O que você faria se ninguém fosse saber?

Imagine que você pudesse fazer alguma coisa e ninguém jamais ficasse sabendo. Não estamos falando de assaltar um banco, calma. A pergunta é menos criminal e talvez um pouco mais inconveniente.

Você faria aquela viagem se não pudesse contar para ninguém? Compraria o mesmo carro se ninguém soubesse quanto custou? Continuaria determinado projeto se jamais recebesse elogio ou reconhecimento?

Talvez sim. Talvez não. E é aí que a brincadeira começa a ficar interessante.

Todos nós somos influenciados pelo olhar dos outros. Queremos pertencer, ser reconhecidos e valorizados. O problema começa quando a plateia participa tanto das nossas escolhas que já não sabemos exatamente quem está dirigindo o espetáculo.

Às vezes não queremos apenas uma coisa. Queremos também o personagem que vem no pacote. Não queremos somente realizar algo; queremos ser percebidos como alguém que realizou. Nada muito grave. O departamento de marketing da personalidade também precisa mostrar serviço.

E isso vai além de redes sociais ou bens materiais. Talvez você continue num projeto porque já contou para todos que aquilo era importante. Sustente uma opinião porque mudar de ideia exigiria explicações. Ou persista numa escolha porque desistir já não combina com a pessoa que os outros aprenderam a enxergar.

A plateia, afinal, nem precisa estar presente. Depois de algum tempo, aprendemos a carregá-la conosco.

Experimente então retirá-la mentalmente. Ninguém vai elogiar, invejar, ficar decepcionado ou impressionado. Também não haverá aquela oportunidade maravilhosa de encaixar casualmente o assunto numa conversa três meses depois.

Você ainda quer?

A intenção não é concluir que nossas escolhas são falsas. Gostar de reconhecimento faz parte da experiência humana. A questão é perceber as misturas: o que realmente desejamos e o que desejamos porque combina muito bem com a pessoa que gostaríamos que os outros acreditassem que somos.

Talvez algumas vontades permaneçam iguais e outras percam surpreendentemente o brilho quando a plateia vai embora. Autoconhecimento também é aprender a perceber essa diferença.

De vez em quando, portanto, vale apagar mentalmente as luzes do palco e fazer uma pergunta bem menos confortável:

“Eu ainda escolheria isso se ninguém soubesse?”