O que você faz quando ninguém tem culpa?

Alguma coisa deu errado. O plano não funcionou, uma relação terminou, alguém se decepcionou, você se machucou.

Muito bem. Agora só falta descobrir de quem foi a culpa.

A mente costuma gostar dessa parte. Um culpado organiza a história. Se alguém fez algo errado, sabemos onde colocar a raiva, a indignação e aquele discurso impecável que, infelizmente, só ficou pronto durante o banho.

O problema é que a vida nem sempre fornece um vilão.

Uma pessoa pode decidir terminar uma relação sem ter traído, mentido ou cometido qualquer grande atrocidade. Apenas não quer mais estar ali. Para quem fica, a dor pode ser enorme.

Mas aqui aparece uma distinção desconfortável: alguém ter nos causado dor não significa necessariamente que tenha agido mal.

Às vezes duas pessoas querem coisas diferentes e nenhuma delas está errada. Às vezes alguém faz uma escolha legítima que nos decepciona. E, em certas situações, quase seria mais fácil encontrar um culpado. Pelo menos saberíamos exatamente onde arquivar a indignação.

Fazemos isso também conosco.

Tomamos uma decisão com as informações, a maturidade e as condições que tínhamos naquele momento. Anos depois, já conhecendo o resultado, olhamos para trás e pensamos: “Como eu pude fazer aquilo?”

Convenientemente, julgamos nossa versão antiga usando informações que ela ainda não possuía.

Isso não significa abolir a responsabilidade. Pessoas erram, ferem, mentem e fazem escolhas pelas quais precisam responder. Nós também. O problema é transformar a culpa numa vaga que obrigatoriamente precisa ser preenchida sempre que alguma coisa termina mal.

Talvez aceitar que não existe culpado seja difícil justamente porque isso nos deixa sem um alvo. Em vez de “quem fez isso comigo?”, sobram perguntas menos satisfatórias para a raiva, mas muito mais úteis para a vida: “O que aconteceu aqui?”, “O que consigo compreender agora que antes não conseguia?” e “O que faço com isso daqui para frente?”

Às vezes, a resposta não oferece a satisfação de condenar ninguém.

Só não deu certo.

E talvez amadurecer também seja aprender a suportar essa resposta.

Nem toda história precisa de um culpado.

Algumas precisam apenas de um próximo capítulo.