmo da simples aceitação do óbvio, das mesmices que a auto-ajudaoferece e construir um mundo novo. Vamos superar o medo, o consumismoirresponsável, o desamor, o egoísmo, a corrupção crônica e derrubara violência com educação e cultura. Há espaço para nos unirmos comoas células imaginativas e formar núcleos que gerem mudança,transmutação, metamorfose. O mundo é nosso, a vida é nossa. Vamos sonhar o sonho possível evencer a pandemia construindo novos tempos de paz, com liberdade ejustiça social. A indígena guatemalteca, Rigoberta Menchú Tum, daetnia Quiché-Maia, Prêmio Nobel da Paz (1992), disse: “Este mundo nãoirá mudar, a não ser que estejamos dispostos a mudar nós mesmos.”

Por Ricardo Viveiros, jornalista, professor e escritor. Doutor em
Educação, Arte e História da Cultura pela Universidade Presbiteriana
Mackenzie, membro honorário da Academia Paulista de Educação (APE) é
autor de vários livros, entre os quais “Justiça Seja Feita”, “A Vila
que Descobriu o Brasil”, “Pelos Caminhos da Educação” e “O Poeta e o
Passarinho”.


Quando menino, nas aulas de Ciências do curso Ginasial no Colégio
Santo Inácio, no Rio de Janeiro, fui tomado por um encantamento, muito
além do que o real desejo de aprender, quando o professor explicou como
nascia uma borboleta. Eu já arriscava escrever versos e, para um
aprendiz de poeta, a borboleta é algo inspirador – leveza, cor, magia.

Gostei de estudar a “Metamorfose”. Já era repórter e não sabia,
sempre fui muito curioso. Um eterno perguntador: Por que? Por que? Por
que? E havia lido, embora muito jovem para entender, o livro de Franz
Kafka e ficado meio confuso (sempre detestei baratas). No caso da
borboleta, a possibilidade de viver um processo de transformação que
permita a possibilidade de voar, descobrir novos lugares, pessoas,
viveres é fascinante.

Muitos anos depois, no final dos anos 1990, ao assistir o distópico
filme “Matrix” (vencedor de quatro Oscar), das irmãs norte-americanas
Lilly e Lana Wachowiski, observei que um dos personagens podia escolher
entre despertar ou seguir adormecido na sua “matriz”. A metamorfose
naquela falsa realidade capaz de libertar alguém do mundo sonhado, era
como a das borboletas. Na época, já havia relido e entendido Kafka.
Bem como, também era capaz de alcançar a transformação pessoal das
irmãs Wachowiski.

Hoje, diante das questões políticas que nos perturbam, recordo os
tempos do colégio dos padres jesuítas, quando então fascinado pelas
descobertas biológicas que permitiam criar textos fora do mais do
mesmo, achava instigante uma lagarta nojenta se transformar em uma
arrebatadora borboleta.

O professor, educador sensível e inteligente, ensinava de verdade –
não deixava apenas decorar para passar nas provas. De maneira lúdica,
mostrou que a lagarta com o passar do tempo se tornava um ser guloso,
esfomeado e, quando tanta comida a tornava obesa em muito ultrapassando
suas necessidades metabólicas, começava a morrer. Nesse momento,
acontecia algo fantástico: surgiam as células imaginativas.

Células imaginativas… Não é figura de linguagem, existem mesmo! Por
serem novidade no sistema imunológico da espécie, são atacadas pelas
últimas forças da morrediça lagarta. Como atuam em uma frequência
própria não se deixam atingir. Vão se unindo, criando núcleos e, na
sequência, conectam-se e se tornam ainda mais fortes. E acontece algo
determinante: um gene adormecido desperta e traz um novo ser, e a
lagarta alimenta a borboleta que nasce. E não pode ser ajudada a se
livrar do casulo, porque caso isso aconteça não terá a necessária
força para voar.

A metamorfose transforma a lagarta em borboleta, dando-lhe pela união
de objetivos comuns uma nova existência capaz de – conscientemente –
ser muito mais útil, porque na sua diversidade que alcança 25 mil
espécies, esse inseto exerce um papel essencial à vida pela
polinização dos ecossistemas, fonte de alimento e bem-estar. Um
exemplo motivador para nós, humanos, do que seja awakening, o
despertar.

Estamos vivendo tempos complexos, de insegurança e medo. Não podemos
morrer por desconhecimento, por falta de respeito comum. Devemos fazer
como ensina a metamorfose da lagarta ao se tornar borboleta. Ter coragem
para transformar, unir para vencer os desafios que se impõem.
Conscientes e motivados, embora as adversidades, podemos ser muito mais
fortes e mudar o destino. A pandemia não pode ter sido em vão, apenas
para roubar vidas.

A estrutura social deve evoluir no aprendizado, é hora de sair do
marasmo da simples aceitação do óbvio, das mesmices que a auto-ajuda
oferece e construir um mundo novo. Vamos superar o medo, o consumismo
irresponsável, o desamor, o egoísmo, a corrupção crônica e derrubar
a violência com educação e cultura. Há espaço para nos unirmos como
as células imaginativas e formar núcleos que gerem mudança,
transmutação, metamorfose.

O mundo é nosso, a vida é nossa. Vamos sonhar o sonho possível e
vencer a pandemia construindo novos tempos de paz, com liberdade e
justiça social. A indígena guatemalteca, Rigoberta Menchú Tum, da
etnia Quiché-Maia, Prêmio Nobel da Paz (1992), disse: “Este mundo não
irá mudar, a não ser que estejamos dispostos a mudar nós mesmos.”